segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Na fábrica de Cabrita Reis

À terceira tentativa consegui. Da primeira, na noite da inauguração, estava tanta gente que não se percebia nada. À segunda, bati com o nariz na porta. Mas hoje pude observar detidamente a instalação que Pedro Cabrita Reis contruíu na Igreja de S. Tiago, em Óbidos, como evocação de Rafael Bordalo Pinheiro e da Fábrica de Faianças Bordalo Pinheiro.
Em primeiro lugar, há que dizer que PCR foi eficaz na escolha dos materiais e na reconstrução do ambiente fabril. Captou e devolveu em ironia o riso de Bordalo e irmanou-se com ele no excesso, nalguma turbulência criativa, na admissão de um lugar para o imponderável, o inesperado. A cerâmica é isso, não? Cabrita Reis fez bom uso (inteligente e criterioso) dos processos e produtos da cerâmica fabril de inspiração bordaliana.
Quanto ao entendimento do espaço, PCR não me "convenceu". Os materiais que dispôs na sala despojada da Igreja manifestam mais indiferença que procura de uma relação, mesmo que conflitual. Os ritmos das plataformas, marcados pelas lâmpadas de néon, são insuficientes para riscarem o espaço sagrado do templo. Este problema não parece ter sido encarado, pelo menos aprofundado.





4 comentários:

Ex aluna disse...

E quando o Professor não se convence...não há nada a fazer!

Isabel X disse...

Mas será que não há mesmo ninguém para dizer: "O rei vai nú!", de modo directo? Muito deve divertir-se o Cabrita...
- Isabel X -

Teresap disse...

A relação da instalação de Pedro Cabrita Reis com o espaço não foi pensada de forma aprofundada, como o trabalho dele o exigia e como o João refere. Mas não me parece ser uma questão apenas imputável ao artista. A meu ver a questão do espaço sagrado também não foi devidamente "acautelado". Ele permanece lá, sem conflito e sem ruptura, quando afinal ele já não o é. Em resposta a esta ambiguidade, podemos observar com frequência este gesto: as pessoas entram, aproximam-se da obra de PCR, joelham, encostam-se às plataformas e oram.
Só mais um apontamento: Há dias, uma menina de 8 anos aproxima-se do vigilante e sussurra-lhe: "Senhor, estes cacos também são arte?"
O vigilante, com formação em arte, abeirou-se delicadamente dela e, a contragosto dos pais, explicou, explicou, explicou e, quem sabe? ensinou a menina a dar alguns passos no caminho da interpretação das obras de arte.
Poderemos nós, ou melhor, os responsáveis por estas iniciativas, descurar o papel de quem está nas galerias para receber o público?
Ponham-se em guarda!

Nelson disse...

O artista diverte-se, partilha com o mundo e larga a obra, negligenciando por vezes os ecos que dela possam surgir. Não é da competência dele, artista, controlar esses ecos, mas é seu dever compreendê-los. Compreender um acontecimento que está porvir é uma forma possível de antecipação. Julgo que este pensamento afunila para uma palavra…intenção. Se assim fosse, a obra comunicaria mais com o espaço e consequentemente com o espectador.