terça-feira, 2 de dezembro de 2008

À janela com Ana Maria

No Reina Sofia, prestei desta vez especial atenção a uma exposição de fotografias e outros materiais iconográficos - La Dehesa del Hoyo -  de Leonardo Cantero, um fotógrafo que registou minuciosamente a vida rural espanhola, e a Louis Buñuel (L'Age d'Or, 1930, Un Chien Andalou, 1929).
Na exposição permanente, há uma boa dezena de peças que merecem sempre ser revisitadas. Por uma razão ou outra, fazem parte das nossas geografias históricas.
Muchacha à la ventana de Salvador Dali é uma delas. Obra elaborada quando o pintor tinha apenas 21 anos, não sei o que mais me impressiona neste trabalho: se o rigor de execução, que vai desde o pano do pó momentaneamente abandonado no parapeito da janela até à paisagem reflectida no vidro da janela, desde a composição do pé da rapariga em atitude descontraída até à descrição dos reposteiros em sintonia formal com o vestido de Ana Maria; se a profundidade reiventada de uma paisagem maritima e costeira com recurso ao expediente da janela aberta.
O pintor substituiu a expressão facial da modelo (neste caso a sua própria irmã) pela expressão corporal e não hesitou em colocá-la de costas. Nós vemos a paisagem através de Ana Maria, e vemos Ana Maria na paisagem que, aliás, é também ela minuciosamente trabalhada [na foto ao lado, Dali e Ana Maria, em 1925, presumivelmente com Cadasquès em fundo].

3 comentários:

Queirosiana disse...

"Um livro é como uma janela. Quem não o lê, é como alguém que ficou distante da janela e só pode ver uma pequena parte da paisagem."

Khalil Gibran - Poeta Libanês

Anónimo disse...

Tive a felicidade de estar em Madrid alguns dias antes da sua estadia.Faltou o tempo para poder viajar pelas diversas ofertas de grandes exposições. Das que vi, com muita qualidade, refiro três que me catapultaram para a perfectibilidade da arte: em primeiro lugar Daumier(Fundação Santander, sita na cidade financeira de Madrid); em segundo lugar, As Vanguardas na 1ª Guerra Mundial(com dois núcleos expositivos, um no Museo Thyssen-Bornemisza e o outro na
Fundación Caja Madrid, excelente este segundo núcleo); em terceiro lugar, uma Exposição sobre "Carl Einstein y las Vanguardias". Carl Eisenstein, crítico de arte alemão, pioneiro na critica de arte sobre a primitiva arte africana e o conceito de Vanguarda, imperdível. Pena foi o desfasamento na estadia, a experiência tem-nos dito que com a sua companhia teria sido inolvidável....
Um abraço muito amigo,
NB

João Ramos Franco disse...

- Toda a teoria só pode é válida quando nos retratámos e assumimos com humildade que na prática ainda nos falta muito para saber.
João Ramos Franco