quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

À janela de Taraio (1)

Conheci-o em 1994, quando a associação "Património Histórico" das Caldas da Rainha lhe cedeu a Capela de S. Sebastião para organizar uma exposição de pintura. Nessa altura, ele trabalhava nos seus óleos as formas arredondadas (que sempre o atraíram) e os verdes, azuis e cinzas levemente esbatidos. Percebemos todos que estávamos perante um pintor de excelentes recursos, adquiridos em escola, pesquisa e experimentação. 
Taraio nasceu em 1956, em Coimbra, onde recebeu as primeiras lições de pintura, no atelier de Vasco Berardo. Aos 19 anos partiu para França, onde frequentou a Escola de Belas Artes de Bordéus e a Escola Nacional de Artes Decorativas de Nice. Obteve nesta última o diploma de Arquitecto Paisagista. Fixou residência nas Caldas da Rainha na década de 90.
Está representado em diversas colecções particulares em Portugal e no Estrangeiro, na colecção permanente do Museu de Arte Contemporânea de Nice. Nas Caldas da Rainha, há obras suas na colecção do Património Histórico e na do Centro Hospitalar. Expôs individualmente em Coimbra, Nice (França), Sauve (França), Porto, Lisboa, Leiria, Caldas da Rainha, Vila Franca de Xira, Aveiro, Santa Cruz (Madeira). Esteve presente em inúmeras exposições colectivas, bienais e mostras de pintura em Portugal e em França.
Estivemos juntos celebrando o aniversário de João Jales a 27 de Junho. Nessa altura pude ver um excelente conjunto de quadros dedicados ao jazz, trabalhos onde sublinhava a dimensão do instrumentista com cores quentes e dourados. 

O João Jales enviou-me este testemunho. Dispensa, evidentemente, qualquer comentário da minha parte.

O melhor pintor do mundo


Soube hoje que morreu o meu amigo Manuel Taraio. Há algum tempo que esperava a notícia que, pensava eu, seria o anúncio da sua libertação de um processo doloroso, de uma luta sem hipóteses e de um sofrimento sem motivo ou esperança. Mas o Manel vivo era um amigo, morto não sei o que é. E sofro, de forma egoísta, pela sua ausência. 

Há uma semana, numa cama do Hospital das Caldas, sabendo de ligeira maleita que me aflige (coisas da idade.) ralava-se ele comigo e repetia, enfático e preocupado, uma série de conselhos para que eu me cuidasse. Tinha meia-dúzia de dias para viver e estava preocupado com o meu colesterol. Só ele.

Conhecemo-nos através de uma amizade e admiração comum pelo João Lourenço. Aproximámo-nos mais e acabámos por tentar encontrar um no outro o amigo perdido, quando o Joni morreu em 1996. Tentativa só parcialmente bem sucedida, porque há realmente pessoas insubstituíveis. E aqui estou eu, agora sozinho, a falar deles dois, levados cruel e ironicamente pela mesma doença. 

Os quadros do Taraio têm todos um bocado da sua alma, como se lhe arrancasse um pedaço cada vez que pintava. Era um artista sofredor, torturado pelo receio da falta de inspiração e imaginação, sempre insatisfeito com as suas obras. Sem razão, diziam-lhe os amigos, mas ele duvidava sempre.

Lembro sobretudo os nossos almoços, as eternas discussões sobre tudo e nada, futebol e política, amizades e ódios, falávamos do seu fascínio pelo futuro e a sua ânsia pela inovação tecnológica, como se adivinhasse que não ia ver tudo o que seria natural ver e conhecer. Mas não é possível falar agora da nossa amizade. Não hoje.

Já doente, ainda pensava na próxima série de quadros. Procurava incessantemente novas imagens, ideias e fantasmas. Acreditou até ao fim que só morreria depois de amanhã, porque amanhã ainda ia pintar mais um quadro.

Era o melhor pintor do Mundo. Para mim, claro.

João Jales

1 comentário:

Manuela Gama Vieira disse...
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