segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Seis meses depois

Das canetas com que me foi dado escrever, esta foi aquela a que melhor me adaptei. Tinha a elegância e a sobriedade que eu aprecio, sem deixar de marcar uma presença autónoma, sempre que ficava à vista. Em reuniões, por exemplo. Quando a colocava ao lado do bloco-notas, os olhares em volta eram irresistivelmente atraídos por ela, e como que suspensos dos gestos que se seguiriam. Conferia uma fluência inesperada à minha escrita sinuosa, impondo-lhe regularidade, e emprestando-lhe, aqui e ali, alguma ousadia. Era absolutamente fiável: nunca com ela registei aqueles acidentes tão vulgares, da tampa que se desprende inesperadamente, da súbita recusa em escrever, do tinteiro que se derrama sobre uma camisa. O seu peso era o peso ajustado. Quando recolhida no bolso interior esquerdo do casaco, era reconfortante sentir a sua discreta presença. Quando em utilização, surpreendia pelo equilíbrio que obtinha, tanto em função da posição dos dedos, como da força utilizada para fazer deslizar a ponta na superfície do papel. Há canetas que, parecendo ter o peso ideal, nos decepcionam quando lhes tiramos a tampa para começar a escrever. O tamanho dos dedos, a posição da mão, aspectos que aliás se modificam com a idade, condicionam o "balanço" da caneta. Por isso só verdadeiramente nos afeiçoamos a uma caneta usando-a regularmente. E só temos a percepção plena do grau de identificação com uma caneta quando a perdemos. Sim, dir-me-ão, é sempre possível tentar adquirir outra do mesmo tipo. Conselho prático, aparentemente, mas pouco sábio. O processo de adaptação de uma mão a uma caneta pode durar meses, anos até. Na realidade, essa adaptação não envolve apenas a mão que escreve, mas também o toque e a visão, ou seja a percepção dos pequenos sinais que singularizam aquela caneta e a transformam num objecto de uso, em vez de um mero objecto de colecção. O que faz de uma caneta a "nossa" caneta é o reconhecimento de que com ela conseguimos escrever o que não conseguimos com mais nenhuma e a convicção íntima de que só nós conhecemos em pormenor as suas reais potencialidades. As canetas adquirem especificidades, relacionadas com o ângulo optimo para o deslize, a temperatura ambiente, a dureza do papel, as tensões a que foi sujeita, o tipo de tinta da carga, as quais demoram muito a dominar. Por isso que, quando me pediam emprestada aquela caneta, eu a resguardava, receoso que a utilização por outrém lhe alterasse o leque de singularidades.
Não sei da minha caneta. É uma "cerruti 1881". A 12 de Junho, a última vez que a usei, ajudou-me a inscrever o nome num livro de posses. Antes tinha-me dado uma indicação de falta de tinta. Devo tê-la perdido logo em seguida, ou talvez mesmo nesse dia.
 Os meus dedos não se ajeitam com outra, no meu casaco nenhuma outra se consegue prender, na minha mão qualquer outra se inclina para o lado errado

13 comentários:

Anónimo disse...

Um prosa muito interessante meu caro João Serra. Tb já me despedi, com muita pena, de algumas canetas, confesso.

Publicarei esta semana o seu texto sobre a luta dos professores: obrigado.

Abraço.

Paulo Prudêncio.

Anónimo disse...

Ah, claro: vai ver que ainda aparece. Aconteceu-me o mesmo, há uns tempos, com os óculos para ler: não os encontrava, era um fim-de-semana e entrei em pânico; bem, as voltas que dei e nada. Quando já desistíamos, pois mobilizei a família toda, eis que aparecem os ditos. Ufa!!!
Vai ver que ainda a encontra. Faço aqui uma força :)

Abraço.

Paulo Prudêncio.

Isabel X disse...

Só por ser a causa deste texto, agora, seis meses depois, garanto-lhe: valeu a pena ter perdido a caneta!
- Isabel X -

J J disse...

Teve, com este texto, a minha mulher a satisfação de ver validada a sua eterna recusa de me emprestar a caneta, nem que seja para uma simples assinatura...
Fiquei a saber que não é uma idiossincrasia sua a suspeita de que meia-dúzia de traços efectuados por mim, mesmo com todo o cuidado, arruinariam o objecto. Vejo que é uma crença mais espalhada do que eu julgava.
Mas acredito, eu que uso sempre esferográficas, que "só temos a percepção plena do grau de identificação com uma caneta quando a perdemos". É assim a vida.

Anónimo disse...

Apetece subscrever o comentário de Isabel Xavier, mas por detrás da (alta) qualidade descritiva, adivinha-se uma dor contida que faz deste post um raro momento deste blog. Você percebe mesmo de canetas, ou está a aprender... E, a propósito, como escreve agora? Ou não escreve?
MT

Anónimo disse...

De todo o modo, não me ofereço para lhe tentar encontrar uma nova caneta porque você deixou bem claro que quer aquela e mais nenhuma. É caso para dizer apenas: Boa Sorte!
MT

Manuela Gama Vieira disse...

Tive uma ideia!
Reze o "Responso de S.to António" e vai ver que a sua "cerruti 1881" aparece!!!
O povo o diz...lá sabe porquê!

João Ramos Franco disse...

Desde 12 de Junho que desapareceu a caneta!...
Se me fosse contado por outra pessoa não acreditava!...
Não se nota nada.
João Ramos Franco

Anónimo disse...

Tenho uma grande admiração pela prosa da Agustina Bessa Luís. Uma vez li que ela tinha lido um texto maravilhoso sobre algo tão banal como a descrição de alguém a limpar uma sala, e que quem a escreveu o fazia com uma arte inexcedível. Fiquei sempre muito atenta a textos desse género. Daí ter ficado tão impressionada com este texto da caneta. Em todo o tempo que fui lendo, esperei encontrar o nome de algum escritor no final. Libertou-se de muitas das características da sua escrita mais séria, digamos assim, e escreveu um texto literariamente notável. Ritmo, capacidade de prender a atenção de quem lê, não lhe faltam.
Isabel X.

Anónimo disse...

Desculpem lá a intromissão nesta conversa sempre à volta do mesmo. Mas como é que alguém pode perceber alguma coisa de canetas quando se põe práqui a lamentar que só percebeu o tesouro que tinha quando o perdeu? Para mim, essa não faz sentido nenhum.
Vasco M.

João Ramos Franco disse...

Aprendi, vai para uns anos, que o escritor quando entrega texto para lermos, devemos analisar o seu conteúdo dentro do contexto social e de uma época, e eu apenas fiz isso.
João Ramos Franco.

Margarida Araújo disse...

Sempre havia um escritor no final.

Anónimo disse...

tinha uma caneta de aparo
matava-lhe a sede com cisne
deslizava
crua
irritava-me o arranhar
assanhado
em falta
tenho saudades da minha caneta
de aparo
foi substituída por uma bic
laranja de escrita fina
não tenho saudades
nem do tempo
nem da caneta
JG