segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Cada vez mais vimaranense

V. de Guimarães: 1
S. Braga: 0
O primeiro lugar está agora de volta.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Antes da Casa das Histórias

Fui, também na Sexta, espreitar a Casa de Paula Rego em Cascais e ouvir contar a história do Príncipe Porco. Das coisas absolutamente extraordinárias e surpreendentes que aí vi, tentarei falar mais adiante.
Primeiro tenho de fechar, perante a insistência dos leitores, a reportagem da conversa com JB no "Estoril". Quem esperou pacientemente até agora terá uma compensação: vai conhecer a irmã Marion Stalens (não se deixem iludir pelos nomes, não se vê logo que são irmãs?)

De C. L.-Strauss a Aristóteles

Para a aula da passada Sexta-feira, muni-me das edições de Mythologies, I - le Cru et le Cuit e II - Du Miel aux Cendres e repesquei a citação de Claude Levi-Strauss aqui transcrita no dia anterior. Lembram-se? Aquela que afirma que a cidade é ao mesmo tempo objecto de natureza e sujeito de cultura.
Como na unidade curricular tínhamos andado recentemente às voltas com Platão e Aristóteles, propus deste o seguinte texto para debate:

A razão pela qual o homem, mais do que uma abelha ou um animal gregário, é um ser vivo político em sentido pleno, é óbvia. A natureza, conforme dizemos, não faz nada ao desbarato, e só o homem, de entre todos os seres vivos, possui a palavra. Assim, enquanto a voz indica prazer ou sofrimento, e neste sentido é também atributo de outros animais (cuja natureza também atinge sensações de dor e de prazer e é capaz de as indicar) o discurso, por outro lado, serve para tornar claro o útil e o prejudicial e, por conseguinte, o justo e o injusto. É que, perante os outros seres vivos, o homem tem as suas peculiariedades: só ele sente o bem e o mal, o justo e o injusto; é a comunidade destes sentimentos que produz a família e a cidade.
Além disso, a cidade é por natureza anterior à família e a cada um de nós, individualmente considerado; é que o todo é, necessariamente, anterior à parte. Se o corpo como um todo é destruído, não haverá nem pé nem mão, excepto por homonímia, no sentido em que falamos de uma mão feita de pedra: uma mão deste género será uma mão morta; tudo é definido segundo a sua capacidade ou função. Ora, todas as coisas definem-se pela sua função e pelas suas faculdades; quando já não se encontrarem operantes não devemos afirmar que são a mesma coisa, mas apenas que têm o mesmo nome. É evidente que a cidade é, por natureza, anterior ao indivíduo, porque se um indivíduo separado não é auto-suficiente, permanecerá em relação à cidade como as partes em relação ao todo. Quem for incapaz de se associar ou que não sente essa necessidade por causa da sua auto-suficiência, não faz parte de qualquer cidade, e será um bicho ou um deus.

Aristóteles, Política. Edição Bilingue. Lisboa, Vega, 1998. p. 55.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Saint Tropez

O "nosso representante" em Nice foi a Saint Tropez em busca de glamour dos 60's. Parece não ter encontrado nem os passos da Gendarmerie nem os ecos de La fin de l'été da BB. Aqui ficam resultados da expedição. Pode acompanhar o passeio com La mer de Françoise Hardy (1965).







Dedicated to you everywhere you are

Ontem fui ao Estoril, evidentemente, ver e ouvir JB. A reportagem segue dentro de momentos. Antes quero dar-vos conta da surpresa. Além da Binoche também encontrei Rowlands, Sarandon, Kelly, Davis, Crawford, Minnelli, Hunter, Bacall, Dietrich, Mangano, Loren, Cher, Swinton, Newman, Goldberg, Spacek, Taylor, Hepburn, Paquin, Cruz, Deneuve, Lodger e Roberts!

Pôs a zeros.

Pois bem, Senhora Ministra, ficou a ideia de que a sua prioridade é ouvir os sindicatos dos professores. Ouvir para depois tomar uma decisão razoável.
Lamento, cara Isabel Alçada, mas se interpretei bem, nem o objectivo político, nem a fórmula usada para o expressar, nem a metodologia enunciada me parecem adequadas.
Como aqui defendi, à nova ministra pedia-se que, beneficiando da expectativa favorável que o seu nome provoca, mudasse a agenda e trouxesse a escola para o centro do debate da educação em Portugal.
Mas se acha, como os sindicatos, e os partidos a reboque, que se deve começar por estabilizar a relação com os professores, por via sindical, talvez conviesse clarificar propósitos.
Ouvir para depois decidir. Mas não está já tudo dito sobre carreiras e avaliação? O Ministério quer estabelecer um acordo com os sindicatos? Nesse caso, recomendar-se-ia que tivesse uma proposta nova relativamente às matérias em discussão. Que a faz acreditar que a decisão a que chegar depois de ouvir os sindicatos tem o acordo dos professores?
Neste caso, só há uma maneira de tornar útil e eficiente a metodologia que adoptou. Voltar atrás. Recomeçar. Se acredita que depois de ouvir vai chegar a uma decisão aceitável por todos, então o ponto de partida não pode ser o ponto de chegada anterior. Tem de recuar. Até que a situação fique a zeros.

Abriste a janela e voaste

Sérgio Godinho, A Noite Passada.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Apesar do tempo agreste

JB foi vista hoje às primeiras horas da manhã nas margens da Lagoa

.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

As cidades de Claude Levi-Strauss

Não é portanto apenas de maneira metafórica que é possível comparar - como se fez muitas vezes - uma cidade a uma sinfonia ou a um poema; são objetos de natureza idêntica. A cidade, talvez mais preciosa ainda, situa-se na confluência da natureza e do artifício. Congregação de animais que encerram a sua história biológica nos seus limites, modelando-a ao mesmo tempo com todas as suas intenções de seres pensantes, a cidade provém simultaneamente da procriação biológica, da evolução orgânica e da criação estética. É ao mesmo tempo objecto de natureza e sujeito de cultura; indivíduo e grupo; vivida e sonhada; a coisa humana por excelência.

Claude Levi-Strauss, 
Tristes trópicos. Lisboa/São Paulo, Ed. 70/Martins Fontes, 1981. p. 117. [1ª edição: 1955].
Tristes Trópicos é uma obra constituída pelos cadernos de campo do antropólogo francês - que acaba de falecer com quase 101 anos - redigidos durante as suas visitas ao interior do Mato Grosso, entre 1930 e 1935, período em que residiu em S. Paulo.

Há quem afirme tê-la visto em Óbidos

Irresistível chocolate.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

O défice

São dois os braços dos homens, costumava dizer o Carlos. Um é o braço da autoridade, a que se associa a exigência e o rigor que a legitimam. Outro é o braço da compaixão, a que se associa a afectividade e a proximidade que dela decorrem.
Há que reconhecer na acção do anterior Governo um défice de afectividade na relação com os portugueses. O Primeiro Ministro deu mais visibilidade ao braço que aponta do que ao braço que ajuda, ao braço que orienta e manda do que ao braço que compreende e estende a mão.
O êxito da acção política não se mede só pelos números e pelos resultados objectivos. Há indicadores de confiança subjectivos, que dependem das correntes invisíveis que são tecidas entre governantes e governados. Houve um nexo de adesão e de entusiasmo sentimental com o PS que se quebrou no decurso do exercício do seu governo maioritário.
É possível recuperá-lo, reatar com o eleitorado o compromisso solidário que justifica uma opção de esquerda reformista?
Esta questão é, a meu ver decisiva, neste momento. Muito mais do que a habilidade táctica para tecer compromissos com partidos opositores e com o Presidente, o que está à prova no actual Governo é a sua relação com as pessoas concretas, de carne e osso.

Ela chega amanhã...

... ao Estoril. Uma vez mais, Juliette será a convidada de honra deste blogue.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

À (anterior) janela de Gabriela Canavilhas


Alfredo Keil (Murmures) tocado por Gabriela Canavilhas.

Não comentar chega?

O que está em causa neste conjunto de averiguações e processos que envolvem figuras públicas é a mais terrível das suspeitas que se pode forjar em democracia: a da corrupção, a do tráfico de influências. Mas acima dela, suspeita das suspeitas, insidiosa e perigosa como nenhuma outra, é a de que não estamos em condições, não podemos nem queremos, dar combate incessante à corrupção e ao tráfico de influências.
É por isso que aos governantes, instados a pronunciar-se sobre os casos, não basta talvez dizer: "não comento". Eu preferiria que, mantendo "o não comento os casos", reafirmassem a sua vontade de esclarecimento cabal e célere das suspeitas, o compromisso de combate total à corrupção, venha ela donde vier, o seu empenho em que a lei seja cumprida e a ética republicana respeitada. 

A queda de um mundo

9 de Novembro de 1989: Günter Schabowski, porta-voz do Politburo da República Democrática Alemã, lia, numa conferência de imprensa, um comunicado cujo conteúdo não conhecia em pormenor. Forçado a interpretar a nota, afirmou que o Governo garantiria a todos autorização para viajar para o estrangeiro, sem condições. Quando? - perguntou Peter Brinkmann, jornalista do Bild Zeitung. Eu penso que ... agora mesmo: respondeu Schabowski. Pouco depois, os berlinenses de Leste estavam a sair para a rua e, ante a incredulidade dos guardas, iniciar o derrube de um muro que durante 28 anos dividira a cidade.


segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Hoje as minhas bruxas foram visitar a (outra) família



Uma é romena, a outra checa. Têm-me guardado os livros com desvelo permanente. Às vezes também me guardam deles. Acompanham-me noite dentro, com aparente bonomia. Já me viram em todos os estados de alma, doente e recuperado. São amigas de todas as estações.

Magistral

O fim de semana de Marcelo foi um êxito. Teve artigo de Pulido Valente, expectativa de Pacheco Pereira, a insídia de Miguel Relvas. Obteve declarações rendidas de Alberto João e do jovem Rangel. Algumas redacções fervilhavam de notícias contraditórias e Maria Flor preparou-se para revelações em directo. O próprio lançou mensagens crípticas ao Presidente, a Manuela Ferreira Leite, e, surpreendentemente, a Aguiar Branco. O Professor é um mestre da táctica. Magistral no aparente domínio da bola. Mas rematará à baliza?

domingo, 1 de Novembro de 2009

Se...

soubermos aprender com as derrotas, isto é, e fazer do balde de água sobre a euforia dos golos e das exibições uma ocasião de serena ponderação do caminho percorrido e uma cuidada avaliação do que falta percorrer... então há virtualidades no que se passou ontem em Braga. 

sábado, 31 de Outubro de 2009

War's only purpose is to destroy life

Drought and Rain Vol. II, da coreógrafa vietnamita Ea Sola. Este video foi gravado durante a estreia mundial no Theatre de la Ville, Paris, em Novembro 2007.

Forced to flee her homeland during the Vietnam War, choreographer Ea Sola has shaken the dance world with evocative works forged from exile and loss of identity. A sequel to her 1995 Drought and Rain Vol. I about the aftermath of war, Vol. II is a keenly fervent piece about the new generation, with young dancers from the Vietnam National Ballet. Live traditional drumming and adventurous lighting dramatize the aching persistence of memory. Intensifying from soundless slow-motion to pounding percussive movements, dancers shift between isolation and unison in a hypnotic display. Ea Sola's Drought and Rain beseeches us to remember: “War's only purpose is to destroy life.”

À janela de Vitorino (no Coliseu)

Os portugueses agradecer-lhe-ão, Senhora Ministra, tudo o que fizer pela escola

Se me permite que me exprima desta forma, Senhora Ministra, estou preocupado com a sua agenda. Há quem se ponha em bicos de pés e quem se esgueire para ocupar uma posição vantajosa na grelha de partida. Refiro-me evidentemente ao CDS/PP e aos Sindicatos. O primeiro quer mostrar desde já que é o mais fiável interlocutor da maioria relativa. Os segundos querem recuperar o espaço que tinham perdido para os diversos movimentos não sindicais de professores. Todos eles, embora, de modos distintos, querem impor à Educação uma única agenda: a dos professores.
Cara Isabel Alçada, não cometa o erro de aceitar esse condicionamento. A agenda da Educação tem de ser recentrada na escola. Na escola. Na escola. Pagámos um preço demasiado elevado pelo desvio desta linha que a sua antecessora não conseguiu evitar nem corrigir.
Deste ponto de vista, a sua primeira intervenção na discussão do programa do Governo, é fundamental. A mediação do CDS e a ameaça sindical não são o foco do debate, embora tudo estejam a fazer para que assim pareça. Escolha criteriosamente os temas do debate e enuncie propósitos claros e exequíveis. Os portugueses compreenderão.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

O bigode segundo Brian Juan O'Neill

Brian falou da sua identidade multicultural. Nascido em Nova Iorque com ascendentes alemães e porto-riquenhos, vive em Portugal há quase 30 anos, onde aportou vindo da Galiza. Nos sítios onde trabalha hoje - Malaca - é visto frequentemente como indonésio, neo-zelandês ou autraliano. Na escola nova-iorquina onde fez os estudos secundários frequentou uma turma onde era um dos 6 rapazes não judeus. Em sinal de protesto, em Julho de 68, a seguir às revoltas estudantis de Nanterre (Paris) e Columbia (Nova Iorque)  deixou crescer o bigode e prometeu a si próprio nunca mais  cortar.
A sua cara afeiçoou-se ao bigode, explicou. Há gestos, olhares, expressões seus que funcionam em sintonia com o bigode. Já não se consegue imaginar sem esse apêndice capilar identitário.
"Eu sou eu e o meu bigode" - poderia ter dito. Como o compreendi! Recordei o dia, algures em 1986 ou 1987, em que me quis ver desfazer do bigode. Até ter visto, no olhar intrigado do meu filho, então com 2 ou 3 anos, uma dúvida expontânea sobre a identidade daquele tipo vagamente parecido com o seu progenitor.
Trocadas as histórias, Ricardo Vieira escreveu no seu livro, ontem lançado, a seguinte dedicatória:
João Serra. Para que o bigode possa ser usado quando nos revemos nele e os outros em "nós". Com um abraço amigo. 28/09/2009.
PS.
Ricardo não usa bigode.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Identidade pessoal, multipertença social

Portanto a (re)construção da identidade pessoal e social é um processo complexo e intrínseco a cada indivíduo (eu sou exclusivamente eu, embora tenha muitos outros e de outros), não é uma mera reprodução da esfera social e cultural onde ele se movimenta. Até porque mesmo os grupos sociais (a palavra encontra-se propositadamente no plural, pois os indivíduos encontram-se sucessiva ou simultaneamente ligados a diferentes grupos), como observa Lahire*, reportando-se a Halbwachs, não são homogéneos nem imutáveis, e os indivíduos que os atravessam são também o produto "matizado" desta heterogeneidade e mutabilidade**. Todas as vivências que vão marcando todo o percurso de vida, desde a infância até à idade adulta, memórias de todas aquelas pessoas e situações que, quer de uma forma positiva ou negativa, se tornaram significativas e significantes, não se vão simplesmente acumulando, nem são sintetizadas de forma simples e elementar. E sem se ir ao extremo de se falar em descontinuidade absoluta, poder-se-á considerar que os sujeitos saltam de um grupo social para outro, de uma situação para outra, até de uma sociedade para outra (p.e. rural para urbana) de um "domínio de existência para outro" sem que tenha forçosamente de haver continuidade, homogeneidade e compatibilidade entre essas experiências.
* Bernard Lahire, O Homem Plural. São Paulo, Vozes, 2002
** Gilberto Velho, Individualismo e Cultura. Notas para uma Antropologia da Sociedade Contemporânea. Rio de Janeiro, Zahar Editor, 1981, p. 26-29.

Ricardo Vieira, Identidades Pessoais. Interacções, Campos de Possibilidade e Metamorfoses Culturais. Lisboa Colibri/IPL, 2009. p. 38-39

Lançamento de livro de Ricardo Vieira

Privilégio de quem assistiu ontem, no anfiteatro da Escola Superior de Educação e  Ciências Sociais em Leiria ao lançamento do livro do Prof. Ricardo Vieira, Identidades Pessoais. Interacções, Campos de Possibilidades e Metamorfoses Culturais. Em primeiro lugar, pela circunstância rara de me ter achado numa cerimónia que decorreu numa sala literalmente cheia de alunos. Em segundo lugar, pela qualitativa presença institucional que incluiu desde o Director da Escola ao Presidente recém-eleito do Instituto Politécnico e ao Director do Indeia, a unidade orgânica que gere a área de investigação. Em segundo lugar, pelo surpreendente discurso da Prof. ª Cristina Nobre, Presidente do Conselho Técnico-Científico da ESECS, um texto que combinou com emoção a poesia, o testemunho amigo e a reflexão sobre ser professor e intelectual. Finalmente, pela magnífica lição de antropologia de Brian Juan O' Neill, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, uma viagem pelo conceito de identidade(s) com uma não menos surpreendente apresentação da sua própria história de vida. Voltaremos a ela, aqui.

Alexandra, menina russa

A Segurança Social russa admite retirar Alexandra à pessoa a quem a justiça do Estado português a entregou. Para a internar numa daquelas instituições sobre as quais só nos chegam sempre as más notícias.
Em nome de que princípios actuou a justiça portuguesa, neste caso? O do suposto interesse do Estado, certamente, que no do da criança não foi, como se tem visto. 
Antes da criança, o juiz colocou a criança originária da Rússia, antes do ser humano viu a nacionalidade. 

“Ela [a mãe de Alexandra] chegou aqui há alguns meses e nós estamos a tentar fazer tudo para normalizar a situação, mas esteve oito anos em Portugal e vocês não viram o estado em que ela estava? Mas que tribunal entregou a menina a uma pessoa assim?”, perguntou, em jeito de defesa, Iúri Kudriavtsev, chefe da Comissão para Protecção de Menores do Concelho de Pervomaisk, onde se encontra a vila de Pretchistoe, onde vive Alexandra com a mãe.

Diálogos

Ainda sobre Pascual Maragall e a doença neurovegetativa que lhe foi diagnosticada:

A - Pascual e Diana. Um apoio firme.
O ex-presidente com sua mulher, Diana Garrigosa, com quem se casou em 1965. "Esta casa é a melhor de Espanha e isso se fica a dever-se a que tem uma senhora que se chama Diana e que se lembra e coisas como esta" - conta Maragall ao escritor Juan José Millás diante de uma recipiente cheio de avelãs, nozes e amêndoas, ao pé de uma tábua e um martelo para as partir.

B. Sms trocados hoje pela manhã.
CS e DV são leitores regulares deste blogue. Raramente escrevem comentários, mas com frequência trocam sms sobre o seu conteúdo. Mero pretexto para dizerem um ao outro "aqui estou", apesar da distância física que os separa, ou forma indirecta de expressarem o seu apreço por este limitado mas constante ponto de encontro, às vezes dão-me conta das mensagens que receberam e enviaram. Foi o caso das de hoje:
DV - Já leste o blogue do João? Está preocupado com Pasqual Maragall. Percebe-se que o conhecia e admirava.
CS - Sim, percebi que se trata de alguém especial. Notícia péssima...
DV - Confirmo essa ideia de que se tratava de um homem especial. Deste uma vista de olhos pelos links que o João referiu?
CS - Dei. E percebi que ele tem duas coisas que o vão acompanhar até ao fim - as melhores que a vida nos pode dar: uma casa que conhece de toda a vida e uma mulher que o ama, e de quem vai precisar para continuar a ser uma pessoa por inteiro.
DV - E ele saberá? Adivinhará? É, pelo que li, um homem grande no tamanho e no coração, empreendedor, livre, que vive intensamente tudo o que pode e toda a gente sempre tratou de forma directa e frontal.
CS - Querido amigo. Os homens podem viver intensamente uma vida mas só um amor como o de Diana os pode salvar da indignidade. Acredita. Já vi este filme todo vezes demais.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Pasqual Maragall

A série de Juan José Millás "Vidas al limite" (El Pais Semanal) é dedicada a Pasqual Maragall que em Abril de 2008 constituiu uma Fundação com o seu nome que tem por objecto promover a investigação sobre doenças neurovegetativas, em especial o Alzheimer. Em Outubro de 2007 Pasqual confirmou que esta enfermidade lhe fora diagnosticada. A reportagem pode ser vista aqui e aqui.
Conheci Maragall em 2006, na embaixada portuguesa em Madrid, num jantar que reuniu grandes figuras da política nacional e regional espanhola, o Rei e a Rainha. À sua volta gravitava um debate tenso sobre o futuro das autonomias. Ele fora sempre um crítico implacável do centralismo. Em 2007 rompeu com Zapatero por esse motivo.
Presidiu ao Governo da Catalunha entre 2003 e 2006, mas a sua actividade política mais relevante está associada à presidência da Câmara de Barcelona que exerceu de 1982 a 1997. Foi nos seus mandatos que se preparou a candidatura vitoriosa de Barcelona à organização dos Jogos Olímpicos, seguindo-se um processo urbanístico exemplar até à respectiva realização em 1992.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

O sofrimento de Samantha

Vive no Haway com o marido e filhos. Recebeu nos últimos meses o assedio de dezenas de paparazzi e de meio milhar de telefonemas de jornalistas pedindo uma reacção aos acontecimentos.
Depois do calvário da violação e da consequente tramitação judicial aos 13 anos, eis que agora, aos 46, o passado irrompe no seu presente.
Claro que ela só pode pedir que a deixem em paz. Mas esse não é argumento a favor da não extradição do cineasta que está na origem do sofrimento. Ou é?

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Territórios

Pela primeira vez na última década, não ouvi os discursos da posse (nem vi aquelas curiosas filas de cumprimentos dos primeiros dias do resto das vidas dos nossos governantes). Estava a 400 quilómetros de distância percorrida entre bancos de nevoeiro. De modo que mal me apercebi dos discursos e, sobretudo, perdi a entoação das vozes, o sentido dos olhares e o ambiente particular. Fiquei com a ideia de que cada um dos protagonistas marcou cuidadosamente o seu território. Com frio calculismo. Sem que por um momento um gesto, uma palavra, um sorriso desse nota da generosidade a que me habituei e que tanta falta nos faz.

domingo, 25 de Outubro de 2009

Como esta madrugada trouxe mais uma hora

Comecei a ler Caim, livro dedicado "A Pilar, como se dissesse água":

Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias medidas, enfiou-lhe a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer do género amo-te, eva.

José Saramago, Caim. Lisboa, Caminho, 2009. p.11-12.


Arquitectura procura saídas para a crise

A arquitectura procura saídas: reportagem publicada na edição de hoje do El Pais.
Arquitectos como Norman Foster e Richard Rogers asseguram que a crise é a matéria prima da sua disciplina. Os criadores deste século XXI marcado pela recessão procuram novas ideias e territórios para esboçar o mapa arquitectónico do futuro.

1. Tempos de crise
A recessão económica paralisou numerosos projectos públicos e privados. Um exemplo é a Cidade da Justiça de Madrid. Após não ter conseguido um acordo de financiamento suplementar com o Governo regional, o arquitecto Alejandro Zaera-Polo abandonou a construção do edifício do Instituto de Medicina Legal.
2. Menos energia
A ideia da sustentabilidade não é nova, mas a crise reforçou-a e tornou-se frequente converter-se numa exigência do cliente. O italiano Renzo Piano é um dos arquitectos que arvorou, com êxito, a bandeira da poupança energética. A sua Fundação Paul Klee (na foto), com sede em Berna (Suíça), necessita para funcionar de metade da energia de um edifício similar construído há 23 anos em Houston (EUA): a Colecção Menil.
3. Perfil baixo
Outro dos efeitos visíveis de a crise, é o perfil baixo de boa parte dos edifícios. O rebentar da bolha imobiliária no Japão, e, meados dos anos 90, levou Tadao Ando a cavar literalmente o solo da ilha de Naoshima para situar ali o Museu Chichu.
4. Ao pormenor
Apesar de ter sido afectada, a arquitectura estrela segue o seu caminho. O regresso a um modelo de construção antigo é uma das apostas de quem não pode competir com os grandes ateliês, de centenas de empregados e outros tantos projectos em marcha. José Selgás realizou 360 visitas durante a construção do Palácio de Congressos de Badajoz (na imagem, visto através de uma escultura de Blanca Muñoz). Tanto Selgas como a sua sócia, Lucía Cano, acreditam que a presença do arquitecto ao pé da obra é o que garante a qualidade de um edifício, que deve ser percebido em todos os pormenores.
5. Novos desafios
Para os nomes mais consolidados, aqueles que continuam a assinar edifícios predestinados a ser ícones por quantias astronómicas, una maneira de reduzir riscos económicos é multiplicar trabalhos e abrir novos mercados. Há, no entanto, outros riscos. O bloco de apartamentos da Rua Bond de Nova Iorque, de Herzog & De Meuron (para muitos, os melhores arquitectos do mundo na última década), deixa uma sensação de 'dejà vu' que empresta capacidade de impacto ao edifício.
6. Sobriedade
A atribuição do último prémio Pritzker, considerado o Nobel de Arquitectura, a Peter Zumthor, sugere que a sobriedade é um valor em alta. O arquitecto suíço sempre foi um exemplo de rigor e medida. Na Exposição Universal de Hanover do ano 2000, construiu o pavilhão do seu país (na foto) com toros de madeira levados dos bosques suíços e ligados apenas com cabos de aço, sem parafusos nem cola.

sábado, 24 de Outubro de 2009

"Sou de Peniche"

Como hoje "Sou de Peniche" ( título da Convenção que desde Junho de 2007 se realiza anualmente), fui assistir à posse da Assembleia e da Câmara. Por mais formalidade de que esta cerimónia se revista, sempre representa uma afirmação do vínculo com a democracia de que o poder local autárquico é parte. E por isso é um acto pelo qual perpassa também um ambiente celebratório.
O acto foi acompanhado por um trio de jazz, aspecto que gostaria de destacar. Não se tratou apenas de uma animação de um espaço solene por uma manifestação de modernidade, mas de um sublinhado da saudação festiva que tem por destinatários aqueles que iniciaram hoje as suas novas funções.
Um destaque muito especial para a intervenção do Presidente António José Correia. Pela convicção, pela afectividade, pelo empenho, pela visão que pôs no seu mandato e que reafirmou hoje perante todos os que "são de Peniche".

Arquitecto Norman Foster

Foi galardoado ontem em Espanha com o prémio Príncipe das Astúrias.
Sir Norman Foster, Prémio das Artes, é considerado, com todo a propriedade, como um dos maiores arquitectos da era global, por ter criado uma arquitectura de vanguarda, plena de imaginação, comprometida com as novas tecnologias, a aventura estética e o meio ambiente. Os seus projectos, de personalidade inconfundível e fruto também do seu estudo da historia, ou, o que é o mesmo, do seu respeito pela vitalidade, a força e o valor do melhor do passado, combinam de forma inovadora utilidade e beleza. Conformam, enfim, uma arquitectura delicada e central, poética e moderna, livre e transparente, que explora com coragem para lá da convenção e representa um hino às oportunidades e aos desafios de uma vida profissional feita de paixão e de incansável esforço.
Margaret Chan, directora-geral da OMS, ajuda Norman Foster a colocar a medalha.
A obra do arquitecto pode ser vista aqui.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

A uma só voz

Como ontem fui ajudar 20 mil portugueses, na sua maioria tão idosos como eu e os próprios cantautores, a escutar (curiosa palavra!)  José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias e fiquei muito cansado, não prestei a devida atenção à formação do novo Governo. Apenas percebi que o Primeiro Ministro se mantinha e que o plano de vacinação da gripe não sofreria descontinuidades. O que me tranquilizou. Só agora, depois de uma manhã de aulas e de uma tarde de júri de concursos, pude espreitar a composição do Executivo. Confesso que as novidades, tirando os casos que desconheço, as considero positivas: Santos Silva na Defesa, Alberto Martins na Justiça, Gabriela Canavilhas na Cultura, Vieira da Silva na Economia, Helena André na Solidariedade, Isabel Alçada na Educação, Jorge Lacão nos Assuntos Parlamentares. Vamos esperar agora pelas equipas de secretários de Estado.
Ah, é verdade, fiquei muito cansado ontem não apenas, nem principalmente, por causa da distorção do som do Campo Pequeno (ironia da situação: a primeira vez que entrei em tão vetusta praça e logo ela me pareceu tão pequena mesmo), mas porque o concerto produziu uma verdadeira "fusão" das vozes e das canções. Foi muito difícil distinguir qual era a canção de quem. Cantaram a uma só voz.

Eh, companheiros!

O que leva sete mil pessoas ao Campo Pequeno para verem a uma distância não encurtada pela tecnologia, e para ouvirem, em condições de som inaceitáveis e desconfortavelmente sentadas, 3 cantores que podem ser escutados em cd ou ipod em condições ideais? Resposta: a emoção da partilha, o contacto com a história que fizemos nas últimas quatro décadas e na qual estes cantores - José Mario Branco, Fausto Bordalo Dias e Sérgio Godinho - e as suas canções tiveram um papel não negligenciável e que não deve ser esquecido.
O espectáculo permite experienciar uma novidade: cantadas por dois ou por três cantores, as nossas canções deixaram de ser deste ou daquele cantor: as 3 vozes fundiram-se numa só.