Na exposição permanente, há uma boa dezena de peças que merecem sempre ser revisitadas. Por uma razão ou outra, fazem parte das nossas geografias históricas.
Muchacha à la ventana de Salvador Dali é uma delas. Obra elaborada quando o pintor tinha apenas 21 anos, não sei o que mais me impressiona neste trabalho: se o rigor de execução, que vai desde o pano do pó momentaneamente abandonado no parapeito da janela até à paisagem reflectida no vidro da janela, desde a composição do pé da rapariga em atitude descontraída até à descrição dos reposteiros em sintonia formal com o vestido de Ana Maria; se a profundidade reiventada de uma paisagem maritima e costeira com recurso ao expediente da janela aberta.
O pintor substituiu a expressão facial da modelo (neste caso a sua própria irmã) pela expressão corporal e não hesitou em colocá-la de costas. Nós vemos a paisagem através de Ana Maria, e vemos Ana Maria na paisagem que, aliás, é também ela minuciosamente trabalhada [na foto ao lado, Dali e Ana Maria, em 1925, presumivelmente com Cadasquès em fundo].
