domingo, 30 de Novembro de 2008

Aos Domingos

Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo

[...] Eles ganham mas às vezes perdem. Eles vivem mas às vezes morrem. Sempre que sofrem um golo impossível, sempre que no último minuto se deixam bater e um resultado muda, é uma pequena morte. Um esquecimento negro esconde no olhar dos adeptos todas as defesas, todas as intervenções positivas dos restantes minutos.

Como se cada jogo fosse um julgamento perante um júri que nada perdoa, nada esquece, nada se dispõe a disfarçar.

Eles ganham mas às vezes perdem. Eles vivem mas às vezes morrem. Nos domingos à noite, quando as sombras abrem as portas do silêncio, os guarda-redes - então - morrem.
Envolvem-se na morte da qual não se podem defender porque esse momento errado, esse lance perdido é um remate impossível de travar.

Algures entre Lisboa e Salvaterra de Magos, numa manhã de Dezembro, uma trompete deve ter levantado meio em surdina as notas da fama suspensa na memória dos adeptos em multidão para trazer esse som amargo e tenso ao rés da terra. A mesma árvore de onde eles nascem como árvores humanas.

Os guarda-redes morrem ao Domingo.

José do Carmo Francisco, Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo. Lisboa, Padrões Culturais Editora, 2002

Interpretação de Eça


Para juntar aqui, a uma "imaginária" colecção queirosiana. Chegado do Porto, adquirida em leilão.

sábado, 29 de Novembro de 2008

Menina do lagarto

António Quadros, 1956/1958 (Col. F. C. Gulbenkian)

sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Bordalo na Quadratura do Círculo

Pela mão de José Pacheco Pereira que esteve no sábado, 22, na inauguração da Exposição de grandes peças bordalianas em Óbidos (galeria municipal Nova Ogiva). JPP sublinha, e bem, que a obra de Bordalo resistiu ao tempo e às inevitáveis mudanças de gosto. Isso é verdade sobretudo para a cerâmica. Mérito sem dúvida da criatividade e ousadia (a visão) de Rafael, e mérito da permanência da actividade produtiva que tem possibilitado a recuperação dos antigos modelos e a sua reprodução.
A obra gráfica de Bordalo também merece, julgo, ser revisitada. Não poderia o Museu Bordalo Pinheiro (e a Câmara de Lisboa) pensar na possibilidade de uma exposição, para 2010, sobre o desenho bordaliano?

À janela

Room in Brooklyn (1932)
Para ver apresentação de um filme sobre Edward Hopper, clique aqui.

quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Igualdade e justiça

EncontroVersas, um encontro para falar de Direito e direitos, Ética, Normalidade e diferença, Família,  Escola, Educação, Cidadania, promovido pela CerciPeniche.
A mesa do painel em que participei (Igualdade, diferença e direitos), moderado por Bernardo Costa (secretário da Escola Superior de Tecnologias do Mar, de Peniche) era formada por Mário Aboim (advogado, Presidente da Federação Nacional de Cooperativas de Solidariedade Social) e dois juízes de Direito: Isabel Baptista e Clemente Lima.
A ConVersa, animada sobretudo pelos dois juizes, fluiu em torno da questão dos valores, da defesa e promoção de direitos, do respeito pela diversidade humana. Formados na Escola de Magistrados, Isabel Baptista e Clemente Lima apresentam aquele discurso com referências culturais de leque amplo, que em muito ultrapassa o tradicional registo hermético dos juristas. Citaram, por exemplo, Manuel da Fonseca e Mário-Henrique Leiria, com mais convicção do que os mestres do Direito. Neles perpassa o reflexo positivo da abertura intelectual do que foi o principal responsável pelo Centro de Estudos Judiciários, Laborinho Lúcio.
A justiça dilatou a sua presença na sociedade contemporânea de uma forma porventura inesperada. Pede-se-lhe não apenas que resolva conflitos, mas que preencha as lacunas da democracia e garanta o princípio da igualdade, quando não da própria liberdade. A justiça entrou no rol dos direitos humanos, razão pela qual a procura de justiça é hoje superior à oferta. A morosidade e alguma ineficácia da intervenção judiciária parecem ser o preço a pagar pela crescente politização da justiça.

"Não tenho nada contra os homens, excepto em relação às mulheres"

Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
- Não quero mais
aí estão eles a alternarem a agressividade com a súplica, ora violentos, ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS, a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos.

António Lobo Antunes, "As mulheres têm fios desligados", Visão, 31 de Julho de 2008

quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Transições

Escreveu Maria João Avillez na reportagem "A Presidência da República vista dos bastidores. As regras da Casa" (Sábado, edição de 6 de Novembro):

Entretanto, o ainda Presidente Jorge Sampaio entretinha-se a facilitar-lhe [ao Presidente eleito, Cavaco Silva] "ao máximo" a vida, nessa altura de transição de poderes. Sugerindo, informando, colaborando, disponibilizando os serviços do Palácio, abrindo a casa à nova equipa, convidando o novo Presidente para jantar em Belém com a família ou organizando almoços entre os principais elementos das respectivas Casas Civis.
"É verdade, empenhei-me pessoalmente para que a passagem do testemunho ao professor Cavaco Silva ocorresse nas melhores condições possíveis", recorda hoje o ex-Presidente Sampaio, que acrescenta que o fez porque "é assim que entendo o funcionamento da democracia e o bem servir a causa pública, mas também por uma questão de civismo e, até, de civilidade". De tal forma isto se passou assim que, chegado a Lisboa, Nunes Liberato se encontra - nesse mesmo dia - com Sampaio, ainda antes de se avistar com Cavaco!  
A partir daí seguiram-se "vários encontros de trabalho" entre João Serra, o ainda chefe da Casa Civil de Sampaio, e Nunes Liberato, já na qualidade de seu sucessor. Um comportamento louvado por Cavaco Silva como "exemplar" e que o chefe da Casa Civil "jamais" esquecerá: "O professor João Serra foi tão notável que me autorizou a tomarmos conta das instalações na véspera da tomada de posse, para começarmos a trabalhar às 9h  em ponto de dia 9! Acompanhei o grupo todo indicando os gabinetes respectivos", recorda Nunes Liberato. 

Tive sempre presente nesta transição, que me coube facilitar, o que se tinha passado na anterior passagem de testemunho. Quando entrámos em Belém, a 9 de Março de 1996, andávamos pelos corredores à procura de gabinetes vazios para nos instalarmos. Com excepção das chefias, ninguém dispunha de equipamento mínimo de trabalho nas suas secretárias. Foram precisas semanas para normalizar a situação e interiorizar regras de trabalho e de funcionamento. A experiência acumulada pelos inquilinos da década anterior não nos foi transmitida.

terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Porto (sem data*)

Café do Molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

Manuel António Pina, Poesia Reunida, Lisboa, Assirio & Alvim, *2001

segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Bordalo: bichos grandes. [Para a Isabel Castanheira]







domingo, 23 de Novembro de 2008

Grandela, Relvas, Bordalo

Breve registo de um dia - o de ontem - particularmente preenchido.
De manhã, última sessão do Colóquio Lisboa e a República, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, cujo comissário científico foi António Reis. Tema da sessão: "Lisboa há 100 anos". Ana Paula Pires traçou uma panorâmica da sociedade lisboeta dos finais do século XIX e das mudanças verificadas na transição do século. Daniel Alves caracterizou a Lisboa do pequeno comércio, identificando os ramos de negócio e a sua distribuição pela cidade. Eu revisitei o percurso de Grandella e procurei fixar um retrato do comerciante, do activista cívico e do político. Paulo Ferreira de Castro apontou os aspectos dominantes do gosto musical dos lisboetas nas vésperas da República e surpreendeu a assistência cantando os versos de A Portuguesa com a música de A Marselhesa e os versos de A Marselhesa com a música de A Portuguesa. Rosalia Vargas, vereadora da Cultura, encerrou o colóquio com a apresentação dos trabalhos realizados  pelos meninos de uma escola primária das Gaivotas depois de terem visitado a exposição urna pela lista republicana de Lisboa!" Foi assim há 100 anos (na Galeria de Exposições dos Paços do Concelho).
Segui para a Assembleia da República, depois de desafiar o Prof. Paulo Ferreira de Castro a visitar a exposição do dirigente republicano que mais cultivou a música. Cheguei em cima da hora (consegui evitar as sequelas do ensaio do terramoto) ao local de encontro com os "convocados" pelo João Miguel Azevedo Santos para uma visita guiada a José Relvas, o conspirador contemplativo.
A exposição está a chegar ao fim. Dia 29, o próximo sábado, é o ultimo dia em que pode ser visitada. Esta era pois a minha última visita. Gostaria de ter sabido transmitir às duas dezenas de visitantes que me escutaram durante duas horas o entusiasmo e o prazer com que eu e a pequena equipa de investigação (Laurinda Santos Paz, Jorge Estrela, Nicolau Borges) preparámos este trabalho, entusiasmo e prazer que se transmitiu à equipa de restauro (em especial à Maria José) e ao atelier de Design (Nuno Gusmão). Este comissariado desempenhei-o em condições muito particulares de calendário, representando um esforço concentrado para o efectivar em tempo útil e dignas condições técnicas e científicas.
Nas escadarias da Assembleia, uma mulher ainda jovem, uruguaia, perguntou a um dos do grupo se a aceitariam na visita. Evidentemente que sim, respondi. Por diversas vezes, ao longo do périplo, encontrei o seu olhar vivo e atento, procurando acompanhar as minhas palavras e seguir as minhas sugestões. A esta ouvinte inesperada e desconhecida dediquei a visita que mais lamento não ter conseguido fazer. Uma parte da minha história - que nos ultimos dois anos passou pelo estudo da figura de José Relvas, pela Casa dos Patudos e por Alpiarça - ficou ali.
O Eng.º João Miguel Azevedo Santos é um colega mais novo dos bancos do Colégio onde fizemos o liceu. Redige uma newsletter com informação sobre eventos culturais (pode ser lida aqui às sextas à noite ou sábados de manhã ou solicitada por mail). Pôs a circular a visita de ontem e recebeu as inscrições. Entre elas, a de outros quatro ex-alunos do colégio. E entre estes últimos, a de Manuela Gama Vieira, assídua comentadora deste blog, que veio da Sertã com a sua exuberante simpatia e um saco de preciosos livros patrocinados pela Câmara Municipal onde trabalha (uma nota de sua autoria sobre a visita à exposição pode ser lida no blog dos antigos alunos).
Em Óbidos, onde cheguei com meia hora de atraso, era inaugurada uma exposição intitulada Bordalo Contemporâneo e contemporâneos com Bordalo, comissariada por Ana Calçada e Elsa Rebelo. Grandes peças de Rafel Bordalo Pinheiro foram produzidas expressamente para esta exposição e são mostradas na galeria Nova Ogiva com uma montagem despojada, que recorre aos próprios suportes utilizados na fábrica, mas muito eficaz. No catálogo, há textos de Ana Calçada, Elsa Rebelo, Isabel Xavier, Isabel Castanheira, Rodrigo de Freitas, e "Joaquim B. Serra". Convidado a falar, remeti os ouvintes para o meu texto no catálogo e tentei homenagear a persistência dos homens.
Chegámos aqui porque houve indústria, que sobreviveu, com empresários que fizeram invstimentos em instalações e trabalho, e porque houve muito trabalho especializado, tecnicamente habilitado. Chegámos aqui porque diversas gerações se esforçaram por começar de novo. A Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha sossobrou após a morte de Rafael Bordalo Pinheiro, mas o filho Manuel Gustavo recuperou modelos e criou uma nova empresa, já lá vão cem anos. Por sua vez, esta também estava em dificuldades nos anos 1920, quando um grupo de investidores caldense se apresentou para a adquirir. Todos estes homens juntaram à suas capacidades de financiamento uma visão, um misto de sonho e de prospectiva. Se não tivesse havido empresários e trabalhadores, o que teria chegado até nós era apenas o que os museus tivessem conseguido preservar. Bordalo Pinheiro não era um grande gestor, segundo se diz, mas um artista. E sem artistas a cerâmica não teria incorporado a inovação que lhe trouxe prestígio, reconhecimento e longevidade. Também aqui houve visão, neste caso uma visão alimentada pela imaginação e pelo talento.
 Ao longo deste dia irrepetível, emocionante, viajei entre Grandella, Relvas e Bordalo, homens de poderosa visão que ajudaram a fazer o Portugal do século XX.

Escapei


Por uma fracção de segundo. Há dias assim, em que percebemos que tudo sempre pode acontecer. Num sentido ou noutro sentido. Desta vez, foi pura sorte. Os carros cruzaram-se onde não deviam. O que bateu, o meu, tinha acabado de arrancar. Se o outro, não tendo visto o sinal vermelho, tivesse embatido contra o meu, apanharia o condutor. À velocidade a que vinha, dificilmente eu estaria aqui hoje para colocar esta fotografia que devo à amabilidade irónica de J. A. Falcão.

sábado, 22 de Novembro de 2008

Um visionário empreendedor


Chegou a Lisboa, adolescente, quando a cidade ainda não experimentara os sobressaltos da modernização. Nascido em 1853, vinha, aos 11 anos, substituir um irmão, marçano, que adoecera. Iniciou então um percurso no mundo do comércio que o levaria de empregado a patrão, de pequeno lojista a proprietário de uma das maiores unidades de venda a retalho da sua época. Este percruso acompanha o surto demográfico e urbanístico da Lisboa da viragem do século XIX para o século XX e é balizado topograficamente pela Rua dos Fanqueiros, onde se inicia o aprendizado do jovem Francisco de Almeida Grandella, pela rua da Prata, onde chegaria a 1º caixeiro e realizaria a suprema ambição de um empregado de comérico - estabelecer-se por conta própria - e pela rua do Ouro, por onde principia a edificação da catedral do comércio que serão os Armazéns Grandella que, como é sabido, crescerão até à Rua do Carmo. Paralelamente, desenrola-se um percuso político, desde o sindicalismo nos anos 1870, até ao laicismo livre-pensador e ao republicanismo revolucionário que passa pela Câmara de Lisboa eleita em Novembro de 1908 e desemboca no 5 de Outubro de 1910.

sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

"Não fazia rebrilhar as couraças"

O comandante tivera razão nas suas desconfianças, pouco havia passado das dez horas quando do alto da torre ressoaram os gritos de alarme das atalaias, Inimigo à vista. É certo que os austríacos, pelo menos na sua versão militar, não gozam de boa reputação entre esta tropa portuguesa, mas daí, sem mais aquelas, a chamar-lhes inimigos, vai uma distância que o senso comum não pode não recriminar severamente, chamando a atenção dos imprudentes para os perigos dos juízos precipitados e da tendência para as condenações sem provas. O caso, porém, tem uma explicação. Às atalaias tinha-se-lhes ordenado que dessem voz de alarme, mas ninguém se lembrou de lhes dizer, nem sequer o comandante, em geral tão precavido, em que deveria consistir essa voz. Perante o dilema de terem de escolher entre Inimigos à vista, que qualquer civil é capaz de perceber, e um tão pouco marcial As visitas estão a chegar, o uniforme que envergavam resolveu decidir por sua conta, exprimindo-se com o vocabulário e  a voz que lhe são próprios. Ainda a última ressonância do alerta vibrava no ar e os soldados acorriam às ameias para ver o tal inimigo, que, a  esta distância, uns quatro ou cinco quilómetros, não passava de uma mancha quase negra que mal parecia avançar e que, contra todas as expectativas, não fazia rebrilhar as couraças que traziam postas. Um soldado desfez a dúvida, Não admira, têm o sol pelas costas, o que, reconheçamo-lo, é muito mais bonito, muito mais literário, que dizer Estão em contraluz.

José Saramago, A Viagem do Elefante. Lisboa, Caminho, 2008, p. 131-132

Segunda volta


Martine Aubri (Presidente da Câmara de Lille) e Ségolène Royale (Presidente do Conselho da Região Poitou-Charentes) disputam, numa segunda volta, as eleições para a liderança do PS francês. Ségolène parte com 43,2% dos votos obtidos na primeira volta e Aubri com 34,4%. Mas esta beneficia da declaração de apoio vinda do 3º candidato da primeira volta, Benoit Hamon (21,9%). A primeira (melhor colocada para vencer) quer um PS centrado à esquerda, a segunda defende a renovação e abertura do PS a novas causas. "Duelo no feminino" (Le Monde), perante a desistência de Laurent Fabius e as sombras inspiradoras de Jacques Delors (pai de Martine) ou de Lionel Jospin (de quem Ségolene foi nº 2). Estão condenadas a desentenderem-se, como Obama-Hillary, ou poderá ainda haver uma "terceira volta" para as juntar (será esse também o desfecho Obama-Hillary)?

As perguntas

Pode o Governo recuar mais na questão que opõe professores ao Ministério da Educação, sem fechar o ano de 2008 com uma "derrota" política?
Os partidos da oposição, que todos os dias nos explicam que estão a cavalgar o descontentamento dos professores, têm alguma influencia real neste processo ou querem apenas aproveitar a "derrota" do Primeiro Ministro?
A avaliação que o Partido Socialista faz da substituição de Correia de Campos no Ministério da Saúde, e a paralização subsequente da reforma que ele conduzia, é positiva? 
Há clima e instrumentos para reintroduzir o princípio da negociação entre Ministério, professores e escolas?
Pode o Sindicato dos Professores ter uma intervenção autónoma (e independente) neste conflito?
Quem é o interlocutor do Presidente da República nesta matéria, para além do Governo?
Pode o Governo entrar no ano da sobreviência da maioria absoluta com uma "derrota" política?
Estão os professores conscientes de que a partir de agora, a guerra pode "começar a doer", ou seja que a opinião pública vai ser mobilizada para sancionar ou desaprovar a sua luta contra "o modelo"?

quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

"Encher a alma"

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem que não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
D'aqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sózinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais,
perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar - encher a alma

Camilo Pessanha, Clepsydra. Edição crítica de Paulo Franchetti. 
Lisboa, Relógio d'Agua, 1995

Raul Proença e a tese da ditadura limitada e transitória

Em Março de 1923 constitui-se um agrupamento cívico formado por membros dos grupos Seara Nova e Integralismo Lusitano que se propunha mobilizar a opinião pública a favor da formação de um Governo Excepcional de Salvação da República. Segundo Sottomayor Cardia, a União Cívica "pretendia suscitar a adesão de variados sectores partidários e ideológicos para uma tentativa de acalmia entre os republicanos e para a realização de um conjunto de medidas governativas contidas num extenso Apelo à Nação".
De acordo com os seus defensores, o Governo Excepcional seria um expediente político conjuntural, exigido pelas evidentes dificuldades em criar um quadro político-partidário que, no respeito das regras constitucionais em vigor, concebesse e executasse o corpo de reformas nacionais adequadas à salvação da República. Este Governo começaria por dar garantias de não temer nem ceder quer aos militares quer aos funcionários públicos.
Basílio Teles defendera uma solução política semelhante para o imediato pós-5 de Outubro de 1910. Propugnara uma ditadura legitimada pelos órgãos de vontade democrática e coroando uma verdadeira revolução, isto é uma ditadura que prestasse contas junto da opinião pública e das elites democráticas.
De acordo com a teoria constitucional do constitucionalismo monárquico, o regime de ditadura correspondia ao espaço de tempo no qual um Executivo governava sem controlo parlamentar. Tratava-se, usualmente, de um período limitado, uma vez que o Rei, a quem competia dissolver o Parlamento, no acto de dissolução indicava também a data de realização de novas eleições. Ao novo Parlamento, com a sua legitimidade refrescada, competiria logo nas primeiras sessões apreciar os actos ditatoriais do Governo e ractificá-los (esse acto era designado por Bill de Indemnidade).
Raul Proença adaptou esta figura ao do recurso a uma ditadura republicana, limitada e transitória, para efectivar as reformas estruturais reclamadas pelo país. Esta solução, embora à margem do Parlamento, devia contar com o apoio empenhado do Presidente da República. As condições que enumera para que uma ditadura limitada e transitória posse ser definida e aceite seriam as seguintes: ser uma ditadura protagonizada e apoiada por republicanos avançados e não por conservadores, uma ditadura exercida com o beneplácito do Parlamento (que aceitaria transferir durante um período de tempo razoável e mediante autorizações legislativas o mais amplas possível, poderes de lançamento de reformas estruturais), uma ditadura que culminasse um processo de mobilização política do país (surgindo como último recurso perante o não acatamento pelo Governo em funções dos anseios expressos por essa mobilização, uma ditadura que não ponha em causa as liberdades cívicas e que conte com o incentivo e a vigilância do Presidente da República.

quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Compromisso


Juro solenemente por minha honra que cumprirei fielmente a missão que me foi confiada (pelos meus eleitores).

José Aurélio: Cataventos em Pôr-do-Sol






terça-feira, 18 de Novembro de 2008

À mãe de um militar que partiu para o Médio Oriente

O seu filho seguiu ontem para um país distante numa missão de segurança e paz. Nos seus olhos, à despedida, percebeu que a expectativa superava a ansiedade. Não escondia o entusiasmo com que recebeu a escolha para esta missão e o orgulho pela confiança nele depositada para a executar. O seu filho, apesar de muito jovem, é já um profissional treinado, responsável, que tem do papel das Forças Armadas um exacto entendimento. Os militares têm a seu cargo a defesa da vida e a garantia da paz das sociedades. Numa era em que o global condiciona o nacional, esses valores tanto importam dentro como fora das fronteiras dos paises.
O seu filho nasceu depois de 1974 e cresceu na Democracia. Integrou-se numas Forças Armadas em processo de modernização, que há muito tinham deixado de ter como principal objectivo a manutenção de um império colonial e o suporte a uma Ditadura.
A presença de militares portugueses em missões internacionais de manutenção da paz em regiões críticas tem constituido um dos elementos fundamentais da nossa política externa. O seu contributo tem sido, mesmo em teatros particularmente complexos, como a Bósnia, o Kosovo ou Timor-Leste, positivamente reconhecidos. Teatros onde estava em causa a reconstrução nacional.
Que factores habiilitam os nossos militares para essas tarefas em países onde os laços de convivência entre grupos se partiram, deixando feridas profundas em carne viva? Elevadas capacidades profissionais, sem dúvida. Paciência, com certeza. Dedicação e afecto, sobretudo, porque aí reside o nexo que permite aos homens olharem-se de novo uns aos outros, e têm sido valores como esses que distinguem a sua acção.
O seu filho seguiu ontem para um país distante e, à despedida, a mãe não susteve uma lágrima mais aflita. Sabe que há riscos e o seu filho escolheu uma profissão onde se correm riscos. Mas enquanto limpava essa lágrima, a outra que escorria era já de saudade. A mesa de Natal este ano vai ter um lugar a menos, que os telefonemas e os mails não conseguirão preencher. Por isso a saudade já antecipa o regresso – ainda falta tanto tempo! – quando o jovem tenente entrar de novo por aquela porta e a fizer rodopiar num abraço sem fim, que lhe transmitirá a certeza de que ele fez o que devia ser feito para que o mundo seja melhor.

segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Uma tarde partirei para Memphis (II) Fotos de Paulo Simões



Cairo, junto às pirâmides


O Nilo, a vida em redor


Vida no Nilo


No deserto, junto à costa do Mar Vermelho, perto de Urghad

Uma tarde partirei para Memphis (I)

O solo ali é de uma areia estéril e seca, cheia de cascalho. Nada mais árido, mais desolado: o sol queima, implacável; um silêncio enorme pesa na alma e nas cousas; sente-se a presença do réptil e do escorpião.
Caminhamos curvados, calados, oprimidos. Ao lado erguem-se as velhas Pirâmides de Sakkâra. Toda aquela planície é tumular: ruínas, sepulcros, areias. Assim vamos seguindo até à região onde chega o Nilo. Aí, a vista abrange a larga toalha de água, cheia de verdura e de árvores.
Caminha-se por entre a inundação, num istmo de terra forte e escura.
De ambos os lados, a água sagrada do Nilo. Os pelicanos passeiam gravemente na corrente; por cima, voam os abutres. Ao fundo, distinguem-se as palmeiras de Memphis, e, sempre, na distância, as formas azuladas das Pirâmides.
Embarca-se para chegar a Memphis, através da inundação. Não há passeio melhor, nem mais belo, naquela região do Egipto: a água assenta, clara e fresca, entre bosques de palmeiras que desenham as suas arcarias no horizonte. Não há linhas imprevistas nem perspectivas: é uma uniformidade doce, que deixa no espírito um lento magnetismo, como uma nota musical muitas vezes repetida.
A vida real fica para trás, bem longe: vive-se no sonho. Um silêncio poético, infinito, suave, envolve-nos com um óleo brando.O azul tem uma ternura humana na cor, na frescura, na virgindade. As palmeiras formam longas arcarias melancólicas e serenas, e fazem um ruído doce, fresco, suspirado, sem uma agitação de folhas. Há o que quer que seja de humano naqueles grandes seres delgados e tristes.
A floresta é imensa. Às vezes, a intervalos, entrevê-se uma pequena aldeia árabe: um turco passa, montado no seu burro; uma mulher toda envolvida em véus descansa ao pé de uma palmeira, junto da bilha. Pensa-se na vida antiga, primitiva, em Abraão, em Agar: o palmar tem a serenidade de uma paisagem bíblica.
Os cuidados da vida, a nossa civilização, são impossíveis ali, naquela simplicidade sublime de beleza.
Eça de Queirós, Egipto. Notas de Viagem. Edição O Independente, Lisboa, 2001 [notas redidgidas por Eça no decurso de uma viagem ao Egipto realizada em 1869, tinha o autor 23 anos]

domingo, 16 de Novembro de 2008

Poder às escolas

Na actual guerra que se trava em torno do "futuro da educação" António Barreto caracteriza assim, no Público de hoje, o estado da escola (entalada entre o dos sindicatos/professores e o Ministério/Governo:
Quanto às escolas, coitadas! Não têm porta-voz, praticamente não existem como instituição. Não cultivam espírito de corpo. Não têm meios. Não têm relações verdadeiras e genuínas com os pais, nem com as comunidades. Não são entidades autónomas, com identidade e carácter. São fortalezas dos professores ou repartições do ministério.
Concordo com António Barreto quando salienta que neste triângulo do conflito, o lado mais frágil é o das escolas. Enquanto os outros dois lados preenchem a cena - Ministério/Governo e Sindicatos/Professores - as escolas não ganharam peso próprio. 
E, no entanto, as escolas são recursos estratégicos dos territórios, detentores de saberes e competências, decisivos tanto para a sua coesão como para a sua competitividade.
Sem esses parceiros autónomos e motivados, como podemos intervir na cidade, tornando-a mais humana e criativa?

"Regressava de novo à tua espera"

Se tivesse que morrer...

Se tivesse que morrer esta noite regressava
regressava de novo à tua espera à mesma rua
Talvez a mais deixasse aqui apenas
a folha de um recado meio esquecido
Regressava às horas desta tarde relendo devagar
de minuto a minuto o número da tua porta
onde chagaria como há pouco outra vez adiantado

Regressava ao salgueiro onde agora moras
Regressava enquanto a noite que me leve se afastasse
e não te dizia adeus - olhava a terra
as árvores de água profunda onde os rios nascem
ouvindo os pássaros e a brisa do crepúsculo
quando o crepúsculo os confunde num só ramo

Se tivesse que morrer esta noite regressava
navegando a coberto da morte por estas esquinas
que se aceram entre os meus passos e os teus dedos
no olhar amargo que rasguei para te ver
onde a carne do rosto quebra os últimos espelhos

Se tivesse que morrer esta noite regressava
junto de ti até ao fim por um momento
para te dizer que amanhã é outro dia
e que é sempre amanhã ainda onde te encontro

Miguel Serras Pereira, Trinta Embarcações para Regressar Devagar. Lisboa, Relógio d'Água, 1993.

A Lagoa é bela!

Parabéns à associação "Mar d'Água" pelo belo livro que lançou ontem à tarde na galeria Casa do Pelourinho, em Óbidos. 19 fotógrafos reuniram-se, sob o impulso da associação, para mostrar o que viram da Lagoa de Óbidos. O resultado, apesar da diversidade de autores, tem um fio condutor que privilegia a estética da natureza e das embarcações.
Apenas Margarida Araújo (foto abaixo) conduziu o seu programa de trabalho para fora deste registo, dando-nos a ver situações sociais.
De fora ficou, por opção própria dos fotógrafos ou dos organizadores, o imenso mar de problemas e ameaças que impendem sobre aquele frágil ecossistema.
A escolha de Óbidos para o lançamento da obra e exposição dos trabalhos foi acertada. A Casa do Pelourinho encheu-se para celebrar o acontecimento e confraternizar com os autores. Luis Costa Leal foi bem sucedido na exposição que fez da história do estudo científico das toxinas produzidas por bivalves.
O espírito cosmopolita que Ana Calçada tem sabido imprimir à programação das galerias municipais de Óbidos está a ter repercussões muito positivas na circulação cultural da região.

sábado, 15 de Novembro de 2008

Elogio das cidades

Gostei de ouvir Carlos Magno na sessão de Viseu-Congrega de ontem de manhã. Trouxe a debate reflexões sobre a agenda mediática que julga desajustada do país e dos seus problemas (para quem acompanhe as suas intervenções nos dois programas em que participa na Antena Um, alguns dos seus juízos críticos não constituirão novidade). E propôs que a discussão da regionalização deixasse de vez o tema estafado dos distritos versus departamentos para se centrar nas cidades. Chamou em seu auxílio Florida e os seus 3 Ts (Talento, Tecnologia e Tolerância), a que acrescentou um 4º (T de Território).
Tem razão Carlos Magno. Distritos e somas de distritos são conceitos pensados para um país que com as autoestradas e a internet deixou de existir. As cidades são os protagonistas mais importantes das transformações dos territórios das últimas duas décadas. Sem um cuidadoso diagnóstico das dinâmicas urbanas, não há hoje planeamento social e económico regional consistente nem acção política eficaz. 
Esta linha de trabalho, que foi lançada nos finais da década de 80 por, entre outros, João Ferrão, em torno do conceito de "cidades médias" merece ser retomada e actualizada. E o contributo da "teoria" das cidades criativas não é evidentemente aqui impertinente.

sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

Aos que não cometem erros

Não direi que erro é a medida da reflexão, como queria Heidegger. Mas recordarei o que respondeu George Steiner quando o confrontaram com juizos errados que proferira no passado: “Os erros são as consequências das minhas paixões. Não as posso negociar”.

A caminho de Viseu

Ontem saí de Lisboa, pela Avenida Infante D. Henrique, já a noite caía sobre o rio. Comigo levava a memória viva do reencontro, à mistura com os sons e as cores do Chiado (agora que me tornei um cidadão da Baixa lisboeta). Hesitei entre rádio e cd e decidi-me pelo silêncio, que é um bom companheiro de viagem. Do meu lado direito, aquele enorme e inesperado disco branco parecia seguir o mesmo trajecto. Uma presença/evocação/inspiração feminina (diz-se que a lua deposita segredos nos dedos das mulheres) que só em Santarém se afastou, tomando, enfim, a altura habitual. Fazia frio, em Viseu.

quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

Intolerance (II)

Que me perdoe o João Jales por voltar ao Intolerance, filme a propósito do qual abriu aqui uma polémica. Na Estação do Rossio (não, não estou a puxar pelas coincidências, mau grado o comentário sobre a lentidão dos combóios do Oeste hoje colocado também por JJ) há uma feira do livro (fundos editoriais). Adquiri aí algumas obras editadas pelo extinto Independente. Entre elas, umas Cartas do Brasil Seguidas de Os Verdes Anos da República de 1910, de Chianca de Garcia, cineasta português, realizador, entre outros filmes, de Aldeia da Roupa Branca. Numa crónica intitulada "Cinema", publicada inicialmente na edição de 31 de Maio de 1980 do Diário de Lisboa, Chianca conta os quiproquós que estão na origem da sua carreira no cinema.

Então, uma tarde, ao saír de um cinema onde acabara de ver o filme Intolerância de um americano chamado Griffith, e que o [o autor refere-se a si próprio na terceira pessoa] deixara boquiaberto, ouviu, nas suas costas, alguém que pronunciava em voz alta o seu nome: - Ó Chianca de Garcia, você também gosta de cinema?
Era José Leitão de Barros, espírito inquieto, homem das mais variadas iniciativas, pintor, jornalista, professor, e de quem Lisboa ainda por certo recorda um filme que ele iria dirigir uma década depois, A Severa.
- Você viu a Intolerância e não sente que o teatro, hoje, não passa de arqueologia?
E sorria com um riso quase mordaz: - Abra os olhos. Sonho, quem o tem é o cinema. A arte do nosso tempo, a arte do nosso século...
[...] Durante semanas ao encontrarem-se só falavam de cinema. O autor, por sua vez, e, embora espontaneamente, não saía mais das salas obscuras do cinema. Ainda a preto e branco. Ainda sem som. Mesmo assim, cada vez mais empolgado. Até que um dia disse-lhe Leitão de Barros: - Vou editar um semanário ilustrado a cores. Preciso de gente nova, e com ideias novas. Tenho gostado de ouvir as suas opiniões sobre os filmes que tem visto. Agrada-lhe, por acaso, a ideia de ser o meu crítico cinematográfico?
[...] E quando por fim, vários meses depois, saíu o primeiro número do novo jornal de Leitão de Barros, lá estava o meu artigo, que foi também o último. Isto porque eu, segundo ele, tinha indignado os meios cinematográficos ao afirmar que o cinema, enquanto não tivesse som e o dom da palavra, ainda não seria uma arte. Sim, fui despedido.

Numa entrevista de Manoel Oliveira a João Bénard da Costa (exposição de Serralves aqui referida em Setembro), o cineasta - que começou no mudo - recorda que os cineastas do mudo sublinhavam a expressão artística original do cinema precisamente pela razão inversa de Chianca: o cinema mudo não precisava do som, como o teatro ou a música. Talvez por isso, foram poucos os cineastas do mudo que fizeram carreira no sonoro. Griffith exemplifica-o: pouco trabalhou quando o sonoro se impôs.

Depois da ceifa

"Que só aos gatos"

Despedida

Junho chegara ao fim, a magoada
luz dos jacarandás, que me pousava
nos ombros, era agora o que tinha
para repartir contigo,
e um coração desmantelado
que só aos gatos servirá de abrigo.

Eugénio de Andrade, Os Dóceis Animais, Asa, Porto, 2004, p. 21

quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Santa Cruz, Dili, Timor Leste

Foi aqui que começou, há 17 anos, o fim da ocupação indonésia de Timor Lorosae.
Fotos de Fevereiro de 2006 (JBS)
A primeira foto mostra um local de homenagem às vítimas do massacre. O homem que se encontra junto desta espécie de altar está a oferecer um maço de tabaco. Retirou os cigarros da embalagem e começou a dispô-los junto da fogueira.







terça-feira, 11 de Novembro de 2008

De Lisboa às Caldas em 1817


Obra anónima constituida pelos diálogos entre dois doentes a caminho do hospital das Caldas em 1817. O autor glosa o tema da avareza e da cobiça, em tom jocoso. Particularmente interessante é o percurso dos viajantes. Vou tentar reconstitui-lo.
Partem de Lisboa pelo caminho de Loires. Avistam Santo António do Tojal. Passam pelos Moinhos da Agonia e pela Ermida de Santa Anna, onde fazem uma refeição. Seguem pela estrada da Cabeça (ou Cabeço) até à Estalagem da Cabeça, onde fazem outra refeição. Continuam pela Enchara, Mata da Guerra, até Runa (ou Ronha) onde pernoitam. No dia seguinte, vão pela Quinta das Lapas, Abrunheira, Quinta da Bogalheira, Casal de S. Gião, Casal dos Ferreiros até à Estalagem dos Fornos na Zambujeira, onde chegam já ao fim do dia e pernoitam. Ao terceiro dia, dirigem-se a Roliça, passam pela Columbeira, avistam Óbidos, entram na Igreja do Senhor da Pedra e fazem uma refeição nas imediações, antes de se deitarem ao caminho para a última légua deste demorado trajecto.
Ah, já me esquecia: os viajantes deslocaram-se em machos.

Efeitos sociais da crise

Com a imprensa portuguesa distraída com o caso BPN, transcrevo parte do texto publicado na edição de hoje do Le Monde:
Num contexto económico super pesado, agravado pela chegada dos primeiros frios, as associações de luta contra  a pobreza afirmam que começam a observar, no terreno, os primeiros efeitos da crise. O Socorro católico publicou, no dia 13, o seu relatório anual, intitulado este ano Famílias, infância e pobrezas. A associação, que ajudou 1,4 milhões de pessoas em 2007, põe em destaque a parte cada vez mais significativa de pessoas com mais de 50 anos nos centros de acolhimento. "Muitas famílias em situação de precariedade vêm procurar alimento e vestuário nos nossos centros para poderem pagar a renda de casa", refere um funcionário da instituição. A nota redigida pela Cruz Vermelha francesa não é muito diferente: "A situação continua a degradar-se. Os pobres estão cada vez mais pobres e outras camadas da população estão a ficar mais frágeis", explica Didier Pillard, director da acção social. "Há novos públicos a apresentarem-se, desde o princípio do ano, nos nossos 650 pontos de distribuição alimentar e nas nossas lojas alimentares especiais; os reformados são em número cada vez maior; mas também trabalhadores pobres a tempo completo, funcionários municipais e estudantes". A rádio local de Toulouse constatou uma subida de 100% da população que acorre à lojas alimentares especiais. Em Redon (Ille-et-Vilaine) aumentou 26% num mês. Sensíveis à crescente impotência das populações com que lidam, quatorze grandes associações de luta contra a pobreza, membros da rede Uniopss, tencionam tocar o sinal de alarme, a 28 de Novembro, junto dos poderes e da opinião pública. 

"Sombras inquietas que contra mim se amotinam"

Volto à casa e demoro-me nos quartos frios do silêncio.
Esconderam os retratos dentro dos livros. E os livros
nas gavetas. E fizeram as camas para sempre de lavado.

O que aqui me fustiga é o teu nome, rente aos lábios,
mas quase sempre por dizer; e as sombras inquietas que
contra mim se amotinam atrás de cada porta, desafiando
os calendários. Sou uma máscara recortada nos vidros e

regresso para visitar um teatro vazio depois das palmas.
Os cenários estão mortos e, junto ao palco, já nenhuma luz
ilude ou alucina. Só mesmo a memória do teu nome, soletrado
agora por uma outra voz, longe daqui, ou a imagem de uma mão

a despir-te de todos os mantos, devolvendo-te ao primeiro
frio de ternura - como a espuma da onda mordendo lentamente
na areia o corpo do amante que, ao fim da tarde, ferido
pelos punhais do abandono, veio para se entregar à praia.

Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica, Lisboa, 2002, p. 72

Mais "bicas" no Arquivo Distrital

Programa provisório das "bicas" 2008/2009 (sempre às 18 horas):
- 4 Dezembro 08 – sessão de abertura: Imprensa Regional, imprensa de proximidade
(João Bonifácio Serra, docente na ESAD.CR, Comissário Nacional para as Comemorações da República)
28 Janeiro 09 – A imprensa Regional no regime monárquico
(Alda Mourão e Catarina Sismeiro, docentes na ESEL)
25 Fevereiro 09 -  A Imprensa Regional na 1ª República
(Acácio Sousa, director do Arquivo Distrital de Leiria)
- 25 Março 09 – A Imprensa Regional no Estado Novo
(Miguel Ângelo Portela, Figueiró dos Vinhos)
- 29 Abril 09 – A Imprensa Regional Católica
(Sandra Duarte, investigadora)
- 3 Junho 09 – A Imprensa Regional no regime democrático
(Carlos Camponez, docente na FLUCoimbra)

segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Os professores ganharam a rua. E agora?

Escrevi aqui, depois da manifestação de 8 de Março, que, perante uma ausência ou fraqueza geral dos instrumentos de mediação política, os ganhos na rua podiam não obter correspondente tradução institucional. Os professores fizeram prova concludente da sua mobilização contestatária há 10 meses. Que aconteceu desde então?
No passado sábado, ouvimos a Ministra da Educação afirmar que na instância negocial criada com os Sindicatos - a chamada Comissão Paritária - não tinham sido apresentadas situações que exigissem ponderação e alteração dos dispositivos da avaliação de desempenho. No domingo seguinte, ouvimos o dirigente sindical desmentir a Ministra, argumentando que tinha entregue um relatório a 14 de Outubro.
Espero ter ouvido mal. Um Sindicato entrega um documento crítico a 14 de Outubro e convoca uma manifestação para 3 semanas depois? A 14 de Outubro não estava já em cima da mesa a data de 8 de Novembro? Mais: a manifestação de 8 de Novembro foi agendada pelo Sindicato para responder à resposta dada pelo Ministério ao documento de 14 de Outubro, ou para garantir uma antecipação relativamente a uma outra manifestação de professores convocada por entidades não-sindicais para dia 15 de Novembro?
O que é hoje para mim evidente é que o Sindicato não soube assegurar nem conduzir o processo negocial sobre a avaliação.
Pode perguntar-se, legitimamente, se um Sindicato de Professores tem essa capacidade, ou seja, se a matéria implicada no tema da avaliação é de natureza sindical. A meu ver é uma matéria com incidência sindical, mas é duvidoso que seja predominantemente sindical, uma vez que respeita tanto ao estatuto e carreira docente, como à organização das escolas.
Mas mesmo que admitamos estar perante uma matéria fundamentalmente sindical, o que me parece é que o Sindicato dos Professores desenvolveu nos últimos 30 anos uma perspectiva de trabalho limitada aos temas estritamente sindicais: remunerações e regimes de trabalho e progressão dos professores. Durante estas três décadas, o Sindicato dos Professores conduziu a sua acção sindical na lógica da Frente Comum dos Sindicatos da Função Pública (e, de forma mais ampla, na da CGTP). Daí resultou um afunilamento da condição de professor, na visão e na prática sindical, na condição de funcionário público. 
E serão os professores funcionários públicos? A meu ver, a pergunta e o debate subsequente fazem sentido.
E fazem tanto sentido, que posso adivinhar no protesto dos professores um grito, porventura difuso, mas real, contra o que pode ser entendido como um processo de funcionalização da actividade docente! Assim sendo, a revolta dos professores dirige-se, em partes equivalentes, contra o Ministério e contra o Sindicato.
O Sindicato falhou como instância de mediação. E falhou porque os objectivos e estratégia a que se subordinou não lhe permitem intervir nos novos termos em que se equaciona hoje a condição de professor. O Sindicato não é interlocutor para a mudança e não protagonizou, dos anos 1980 até hoje, qualquer proposta inovadora sobre a organização e o quotidano escolar.
De modo que o desafio que está colocado aos professores e às escolas é como transformar a vitória da mobilização de rua em ganhos na escola - ganhos que permitam qualificar o trabalho docente e o papel da escola na sociedade.
Esse é um desafio bem complexo e exigente. Os professores teriam a vida mais facilitada, neste aspecto, se as relações com a tutela não estivessem inquinadas por um discurso tão "anti-professor", como aquele que é veiculado pelos próceres do Ministério da Educação. É preciso portanto descobrir, para professores e, sobretudo, para as escolas, interlocutores noutras áreas da sociedade e da vida institucional.

1º Centenário da Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro Lda

A inauguração da Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro L.da teve lugar a 5 de Novembro de 2008. Passou pois na passada Quarta-feira, o primeiro centenário desta empresa emblemática da cerâmica caldense.
Para situar a fundação desta nova manufactura é preciso recuar a Janeiro (23) de 1905, à data da morte de Rafael Bordalo Pinheiro. Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, filho de Rafael, tomou conta dos destinos da unidade que seu pai dirigira desde 1884, denominada Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. A sucessão foi considerada natural. Manuel Gustavo há muito que colaborava com seu pai, nomeadamente na actividade gráfica. Sucedia porém que sobre a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha impendia uma velha hipoteca, no valor de 18 contos, contraída em 1889 junto de uma Sociedade que mais tarde a cedera ao Banco de Portugal. Em finais de 1906, decidiu este banco executar a dívida. Em Fevereiro de 1907, é realizado o auto de penhora, sendo apreendido o prédio da Fábrica. Em seguida, procedeu-se à sua venda em hasta pública, o que só veio a ser concluido a 12 de Janeiro de 1908, na 3ª hasta. Adquiriu a Fábrica de Faianças um investidor originário de Reguengos de Monsaraz, Manuel Augusto Godinho Leal, sogro de um médico do Hospital Termal das Caldas, Manuel António Martins Pereira. Godinho Leal era já proprietário de uma extensa área confinante com os terrenos da Fábrica de Faianças. Entre o novo proprietário da Fábrica e o filho e a viuva (Elvira Bordalo Pinheiro) de Rafael estalou de imediato um diferendo litigioso. Em causa estava a posse dos modelos e moldes, utensílios diversos, objectos e louças, livros, desenhos, ou seja o recheio dos edifícios. Os Bordalo Pinheiro entendiam que a hipoteca só abrangia o imóvel, pertencendo-lhes todos os bens móveis da empresa. Com esta questão entregue à justiça, Manuel Gustavo, com o apoio da sua mãe, requereu, a 24 de Fevereiro de 1908, autorização para montar uma nova oficina de cerâmica numa propriedade denominada "San Rafael".  Esta propriedade, localizada nas imediações da Fábrica de Faianças, estava registada em nome de Helena Bordalo Pinheiro, também filha de Rafael. Manuel Gustavo dedicou a segunda metade do ano a organizar a nova unidade, a recrutar pessoal e a trabalhar em novos modelos. Para tal, contou com o apoio do Visconde de Sacavém, que colocou à sua disposição o Atelier Cerâmico que funcionava junto do seu palacete (hoje Museu de Cerâmica), distante, aliás, poucos metros de "San Rafael". A instalação concluiu-se em 5 de Novembro de 1908. A nova fábrica, ostentando na denominação o nome da família, Bordalo Pinheiro, foi durante muito tempo também conhecida por Fábrica "San Rafael".

Fotografia dos trabalhadores da Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, Lda. Manuel Gustavo está sentado, ao centro da primeira fila, atrás dos 3 aprendizes.

domingo, 9 de Novembro de 2008

Esquinas de Álvaro Siza

1. Alvaro Siza (montagem efectuada para exposição realizada no Museu de Serralves (foto JBS)
2. Casa de Chá da Boa Nova, Leça da Palmeira, Matosinhos
3. Piscina de marés, Leça da Palmeira, Matosinhos
4. Edífício da Boavista, Porto
5. Bairro social em Haia, Holanda
6. Bairro social da Malagueira, Évora
7. Requalificação de S. Victor, Porto
8. Pavilhão de Portugal, Expo 98, Lisboa
9. Igreja de Santa Maria, Marco de Canavezes
10.Centro Galego de Arte Contemporânea, Santiago de Compostela
11.Serralves, Museu de Arte Contemporânea, Porto
12.Faculdade de Arquitectura do Porto
13.Reservatório de água, Universidade de Aveiro (foto JBS)














Mensagem de Mr. Joseph Louis A. Silva

Recebida ontem, no meu velho telemóvel, às 20 horas (TMG):
"Afinal não é só a Gazeta que te faz a corte, uma vez que também o Esprex e um tal Joseph Peter Chestnut te não perdoam".

Glossário:
Gazeta - Gazeta das Caldas, um periódico local muito popular e influente.
Esprex - Expresso, um periódico nacional igualmente muito popular e influente
Joseph Peter Chestnut - José Pedro Castanheira, jornalista do Expresso.
"te não perdoam" - referência a texto publicado no suplemento Actual da edição de ontem do Expresso sobre a exposição "José Relvas, o conspirador contemplativo".
Joseph Louis A. Silva - ver, neste mesmo blog, o post "Que las hay, la hay" e respectivos comentários.

sábado, 8 de Novembro de 2008

O regresso da palavra

Obama restaurou a política como exercício da palavra. Há aqui um regresso ao espaço público enquanto espaço de vida colectiva, onde as regras essenciais assentam no princípio da persuasão. Neste sentido, Obama trouxe de volta as inovações oratórias dos anos 60: um discurso não é a leitura de um documento, mas um exercício de apresentação de um responsável político perante os seus concidadãos. Importa que os seus argumentos sejam o resultado de uma análise de situação sem temor de revelar o sentimento. O dirigente expõe-se quando expõe, não se esconde por detrás de um papel ou de um teleponto. Numa época em que o espaço público foi ocupado pelo espaço mediático e tende a confundir-se com ele, o exercício de Obama coloca de novo a política no seu território mais exaltante. O território onde a voz clara combina prosa e poesia, o nós com o eu, e o político convoca os cidadãos para lhes dizer olhos nos olhos o que sonha e quer.

sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

"Que monstro devorou a nossa eternidade"?

"OS IDOS DE 60

em memória de meu irmão António (1952-1972)

Dizem que foi a década de todas
ou, enfim, das maiores
convulsões sociais e de costumes.

Cá no rectângulo pouco se notava
embora já houvesse televisão
e vanguardas literárias
a algumas mulheres tomassem já a pílula
e as primas mais velhas começassem
a usar mini-saia.

Era uma época diferente:
ensinava-se ainda a respeitar
a autoridade dos mais velhos
e a venerar a antiga trilogia
em que já menos gente acreditava.
Nas escolas havia grandes mapas
de Angola, Moçambique e das restantes
províncias ultramarinas
para mostrar que Portugal media
bem mais do que  a Europa.
Aprendíamos tudo: a ler, a fazer contas
e a decorar sem saber como
todas as dinastias e batalhas,
todos os rios com os seus afluentes
e todos os ramais de cada linhas férrea.
Mais tarde, pouco a pouco, percebíamos
que o Mundo era maior,
que era uma coisa estranha e fascinante
e em 68 ou em 69
era através de ti que eu descobria
os Beatles e os Stones;
as canções de Bob Dylan protestando
contra a eterna guerra do Vietname;
as barricadas de Paris;
a dietilamida do ácido lisérgico
que alguns tomavam, como se o infinito
fosse apenas questão de bioquímica;
os livros e os discos proibidos
que toda a gente ouvia;
o retrato do Che, obrigatório,
que também tu quiseste pôr no quarto;
e as emissões de Argel em ondas curtas
que nas noites de férias escutávamos
com o prazer dos gestos clandestinos
pla madrugada fora
no pátio dessa quinta onde não mais voltei.

Era depois da morte, meu irmão
- pobre revolucionário do Vává,
adolescente em fuga até ao fim,
rebelde e todavia inofensivo
como outros James Dean da Avenida de Roma
com quem ias colar alguns cartazes
nas eleições de 69
irrompendo nas motos a alta velocidade
em busca de razões para salvar o mundo
ou nisso procurando simplesmente
alguma adrenalina.

Era depois da morte, irmão mais velho,
anjo de puro fogo ou puro vento,
paradigma dos meus anos 60,
confiando talvez noutro futuro
que nunca conheceste e sempre me pareceu
um tanto folclórico, é verdade
- porque eu, que já não fui revolucionário,
me habituei depressa a contemplar
os logros dessa década afinal
com o seu quê de sinistro
embora hoje tenda a comover-me
com os mitos fundadores da tua juventude
graças ao teu sorriso
cuja luz nunca soube decifrar.

Passaram trinta anos, cresceu já
isso a que chamam outra geração:
este rectângulo é mais europeu,
tornámo-nos um pouco mais parecidos
com o resto do planeta, mas não sei
que monstro devorou a nossa eternidade,
que sombra ocupa agora o teu lugar
neste mundo mudado, neste mudo
aceno do milénio quando volto
a esta década infantil
só pra te perguntar trinta anos depois:
porque me abandonaste?"

Fernando Pinto do Amaral, Pena Suspensa, D. Quixote, 2004

Perguntar a si próprio o que pode fazer pelo seu país

"Haverá reveses e falsas partidas. Há muitos que não concordarão com todas as decisões ou políticas que eu tomar como Presidente. E sabemos que o Governo não consegue solucionar todos os problemas.
Mas serei sempre honesto convosco sobre os desafios que enfrentarmos. Ouvir-vos-ei, especialmente quando discordarmos. [...] Convoquemos então um novo espírito de patriotismo, de responsabilidade, em que cada um de nós resolve deitar as mãos à obra e trabalhar mais esforçadamente, cuidando não só de nós mas de todos."
Barack Obama, discurso de vitória, Chicago, 5 de Novembro de 2008.

quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Bordalo em Óbidos

Passagem por Óbidos, onde Ana Calçada está a desenvolver um programa de exposições com diversas passagens pela cerâmica. Há um mês, Eduardo Constantino. No final de Novembro, Bordalo Pinheiro, a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Oportunidade também para alguns artistas contemporâneos apresentarem propostas em confronto com o imaginario cerâmico bordaliano. Tudo isto num momento em que passam exactamente 100 anos sobre o início de laboração da Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, fundada por Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro e Elvira Bordalo Pinheiro em 1908.

Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro retratado por seu tio, Columbano.


Primeira República

Pequeno mas interessado auditório na Biblioteca-Museu República e Resistência da Câmara Municipal de Lisboa para ouvir falar, ontem ao fim da tarde, do funcionamento da nossa República, entre 1910 e 1926.  O sistema baseado na supremacia parlamentar revelou, logo nos seus primeiros quatro anos de vigência, tensões, bloqueios e quebras de legitimidade, de que não podem ser responsabilizados apenas factores externos e conjunturais. O facto de a Constituinte ter procedido, depois de aprovada a Constituição, à designação dos órgãos nela previstos, sem recurso a nova eleições teve consequencias preversas. Os primeiros governos constitucionais não resultaram de um parlamento formado atravás de eleições expressamente convocadas para esse efeito. Não foram responsabilizados por uma maioria nem por um presidente em consonância com ela. O único grupo parlamentar dotado de alguma consistência e disciplina era minoritário. Os governos dispuseram de apoios parlamentares variáveis, o mesmo é dizer que se viveu desde o princípio instabilidade governativa. Os partidos que se constituiram em 1912 e partilharam pastas governativas não tinham passado pelo crivo das urnas.

quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

Terceira prova

Ao terceiro dia,  a prova era uma lição. Foi bom ter visto alguns alunos na sala. Afinal, dentro de poucos dias, completar-se-ão 38 anos sobre a minha primeira aula. Quantos estudantes, quantas escolas (do Liceu Nacional de Castelo Branco à Escola Preparatória Manuel da Maia, do Liceu Padre António Vieira ao Liceu D. Dinis, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, do Instituto de Ciências Sociais à Universidade Lusófona, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas à Escola Superior de Artes e Design), quantas disciplinas e quantas lições! Outra coincidência: a arguente desta lição, a Professora Magda de Avelar Pinheiro, tinha partilhado comigo, por um ano, e num tempo que já dista 30 anos, a docência de cadeiras orientadas pela Professora Miriam Halpern Pereira, e recordou-o. 
Agradeço a todos os que me acompanharam e me fizeram chegar as suas palavras nestes dias. E, como não podia deixar de ser, dedico a lição de hoje à memória do César Oliveira, por cuja mão e estímulo dei muitos dos passos com que aqui cheguei.

Já chega de emoção e memória. Há mais trabalho esta tarde, aqui.

"Change has came to America"

E trouxe alguma esperança à "velha" Europa e ao "novo" Mundo.
Hoje, "Ich bin ein amerikaner!"

Canto o canto do tempo.

"Mas quando o tempo se desliga do tempo e se transforma em boca, grandes molares negros e garganta sem fundo, queda animal num estômago animal sempre vazio, engano com canções selvagens a sua fome. Face ao céu equipado para o nada, canto o canto do tempo. No dia seguinte, nada me fica destes gargarejos. E digo-me. A hora não é de canções, mas de balbuceios. Deixa-me contar as minhas palavras uma a uma. "
Octávio Paz, traduzido por Mário Cesariny.

terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Carta ao futuro (I)

"E por não deixarmos sem juízo a controvérsia disputada entre as cousas novas e as velhas, certamente entre umas e outras não se pode dar regra certa. O tempo umas cousas melhora e outras corrompe: ouro velho, vinho velho, amigo velho; casa nova, navio novo, vestido novo. A velhice no ouro é preço, no vinho madureza, no amigo constância, no vestido pobreza, no navio e na casa perigo; absolutamente nas cousas que se consomem com o tempo, melhores são as novas.
[...] Todos dizem que os Antigos merecem maior louvor, e é assim; mas este louvor, se bem se considera, não é elogio da antiguidade, senão da novidade. Merecem maior louvor os Antigos, porque foram os primeiros inventores das cousas; logo da novidade é o louvor, pois o mereceram, quando as descobriram de novo."
Padre António Vieira, História do Futuro, vol I, cap. 11.

As mãos na água a cabeça no mar*

2º dia cumprido. Enquanto dou uma última revisão às matérias para amanhã, entro na fila para o voto global

*Título de um livro de Mário Cesariny.

Peixes que voaram

segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Prestar contas

Pausa. 3 dias em avaliação.
Tendo sempre presente - porque "já não somos jovens" - a canção de Elis.

Uma imagem à procura ...


... da sua legenda.

domingo, 2 de Novembro de 2008

Caldas-Leiria, final da década de 60

Um depoimento de João Jales, extraído do seu conto "Anna Karenina - 2", publicado no blog dos Antigos Alunos do Externato Ramalho Ortigão. Um belo texto de memórias, rico de informação e de interessantes observações. 

"[...] Leiria era muito diferente das Caldas. O ambiente era menos sofisticado, apesar da maior dimensão da capital de Distrito, o comércio menos atractivo, os espaços de convívio, como o parque e os cafés, menos animados, com menos gente nova e uma diminuta presença feminina. Uma aldeia grande, de abastados proprietários rurais, com vivências e costumes condicionados pelo bispo e a proximidade de Fátima.
Encontrávamo-nos habitualmente na Praça Rodrigues Lobo, já que o consultório do meu Pai se situava numa pequena transversal, a R. da Graça. Foi a existência desse consultório que motivou a instalação de duas lojas de óculos, que ainda hoje lá estão, uma na própria rua e outra na esquina. Logo a seguir havia o café Lereno, com uma esplanada sob as arcadas. Também continua no mesmo local, embora completamente remodelado e com outro nome. Nunca lá ficávamos muito tempo, a Teresa não queria ser ali vista comigo.
Atravessávamos a rua e íamos até ao parque, meia-dúzia de canteiros com duas ruas no meio e dois campos de ténis do outro lado do rio. Havia uns barcos para alugar e até alguns pescadores mas, em 1969, o Liz já estava muito poluído devido aos curtumes instalados a montante da cidade. Só mais tarde foram desactivados, mudando-se para a zona de Alcanena. Havia pouco que fazer naquele espaço, a “esplanada” existente por trás do edifício do Turismo era ao nível dos “tábuas” que eu costumava ver nas praias e tinha como clientes dois ou três idosos etilizados. O ténis estava habitualmente deserto, como confirmavam o Tó Zé Hipólito e o Jorge Pedro, habituados a jogar nas Caldas, onde os campos eram disputados e marcados com dias de antecedência; aqui bastava aparecer e jogar.
Os motivos de interesse em Leiria resumiam-se quase só ao castelo, que estava nessa época em muito mau estado de conservação, com pedras caídas e ervas por todo o lado. Depois de visitar um desolado salão e subir a duas muralhas, nada mais havia para ver. Tenho ideia de estar entregue ao exército, já que havia sempre soldados por todo o lado. Era um dos destinos dos nossos passeios.
As nossas conversas incidiam sobre as nossas leituras, éramos ambos leitores compulsivos, e sobre as músicas que ouvíamos … para ser mais exacto sobre música falava eu, já que a Teresa nem se atrevia a dizer o que ouvia e do que gostava, depois de ter sabido as minhas extremas e radicais opiniões sobre o que passava no Rádio Clube Português ou na Emissora Nacional em Onda Média. Só em FM se ouvia boa música mas, nessa altura, pouca gente tinha acesso à Frequência Modulada, à sua qualidade de emissão e melhores programas. Falávamos também das aulas, dos professores, dos colegas, dos estudos. Soube com espanto que o Liceu de Leiria não tinha turmas mistas, excepto nalgumas disciplinas do 6º e 7º Ano, que tinham muito poucos alunos. Soube, mais tarde, que só após o 25 de Abril esta prática foi abandonada, o que mostra o conservadorismo reinante na capital do distrito. A Teresa nem queria acreditar que num colégio “de padres”, como o Externato Ramalho Ortigão, eu nunca tinha conhecido turmas unisexo, enquanto ela, no Liceu, nunca tinha estado numa turma mista!
Nunca soube exactamente onde morava, ela fugia dessa área, com medo da família e dos vizinhos, passeávamos sempre na zona central, lanchando ocasionalmente na Pastelaria Soraya, com um ambiente bem diferente da Zaira apesar da presença de algumas senhoras, e onde rareavam, ou nem existiam, casais da nossa idade. Mas, diga-se em abono da verdade, nunca me pareceu sermos alvo de qualquer curiosidade ou coscuvilhice dos frequentadores, talvez o facto de sermos ambos desconhecidos naquele meio nos fizesse passar despercebidos. Só o velho empregado, fardado, parecia exibir delicadezas e cerimónias exageradas, mas éramos imunes a esse tipo de ironia, motivada pela nossa idade. Além da Soraya havia o Lísea, em frente ao Parque, frequentado pelos proprietários rurais e políticos locais, mas não era um local para gente nova. O Café Santiago, com restaurante em cima, era semelhante no conceito, mas ficava a milhas da qualidade do “nosso” Capristanos! Situava-se na zona do mercado, para onde a cidade se começava a expandir. Em frente havia o Colonial, com bilhares, mas nunca lá fui com a Teresa, as meninas não jogavam bilhar.
[...] Leiria não ajudava. Não me lembro de haver um museu em Leiria, o parque era minúsculo e pouco frequentado, a sua esplanada era parecida com as barracas do Levy existentes no Parque D. Carlos I, nos anos 40, e que eu só conheci em fotografias, claro. Os cafés eram soturnos, ver montras era um exercício entediante, havia um só cinema (inaugurado em 66; quando lá fiz a 4ª classe, em 64, só existia um barracão de madeira). Diziam-me os amigos que lá moravam que às oito horas a cidade morria, não se via vivalma. Nunca fui obviamente aos bailes do Ateneu nem do Ginásio de Leiria (onde residia então o já famoso Orfeão, uma excepção numa cidade culturalmente adormecida). Mas todos me garantiam que esses bailes não tinham a animação e a frequência do Lisbonense e do Casino. Muitos leirienses faziam uma hora de caminho para os frequentar nas décadas de cinquenta e sessenta. Como vinham também às compras à Góia , à Tertúlia, à Tália e ao Turita, por exemplo.A malta nova encontrava-se na sede da Mocidade Portuguesa, junto ao Hotel Liz, frente ao velho Hospital, do outro lado do rio. Muitos deles fardados, o que era, para mim, um espectáculo inusitado nessa época. Vi juntarem-se ali jovens do Liceu e da Escola, apesar da rivalidade que se dizia existir entre eles. Mas quando soube que se “insultavam” de “papo-secos” (Liceu) e “broas” (Escola), percebi que não era grave…"
A imagem reproduz um bilhete postal da época, com uma fotografia da cidade de Leiria tirada do castelo.

sábado, 1 de Novembro de 2008

Guarda-Livros (V)

Como não podia deixar de ser, neste dia, e em especial para a Teresa Perdigão (as coisas são como que são!).

Doces terrores (para a Guidó, com humor... negro)

"É de manhã.
O rapazinho correu a atravessar a Avenida Madero. Passou através do perfume a incenso que vinha de muitas igrejas e do cheiro a carvão de milhares de almoços que se estavam a cozinhar na cidade. Envolviam-no pensamentos de morte. Nessa manhã, a cidade do México estava fria, com presságios de morte. Por toda a parte, havia sombras de igrejas e mulheres vestidas de preto e o fumo das velas e das brazeiras trazia-lhe às narinas um cheiro a morte. E o rapazinho não achava nada disto estranho, pois neste dia todos os pensamentos eram de morte.
Era El Dia de Muerte, o Dia de Finados.
Nessa data, até nos acantos mais remotos do país havia mulheres sentadas em frente de tabuleiros a vender caveiras de açúcar branco, cadáveres de açúcar candi para serem chupados e comidos. Em todas as igrejas se rezavam ofícios e em todos os cemitérios havia velas acesas. Bebia-se muito vinho e cantava-se em voz de falsete.
Raimundo corria, sentindo dentro de si o universo; todas as coisas que o tio Jorge lhe dissera, tudo aquilo que ele próprio contemplara com os seus olhos. Nesse dia garndes coisas deviam acontecer em lugares longínquos como Guanajuato e no lago Patzcuaro. Aqui mesmo, na grande praça de toiros da Cidade do México, estavam a esta hora os trabajandos a alisar a areia, enquanto se iam vendendo os bilhetes, e os toiros, com o nervosismo, urinavam continuamente, de olhos esbugalhados e fixos, escondidos nos curros, à espera da morte.
No cemitério de Guanajuato, os grandes portões de ferro encontravam-se abertos de par em par para que os turistas pudessem descer a sombria escada de caracol que entrava pela terra dentro e fossem passear nas catacumbas onde morriam os ecos, e contemplar as múmias rígidas como brinquedos, encostadas às paredes. Cento e dez múmias solidamente ligas à pedra com arames, de bocas escancaradas pelo horror e olhos encarquilhados. Corpos que rangiam quando alguém lhes tocava.
No lago Patzcuaro, na ilha de Janitzio, as grandes redes de pesca adejavam quais borboletas, para apanharem os peixes prateados. Toda a gente da ilha - dominada pela gigantesca estátua do Padre Morelo - começara já coma cerimónia de beber tequilha, dando assim início às celebrações do Dia de Finados.
Em Leñares, uma pquena vila, um camião atropelara um cachorro e nem sequer se dera ao trabalho de parar para ver o que fizera.
O próprio Cristo encontrava-se em todas as Igrejas agonizante e coberto de sangue.
E Raimundo corria, banhado pela luz de Novembro, Avenida Madero adiante.
Oh, que doces terrores! Nas montras alinhavam-se as caveiras com nomes escritos nas níveas frontes: José, Carlota, Ramona, Luisa! Tudo pintado com chocolate nas caveiras e ossos cristalizados.
O céu, lá no alto, era de esmalte azul e a relva lembrava uma chama verde, enquanto ele passava a correr diante das glorietas. Levava apertada na mão uma moeda de vinte centavos com que poderia comprar muitos doces, tais como pernas, queixadas, costelas pra chupar. Nesse dia era possível comer a Morte [...]."
Ray Bradbury, "Dia de Finados". Conto inserido na colectânea As Máquinas da Alegria. Trad. portuguesa, Livros do Brasil, s.d [1ª ed. americana 1949].