domingo, 30 de novembro de 2008

Aos Domingos

Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo

[...] Eles ganham mas às vezes perdem. Eles vivem mas às vezes morrem. Sempre que sofrem um golo impossível, sempre que no último minuto se deixam bater e um resultado muda, é uma pequena morte. Um esquecimento negro esconde no olhar dos adeptos todas as defesas, todas as intervenções positivas dos restantes minutos.

Como se cada jogo fosse um julgamento perante um júri que nada perdoa, nada esquece, nada se dispõe a disfarçar.

Eles ganham mas às vezes perdem. Eles vivem mas às vezes morrem. Nos domingos à noite, quando as sombras abrem as portas do silêncio, os guarda-redes - então - morrem.
Envolvem-se na morte da qual não se podem defender porque esse momento errado, esse lance perdido é um remate impossível de travar.

Algures entre Lisboa e Salvaterra de Magos, numa manhã de Dezembro, uma trompete deve ter levantado meio em surdina as notas da fama suspensa na memória dos adeptos em multidão para trazer esse som amargo e tenso ao rés da terra. A mesma árvore de onde eles nascem como árvores humanas.

Os guarda-redes morrem ao Domingo.

José do Carmo Francisco, Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo. Lisboa, Padrões Culturais Editora, 2002

4 comentários:

Queirosiana disse...

Domingo, não é dia para se morrer!
Diz a Lua...porque de futebol,não percebo nada!

Isabel X disse...

Sem dúvida: só o futebol garante agora a devoção dantes própria das religiões.
-Isabel X -

Anónimo disse...

Há um síndrome de guarda-redes ao Domingo em muitos de nós.
MT

Obi-Wan disse...

Este texto é para dedicar ao Quim do Benfica que em 3 jogos sofre 13 golos. O último aos 91 minutos de jogo. Um grande "peru" que negou a ascensão do Benfica ao primeiro lugar do campeonato.