quinta-feira, 13 de novembro de 2008

"Que só aos gatos"

Despedida

Junho chegara ao fim, a magoada
luz dos jacarandás, que me pousava
nos ombros, era agora o que tinha
para repartir contigo,
e um coração desmantelado
que só aos gatos servirá de abrigo.

Eugénio de Andrade, Os Dóceis Animais, Asa, Porto, 2004, p. 21

3 comentários:

Anónimo disse...

Claro, Eugénio e os gatos!

Chega ao fim o verão, resta-me agora
a poesia a caminho da prosa.
Pelo lado matinal
um gato pé ante pé aproxima-se
de um pardal saltitando
entre as fohas amarelas...

MT

Manuela Gama Vieira disse...

Um dia branco

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos

Um dia em que se possa não saber


Sophia de Mello Breyner Andresen
Antologia
Moraes Editores
1975

Anónimo disse...

Eugénio, o coração não tem "agora"...é intemporal...e brilha SEMPRE, como a luz dos jancarandás!

mmgv