sexta-feira, 10 de outubro de 2008

"Recordar"

- Porque sou assim louco? - o velho sentou-se e começou a comer devagar, tirando uma ervilha de cada vez do prato que lhe tinha sido de novo colocado na frente. - Sim, eu sou louco. Como começou esta minha loucura? Aqui há muito anos, pus-me a observar as ruínas do mundo, as ditaduras, os estados e as nações depedaçados, e disse comigo: que posso eu fazer? Eu, um homem velho e fraco? Reconstruir toda esta devastação? Iso sim! Mas uma noite em que me encontrava meio a dormir, senti tocar dentro da cabeça um velho disco de gramofone. Duas irmãs chamadas Duncan costumavam cantar, quando eu era pequeno, uma canção chamada "Recordar". "Nada mais posso fazer do que recordar, querido. Por isso, recorda tu também!" Cantei essa canção e deixou de ser uma canção para se transfomar numa norma de vida. Que tinha eu para oferecer a um mundo que estava a esquecer tudo? A minha memória! De que podia isto servir-lhe? Fornecendo-lhe um termo de comparação, mostrando aos jovens como tudo era dantes, fazendo-os apreender tudo o que tínhamos perdido. Descobri que quanto mais recordava, mais conseguia recordar! Consoante as pessoas junto de quem me encontrava, lembrava-me de flores artificiais, telefones de marcador automático, frigoríficos, pífaros (o senhor já alguma vez tocou pífaro?), dedais, molas de bicicleta (refiro-me a molas para prender as calças dos ciclistas). Não é estranho tudo isto? Coberturas de sofás... Sabe o que é? Um dia um homem perguntou-me se eu me lembrava como era o tablier de um Cadillac. Eu lembrava-me e descrevi-lho com todos os pormenores. Ele ouviu e começaram a escorrer-lhe grossas lágrimas pela cara abaixo. Lágrimas de tristeza ou de alegria? Não sei dizer. Só sei recordar. Não conheço a literatura. Não, nunca tive cabeça para peças de teatro ou para poemas; passam-me de ideia, morrem. O que eu sou é um monte de restos de uma civilização que desapareceu num abismo.
Ray Bradbury, O Abismo de Chicago. Lisboa, Livros do Brasil, 1963 [1ª edição, em 1949]
Capa de Lima de Freitas.

4 comentários:

J J disse...

Li este conto num dos livros da Colecção Argonauta, que o meu tio possuía integralmente.
Uma reflexão sobre a perda de tudo o que consideramos como certo e, por isso, não valorizamos. Desde o café e os cigarros, que são as recordações com que julgo que começa a estória (escrita noutros tempos...) até à amizade e o amor, passando pelos jogos, os passeios, a paz, a boa comida... Tudo é aqui recordado como passado, dizendo-nos que, ao contrário do que julgamos, nada é certo nem seguro. Uma parábola sobre os nossos tempos? Precisamos todos de fazer algo para que não o seja!

Luis Eme disse...

todos somos montes de restos...

boas vindas à blogosfera.

Joao B. Serra disse...

Coloquei agora a imagem da capa, da autoria de Lima de Freitas. Lembrava-se dela, JJ?
Obrigado, Luis Milheiro, pelas boas vindas.

J J disse...

Não só me lembro da capa, como me lembro do autor da ilustração. Em 1981 falei com ele, com uma carta de apresentação de uma amiga comum, quando procurava um emprego e um rumo para a minha vida. Estava ele na altura no Palácio Foz, ocupando um cargo na Secretaria de Estado da Cultura. Lima de Freitas foi muito afável, bebemos uma bica nos Restauradores, conversámos sobre livros (eu nada sabia de pintura) e concluímos que eu não tinha qualquer talento ou habilitação que ele pudesse utilizar.
Gostei de o conhecer, embora só o reencontrasse uma vez mais até à sua morte,há cerca de 10 anos.