sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Pero que las hay, las hay

Parámos o carro alugado numa rua deserta àquela hora, nas imediações da zona portuária. Era relativamente tarde. Tínhamos jantado num restaurante de comida mexicana em Harvard, de ambiente aquecido pela frequência jovem e pela profusão de margueritas. Enfrentámos, por isso, sem dificuldade, o frio da noite na zona baixa de Boston. Nenhum de nós estivera antes na cidade, não sabíamos o que podíamos encontrar. Os contactos que nos estavam destinados tínhamo-los deixado à saída do restaurante.
O movimento e a iluminação das ruas, com os edifícios fechados, eram escassos. Começáramos a duvidar do acerto da escolha, quando desembocámos numa pequena praça rectangular, aberta de um dos lados. Dispostos ao longo dos passeios, presumivelmente junto das casas onde ficavam recolhidas durante o dia, encontrámos bancas de frutas e bebidas não alcoólicas acamadas em gelo moído. As bancas estavam assentes em apoios com rodas e engalanadas com balões e recortes de papel colorido. Começava ali a animação nocturna da praça. No tabuleiro central, dois quiosques de traça oitocentista, onde se vendiam máscaras, velas, bonecos insufláveis, bruxas de pano e de madeira, um sem número de alfaias do Halloween. - Oh, então é isso? – exclamou o António, que já fizera antes visitas prolongadas aos Estados Unidos, identificando, antes de qualquer um de nós, o significado daquele cenário. – A Festa das Bruxas! Adultos e crianças, vestidas com indumentárias alusivas e transportando velas e abóboras iluminadas circulavam na praça, gritando e pulando em pequenos grupos, provocando-se uns aos outros.
Deixámo-nos envolver por aquele ambiente estranho para nós. Adquirimos máscaras e velas, vassouras e panos e procuramos um banco para fazer a nossa festa de sumos e batidos de frutas exóticas. Naquela praça, todos os bancos tinham um lugar ocupado por uma estátua em bronze de uma personalidade – escritor, cineasta, centista, político – com ligação ao local. Escolhemos para companhia um personagem singular, pois tinha um pé sobre o banco enquanto o outro estava cravado ao chão, em pose de amena conversação com um amigo imaginário que permanecesse sentado.
– Boa noite, és servido? – perguntei eu delicadamente.  
– Não te queres sentar? – perguntou o Nuno, e todos sorrimos. Mas o nosso interlocutor não se deu por achado. – Preciso de uma máscara – proferiu, num inglês de pronúncia britãnica. – Aqui tens - exclamou o experiente António, no Halloween tudo é possível, até as estátuas falarem. – Fica com a minha – disse eu – usarei a que comprei para oferecer ao meu filho Pedro. Era uma cara de bruxa de cabeleira desgrenhada. O António colocou-lhe na mão uma vassoura e o Nuno atou-lhe à volta da cintura um saiote preto com remendos.
Conversamos animadamente toda a noite. De Boston e Lisboa, com um saltinho até às Caldas, de que o nosso interlocutor (um jornalista que fizera a cobertura da famosa “Revolta do Chá”, como nos confidenciou) lamentavelmente ainda não ouvira falar.
Partimos, com a manhã rondando o horizonte. Não escondemos a emoção da despedida. Ele recusou delicadamente todas os convites que lhe fizemos. – Lamento, mas tenho que ficar, tenho ainda muitas reportagens para fazer. Não posso abandonar, nem por um dia, esta praça. Mas gostaria que levassem convosco uma lembrança deste noite. Eu posso adivinhar o que farão daqui a 20 anos. 
Olhámo-lo intrigados e curiosos. Daqui a 20 anos? Caminharemos então para os 60 anos. Estaremos vivos? Continuámos a recolher os adereços. O Nuno retirou o saiote.  – Tu serás Ministro da Defesa! – sentenciou a estátua. O António recuperou a vassoura. – Tu serás comentador da Televisão e da Rádio. Eu fui-lhe tirar a máscara. – Tu … não vejo muito nítido o que farás daqui a 20 anos. Vejo-te a andar de um lado para o outro. Que estranho: há um aplauso.  – Um aplauso? – Sim, um aplauso, uma seta para cima. Terás uma na 
Gazeta das Caldas. Eu devo ter franzido a testa, incrédulo. Mudando subitamente do inglês britânico para o castelhano hispânico, acrescentou: – No creo en las brujas, pero que las hay, las hay.
* * *
Aceitando  sugestão do Pedro, um video de Mestre Tim Burton:

10 comentários:

Manuela Gama Vieira disse...

O vaticínio não poderia estar mais de acordo com a frase de baptismo do seu Blog: "O que eu andei..."
Por las dudas....yo también no creo en las brujas, pero que las hay, las hay!!!

Obi-Wan disse...

Espectacular! Tão real que depois de ler até parece que estive lá.
Aqui fica um pequeno video do mestre Tim Burton.

http://www.youtube.com/watch?v=yJDxilcjR9Q&feature=related

Pedro

Anónimo disse...

Creio que já identifiquei os três amigos que em Novembro de 1988 se encontravam numa Praça de Boston. Mas quem era o jornalista futurólogo?
MT

Margarida Araújo disse...

Brrrrrr, um frio na nuca!
Ai que las hay,hay! Ai.
Muito gostei de ler a tua noite de bruxas nas Américas. O filme do Tim Burton que o Pedro escolheu vem mesmo a calhar.
Por aqui esta forma de festejo penso ser nova. Sempre me lembro deste dia como um dia em que a explosão de flores na praça da fruta era um sinal triste, a relembrar familiares e amigos que já tinham partido. Depois romagem aos cemitérios. Mais para o norte as lamparinas nas campas, a piscar, pareciam estrelas na terra.
Mas esta festa de que tu aqui nos dás conta é muito dierente (a Teresa Perdigão deve saber falar disto).
Terá algo de relacionado com a festa dos mortos no México, tão alegre e divertida? Deve ter.
Um beijo e vê lá se te batem à porta e de dizem. - Uma maldade, ou uma guloseima? Por vias das dúvidas é melhor ter algo doce à mão.

Anónimo disse...

E depois eu é que sou irónica! Nada há aqui de ficção, apenas realidade pura, visto ser assim que guardou o episódio na memória. Além da graça, que o tom vivo da descrição acentua, trata-se de uma história edificante, com a qual muito temos a aprender: em alguma praça no mundo haverá sempre quem nos possa ler a sina com verdade, é preciso é procurá-la.
Um conselho: siga sempre as sugestões do Pedro.
Isabel Xavier

Joao B. Serra disse...

MGV:
O que eu andei para aqui chegar (José Mário Branco)!
MT:
Ora a qui está o nome do jornalista: Mr. Joseph Louis A. Silva - o nome não lhe será vagamente familiar?
Margarida:
Vou-te transcrever parte de um conto de Bradbury (onde pela primeira vez ouvi falar do Dia de los Muertos mexicano). Espero que te divirtas.
Isabel:
A verdade ou ficção? Quem arrisca?
Obrigado pelo conselho.

Anónimo disse...

Mas não me confirmou o nome completo dos 3 amigos... Não quer fazê-lo?
MT

J J disse...

As bruxas têm um papel importantíssimo nas nossas vidas, aprendi-o num livro de Michelet que me marcou.

O bom humor é fundamental, sobretudo se for acompanhado pela capacidade de uma grande dose de humor sobre nós próprios.

Tudo seria mais simples se não nos levássemos tão a sério...

(Acho que me perdi no que ia dizer, não vos parece?)

Teresap disse...

Nestes dias em que as bruxas é que mandam, é preciso ter sempre uma doçura à mão, antes que elas nos façam qualquer travessura!
Pois, a mim parece-me que o João não lhe deu doçura que a satisfizesse... e assim, ela presenteou-o com uma setinha (haja Deus...finalmente!, mas, cá para mim, repito, fez-lhe a desfeita de a retardar demasiado.
... Pero que las hay, las hay!

Anónimo disse...

necessario verificar:)