terça-feira, 21 de outubro de 2008

A hora da política (IV)

No seu comentário semanal (Público, 20 de Outubro), naquele estilo discreto que esconde cruas observações e premonições, Francisco Sarsfield foi buscar o slogan que celebrizou a extrema esquerda no PREC: "Os ricos que paguem a crise". Adapta-o ao sentido dominante com que teríamos vindo a encarar as dificuldades: "O futuro que pague a crise".
A hipoteca sobre o futuro não é o resultado da desregulação dos mercados do dinheiro e das acções. Como houve quem tivesse dito muito antes da questão do "subprime", ela deriva do modelo de desenvolvimento, ou melhor de consumo, baseado num circulação vertiginosa do crédito.
De facto a dívida - tanto a das pessoas como a das organizações e do Estado - remete para as gerações que nos seguem o respectivo saldo. Temos esse direito? Evidentemente que não temos.
Quando há poucos anos visitei a Noruega, pude ouvir da boca de um dos responsáveis políticos os termos da discussão havida sobre esta questão da responsabilidade, a propósito da utilização dos recursos decorrentes da exploração do petróleo. Como é sabido, as autoridades políticas noruguesas adoptaram regras estritas sobre o acesso das actuais gerações aos benefícios da extracção de petróleo, criando um fundo de reserva para o futuro.
O risco principal de uma atitude de indiferença perante o futuro não reside apenas - que já seria inaceitável - na delapidação de recursos não renováveis que recebemos das gerações que nos precederam; está na criação de ónus que só se efectivará quando as novas gerações tiverem que lidar com a gestão do seu próprio presente e do seu próprio futuro.
Antecipar o futuro, tomar decisões em nome do futuro, investir na produção futura , garantir ao passado um horizonte de futuro sempre constituiu o ensejo das mais significativas criações humanas, da ciência à filosofia, da arte à política. 

1 comentário:

Submarino Amarelo disse...

Estou genericamente de acordo com o articulista mas não partilho da sua fé nos nossos governantes (com a eventual excepção dos endinheirados noruegueses) que gerem a curto prazo, remetendo dívidas, défices e pagamentos para os seus sucessores. E já nem falo de gerações, mas de legislaturas de 4,6,8 anos. Gerações, o que é isso?
Como se diz em bom português,“quem vier atrás que feche a porta”.