quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Os dias de Penélope (I)

Telémaco, filho de Ulisses, dirigiu-se ao povo de Ítaca, para invectivar os Aqueus pretendentes à mão de sua mãe, Penélope, supostamente viuva, e cujos haveres saqueavam enquanto esperavam pela resposta.
Antínoo responde-lhe:

Pois fica sabendo que não são os pretendentes os culpados,
mas  a tua querida mãe, sobremaneira astuciosa!
Na verdade já vamos no terceiro ano - em breve virá o quarto -
em que ela engana os corações dos Aqueus.
A todos dá esperança e a cada homem manda recados,
mas o seu espírito está voltado para outras coisas.
Também este engano congeminou em seu coração:
colocando um grande tear nos seus aposentos - 
amplo, mas de teia fina - foi isto que nos veio declarar:

"Jovens pretendentes! Visto que morreu o divino Ulisses,
tende paciência (embora me cobiçais como esposa) até terminar
esta veste - pois não queria ter fiado a lã em vão -
uma mortalha para o herói de Laertes, para quando o atinja
o destino deletério da morte irreversível,
para que entre o povo nenhuma mulher me lance a censura
de que jaz sem mortalha quem tantos haveres granjeou."

Assim falou e os nossos corações orgulhosos consentiram.
Daí por diante trabalhava de dia ao grande tear,
mas desfazia a trama de noite à luz das tochas.
Deste modo durante três anos enganou os Aqueus.
Mas quando sobreveio o quarto, volvidas as estações,
uma das mulheres, que estava por dentro, contou-nos o sucedido,
e encontrámo-la a desfazer a trama maravilhosa.
De maneira que a terminou, obrigada, contra sua vontade.

Homero, Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa, Livros Cotovia, 2003. p. 40-41  

7 comentários:

Submarino Amarelo disse...

Trata-se claramente de uma alusão ao nosso governo, já que Sócrates faz exactamente o mesmo que Penélope, enganando assim os aqueus (nós que vivemos aqui) também há já mais de 3 anos!

MT disse...

Obrigado por nos lembrar, nesta excelente tradução, uma das mais belas histórias literárias de amor de sempre. Penélope, aquela que se mantém fiel à memória de Ulisses a quem, contra tudo e todos, continua a esperar! Num exemplo de perseverança e entrega contra a volubilidade dos cataventos do amor, Penélope recusa-se a acreditar que Ulisses morreu.
É também uma metáfora da história, em permanente revisão do seu objecto.
MT

João Ramos Franco disse...

Um texto para decifrar no seu conteúdo a mensagem que queres transmitir…
Calma Submarino Amarelo, a interpretação pode não ser aquela que lhe dá,,,
Tempos idos em que para passar uma mensagem e a censura não cortar, escrevíamos assim.
Um abraço
João Ramos Franco

Anónimo disse...

Na verdade já vamos no quarto ano....os pretendentes são muitos e não nos tranquilizam...
Resta-nos "tecer"(?).
A República, perdão, Penélope, continua bela.....mas carente....à espera que "Ulisses" se liberte das "bacantes", e outros seres perversos....
NB

Submarino Amarelo disse...

Ah, NB, é bom saber que ainda há esperança! Pois se alguém como tu acredita....
Pode Penélope ainda ter uma alegria? (ouvem-se suspiros e ais...)

Margarida Araújo disse...

ai....

Isabel Xavier disse...

Encanta-me esta história e a figura de Penélope, mulher de uma inteligência fina, feminina, pragmática, que permanece fiel ao seu verdadeiro amor, enquanto mantém suspensos os ávidos pretendentes e faz e desfaz a mortalha de Ulisses, supostamente morto. O que sabiam as mulheres que assim teciam! Essas sim, possuiam segredos em seus dedos de tecedeiras de teias mágicas, metáforas da própria vida.
- Isabel X -