sábado, 7 de fevereiro de 2009

O desprezo pelo património

A falta de cultura histórica é um traço dominante da relação dos portugueses com o seu património. Foi José Mattoso quem, com mais veemência, chamou a atenção para esse facto, lembrando que, por exemplo, textos fundamentais da história da língua e literatura nacionais só estão disponíveis porque outros países os preservaram.
Cuidamos mal do nosso património. Somos capazes de manifestar entusiasmo perante um centro histórico cuidado, sobretudo se o descobrirmos fora de portas, mas convivemos bem no dia a dia com o descuido e a agressão impune ao da cidade que habitamos. Temos sempre desculpa para ignorar as exigências do legado patrimonial que recebemos: ou, em nome da modernidade, argumentamos que é tempo de fazer o novo (como se novo e antigo fossem incompatíveis), ou invocamos o lado supostamente mais dispendioso da recuperação face à obra nova (sem que tenhamos efectivamente equacionado todos os prós e contras), ou nos desculpamos com a falta de conhecimento técnico ou de materiais adequados à reabilitação (sem cuidarmos sequer de procurar ajuda em tal matéria).
Perdemos o sentido e o gosto da reutilização. Julgamos que é mais económico abandonar o velho e usado e procurar nova localização para o equipamento moderno. Para trás deixamos edifícios e equipamentos construídos com esforço e saber, testemunhos dignos de uma sociedade que não se compadecia com o desperdício. O deslumbramento do novo faz tábua rasa da continuidade cultural e reduz a história a um depósito de antiguidades.

3 comentários:

João Ramos Franco disse...

A realidade do desprezo pelo património, “passa pela falta de cultura histórica”…
Na nossa geração podíamos acusar a ditadura, do não livre acesso à cultura…
Há trinta e quatro anos que vivemos em Democracia, quais as razões que podemos evocar para esta apatia que representa a identidade da Nação?
Eu sei algumas, mas estou certo de que sabes bem mais que eu… È caso para dizer que sabemos mas, “não temos uma varinha de condão”
João Ramos Franco

Pedro Ribeiro disse...

A varinha já me tocou e posso afirmar que foi bastante tarde. A descoberta do património é um percurso lento, solitário e fascinante e os mapas que certos feiticeiros têm produzido facilitam bastante este percurso. Obrigado

Anónimo disse...

Só se ama o que se conhece....
Falta cultura para se amar o imenso Portugal registado nos documentos escritos em calcário, granito, liós.....
falta cultura, falta amor....
ver monumentos como o Convento de Cristo, vazios, de gente e de vida ocupacional deixa-nos deprimidos.
Os últimos alertas pecam por defeito.
A situação actual é gravissima, porque a grande maioria dos monumentos, outrora conventos e mosteiros, estão entregues a si próprios....
Não existem culturas para este imenso e monumental património.AS escolas deixaram de os visitar, os investimentos acabaram com o fim do quadro comunitário anterior....
O desprezo é assim a face da ignorãncia e da insensibilidade.
Não será o propalado 1% do orçamento das grandes empreitadas de obras públicas, enquanto não se incluir o estudo dos conteúdos relacionados com o Património não resolveremos o problema de sempre....a incultura, o amor pela História.
NB