sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Entre Setúbal e Alpiarça, reler LP num quarto de hotel

Prá minha cela atiraram-me um pão duro (envenenado); a água da bilha, bebi-a (tinha bichos). Hoje um raio de sol quis entrar cá dentro e cuspi-lhe. O desprezo dos homens, que me importa? Sabiam que o meu destino era este (Ela sabia) e não mo diziam por piedade. Que importa? não queria sol nem pão nem água nem piedade, apenas que, onde estiver, por um  segundo apenas, a Amada, aquela a única se lembre agora de mim.

Tarde demais, amigos! Nada a fazer agora estou pronto. Não tenho safa, parece. Saio do camarim assobiando: A  Vida me aborrece, a morte quero, balada em voga, para o maior número do espectáculo, a minha rábula, prometido no cartaz e já previsto há muito, isto é, a mágica inevitável levitação sonâmbula a muitos  mil metros de altura (tantos! ... ai a minha mania das alturas... perdoem se exagero) e depois o salto mortal lá mais pró fim, no trapézio sem rede sem esperança sem avé-marias sem nada. Olho para baixo, sinto o medo dos tipos da plateia, uns cagões, mortos do medo que devia ser o meu, e eu tenho, rapazes! e eu escondo, cavalheiros! detrás da minha fatiota larga, sarapintada, cetim fulgurante a sete e quinhentos o metro, fato de palhaço barato para melhor e mais os intrujar, ofender, insolências de polichinelo feitas a rir para gente que dá vontade de rir - e quem neste suave país não há-de querer rir, mesmo com o rabo cagado de medo?

Atiro o chapéu e ele vai a rebolar pelo ar, levando agarrado o meu chinó cor-de-rosa.; em pontapés raivosos de boneco, largo as calças e mostro umas ceroulas encarnadas; dispo o jaquetão e lá vai ele a saracotear feito espantalho voador, pássaro tosco, sem cabeça nem destino certo; estou agora preso só por um braço à barra do trapézio e trinco uma banana, com trejeitos de macaquito. Finjo que me solto e vou cair, dou um grande grito, eles gritam também todos, arfam (serão asmáticos?) tudo a fingir, a fingir pois que compreendem a minha aflição, gesticulação, representação, mastigação ou reinação. O que eles gostavam, o que tinha verdadeiramente graça para eles, eu sei, era que tivesse uma morte rápida, espectacular, sublime se possível, ora essa! ou que fosse tudo a fingir, como eles fazem (gostam), uma coisa breve que os arrepiasse brevemente (evitai o pânico) que não os fizesse desconfiar se estou a rir ou a sério, ou de quem me rio, afinal, se deles ao certo se da morte certa que me espera lá em baixo, quando os tambores começam a rufar (como é seu dever), reconciliado, parado, perdoado e consentido já, rindo todo, estatelado, desconjuntado no meio da pista, estrapaçado de todo como diz o povo, rindo também - e é tão fácil a um morto rir! é tão fácil rir de um morto!...
Esperem, esperem!


Luiz Pacheco, Textos Sadinos. Setúbal, Plurijornal, 1991. p. 30-31.

3 comentários:

Anónimo disse...

FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro

MV

MT disse...

Não sei se estas leituras autobiográfica da pachecal figura em busca do tempo perdido são as que mais lhe convêm. Parecem-me um pouco depressivas para Benavente ou Almeirim. Não prefere os passeios por Braga em busca de outros esplendores?
MT

João Ramos Franco disse...

O Pacheco num auto retrato e como fotógrafo da sociedade. ...."fato de palhaço barato para melhor e mais os intrujar, ofender, insolências de polichinelo feitas a rir para gente que dá vontade de rir - e quem neste suave país não há-de querer rir, mesmo com o rabo cagado de medo?"....
João Ramos Franco