quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Que diria o meu Pai?

O meu Pai era um devotado leitor da Brotéria que assinava religiosamente desde tempos que eu não sei precisar (anos 40? 50?).
Quando tomou conhecimento de que eu integrara as hostes multitudinárias dos alunos do Padre  Manuel Antunes S. J., o seu espírito inquieto com a mudança de curso (de Direito para História...) e as ideias pouco convencionais de que o seu "promissor" filho se tornara portador nos últimos meses, deve ter sossegado. Nada de muito mal lhe poderia acontecer uma vez posto em contacto com o expoente máximo daquele robusto colectivo de pensadores que constituía a redacção da Brotéria e assegurava, com uma regularidade metronímica, a sua saída mensal - deve ter pensado.
Pois que diria agora o meu Pai se, ao espreitar o blog daquele mesmo seu filho, viesse a descobrir que, afinal, pelo menos 124 dos autores daquele influente repositório do pensamento mais avançado da Igreja não eram mais do que pseudónimos, porventura alter egos, personagens concebidas e corporizadas por um mesmo espírito: o do Padre Manuel Antunes, Director da revista?
Subi as escadas da Brotéria, na Rua António Taborda, para um encontro com o Padre Manuel Antunes em 1972 ou 73. Fui-lhe pedir que remediasse o erro do Prof. Victor Buescu, entretanto falecido, que se esquecera de inscrever nos livros de termos respectivos a minha classificação em História da Civilização Romana. Já lá iam três ou quatro anos desde que eu fora aluno do Padre Manuel Antunes e não estava certo que me reconhecesse e muito menos que se recordasse da nota que me atribuíra. Mas esperava que ele confiasse em mim.
Recebeu-me, numa manhã luminosa da encosta lisboeta da Lapa no escritório que era o seu e cujo aspecto não diferia muito do que aparece na fotografia do post anterior. A sua figura pareceu-me mais franzina, a sua palidez mais acentuada. A sua timidez era sublinhada pela fragilidade do corpo e da saúde e contrariada a golpes de exigência, serenidade, conhecimento e clareza intelectual. Foi a última vez que vi o Professor Padre Manuel Antunes.
Ele vivia na Brotėria. Soube agora que dirigia a Brotéria com o nome Manuel Antunes S.J. e a escrevia com outros 124 nomes. Aquele homem franzino era a Brotéria. Uma revista influente.
Ele era a sua potência, a sua direcção, o seu confronto, a sua diligente atenção, a sua riqueza, a sua unidade e a sua diversidade.
Não é uma história extraordinária?

3 comentários:

Isabel X disse...

Extraordinária, sem dúvida!
Dar conta de 124 pseudónimos é tarefa gigantesca.
Será que cada um deles tinha características próprias de escrita, de maneira a que quem os lesse os distinguisse e não se apercebesse da "marosca"?
Ou a distinção seria temática e não formal?

Não sei como o seu pai se sentiria, mas eu, se fosse a ele, sentir-me-ia defraudada, com certeza.

Um caso a propósito deste caso:

Quando era estudante de História na Faculdade de Letras, talvez em 1980, por influência do Dr. Luís Filipe Barreto que a recomendava, também eu fiz uma incursão à Brotéria, a fim de consultar a respectiva biblioteca que sabia ter muitos dos livros que eu precisava para uma pesquisa. Mas tive menos sorte do que o João: quem me abriu a porta fê-lo só para me informar, muito amavelmente, que eu não podia entrar. Eu insisti, expliquei os motivos (nobres) que lá me haviam conduzido: em vão! Não podia entrar por uma questão de género, por ser mulher...

Fiquei com a impressão de que se tratava de uma espécie de congregação religiosa e que viviam lá membros da Companhia de Jesus, entre os quais os que faziam a revista. Daí que o acesso fosse interdito a elementos do sexo feminino, penso.

- Isabel X -

Cláudia Tomazi - Brasil disse...

E o que há de impossível para Companhia de Jesus? Nada.
É extraordinária por ser verdadeira!

Após a reclamação de um Diácono para compor um artigo para Folha Paroquial, já de saída afirmei:
- Os homens mais inteligentes compõe a Igreja Católica.

E se me permite Prof. João Serra, seu papai confirmaria alguma boa razão pelo erguido engenho de pensamentos do Pe. Antunes, o qual certamente respeitava-o pelo compromisso do saber.

Méon, disse...

Mas os tempos mudaram também na Brotéria. No ano passado precisei de lá ir fazer umas consultas bibliográficas e fui atendido por uma senhora, creio que era bibliotecária.

Vivo em Torres Vedras onde existe um Convento franciscano, no lugar de Varatojo. Hoje qualquer pessoa lá pode entrar. Em 1960 visitei-o pela primeira vez, tinha eu 13 anos, e ia acompanhado pela minha irmã gémea, levados os dois pelo nosso saudoso primo Padre Joaquim Lopes, pároco na freguesia de Runa. Pois bem: não pudemos entrar porque ia uma menina connosco!
E ainda há quem tenha saudades deste tempos.
Isto era salazarismo/cerejismo/atraso mental/indigência moral!