terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Antoine de Saint Exupéry no Portugal da década de 60

Antoine de Saint-Exupéry entrou em Portugal na década de 60, pela mão de Ruy Belo e da editorial Aster.
O escritor já tinha desaparecido há muito (1944), quando a Bertrand editou Voo Nocturno (em 1954), uma obra de 1931. Mas a Bertrand não deu continuidade ao projecto.
Em 1959, Ruy Belo traduziu para a Aster Piloto de Guerra, livro originalmente publicado em 1943. Nesse mesmo ano, com tradução de Alice Gomes, escritora de livros infantis, irmã de Soeiro Pereira Gomes e mulher de Adolfo Casais Monteiro saiu o Principezinho, uma obra escrita em 1942 quando o autor se encontrava exilado nos Estados Unidos.
Ruy Belo era director literário da Aster, uma editora com ligações a sectores da Igreja, de que aliás Ruy Belo fora um elemento destacado (doutorado em Roma em Direito Canónico e membro da Opus Dei). Em 1966 traduziu e prefaciou Um sentido para a vida (uma colectânea de 1956) que teve 2ª edição logo no ano seguinte. Em 1968 traduziu e prefaciou Cidadela (obra de 1948, inacabada em vida do autor) com igual sucesso de vendas.
Calculo que o Principezinho me tenha sido oferecido pelos meus 10/12 anos (entre 1959 e 1961). A obra que fascinou gerações, e não apenas crianças, produziu-me uma forte impressão, mas a descoberta do autor ocorreu apenas em 66/67, com a leitura de Um sentido para a vida. O título correspondia às minhas próprias inquietações, numa altura em que questionava a relação tradicional com a religião, com a família, a política, o estudo, o futuro, a vida (afinal)
Saint Exupéry era então apresentado como a incarnação do intelectual e homem de acção que se move pelos valores do humanismo. Tratava-se de um humanismo que volta ao indivíduo como princípio e fim de todas as coisas, em nome do qual o escritor/jornalista/aviador recusou os totalitarismos e se empenhou numa espécie de ética da reconciliação. Fazia então todo o sentido para mim.
Foi pois sob influência desta leitura de Exupery que apresentei, com a complacência do José Pacheco Pereira, a proposta de um debate sobre a sua obra à secção cultural da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, superintendida na altura por, entre outros, Fernando Rosas e Mário Vieira de Carvalho. A intenção era convidar um escritor português a falar de um seu confrade europeu.
Creio que a proposta incluía outros nomes, mas a de Saint Exupéry foi a única que vingou. Penso que o escasso êxito da sessão, com um número reduzido de participantes, desmotivou o prosseguimento da iniciativa.
O escritor apontado para falar de Saint Exupéry foi Urbano Tavares Rodrigues. Não me recordo quem o sugeriu, admito ter sido eu próprio, mas era evidente que se pretendeu não entregar a Ruy Belo, com as suas ligações à Aster, a promoção do autor. Urbano era então um escritor bastante lido e conhecido e com opções politicas ligadas à esquerda laica.
Eu tinha entrevistado por escrito Urbano Tavares Rodrigues para a Gazeta das Caldas, mas não o conhecia pessoalmente. Carlos Cáceres Monteiro, meu colega e amigo desse primeiro ano de Direito, tinha um amigo que visitava assiduamente o escritor na sua casa a Picoas. Tratava-se de João Carreira-Bom. Foi este que serviu de intermediário.
Encontrámo-nos com Urbano Tavares Rodrigues depois de jantar. Guardo desse encontro único uma memoria contrastada: simpatia e acolhimento favorável da nossa pretensão, cedência fácil a uma agenda de contactos predadora.
Não sei qual das razões impeliu Urbano a anuir de imediato ao nosso pedido e não sei se a proximidade com Saint Exupéry era assumida. Acredito que ambos reflectiam nas suas opções enquanto escritores uma espécie de poética do texto.
De qualquer modo, não tenho quqluer recordação sobre o que disse Urbano naquela tarde cultural preparada arduamente pelo caloiro da Faculdade de Direito de Lisboa.
Escrevi e bati a stencil - uma aprendizagem que me seria bem útil ao longo nos anos seguintes – o pequeno texto da convocatória (e que figura em anexo) e mobilizei todos os amigos possíveis para a sessão. Tive a impressão de que a secção cultural da Faculdade não morrera de entusiasmo pela proposta, mas não percebi naquela altura porquê. Ouvi o José Pacheco Pereira resmungar entre dentes qualquer coisa sobre o duvidoso percurso de Exupéry e o fraco interesse que lhe despertava a sua obra, mas não entendi os motivos.
Pareceu-me muito injusta toda esta incompreensão dos meus colegas pela discussão de Um sentido para a Vida.
Só agora soube que a Margarida Pino esteve lá. Uma compensação tardia, é certo, mas que atenua a decepção inicial.

2 comentários:

Méon, disse...

Curioso acaso de encontrar hoje este texto sobre o Pricepezinho, numa altura em que estou a preparar uma página sobre Saint-Exupéry.
Também tive um percurso idêntico à volta deste autor, comprei os livros da Aster, li Um Sentido Para a Vida, e outros. Curiosamente vive em Torres Vedras e é meu amigo o autor de algumas das capas dos livros da Aster, professor aposentado de Educação Visual, o José Pedro Geraldes Sobreiro.
Partilha de leituras e de memórias, caro João! Bem haja!

Isabel X disse...

Bem que a certa altura deste blogue, nos foi revelado que o seu autor poderia ter enveredado por uma carreira jornalística!

Aliás, também neste texto é feita referência às incursões juvenis nesse mundo dos jornais através da sua participação na Gazeta das Caldas.

Desta vez há um leve tom de mágoa que constitui mais valia a acrescentar à habitual descrição nítida e reflexiva.

Para além disso, é muito interessante assistir aos reencontros (e encontros novos) que este espaço e estes testemunhos proporcionam.

Como diz Méon: Bem hajam!

- Isabel X -