sábado, 31 de janeiro de 2009

Fim de ciclo

Terminou agora um ciclo da vida dos hospitais caldenses, iniciado na década de 70, com a constituição do Centro Hospitalar das Caldas da Rainha. Associando a vertente moderna, a do Hospital Distrital, a uma vertente tradicional, única no país, a do Hospital Termal, esta instituição afirmou-se na região como uma referência na prestação de cuidados de saúde, onde atingiu níveis de qualidade reconhecida.
A articulação entre os dois hospitais não só constitui uma solução pioneira, que fez exemplo, como projectou o Centro Hospitalar e as Caldas da Rainha noutras dimensões sociais e culturais.
Alguns, mais desatentos, poderão ignorar ou desvalorizar o papel que, por via do seu par termal, no campo da cultura, o Centro Hospitalar desempenhou. Mas estão equivocados. Esse papel foi imenso. Nestas quase quatro décadas, a projecção cultural das Caldas e da região deve ao Hospital Termal uma importante quota, aliás a diversos títulos estratégica. Da Casa da Cultura ao Teatro da Rainha, da associação Vicente ao Património Histórico-Grupo de Estudos, do Cine-Clube à Associação dos Artesãos, foi com o apoio, a cedência de espaços e o apoio logístico do Centro Hospitalar que estas organizações singraram. O ensino, outro sector que beneficiou, e de que maneira, com a disponibilidade do edificado termal: o ensino secundário liceal instalou-se nos Pavilhões do Parque, como ali funcionou a Escola do Magistério, a Escola Superior de Educação e a Escola Técnica Empresarial; o ensino da dança foi uma das valências acolhidas na Casa da Cultura. Quantas exposições, concertos, espectáculos, congressos, simposios, feiras foi em instalações geridas pelo Centro Hospitalar que se desenrolaram.
Acompanhei de perto esta actividade, desde 1985, ano em que, perfazendo-se 5 séculos sobre a fundação do Hospital Termal, a história local recebeu um novo impulso, de que beneficiei directamente. Os resultados estão à vista: desde então, a produção de estudos históricos e os trabalhos de levantamento e pesquisa patrimonial nas Caldas deram um salto extraordinário. O principal resultado dessa operação foi a criação de um novo Museu, com um novo conceito e percurso museológico, o Museu do Hospital e das Caldas. Sou amigo pessoal e admirador dos dois últimos directores, médicos ilustres e personalidades de visão larga, apoiada numa sólida formação cultural. Na última década exerci as funções (em larga medida simbólicas, mas espero que não inúteis) de Presidente do Conselho Consultivo do Centro Hospitalar das Caldas da Rainha. Cessam hoje, com o fim desta última instituição.
Uma portaria do Ministério da Saúde, datada de 22 de Janeiro, determinou:
São extintos o Centro Hospitalar das Caldas da Rainha, o Hospital de Alcobaça Bernardino Lopes de Oliveira e o Hospital de São Pedro Gonçalves Telmo — Peniche, sucedendo o CHON na universalidade dos seus direitos e obrigações.
Esclareça-se: o "CHON" é o Centro Hospitalar Oeste Norte.
Não sei o que vai acontecer ao Hospital Termal das Caldas da Rainha. Esta portaria comete a afronta de nada sobre isso dizer. Afronta à continuidade de uma instituição que durante cinco séculos exerceu a sua actividade num quadro assistencial e orgânico sem rupturas ou interrupções.
Confesso que me sinto muito desconfortável quanto ao futuro do Hospital Termal e do termalismo das Caldas. Por uma simples razão: foi extinto o organismo que nas últimas décadas com convicção, coragem, determinação, respeito, saber e visão, esteve sempre na primeira linha da sua defesa e da sua valorização. Esse organismo foi o Centro Hospitalar das Caldas da Rainha e os seus directores, Mário Gualdino Gonçalves e Vasco de Noronha Trancoso.


4 comentários:

Isabel X disse...

Nem sei que dizer! Será que ninguém mais tem a noção dessa tão grande perda? Tudo passa a ser uma questão administrativa e de gestão de recursos e nada mais? Nem sei que dizer!
- Isabel X -

J J disse...

A questão do vazio criado em relação ao Centro Hospitalar é assustadora, peca por defeito o "desconforto" do João.
Os dois directores referidos defenderam durante anos esta realidade singular e, cada um à sua maneira, mas sem cedências, a riqueza e as virtualidades do Hospital Termal. Os apetites sobre o seu vastíssimo património são tão grandes que nem conseguiram esperar pelo decreto para se começarem a ver...
É fundamental que não seja permitido a um poder local sempre "distraído" intermediar a passagem desse património para a mão dos "suspeitos do costume".
Veremos.
Não é aqui abordada a questão da substituição do Hospital das Caldas pelo Hospital de Alfeizerão! O Governo actual já nos habituou a tais dislates que não sei, não...

Anónimo disse...

JJ, "tirou-me as palavras da boca"!
Não sou natural das Caldas, mas recordo anos da minha juventude vividos nas Caldas.
Não posso deixar de lamentar a perda, não só para as Caldas!
MV

João Ramos Franco disse...

O "Fim de ciclo" não poderá dar inicio a Um novo Ciclo?
Como caldense mas estando afastado de toda a problemática que envolve o que acabas expor só me resta fazer perguntas?
“Nestas quase quatro décadas, a projecção cultural das Caldas e da região deve ao Hospital Termal uma importante quota, aliás a diversos títulos estratégica. Da Casa da Cultura ao Teatro da Rainha, da associação Vicente ao Património Histórico-Grupo de Estudos, do Cine-Clube à Associação dos Artesãos, foi com o apoio, a cedência de espaços e o apoio logístico do Centro Hospitalar que estas organizações singraram. O ensino, outro sector que beneficiou, e de que maneira, com a disponibilidade do edificado termal: o ensino secundário liceal instalou-se nos Pavilhões do Parque, como ali funcionou a Escola do Magistério, a Escola Superior de Educação e a Escola Técnica Empresarial; o ensino da dança foi uma das valências acolhidas na Casa da Cultura. Quantas exposições, concertos, espectáculos, congressos, simpósios, feiras foi em instalações geridas pelo Centro Hospitalar que se desenrolaram. Acompanhei de perto esta actividade, desde 1985, ano em que, perfazendo-se 5 séculos sobre a fundação do Hospital Termal, a história local recebeu um novo impulso, de que beneficiei directamente. Os resultados estão à vista: desde então, a produção de estudos históricos e os trabalhos de levantamento e pesquisa patrimonial nas Caldas deram um salto extraordinário. O principal resultado dessa operação foi a criação de um novo Museu, com um novo conceito e percurso museológico, o Museu do Hospital e das Caldas.”
Retirei propositadamente esta parte do teu texto, porque penso que é com o que citas, que se poderá dar início ao Novo Ciclo aproveitando todo o trabalho já feito até agora. É possível?
João Ramos Franco