domingo, 11 de janeiro de 2009

Sermão das plantas

Quem analisará alguma vez a psicologia das plantas?
Só para responder à ansiosa e sempre fútil consulta dos namorados, a alcachofra, que à beira dos caminhos esconde o florido capítulo numa couraça guerreira de brácteas, é capaz de reflorescer com mais brilho depois de queimada à labareda da fogueira de S. João.
Com imprevista sensibilidade, das flores de verbasco desprende-se a corola logo que colhemos a airosa espiga, ou a castigamos com uma pancada mais rude. A flor triste e desprezada da roselha ou do sargaço, ou da nívea rosa brava, depois de colhida deixa cair, agonizante, as pétalas, e quando julgamos segurar entre os dedos, latejando, uma vida, temos nas mãos, lugubremente, um cadáver.
Mas nem todas as plantas possuem a graciosidade que nos comove, a cor que nos encanta, a fragrância que nos enleva, ou se envolvem num mistério que nos intriga.
As gramínias, por exemplo, só nos causam desapontamento. São seres recatados, que desprezam os recursos infinitos do baton e do rouge, que desdenham o perfume, e cuja vida sentimental parece reger-se por álgido puritanismo. Certas plantas, da tribu das Hordeas (o trigo, o centeio, a cevada), hirtas e orgulhosas como velhas misses, desprovidas de graça, tornariam a seara esteticamente insuportável se a Natureza, amante dos contrastes, não houvesse ali colocado a álacre papoila, a transbordar de sensualidade e de vida, e que dir-se-ia uma gargalhada juvenil, irreverente e saudável de uma alegre camponesa num comício de sufragistas. E atrevo-me a supor que sem a presença dos atrevidos pampilhos, jamais a seara ondearia ao vento com a graça lânguida que é o segredo do mar.
Há plantas às quais a Natureza impôs rudes provações, e que, triunfando na adversidade, nelas vibra com mais ardor o anseio de viver. Foi-lhes recusada a campina ubertosa, rica de húmus fecundo, e onde em plena canícula vicejam verduras tenras; está-lhes vedada a margem dos regatos, o encanto de ouvir a alegre canção da água; não usufruem o regalo do vale umbroso, ou a paz idílica e acolhedora de uma quebrada.
O seu solar é a charneca triste e rude, batida no inverno pela nortada agreste, ou calcinada impiedosamente no estio pelo sol ardente; é o outeiro predegoso, seco, ingrato; o cerro alcantilado; ou então a areia fulva e sáfara que o vento arrasta brincando em rodopios de loucura.
O alecrim, a alfazema, o rosmaninho, o ourégão, o tomilho e tantas outras labiadas, cuja vida é um sombrio rosário de misérias e de renúncias, constituem enternecedor exemplo de resignação e de humildade. Mas são tão graciosas e aromáticas, e delas emana tal encantamento que as abelhas, pressurosas, abandonam as nossas flores mais belas, e avidamente beijam as pequeninas corolas, os longos e perfumados lábios que se lhes oferecem, trémulos e sôfregos. [...]

Joaquim Vieira Natividade, Jornada a um Mundo de Beleza Eterna. Edição facsimilada, Alcobaça, 2000 [1ª edição: 1948].


Fotografia de Rosa Nunes (cujo album pode ser visto aqui)

4 comentários:

Isabel X disse...

Esta análise da psicologia das plantas é de uma beleza inigualável! Que me perdoe quem se ofende com este tipo de comentários, mas a Natureza aí está, entre nós e Deus, para que a nós mesmos, isto é, a ela em nós nos conheçamos! A analogia entre as plantas e os homens, despida da artificialidade da análise puramente intelectual, atinge um conhecimento mais profundo, que a muito poucos é dado atingir. É o caso de Joaquim Vieira Natividade que, aliás, ninguém pode acusar de desconhecer cientificamente o mundo da botânica. Parece quase singelo este texto, mas é muito mais do que isso, asseguro-vos!
João, fico-lhe muito grata!
-Isabel X-

MT disse...

Isto é linguagem mesmo cifrada ou é o autor do blogue que pretende que pensemos que o é? O título - inspirado em Padre António Vieira - e a parte do texto seleccionada - deixa-me em dúvida. Não estaremos perante mais uma das distribes de pura prestidigitação em que o JBS (enfim saude-se o facto de este blogue ter passado no início do ano a ser assinado, não sei se já repararam!) é vezeiro.
MT

Isabel X disse...

Para MT:
Em vez de procurarmos descortinar a intenção do outro ao proporcionar-nos algo de inesperado, porque não, simplesmente, emocionarmo-nos? Verá então como não há nada de cifrado!
- Isabel X -

João Ramos Franco disse...

Que belo “Sermão das Plantas”. Natureza (Fauna e Flora) e o Humano (Joaquim Vieira Natividade) guiando-nos e mostrando-nos quão importante pode ser o nosso percurso na Mãe Terra.
João Ramos Franco