quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Vontade e movimento

- Como a inteligência aqui se liberta, hem? E como tudo é animado duma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não há aqui pensamento...
- Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...
- Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
- Ora essa! Mas eu...
- Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor...
- Que não sou!
- A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e naquele pedaço de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de forças que se revelam, e que atingem a sua expressão suprema, que é a Forma. Não, essa tua filosofia está ainda extremamente grosseira...
- Irra! mas eu não...
- E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa diversidade de formas...E todas belas!
Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com reverência. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as ideias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há de mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... A mesmice - eis o horror das Cidades!
- Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três semanas que cada manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentação me poderia fartar...
Eu murmurei:
- É pena que não converse!
O meu Príncipe recuou, com olhares chamejantes, de Apóstolo:
- Como que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está claro, não tem ditos, nem parola teorias, ore rotundo. Mas nunca eu passo junto dele que não me sugira um pensamento ou não me desvende uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é isenta de trabalho, da ansiedade, do esforço que a vida humana impõe; não tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta majestade. Pois não achas?

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras. Porto, Lelo & Irmão Editores, s/d. p. 194-195 (as últimas revistas pelo autor]

2 comentários:

João Ramos Franco disse...

Caro João Serra, nos dois últimos textos que colocaste para comentar eu senti que de repente, “um grito de alerta à navegação”: Tenham calma, a realidade passa por aqui… - Senti-o, e agradeço.
"Vontade e movimento" Eça de Queirós -A Cidade e as Serras
“…Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as ideias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras;…”
“… Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é isenta de trabalho, da ansiedade, do esforço que a vida humana impõe; não tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta majestade. Pois não achas?”
Paris/Tormes - a memória do escritor em pura “vontade e movimento”.
João Ramos Franco

MT disse...

Gosto da expressão, pouco usual, "parolar teorias". Muito recomendável, nao lhe parece?.
MT