domingo, 28 de setembro de 2008

Peniche, 2 de Fevereiro de 1786

A década de 1780 foi marcada por convulsões políticas no Novo Mundo. A revolução americana, declarada em 1776, consuma a vitória sobre o exército inglês em 1781. A independência dos Estados Unidos da América é reconhecida em 1783. Em 1780, estala no Peru uma revolta contra o domínio espanhol, conduzida pelo chefe inca, José Gabriel Tupac Amaru. O exército colonial põe-lhe termo no ano seguinte, executando o líder e aprisionando o filho.
Em Abril de 1784, parte de Lima, Peru, com destino a Cadiz, o navio espanhol San Pedro de Alcântara. É um navio de guerra, de 64 canhões. 


Vinha carregado com cobre e metais preciosos, produto da mineração do Peru acumulada nos anos anteriores (durante os quais a instabilidade originada pela guerra da independência americanae o embargo britânico impedira o seu normal escoamento para a Europa). Trazia também um conjunto de colecções de artefactos anteriores à presença espanhola, recolhidas por dois cientistas espanhóis em expedições efectuadas a grutas de uma região do Peru. Finalmente, fazia parte da carregamento do San Pedro cerca de duas dezenas de prisioneiros incas, incluindo o filho do chefe executado, Fernando Tupac Amaru.
O navio zarpou com excesso de peso, enfrentando por isso diversos sobressaltos na sua longa viagem. Quando chegou ao Chile, viu-se obrigado a deixar parte da carga e a regressar ao Peru para reparações. No Rio de Janeiro, já no ano seguinte, foi forçado a uma imobilização de 4 meses, de novo para reparações. A 2 de Fevereiro de 1786, aproximou-se da costa de Peniche e foi embater violentamente contra as rochas da Papoa. Com o choque, o casco do fundo partiu-se e o porão separou-se do resto da embarcação. O mar estava calmo. O comandante do navio foi traído provavelmente pela maré muito baixa e as imprecisões da carta de navegação. 128 pessoas, entre as quais a maioria dos prisioneiros incas, encontrou a morte no naufrágio.
O acontecimento teve uma enorme repercussão internacional e uma extraordinário incidência em Peniche. O governo espanhol não se poupou a esforços para recuperar os tesouros depositados no fundo do mar (calcula-se em cerca de 750 toneladas de cobre, prata e ouro) e contratou mergulhadores e enviou para Peniche equipas técnicas e operários. Durante dois anos, Peniche foi estaleiro destes trabalhos morosos e complexos de resgate.
Depois, lentamente, o tempo foi apagando memórias e sinais.

Em 1975, um arqueólogo francês, Jean Yves Blot, iniciou o longo processo de devolução desta história ao conhecimento. Começou pela investigação de arquivo, onde encontrou abundantes referencias, em Espanha e por toda a Europa. Passou depois ao local, onde a pesquisa se revelou mais difícil. Identificou a zona de impacte e a área onde se tinham procedido a inumação de cadáveres. Organizou campanhas arqueológicas em terra e no mar.
Ontem em Peniche, no Edifício Cultural, Jean Yves, que entretanto implicou no fascínio pelo tema a arqueóloga Maria Luisa Pinheiro, apresentou uma Exposição onde se pode seguir o trajecto e os principais resultados deste longo e persistente trabalho. A exposição é acompanhada pela edição de uma obra intitulada Peniche, Encontro entre Dois Continentes: Concerto para mar e Orquestra. San Pedro de Alcântara, 1786.

7 comentários:

Margarida Araújo disse...

Frequentadora habitual da tua página, percorro virtualmente os caminhos por onde andas. Diversos, sempre interessantes.

A propósito do S. Pedro de Alcântra, trouxe da casa da minha mãe: BLOT, Jean-Yves, Uma rota marítima na encruzilhada dos interesse da Europa do século XVIII. A América Latina às portas da Europa: O naufrágio do navio espanhol "San Pedro de Alcantra"
(1786),1984, separata nº 2 Série Arqueológica vol I, Museu do Mar Cascais, que talvez tenhas. Irei em breve ver a exposição.

Por aqui continuarei a andar com muito gosto

bj
Margarida

Joao B. Serra disse...

Obrigado pelas tuas palavras amigas. Não conheço essa publicação do Jean-Yves Blot. Aliás, se alguma crítica posso fazer ao livro editado com a exposição inaugurada no sábado é que não contém uma bibliografia. Não compreendo o motivo dessa omissão.
Não deves perder a exposição. Procurei que o meu post despertasse o interesse dos leitores e eventualmente suscitasse o mesmo entusiasmo que en senti. Constitui também uma boa oportunidade para trabalho com alunos sobre temas de património e de apresentação de colecções patrimoniais.

Anónimo disse...

Sou um apaixonado pela saga do S. Pedro de Alcântra, especialmente da paisagem onde decoreu o desenlace da tragédia.Assisti ao desenrolar dos trabalhos arqueológicos realizados próximo da Papoa, trabalho rendilhado e oportuno.
A costa de Peniche é tão deslumbrante quanto fatal, permissiva a cantos de sereias enebriadas com tal beleza....o que poderá explicar o naufrágio do S. Pedro de Alcântra, num dia de mar calmo, sem nevoeiro....

J. disse...

Na exposição sobre o naufrágio do "S. Pedro de Alcântara", para além do enorme interesse que apresenta do ponto de vista histórico e arqueológico, impressionou-me isto:

As atribulações da viagem e o triste fim do navio e de muitos dos seus ocupantes deveu-se, sobretudo, a um problema de corrupção e ao não funcionamento das instituições para a punir.

Com efeito, o comandante do navio, na ânsia de enriquecer ilicitamente, aceitou carregar (só no que toca às barras de cobre transportadas) mais do dobro da capacidade de carga do cavername do barco...

Alguns comerciantes ainda denunciaram o caso ao vice-rei espanhol, o qual, aparentemente, nada terá feito para evitar o desastre anunciado.

Em suma, os achados arquológicos do "S. Pedro de Alcântara" agora em exposição lembram-nos que a conjugação da cupidez, da corrupção e do não funcionamento das instituições de prevenção, regulação e repressão conduzem ao naufrágio, seja dos navios, como aconteceu em 1784, seja dos sistemas financeiros, como está hoje em vias de acontecer, seja ainda em qualquer outra organização social...

Obrigado por me ter proporcionado, indirectamente, a visita à exposição.

J.

Joao B. Serra disse...

A corrupção é um factor de atraso e subdesenvolvimento, sobre isso não podemos estar mais de acordo.
No caso, o barco navegou em risco. Pareceu-me que o naufrágio acabou por se dar por erro de navegação imputável a erro da carta de marear.

Do que li, formei a convicção de que o embate nas rochas tinha acontecido de noite e não "em dia sem nevoeiro". De qualquer modo, nada impedia, julgo eu os cantos de sereias à noite. O assunto merece decerto aprofundamento...

Searcher disse...

Há algum fundamento nas histórias que ouço de habitantes daquela zona que dizem que os seus antepassados acendiam fogueiras em pontos altos do interior para iludirem os barcos sobre a distância a que navegavam da costa?
É uma forma de pirataria costeira descrita noutros locais, terá também existido aqui? E poderá ter algo a ver com este naufrágio?

Joao B. Serra disse...

Sim, deve ter fundamento. Há relatos dramáticos de naufrágios no século XIX que apontam nesse sentido. Mas não está comprovado neste caso. Dada a repercussão que ele teve, na altura, creio que se tivesse sido esse o motivo do naufrágio, haveria imediata denuncia pública do facto. De todo o modo, vale a pena averiguar junto dos especialistas.