sexta-feira, 27 de março de 2009

Fenetres ouvertes simultanément


Robert Delaunay
Fenêtres simultanées [2e motif, 1re partie]), 1912

Fenêtres ouvertes simultanément (1ère partie 3ème motif)

5 comentários:

Submarino Amarelo disse...

A profusão de janelas neste blogue, em pinturas e fotografias, demonstra um fascínio que mereceria um comentário. Não meu, que não tenho nesta área qualquer competência, mas a nossa amiga X tem aqui seguramente um desafio interessante.

Isabel X disse...

Só em português existe a palavra janela, da mesma família de Janus, o deus bifronte. Janua é porta em latim. Nas demais línguas as palavras que significam janela referem-se ao vento (window, ventana) ou a uma abertura mais pequena, correspondente à nossa fresta - fenêtre, finestra, fenster. As janelas são sítios de onde vemos outros sítios: não estando inteiramente em nenhum deles, há uma suspensão do lugar que nos permite vermo-nos a nós mesmos e ao que vemos em nós. Dantes namorava-se à janela.
Bem, expliquei o meu fascínio por janelas, para corresponder ao desejo expresso do submarino amarelo, mas não o do responsável pela profusão de janelas neste blogue
- Isabel X -

Submarino Amarelo disse...

"As janelas são sítios de onde vemos outros sítio, não estando inteiramente em nenhum deles". Respondendo-me a mim, terá dado aqui a Isabel a explicação para o fascínio do autor?

NB disse...

De António Gedeão

As janelas do meu quarto
(1948)

Tenho quarenta janelas,
nas paredes do meu quarto,
sem vidros nem bambinelas,
posso ver através delas,
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea,
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza,
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança,
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa.

E o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio,
a que se chama poesia.

E a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade.

E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro,
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.

Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra,
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
que vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta,
falta-me a luz e o ar.
 

Anónimo disse...

Ai, como eu gosto das "Janelas" de António Gedeão!
MV