terça-feira, 8 de junho de 2010

Emídio Ferreira


Terminou hoje o seu exercício, à frente do Conselho Técnico-Científico da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, o Professor Emídio Ferreira. Ocupava o cargo desde a criação e instalação do órgão, em Fevereiro de 2009, para o qual foi eleito por unanimidade. No actual pedido de exoneração, pesou a expectativa de uma próxima aposentação.
O Professor Emídio Ferreira foi um dos esteios intelectuais da ESAD, um dos seus docentes mais preparados e uma referencia da instituição que ajudou a fundar e formar.
Além da admiração pela sua cultura vasta e diversificada, liga-me a Emídio Ferreira uma profunda e longa amizade, feita principalmente da partilha de algumas das suas mais admiráveis qualidades: uma inesgotável curiosidade pelo fenómeno cultural, designadamente na sua vertente artística, um interesse acurado pela vida politica, o gosto da descoberta e da compreensão do novo, o prazer da viagem, da mesa e, em geral, da vida. O Emídio é um conversador nato, disponível para uma imensidade de assuntos, prolixo, incansável, sem tempo. Em sua casa, em Lisboa, onde tantas vezes aportei depois de jantar, nos anos 90, raramente nos dávamos por vencidos antes das 3 da manhã.
Conhecemo-nos na Faculdade de Letras de Lisboa, no final da década de 60. O Emídio frequentava o Curso de Filologia Românica. Do seu grupo de afinidades intelectuais e politicas alguns membros vinham de Santarém, em cujo liceu ele estudara. Nasceu em Alcanena, numa família ligada à indústria de curtumes. A tropa, em Angola, interrompeu-lhe os estudos e condicionou-lhe ou marcou-lhe, como a quase toda uma geração, percursos e visões do mundo. Perdemo-nos o rasto. Só nos voltamos a encontrar, 20 anos mais tarde, nas Caldas da Rainha.
Integrando desde Março de 1989, a Comissão Instaladora da Escola de Arte e Design, criada por decreto publicado em Dezembro do ano anterior, tive o prazer de propor a admissão do Professor Emídio Ferreira no corpo docente da Escola, logo no ano seguinte. Fez pois parte do primeiro núcleo de professores da ESAD, aquele que, com a Comissão Instaladora, acompanhou as negociações para a definição dos Cursos iniciais, discutiu os respectivos planos curriculares, planeou o primeiro ano lectivo e preparou a primeira versão do Programa Preliminar que deveria servir de base ao lançamento de um concurso para dotar a instituição de edifício próprio. Foi o responsável pela cadeira de História da Arte e da Cultura que começou a funcionar no ano lectivo de 1990/91.
O Professor Emídio Ferreira após conclusão da sua licenciatura, passara pelo ensino secundário, rumara a Itália, desempenhando as funções de Leitor de Cultura Portuguesa na prestigiada Universidade de Veneza, e obtivera o grau de mestre em História de Arte, na Universidade Nova de Lisboa, salvo erro numa das primeiras edições do Curso de Mestrado criado sob a égide do Professor José-Augusto França.
Deixei a direcção da ESAD em Março de 1991, mas a experiência gratificante e intensa do verdadeiro processo de instalação dos dois anos anteriores deixou em todos os que nela participaram marcas profundas. Fora um tempo de projecto discutido, de desenho participado, de debate aprofundado e sem limitações, de confronto de experiências e perspectivas, de construção. Foi essa experiência que permitiu ao Prof. Emídio Ferreira enfrentar com resiliência um doloroso e injusto afastamento da Escola a que se dedicara com empenho e competência. Nesse período, felizmente resolvido com uma reorientação pacificadora da direcção da ESAD, a nossa convivência foi revigorada, alimentada aliás por novos projectos de intervenção educativa e profissional.
Quando eu próprio regressei à ESAD, no quadro agora de uma vinculação efectiva, o Professor Emídio Ferreira já nela reassumira as funções docentes. Quando fiz as minhas provas para professor adjunto, em Junho de 2004, coube-lhe arguir, com a isenção e proficiência, a minha dissertação, o que para mim só constituiu, além de um prazer, um acrescido motivo de estímulo. Por essa época, Emídio Ferreira tomara a decisão de passar a residir nas Caldas da Rainha, tendo adquirido uma casa no centro histórico, que recuperou de forma exemplar e decorou com o bom gosto que o caracteriza (com a cumplicidade “militante” da Isabel Tomé, evidentemente).
Este depoimento não é uma biografia, nem sequer um testemunho circunstanciado de alguém que tem tido o privilegio de aceder à intimidade de Emídio Ferreira, beneficiar e devolver a sua solidariedade. É sobretudo um pequeno gesto público, uma chamada de atenção para um professor que foi – e continua a ser - muito importante na vida de uma Escola que ocupa um lugar méritório no panorama do ensino artístico e do design.
É uma homenagem sentida a um amigo de múltiplas andanças, e a manifestação de um voto preocupado. E este voto é o de que a Escola, com a qual tão generosamente se envolveu, o não esqueça neste ciclo em que se comemoram duas décadas de existência, e de que a cidade, que adoptou para residência, saiba nele despertar o desejo de colaborar em iniciativas para as quais a sua formação e gosto o recomendam superiormente.

9 comentários:

philip disse...

Não possuindo blog próprio venho por esta via pedir emprestado este veículo do nosso colega comum, João Serra.
Não somos muito dados a respeitar as instituições. E, tristemente, orgulhamo-nos disso. Imaturidade politica concerteza. No trabalho como na vida andamos sempre rodeados de enfáticas tomadas de posição, de pequenas certezas. Mas desses mil gestos sai-se sempre bem, pois aquele que os faz não se compromete verdadeiramente. Na verdade eles não implicam audácia mas apenas uma exposição fugaz, da ordem da táctica certeira. Cruzamo-nos frequentemente com este género de competência: ela atravessa todas as gerações. Contudo, assumir a posição ética certa nos momentos cruciais já é outra coisa, rara de se ver. Cada vez mais rara. Foi essa qualidade que, desde o primeiro momento, há quase dez anos, mais me impressionou quando conheci Emídio Ferreira. As manifestações de erudição, do prazer intenso e truculento na experiência das coisas que ‘recheiam’ o nosso quotidiano, apesar de pouco frequentes, lá vão cruzando a nossa vida. Mas observar a coragem de não hesitar nas questões que realmente importam e assumir as suas consequências é, mais do que raro, um valor. No Emídio Ferreira, aprendi a conhecer que essa virtude tinha um bónus sedutor: ela encontra-se quase sempre contrabalançada por uma sensível e irresistível fragilidade, uma hesitação sobre as pequenas coisas. No Livro do Samurai, há um aforismo que diz “As questões da maior importância deverão ser tratadas com ligeireza; as questões de pouca importância deverão ser tratadas com gravidade. ” Este é o sinal inequívoco de um homem (no sentido referido por Primo Levi) – em toda a sua dimensão ética e politica.
Este testemunho não pretende, enfim, mais do que deixar um voto urgente: que a ausência do Emídio Ferreira na ESAD seja amplamente compensada pela sua presença no nosso dia a dia – fora dela.
Philip Cabau

Anónimo disse...

Obrigado João Bonifácio Serra pelas palavras que disseste sobre o Emídio. Ele foi o meu companheiro de residência e de discussões políticas e merece a pequena homenagem que fizeste. Bem hajas. Eu, da minha parte, deixarei mais tarde, no teu blog um comentário sobre ele.
Um abraço.
Jorge Custódio

Isabel X disse...

Conheço Emídio Ferreira de ambos sermos amigos do João Serra, o que é logo um modo de sermos amigos também. As vezes em que temos conversado, confratenizado, aconteceram por isso.

Gosto muito do modo como fala, como sorri, como fuma, como está na fotografia, afinal.

É bom encontrar um texto assim. Haver quem o escreva a propósito de um amigo e quem mereça que ele lhe seja escrito, endereçado.

Cá fico à sua espera Emídio, à espera de outras ocasiões felizes de encontro e conversa, à espera de si no PH, um "estado de espírito" (como alguém dizia um destes dias) de que o Emídio também faz parte.

Quem falou em esquecer? Inesquecível tudo isto!

- Isabel X -

Anónimo disse...

Vai-se embora um dos "únicos" professores da ESAD.CR!

Anónimo disse...

Boa tarde, João.
Obrigada pelo envio do texto de homenagem ao Emídio que gostei muito de ler. Mais do que justa e muito bem escrita. Parabéns.
 Acho que a ESAD deveria organizar uma pequena homenagem a este colega em sinal do nosso apreço pela sua dedicação à escola. Ele merece e é um gesto que lhe devemos.
Madalena Gonçalves

Anónimo disse...

O Emídio não se vai embora.....
talvez se ausente, algumas vezes, para regressar à sua Veneza efabulada, a de Corto e a de Tintoretto.....
Abraço.
NB

mariac disse...

Com um brilho a mais nos olhos (porque dos cantos não sei), respiro a memória das aulas maiores que sempre me pareceram tão curtas – pelo prazer, pelo gozo indelével que foi apreender-sentindo a História da Arte com o Professor Emídio Ferreira.
Licenciei-me mas não “perdi” o Professor Emídio – sobram-me os preciosos e velozes apontamentos das suas empolgadas aulas, a gravação de um “ambicionado” coro a muitas vozes nas traseiras do Mosteiro de Alcobaça e sobra-me um obrigada e um carinho sem limites.
“Quando eu estive em Veneza”, foi máxima para o Professor no “corredor da Fama” da Esad em 2005, nem sempre elogiosa. Deixaria aqui uma outra: “quando eu estive nos alunos”, porque aqueles que tiveram a capacidade de o receber tiveram-no!
Maria Santos (maria caldas)

Luísa Soares de Oliveira disse...

Do Emídio recordo com gosto a pessoa que ao longo destes anos soube tornar-se amigo. Guardo as conversas, a risada, a erudição, a casa das Caldas que abriu com gosto, introduzindo amigos e conhecidos no seu universo pessoal de livros, música, desarrumação, quadros, objectos - é por esta abertura ao espaço pessoal que se mede a generosidade de um homem, coisa cada vez mais rara na vida urbana e apressada que levamos. Do Emídio, por fim, guardo a postura que sempre soube ter na ESAD, defendendo sem medo as suas ideias e princípios, recto sem equívocos, apaixonado com frequência. Tenho a certeza de que vou poder continuar a beneficiar da sua experiência e saber. Obrigada, Emídio.

DAVID ETXEBERRIA disse...

Sobre o primeiro Professor Emídio e, segundo, sobre o colega Emídio, já muito aqui foi dito e dito no tom cordial e franco que merece e fez por merecer.

Descobri, primeiro como aluno, inúmeras coisas sobre as fantásticas estórias que rodeiam as obras de arte. Aprendi, também como aluno, a reparar em coisas, em pequenos pormenores alheados do olhar descuidado, que até ao momento não faziam sentido, nem tinha reparado. Verifiquei, ainda como aluno, o empenho, a força e a garra que manifestava na defesa da Escola e dos seus constituintes.

Mais tarde, depois de alguns anos, tive a felicidade de ser seu colega e de acatar com a enorme responsabilidade que isso acarretava esse cargo. No entanto, não deixei de aprender, de reparar e verificar que, tal como Hannah Arednt dizia "a educação é, também, onde decidimos se amamos as nossas crianças o bastante para não expulsá-las do nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos". Porém, as nossas crianças são as nossas criações, as nossas produções, enfim, as nossas obras de arte.

Assim, e em forma de guisa, sei hoje que essas crianças serão sempre estimadas por aqueles que, tal como o Professor Emídio, as abraça como suas.

Um bem Haja,

David Etxeberria