segunda-feira, 11 de maio de 2009

Felicitações

Parabéns aos meus inúmeros amigos que fazem do FCP uma "religião" e que sempre acreditaram, com ou sem pronuncia do norte, que o "Puerto é uma naçom".

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Vem Serenidade

Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.

E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.

E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome.
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros
na chaminé do sangue.

Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retracteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.

Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.

Excerto de um dos mais extraordinários textos da poesia portuguesa, de Raul de Carvalho. A totalidade do poema Serenidade és Minha pode ser lido aqui.
Vem serenidade. Ou vou eu à tua procura. Até Segunda-Feira. 

Abraçogs

Descobri-os ontem anunciados na portada de um pequeno restaurante no Largo do Carmo. Sim, é em Maio que eles voltam. E um tropel de memórias irrompeu de imediato, ameaçando revolver a paz de cemitério a que as tenho condenadas. E ali fiquei eu, como o outro velho do Abismo de Chicago, a murmurar palavras, a associar lugares, a inventar passados contra tudo o que deixámos que se perdesse. À espera, sem esperança, de que, escutando-as, alguém saiba o que com elas fazer.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Recomendo vivamente

O blog de João Vasconcelos Costa: inteligente, útil, confiável.

Grau zero

Não me conformo com a escalada da crispação que parece querer instalar-se no debate político. Não percebo a quem serve, sendo certo que esse é um dos agentes do afastamento dos cidadãos da vida política e um contribuinte líquido para a abstenção eleitoral. A internet é uma plataforma indefesa  desse jogo perigoso que não respeita regras nem sequer de civilidade. Todos os dias tenho a minha caixa de correio inundada de lixo "político" da pior extracção, baseado na acusação gratuita e anónima, que não solicitei, saído de umas tantas centrais apostadas em promover o grau zero (?) da política. 

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Dimensões e limites da autoridade democrática: a escola

Editada originalmente em 1987, a obra de Ami Gutmann, directora do Centro de Valores Humanos da Princeton University, Democratic Education, coloca questões que permanecem na ordem do dia. A educação continua a ser um dos problemas mais importantes da vida política e a política de educação remete para um debate de teoria política. Em democracia, a educação é um aspecto central da relação entre Estado e famílias, das modalidades de controlo democrático do serviço público e da actividade de profissionais, do funcionamento dos sistemas de participação, autoridade, deliberação. A educação democrática é reveladora e constituinte da liberdade, da cidadania, da igualdade de oportunidades, da não discriminação, da tolerância, do cosmopolitismo e do multiculturalismo. Não há cultura democrática e educação política sem escola democrática.
Um excelente contributo para a reflexão política. Tradução em língua castelhana Amy Gutamann, La Educación Democrática. Una Teoria Política de la Educación. Barcelona, Paidós, 2001.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Nem realidade nem sonho

Era o que ele estudava. "A estrutura, quer dizer, a estrutura", ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bola de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. "A Estrutura da Bola de Sabão, compreende?" Não compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal da minha meninice com os seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. Uma de cada vez. Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca, a espuma descendo pelo queixo. Molhando o peito. Então eu jogava longe canudo e caneca. Para recomeçar no dia seguinte, sim, as bolas de sabão.

Lygia Fagundes Telles, A Estrutura da Bola de Sabão. Lisboa, Livros do Brasil, 2001. p. 149.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Notícias da gripe: prudência

Depois de terem lançado o pânico, baseado no que pareceu ser um descontrolo sanitário no México, as autoridades ainda não constataram a especial virulência do virus H1N1. À táctica terrorista dos primeiros dias, sucedem agora prudência e apelos à calma.
Vamos ver.
Mas não deixa de ser inquietante. Estando o planeta sujeito a um assalto sazonal de gripe ao longo de todo o século XX ,pelo menos (ou seja, sendo a gripe globalmente epidémica), a prevenção é aqui quase inexistente. Em que direcção se tem estado a investir na investigação quanto ao trânsito de virus entre o homem e o animal?

domingo, 3 de maio de 2009

O mundo já mudou mas nós não

De uma das vozes mais lúcidas da política europeia, Felipe González:

[...] Como não é esta a perspectiva, a confusão aumenta e cada vez mais se responsabiliza os políticos locais, de uma cor ou de outra, pelo que está a acontecer, esquecendo que é a ausencia de um normativo aplicável global e localmente que está na origem desta grande bolha financeira que nos afoga com a sua implosão. Enfrentamos uma crise de governância global sem instrumentos para a corrigir.
A convicção dominante durante anos de que o mercado se auto-regulava por intermédio de uma "mão invisível" afastou a política da sua função reguladora como um estorvo ao crescimento, com a mesma determinação com que agora se exige aos políticos que reparem o desastre. Já não há outros responsáveis senão os Governos em exercício. Fala-se pouco dos autores do cataclismo e menos ainda das causas profundas que levaram a esta situação. O que resta é a exigência de responsabilidade dos Governos, a procura irracional de bodes expiatórios no quadro em que não são responsáveis, o da política.
O mundo mudou, mas nós não mudámos. A crise mostrou a existência de um antes e um depois que vem surgindo há mais de duas décadas, com a revolução tecnológica e a queda do muro de Berlim.

O restante texto do presidente da Comissão de Sábios que foi encarregada de elaborar um relatório sobre o Futuro da Europa
pode ser lido aqui.

sábado, 2 de maio de 2009

Vulcões, ilhas, arquipélagos

Comecemos pela Fábula Urbis: fica num daqueles prédios com que dantes se rematavam esquinas, na Rua Augusto Rosa, por detrás da Sé de Lisboa. No rés-do chão é livraria, uma livraria olissiponense, sábia e cuidadosamente organizada, num espaço acolhedor. O primeiro andar, duas pequenas salas de cujas janelas se vê a Lisboa e o Tejo de Carlos Botelho, é galeria espaço de tertúlia.
Ali nos reunimos ontem ao fim da tarde para ver as fotografias de Ana Maria Bettencourt sobre ilhas açorianas e caboverdianas, ouvi-la falar destes seus trabalhos que afinal são inseparáveis de um condição insular com que se identifica e de uma opção militante pela escola e pela intervenção social e política. E para ouvir Elisabete Caramelo dizer alguns dos mais belos poemas de língua portuguesa. E falar de experiências de insularidades diversas, que afinal talvez sejam apenas formas de ver a terra de longe, a terra longe.

Duas estratégias: egoísta e altruista

Entrevista com Marc Barthélemy, membro da equipa que efectuou a simulação da propagação da gripe mexicana para a Organização Mundial de Saúde, no Le Monde de ontem.

Pergunta: 
Que nível deve ser accionado para desacelerar a propagação do H1N1 ou reduzir os seus efeitos?

Resposta:
Simulámos a propagação de uma doença de tipo gripal transmissível entre humanos e testámos duas estratégias de utilização dos stocks de medicamentos antivirais disponíveis pelo mundo.
Na primeira estratégia, cada país utiliza os seus stocks de forma egoísta, reservando-os pera a sua própria população. Na segunda, os países mais ricos dispensam uma pequena parte - da odem dos 10 a 20% - das suas reservas aos primeiros países atingidos pela epidemia. Nas nossas simulações esta gestão "altruísta" ou "colaborativa" dos stocks de antivirais reduz o impacte da pandemia. Relativamente aos resultados obtidos com uma gestão "egoísta", o número de casos em todo o mundo pode ser dividido por 10 a 1000, segundo os países e a estação do ano em que se desencadeie a epidemia. Além disso, graças a este modelo de gestão, o pico da epidemia pode ser atrasado pelo menos um ano. Este período pode revelar-se crucial porque permite desenvolver e produzir uma vacina para os virus gripais do tipo H1N1.

Alguém arrisca um prognóstico sobre a estratégia preferida dos países ricos?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Bartolomeu Cid

Bartolomeu Cid dos Santos, Homenagem a Cesário, 1985


Um privilégio: ter assistido, no dia 30, à antestreia de dois filmes produzidos para a RTP2 (série Figuras Relevantes da Cultura Portuguesa) - Bartolomeu Cid dos Santos. Por Terras Devastadas de Jorge Silva Melo e Manuel Hermínio Monteiro. m.h.m. de André Godinho.
Jorge Silva Melo não pode terminar o filme com Bartolomeu. Sendo notórios o fascínio e o sentimento de perda que a figura do artista geraram no autor do filme, há um equivalente de pudor que perpassa ao longo da montagem. Essa contenção é um dos traços mais interessantes da forma como Jorge Silva Melo lidou com uma personagem tão entusiasta, tão envolvente, tão espontânea como Bartolomeu. A personalidade cativante do artista, o seu corpo grande, o olhar menino e atento, as mãos tingidas de negro, a memória fluente e as palavras evocativas ocupam a cena, sem excessos ou sublinhados, para que possamos perceber nos testemunhos dos próximos e na sequência de trabalhos, a nostalgia, o romantismo, a absorção e os labirintos, a viagem, os enigmas da sua obra ímpar.
Para quem como eu não conheceu Manuel Hermínio Monteiro, o filme do jovem cineasta André Godinho, é uma dupla revelação. A figura do editor que mudou o livro em Portugal e nos legou esse livro único que é a A Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro foi tratada nos termos exigentes e compreensivos que merece. O resultado é um filme excelente.

Ana Maria Bettencourt

Foi eleita ontem pela Assembleia da República para a Presidência do Conselho Nacional da Educação. Ana Maria Bettencourt é Professora Coordenadora do Instituto Politécnico de Setúbal. Uma excelente escolha que é o reconhecimento de um continuado e exigente trabalho de reflexão sobre as políticas educativas, a valorização da função docente e o reforço da escola pública.
Nota pessoal.
Trabalhei uma década próximo de Ana Maria, cuja militância, saber e rigor me habituei a admirar. Também conheci os resultados do seu olhar de fotógrafa (os visitantes da cidade imaginária talvez se recordem das suas fotografias sobre vulcões). Mas destes seus dotes, falarei em seguida.

Notícias da gripe: as perguntas

Continuo a ler na imprensa mundial as notícias da nova gripe. Continua por explicar o motivo pelo qual se morreu de gripe mexicana no México. Continua por contabilizar qual o número exacto de mortos com a nova gripe relativamente ao total de mortos por gripe. 
A gripe que chega à Europa todos os Invernos atinge cerca de 20% da população. Essa gripe não é pandémica? Chega todos os anos, todos os anos é combatida com a vacina preparado em função do virus do ano anterior, mas não é considerada pandémica. Porquê?
Todos os anos se morre de gripe na Europa e no Mundo. Li que cerca de 40000 europeus morrem por ano de gripe. Parece um número suficientemente expressivo para encarar a gripe normal como um sério risco para a saúde pública. E, no entanto, além da vacina aconselhada (mas não obrigatória) para os grupos de risco, o que se prescreve ao paciente que experimenta os sintomas da gripe é que tome um analgésico ou um antipirético e sobretudo se recolha em casa e descanse dois a três dias.
Por outras palavras: há razões para crer que esta nova gripe é mais mortal que as anteriores? Até à data, ninguém respondeu a esta questão. Mas não há evidência que o comprove, nem mesmo no México. Parece que esta gripe tem uma capacidade de propagação mais rápida, mas também esse aspecto teria de ser comprovado. Se o virus sobrevive apenas 48 horas fora do meio favorável, em que que é que essas 48 horas diferem de outros virus de gripe?
Claro que 48 horas dão para viajar de avião. Sempre deram. Todos os virus que sobrevivam mais de umas horitas podem viajar de avião...
Em suma: a OMS conclamou o que chamou pré-pandemia. Ou seja, abriu a caixa da Pandora da pandemia. E depois apelou a que não entrássemos em pânico. Com franqueza!!!
E se em vez de entrarem neste perigoso jogo cuja regras são as do espectáculo mediático, respondessem objectivamente às perguntas que devem ser colocadas? 


À espera da gripe: armazém de Tamiflu no Reino Unido.

À janela de Vasco Trancoso


Janela do Hospital das Caldas da Rainha.
Fotografia cedida por Vasco Trancoso que entretanto decidiu partilhar os seus múltiplos dotes na blogosfera.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Não te verei morrer


Idea Vilariño, poeta, crítica literária, ensaísta, tradutora e professora uruguaia. Nasceu em Montevideu, em 1920. Faleceu ontem.


YA NO

Ya no será,
ya no viviremos juntos, no criaré a tu hijo
no coseré tu ropa, no te tendré de noche
no te besaré al irme, nunca sabrás quien fui
por qué me amaron otros.

No llegaré a saber por qué ni cómo, nunca
ni si era de verdad lo que dijiste que era,
ni quién fuiste, ni qué fui para ti
ni cómo hubiera sido vivir juntos,
querernos, esperarnos, estar.

Ya no soy más que yo para siempre y tú
Ya no serás para mí más que tú.
Ya no estás en un día futuro
no sabré dónde vives, con quién
ni si te acuerdas.

No me abrazarás nunca como esa noche, nunca.
No volveré a tocarte. No te veré morir.

Idea Vilariño

Só se morre de gripe mexicana no México?

As autoridades sanitárias mexicanas só sabem de certeza certa que, das 150 pessoas que morreram devido ao surto de gripe viral, 20 estavam infectadas pelo virus da gripe dita porcina.
Há 7 países que informaram a OMS que detectaram casos. Mas até à data nenhum declarou que o tratamento não fora eficaz ou tinha sido extemporâneo. 
Que se passa final no México?

terça-feira, 28 de abril de 2009

Ser contra a governabilidade

O PCP, com a originalidade que lhe é reconhecida, elegeu como primeiro objectivo político "tirar a maioria absoluta ao PS". O CDS, no seu Congresso das Caldas, também já tinha enunciado esse propósito. O PSD idem. O BE não diz outra coisa desde há 4 anos.
Nenhum destes partidos - que tem como finalidade diminuir a governabilidade do País em período de crise - explica responsavelmente como tenciona contribuir para uma solução de Governo no caso de conseguir o seu intento. Todos teorizaram os malefícios da maioria absoluta. 
Mas deviam sentir-se obrigado a fazê-lo. Até porque se o PS realmente perder a maioria absoluta, em razão dos esforços conjugados de todos os outros partidos, estes sim obterão, somados, a maioria absoluta.
E, logicamente, deveriam formar governo.
Mas como, se eles são contra qualquer maioria absoluta?

Que o eleitorado nos livre de semelhante desastre!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Beso con tapaboca

No El Pais de hoje.

domingo, 26 de abril de 2009

Desejo irreprimível de Liberdade

O alferes miliciano Jaime José Matos da Gama, licenciado em Filosofia, foi um dos actores do 25 de Abril de 1974. Ninguém hoje tem dúvidas de que é um dos políticos mais bem preparados e experientes da geração que fez a Democracia. Registo do mais interessante discurso de ontem, o do "general" no activo  Jaime Gama:

Há muitos anos, participo nesta sessão solene, penso não ter faltado a nenhuma, e aqui reencontro, sempre, nesta manhã de feriado, os mais altos responsáveis do país. Até aqui chegar, a tranquilidade serena das ruas de Lisboa permite-me por alguns momentos rever os factos do dia, desse dia, desde a véspera, o compromisso de honra, a distribuição das missões, a incerteza do resultado, a recepção das senhas, desde a noite, a acção essencial, a tomada das posições-chave, a surpresa, desde o toque de alvorada, a formatura, as primeiras movimentações exteriores, as resistências possíveis, o crescendo da manobra , a incerteza dos resultados, as intervenções decisivas, as imagens simbólicas, o início da curiosidade e do apoio, a vitória sem ódio, a fraternidade, a libertação, a paz, e a esperança.
A essa sequência de recordações vou também buscar inspiração e alento para a mensagem, essa mais formal, que depois vos transmito e ao país, com a consciência do caminho percorrido, nas suas dificuldades e insucessos, nas suas angústias e sofrimentos, mas também nos inegáveis legados, obra de todos, que fomos capazes de conseguir. E descubro, novamente, que, em cada momento verdadeiramente decisivo das nossas vidas, para além da incerteza dos resultados, que, à partida, ninguém pode ter nunca como adquiridos, desde a véspera, desde a noite, desde a alvorada, é sempre a força serena das nossas ideias, o compromisso generoso com aspirações nobres, o desejo irreprimível de liberdade e de justiça que acabam por fazer o seu caminho, triunfar e vencer, e isso mesmo me leva a concluir, que no melhor do nosso espírito devemos permanecer abertos e disponíveis para que cada dia, todos os dias, o nosso coração saiba acolher a luz, a graça, e o dom imensos de um sempre novo 25 de Abril.

Au printemps de quoi rêvais-tu ?


sábado, 25 de abril de 2009

Vem aí o bloco?

O Presidente na mensagem que hoje dirigiu à Assembleia da República:

Uma campanha em que os adversários políticos se respeitem, sem linguagem excessiva nem crispações, será um contributo para a dignificação da nossa democracia e abrirá espaço para o aprofundamento do diálogo interpartidário que tão necessário é para a resolução dos problemas nacionais. As forças políticas devem ter presente que sobre elas recai a grande responsabilidade de encontrar soluções de governo, e que essa responsabilidade é particularmente acentuada nos tempos difíceis que o País atravessa.
É importante que o debate eleitoral se concentre na resolução dos grandes problemas que o País enfrenta, com os olhos postos no futuro, sem perder tempo nem energias em recriminações sobre o passado.
[...]O emprego, a segurança, a justiça, a saúde, a educação, a protecção social, o combate à corrupção são questões básicas que devem marcar a agenda política e em torno das quais deve ser possível estabelecer consensos entre os partidos estruturantes da nossa democracia.

Qui avait 25 ans en l'an 1974

De acordo com as regras da incorporação militar aplicadas a estudantes universitários, eu devia dar entrada na recruta para oficiais milicianos, em Mafra, no ano de 1974. Refiro-me à famosa regra 20+5 (vinte anos acrescidos do número de anos necessários para a conclusão de uma licenciatura). Em Novembro de 1973, deslocara-me à sede do meu Distrito de Recrutamento, em Santarém, a fim de entregar um requerimento solicitando que me fosse concedida a possibilidade de entrar em última incorporação do ano, para concluir a licenciatura. De facto, terminara o bacharelato em Setembro de 1970, tendo a partir daí realizado uma cuidadosa gestão das cadeiras do 4º e 5º anos do Curso, de modo a adiar até ao limite dos 25 anos a entrada na tropa.
A questão do “serviço militar” tinha sido objecto de discussão com os amigos mais próximos no final da década de 60. Se bem que nesta matéria imperassem as opções individuais, interessávamo-nos pelos argumentos gerais das posições tipo: recusa da incorporação, o que implicava inexoravelmente a emigração clandestina, versus aceitação da imposição proveniente do regime autoritário com todas as consequências. Havia quem defendesse a chamada posição revolucionária: desertar em caso (praticamente inevitável) de mobilização para uma das “frentes de guerra”. Alguns tinham acesso a situações consideradas menos gravosas, como o ingresso na Marinha. Eu encontrava-me na posição dominante: enfrentar a incorporação e as suas consequências com desconfiança e revolta, admitindo no entanto reexaminar a situação mais à frente.

Do outro lado

Qui avait 25 ans en l'an 1974

A madrugada de 25 de Abril de 1974. Octávio Quintela, meu colega no Liceu do Padre António Vieira (PAV) e meu vizinho na Rua Mastro Jaime Silva Filho, telefonou-me bem cedo. – “Pode chegar aqui, por favor?” Havia um tom de urgência e perplexidade e algum mistério que me fez saltar de casa quase de imediato. Encontrávamo-nos todas as manhãs, partilhávamos boleias para a escola, mas aquele encontro estava a acontecer cedo demais. À saída do elevador, Octávio disse-me: - “Correm boatos de que há uma revolução em marcha, você sabe alguma coisa disso?” Surpreendido, disse que ignorava. Então, após alguma hesitação, levou-me até à sala onde estava Mário Sottomayor Cardia. Apresentou-nos. Cardia era seu compadre, padrinho do filho. Octávio parecia confundido: - “Ele chegou aqui esta madrugada, dizendo que há uma revolução e que era melhor não passar a noite em casa. Já pensei falar para a mulher (a escritora Luisa Ducla Soares), mas ele impediu-me de o fazer”. Cardia repetiu-me a sua história. E nós ficámos ali, de ouvido na rádio, até que a música, e os apelos e comunicados do Movimentos das Forças Armadas nos convenceram de que alguma coisa de especial se passava e decidimos não ir ao PAV nesse dia.
Nenhum de nós tinha uma boa ideia do que se podia fazer para ajudar os militares que, aliás, recomendavam insistentemente que a população, sobretudo de Lisboa, se abstivesse de ocupar as ruas para não interferir nas manobras militares. O Mário Sottomayor Cardia parecia alheado, incapaz de fazer ou recomendar qualquer acção. De modo que eu me propus fazer uma coisa que me pareceu, na altura, ser uma boa hipótese: efectuar rondas pelos quartéis de Lisboa que conhecia, tomar nota dos movimentos que pudesse observar do exterior, e reportá-los. Como o Octávio ficava em casa com o Cardia, meti-me no Honda 600 branco de matrícula BM-38-13, que era o meu carro, levei comigo a "Osga de Alvalade", uma podengo português pequeno que então viva na Rua Maestro Jaime Silva Filho, e parti para essa missão absolutamente inútil e caricata de que esforçadamente dei conta aos meus interlocutores já a meio da tarde. Não tinha notado nada de verdadeiramente significativo. A segunda missão foi mais interessante, mas já não me lembro quem a sugeriu: juntar-me a um grupo que ia tentar comunicar com os presos políticos de Caxias. Fui isso que fiz a partir das 18 horas.

Quanto mais se apartam

sexta-feira, 24 de abril de 2009

À janela do 25 de Abril de 1974







Carlos Gil, Um Fotógrafo na Revolução. Lisboa, Caminho, 2004.

Inquietação

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Textos de véspera e do dia seguinte. No tempo em que...

Eduarda Dionísio (1980)
6. Desenho: cigarro; código: eu
Texto A (msc)
Nos tempos que vão correndo torno-me caro. Consumo-me depressa ou devagar, consoante as circunstâncias conjunturais. Produzo, sem grandes esforços, muitas baforadas de fumo. Brilho vermelho, mas nem sempre.
Texto B (jbs)
Consumo-me ora depressa, ora devagar. Mas consumo-me. Sou já só quase um ponto, rodeado de uma pequena espiral. Ainda estou aceso, mas quanto tempo me resta deste brilho vermelho?

Textos de véspera e do dia seguinte. Escadas

Eduarda Dionísio (1980)
5. Desenho: escada (deitada); código: os outros
Texto A (msc)
São úteis se não forem demais. Há que prever situações de emergência. Logo, é necessário preservar a sua existência, mas sem excessos. A distância que vai do pé ao primeiro degrau é fundamental. Os outros devem trepar-se com cautela (evitar os tropeções e as tábuas que rangem) e com lentidão. Se nunca se apresentarem obstáculos, olhar com desconfiança antes de poisar as últimas pegadas, porque não há nenhum que não esteja armadilhado.
Texto B (jbs)
São ora úteis, ora inúteis, ora de mais, ora de menos. As situações excedem-nas. Uma são mais resistentes que outras, umas são, outras parecem ser, apenas. É um erro julgar que só se encontram na vertical. Deitadas, podem percorrer-se. não podem trepar-se. Mas por onde começar? e onde acabar? Nunca sabemos com o que contamos...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

À janela de Vasco Trancoso

Epígrafes

A regra de ouro é ajudar aqueles que amamos a fugir de nós.
Friedrich von Hügel
in John Le Carré, Um homem muito procurado.

Quando o cão se está a afogar, essa é a boa altura para lhe bater.
Provérbio (talvez) chinês.
Diário que nunca escreverei

Conhecia a receita. Aquilo curava-se trabalhando e ocupando o tempo livre em afazeres absorventes, se não pudessem ser criativos nem úteis.
Mário Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má.

"Não, não! A casa é essa, mas a rua não", respondeu o professor muito bem disposto. "Esse foi o nosso erro! Agora o melhor que temos a fazer é..."
Acabou-se. A rua estava deserta. A vida do dia a dia rodeava-me e o encantamento desaparecera.
Lewis Carrol, Sylvie e Bruno.

Oh,  corça: de que interior tão ledo
de antigos bosques nos olhos tem pujança;
que redonda confiança
misturada a tanto medo.
Rainer Maria Rilke, Carrossel e outros poemas.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Textos de véspera e do dia seguinte. Máquina de escrever

Eduarda Dionísio (1980)
4. Desenho: máquina de escrever; código: família
Texto A [msc]
Da pinha, fiz pinhão, do pinhão fiz berlinde, do berlinde fiz fisga, da fisga fiz costela, da costela fiz espingarda, da espingarda fiz máquina de escrever, da máquina de escrever fiz cana de pesca, da cana de pesca fiz fim de semana, do fim de semana fiz uma vida inteira, da vida inteira fiz uma obra volumosa e muito considerada sobre "as relações de troca, produção e consumo na estrutura familiar das sociedades capitalistas.
Texto B [jbs]
Da máquina de escrever fiz letras, das letras fiz palavras, das palavras fiz comunicados, dos comunicados fiz desejos, dos desejos fiz ideias, das ideias fiz memória - a memória possível de tudo isso que era meu e já não era - e de novo ideias, desejos, comunicados, palavras, letras, máquina de escrever.

Textos de véspera e do dia seguinte. PREC

Eduarda Dionísio (1980)
3. Desenho: 2 CV; código: o passado
Texto A [msc]
Os tempos gloriosos do PREC: as manifestações de punho no ar e bandeiras ao vento. Os grandes empenhamentos e as grandes viagens: os pneus furados e Viva a revolução! as portas não abrem e Viva  a revolução! as janelas não vedam e Viva a revolução! os faróis estão zarolhos e Viva a revolução! o tejadilho chove e Viva  a revolução!
E o regresso à normalidade: Já levaste hoje o carro a arranjar? Todo o mundo vai levar!
Texto B [jbs]
Os tempos gloriosos do PREC: as manifestações de punho no ar e bandeiras ao vento. Os grandes empenhamentos e as grandes viagens: os pneus furados e Viva a revolução! as portas não abrem e Viva a revolução! as janelas não vedam e Viva a revolução! os faróis estão zarolhos e Viva a revolução! o tejadilho chove e Viva a revolução!
Os tempos sem glória da resistência: e por quanto tempo este carro aguentará? Sem tejadilho, sem faróis, sem limpa-pára-brisas, sem janelas, sem portas, sem pneus - mas sobretudo sem viagens, sem bandeiras, sem punhos no ar?

À Janela de Margarida Araújo