Presença regular nas tardes de sextas-feiras do final do Verão, fazia-se anunciar pelo toque da corneta que precedia o ruído característico da carrocita puxada pelo burro. Vinha da Foz do Arelho, com o berbigão dentro de sacos de serapilheira, um alguidar de água salgada onde os bivalves eram mergulhados para não morrerem na longa viagem que o levava às aldeias do interior das Caldas e Bombarral.Evoquei esta imagem da minha infância de há quase meio século numa crónica na Gazeta das Caldas, em seguida recolhida no livro Continuação. Crónicas dos anos 50/6o.
Hoje, na escola Grandela da Foz do Arelho, um dos presentes interpelou-me.
- O Senhor é que é o escritor?
- Não, respondi eu, o escritor é aqui o Dr. Vasco Trancoso.
Mas o homem insistia.
- Não, este sei eu quem é. Não foi o Senhor que escreveu no jornal sobre um homem que vendia berbigão e tocava uma "gaitinha"?
- Sim, admiti, surpreendido, e o Senhor quem é?
- Pois olhe, eu sou o vendedor. E acrescentou: já não tenho a "gaitinha", porque a ofereci para o museu da Junta, mas o Senhor pode vê-la lá atrás.
Chama-se Salomão Quaresma, tem 87 anos. A "gaitinha" lá estava, como me disse, no Museu.















































