segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Confiança na escola pública

Cristina Nobre é minha colega no Instituto Politécnico de Leiria, docente na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria, onde coordenou o Departamento de Línguas e Literaturas e a Secção de Português. Conheci-a, antes de nos encontramos no decurso de actividades pedagógicas por si coordenadas, através dos seus estudos sobre Afonso Lopes Vieira (que culminaram, em 2007, com a publicação de uma Fotobiografia daquele escritor). Sou leitor assíduo da crónica que mantém no Jornal de Leiria, uma janela sobre a vida e a educação, que elabora naquela linguagem clara e franca que frequentemente se julga ser apenas uma manifestação da natureza humana, em vez do resultado de uma aprendizagem e treino bem sucedidos.
Na sua crónica publicada a 8 de Janeiro,  Cristina Nobre relata a apreensão de um telemóvel ao seu filho, aluno do ensino básico, descrevendo o entendimento e reacções que então o episódio lhe suscitou. Não resisto a transcrever aqui parte desse relato:

Mas - e embora pessoalmente não concorde em absoluto com todas as regras da escola e ache até que algumas delas afundam ainda mais o fosso entre os tempos e as gerações (haverá alguma lei perfeita ou alguma democracia sem falhas?) – acredito que a escola é uma instituição fiável, em cuja autoridade confio, capaz de me ajudar e, tantas vezes, coadjuvar na espinhosa tarefa de educar os filhos nesta confusa época em que tudo muda mais depressa do que o nosso entendi-mento das coisas mais elementares.Para mim este episódio serviu para demonstrar que a escola procura acompanhar como pode os tempos que correm (uma maratona sem fim...), sem desistir nunca da sua função primeira, da razão da sua existência desde o princípio: educar para saber estar em comum.
Fá-lo, agora, de uma forma nem sempre consensual mas partilhada, envolvendo todos os intervenientes no processo e procurando ouvi-los e responsabilizar cada um deles pelas suas atitudes. Se, porventura (nunca se sabe...) eu tivesse que vir a participar na avaliação do professor-personagem desta situação, não hesitaria em dizer que ele exerceu num ponto alto a sua autoridade, mais do que isso, levou a cabo a sua quota parte na responsabilização imensa na difícil tarefa educativa, atrevendo-se ao despeito de um encarregado de educação menos compreensivo e sujeitando-se a expor a sua própria integridade a pessoas menos bem formadas (se ainda soubermos o que isso é).
Quem tirou o telemóvel ao meu filho (não apenas por isso, mas isto é uma parábola, entenda-se) deve, na minha frágil opinião, ser considerado um bom professor. Usei as metodologias da escola moderna. Fiz o inquérito final ao meu filho: e ele também avaliava o professor como um bom professor. Feitas bem as contas, ainda sabemos identificar claramente o que é um bom professor, uma boa escola, um bom pai, um bom filho.
Há outros conceitos bem mais confusos à nossa volta... 

Sentir o universo como uma magnólia, uma rosa ou um jasmim

[...] Anna de Noailles é hoje a maior tecedeira do lirismo francês. [...] Dir-se-ia que o livro precedente se desfez e foi necessário voltar a tecê-lo. Ana de Noailles é, literariamente, Penélope.
O último volume chama-se As forças eternas. [...] São quatrocentas páginas de poesia minuciosa. Chega até nós um livro repleto de flores, de astros, de abelhas, de nuvens, andorinhas e gazelas.
[...] A alma que nesta poesia se expressa não é espiritual: é, pelo contrário, a alma de um corpo que se diria vegetal.
Se tentarmos imaginar a alma de uma planta, não lhe poderemos atribuir ideias nem sentimentos: não haverá nela mais do que sensações, e mesmo estas, vagas, difusas, atmosféricas. A planta sentir-se-á bem sob um céu benigno, sob a mão branda de um vento suave; sentir-se-á mal debaixo de um temporal, açoitada pela neve inverniça. A voluptuosidade feminina é, talvez, de todas as impressões humanas, a que nos parece mais próxima da existência botânica.
Anna de Noailles sente o universo como uma magnólia, uma rosa ou um jasmim. Daí a sua prodigiosa sensibilidade para as mudanças atmosféricas, climas, estações. Não obstante a sua insistência amorosa, é revelador que o homem não apareça nunca desenhado no fundo aéreo desta poesia. Em contrapartida, intervêm os seres anónimos e difusos: o vento, a humanidade, o azul, o silêncio.
Le flot léger de l'air vient par ondes dansantes...
Não caberá esta ideia perfeitamente no coração de uma papoila?
E, noutro lugar:
Le vents légers ont ce matin
Cette odeur d'onde et de loitain
Qu'ont les vagues contre les rives.
De outra vez, fala do "secreto odor metálico do frio" e do "jovial odor da neve", ou reconhece no vento os aromas de que se foi carregando durante a sua viagem, como no vinho se sente o sabor do odre. Odores, sabores, contactos - são estas as suas paisagens. O enquadramento visual falta quase sempre: seria demasiado humano, demasiado "espiritual" para este génio vegetativo. É divinamente cega como uma camélia.
Uma vez classificada como planta sublime, não nos estranha que seja "rebelde ao Outono" e lhe dedique uma sincera afronta:
Je ne vous aime pas, saison mélancolique...
Trata-se de uma condessa eminentemente estival. Nas suas paisagens, tudo é Verão; ou, pelo menos, um Estio que se recorda da sua Primavera infantil ou assoma à vertente declinante do seu Outono. Nesta poesia não há Inverno. O que nela mais abunda é o céu resplandescente. Imaginamos a condessa com um gesto vago de crioula, sentada à varanda, sobre um jardim, bebedora de azul.
Certes, rien ne me plaît que tes étés, ô monde!
Magnólia, rosa, jasmim, delicia-se com a terra húmida, saboreia as brisas e estremece quando passa no canal, tremente, a água andarilha [...]

Ortega y Gasset, Estudos sobre o Amor. Lisboa, Relógio d'Água, 2002. p. 111-114

domingo, 11 de janeiro de 2009

Sermão das plantas

Quem analisará alguma vez a psicologia das plantas?
Só para responder à ansiosa e sempre fútil consulta dos namorados, a alcachofra, que à beira dos caminhos esconde o florido capítulo numa couraça guerreira de brácteas, é capaz de reflorescer com mais brilho depois de queimada à labareda da fogueira de S. João.
Com imprevista sensibilidade, das flores de verbasco desprende-se a corola logo que colhemos a airosa espiga, ou a castigamos com uma pancada mais rude. A flor triste e desprezada da roselha ou do sargaço, ou da nívea rosa brava, depois de colhida deixa cair, agonizante, as pétalas, e quando julgamos segurar entre os dedos, latejando, uma vida, temos nas mãos, lugubremente, um cadáver.
Mas nem todas as plantas possuem a graciosidade que nos comove, a cor que nos encanta, a fragrância que nos enleva, ou se envolvem num mistério que nos intriga.
As gramínias, por exemplo, só nos causam desapontamento. São seres recatados, que desprezam os recursos infinitos do baton e do rouge, que desdenham o perfume, e cuja vida sentimental parece reger-se por álgido puritanismo. Certas plantas, da tribu das Hordeas (o trigo, o centeio, a cevada), hirtas e orgulhosas como velhas misses, desprovidas de graça, tornariam a seara esteticamente insuportável se a Natureza, amante dos contrastes, não houvesse ali colocado a álacre papoila, a transbordar de sensualidade e de vida, e que dir-se-ia uma gargalhada juvenil, irreverente e saudável de uma alegre camponesa num comício de sufragistas. E atrevo-me a supor que sem a presença dos atrevidos pampilhos, jamais a seara ondearia ao vento com a graça lânguida que é o segredo do mar.
Há plantas às quais a Natureza impôs rudes provações, e que, triunfando na adversidade, nelas vibra com mais ardor o anseio de viver. Foi-lhes recusada a campina ubertosa, rica de húmus fecundo, e onde em plena canícula vicejam verduras tenras; está-lhes vedada a margem dos regatos, o encanto de ouvir a alegre canção da água; não usufruem o regalo do vale umbroso, ou a paz idílica e acolhedora de uma quebrada.
O seu solar é a charneca triste e rude, batida no inverno pela nortada agreste, ou calcinada impiedosamente no estio pelo sol ardente; é o outeiro predegoso, seco, ingrato; o cerro alcantilado; ou então a areia fulva e sáfara que o vento arrasta brincando em rodopios de loucura.
O alecrim, a alfazema, o rosmaninho, o ourégão, o tomilho e tantas outras labiadas, cuja vida é um sombrio rosário de misérias e de renúncias, constituem enternecedor exemplo de resignação e de humildade. Mas são tão graciosas e aromáticas, e delas emana tal encantamento que as abelhas, pressurosas, abandonam as nossas flores mais belas, e avidamente beijam as pequeninas corolas, os longos e perfumados lábios que se lhes oferecem, trémulos e sôfregos. [...]

Joaquim Vieira Natividade, Jornada a um Mundo de Beleza Eterna. Edição facsimilada, Alcobaça, 2000 [1ª edição: 1948].


Fotografia de Rosa Nunes (cujo album pode ser visto aqui)

sábado, 10 de janeiro de 2009

Sã Miguel (III): Natália

Auto-Retrato

Espáduas brancas palpitantes
asas no exílio de um corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o combóio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

"Poemas", 1955. In Natália Correia, Poesia Completa. O Sol nas Noites e o Luar nos Dias. Com um Prefácio da Autora. 3ª edição. Lisboa, D. Quixote, 2007. p. 72.

Bual: Retrato Imaginário de Natália Correia (1983).
Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (foto JBS)

Natalia Correia nasceu em São Miguel, em 1923. Morreu em Lisboa aos 70 anos.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Love Stream

Passagem pela Galeria Fonseca Macedo, a caminho da Biblioteca Publica e Arquivo Regional de Ponta Delgada, onde ontem me apercebi que foi inaugurada uma exposição de fotografia.
Os trabalhos são de Sandra Rocha, fotógrafa nascida na Terceira em 1974, membro do colectivo Kameraphoto, com exposições anteriores e prémios.
Sandra Rocha tem realizado, entre outros, projectos nas ilhas  da Macaronésia. Um deles, patrocinado pelo Instituto Açoriano de Cultura, pode ser visto aqui.
"Love Stream" é o título desta exposição que tem um fio antológico.

Sã Miguel (II): Marga

[...] Anos depois encontrei Vitorino no lançamento de um livro de Ana Maria Botelho. Conversámos imenso e ficou combinado ele ir a minha casa. A convivência tornou-se assídua, e um dia, sem saber a razão, encontrei-me nos braços dele.
[...] Não descrevo o Vitorino como poeta, escritor e grande intelectual, porque todo o mundo já se pronunciou nesse sentido e conhece a sua obra. Vitorino, o meu Vitorino, não é esse, mas sim o boémio, o humano, o sociável, o apaixonado, o bom amante. Um dos seus divertimentos era tocar as belas canções da Terceira, as célebres canções do José da Lata.
Vitorino não gostava da minha casa da Fajã de Baixo. Achava-a grande de mais, género palacete, mas adorava o jardim onde abundavam espécies exóticas. O que ele desejava era que eu vivesse numa casita pequena, com porta e duas janelas. E via-me a viver nessa poética fantasia.
[...] Surgiu o momento em que, em Lisboa, resolveram fazer uma reportagem sobre Vitorino Nemésio, mas na sua ilha Terceira. Ora, nessa altura estávamos os dois em S. Miguel, quando fomos informados que nos devíamos deslocar à Terceira. Assim foi.
[...] Acompanhei-o em vários acontecimentos, tais como na visita a uma casa solarenga que tinha pertencido a alguém ligado à sua família e a um almoço em casa dum senhor (de forma alguma me lembro do nome), uma casa de campo adorável e com um jardim cheio de flores.
Esse almoço, não posso nunca esquecer, foi muito alegre. Cantaram-se as melhores canções da Terceira, acompanhadas à viola pelo Vitorino, que várias vezes se enganou, mas lá vinha em seu auxílo um amigo ou amiga que o ajudavam a retomar a velha toada.
Fui com o Vitorino visitar a sua propriedadezinha chamada Mão roxa, realmente um sítio de conto de fadas, devido à situação da casa. Para se chegar lá, subia-se uma grande escadaria de pedra, coberta de musgo, muito verde, ladeada de um lado e de outro de velhas faias e de incensos. Nessa altura não tive a noção de viver uma realidade. Tudo me parecia fora deste mundo e só ouvia a voz do Vitorino dizer-me: É para aqui que nós viremos viver!
[...] Ele tinha a paixão dos cartões-de-visita. Os cartões-de-visita que hoje uso foram mandados fazer por ele, e, realmente, são muito elegantes, assim como os outros, de brincadeira, que são adoráveis, como este que a seguir reproduzo, alusivo a nós e à Mão roxa:

Margarida Victória, Amores da Cadela "Pura". Confissões da Marquesa de Jácome Correia. Vol. II. Lisboa, Bertrand, 2004. p. 150-158.

Portas do mar

Nova frente marítima e portuária de Ponta Delgada. Projecto de Manuel Salgado.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sã Miguel (I): Vitorino


Oh Ilha de Sã Miguel, cotada nos livros dos ingleses
Que o alfarrabista (sebo em brasileiro) paga a conto de réis
E eu compro às vezes - sobretudo depois que o Gonçalves Rodrigues me mandou de Londres os dois volumes dos Buller:

Ilha assim anóbia e brochadamente célebre,
Pelos geysers, pelas lombas, por Antero de Quental:
Eu te... quê? Saúdo ou amo? Adopto ou fujo?
Depende.
Tenho as minhas razões para te ser grato e firme,
Por uma coisa siquer
Que me não deixe de te ir-me
É um nada de mulher:
Fala de samiguel, gravidade corisca,
Um não sei quê de bravio e "peloê" nas ventanilhas,
Disfarçado depois com alguma laca e cré:
Ilha que a verde e ocre se faz nos rolões enevoados,
No Espírito Santo abutroque e na cana verde do Senhor Santo Cristo, da fé,
Na Cordilheira Atlântica como um violoncelo em seu estojo (Oh vagalhões arcadas!),
Mas também imitante a um lobo do mar em sua câmara fojo:
Pelo mais - cheia de Medeiros, de Pachecos, de Bicudos, de Raposos,
Exportadora de criptoméria
E mãe da mulher séria que tirou a Santo Agostinho e a Rousseau
O exclusivo de dizer que se enganou
Na arte da vida.
E essa mulher pequenina tem nome de flor corrente,
Inflorescência cor-de-rosa:
Mas eu não quero ser escarnecido por gente
Caçadora de escândalo venusino,
E por isso lhe chamo flor de sândalo fino: mas o seu nome de vida,
Mal a agrida quem quiser,
Que eu não digo,
O amargurado, o malgridado nome dessa mulher,
Em Crotona e Antioquia santa de altar:
Para mim, mãe da minha última poesia
E do saber da dor e do mais que eu não sabia.
Vai-te deitar Malagrida (suponhamos),
Vai-te deitar!
Que eu lá vou ter, com a espada de Floripes a meio,
Não porque falte a outra,
Mas porque agora dormimos como irmãos
No berço da cama de holandilha,
Rezando juntos e ouvindo chover na Ilha,
Té alta madrugada.
"Te Deum laudamus" por esta castidade incrível,
Com lâmpada ao Senhor da Esponja com púrpura a sangue e fel.
É preciso que o saibas, Ilha de Sã Miguel!

Vitorino Nemésio,Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga. Obras Completas, vol. III. Lisboa. Imprensa Nacional, 2003. p188-189

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Luiz Pacheco

Luiz Pacheco (aqui numa fotografia junto ao Hospital Termal das Caldas da Rainha) morreu a 7 de Janeiro de 2008.
Nas Caldas, onde viveu alguns anos, ainda não conseguimos realizar a justificada evocação desses tempos.

De regresso a Lisboa, nos fins do século XVIII

William Beckford permaneceu em Alcobaça 8, 9 e 10 de Junho de 1794. A 11 encetou a viagem de regresso a Lisboa.
A comitiva saiu de Alcobaça em direcção à Pederneira, Nazaré, Alfeizerão, chegando às Caldas ao anoitecer. 
A descrição da vila e do seu hospital, por motivos que os leitores não precisam que sublinhe, tem merecido pouca atenção da parte dos historiadores locais.

A alguma distância vimos um castelo mouro, de grandes dimensões, que se elevava orgulhosamente num monte isolado; o seu nome também é grande: Alfeizerão. Este belo monumento, a quietude e os tons suaves do entardecer, o perfume das lupulinas, era tudo tão agradável que não podíamos deixar de lamentar a nossa chegada às Caldas ainda com luz suficiente para distinguir toda a sua fealdade: as suas casas insípidas e monótonas, com grosseiras persianas verdes e portadas que o vento poeirento fazia bater para lá e para cá; e as suas pesadas varandas, pintalgadas a ocre, e listradas aqui e ali a azul e vermelho, formando padrões dignos de Tombuctu ou Achanti.
A meu ver, toda esta famosa caldeira tinha um aspecto malsão e pouco atractivo. Quase em cada três ou quatro pessoas, encontra-se um apotecário cor de marmelo, ataviado como um cortesão a caminho da sala de audiências e transportando num pequeno saco de veludo uma série de instrumentos úteis, tão pomposo como um lorde chanceler. E em cada dez ou doze, encontra-se um doente reumático ou entrevado com os membros todos torcidos e a boca torta, levado a banhos numa cadeira. Quase não se podia dar um passo sem bater com a cabeça na volumosa peruca de um professor de medicina e sem ouvir o tremendo batuque da sua bengala de punho de ouro.

William Beckford, Op cit. p. 94.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

De Lisboa a Alcobaça, nos fins do século XVIII

William Beckford (1769-1844), célebre viajante inglês, homem de letras e de artes, visitou o Mosteiro de Alcobaça em Junho de 1794. Mais tarde publicaria as memórias das suas vindas a Portugal, nas quais incluiu o relato da sua viagem e estadia na Abadia cisterciense de Alcobaça. Há diversas publicações parciais dessa obra. Iva Delgado e Frederico Rosa organizaram uma edição, em 1997, da narrativa referente a Alcobaça e região, que é a que utilizei para as transcrições que se seguem.

3 de Junho de 1794 - Saída de Lisboa de William Beckford, na companhia de dois prelados, o grão-prior de Avis e o prior de São Vicente, e respectiva (e bem extensa) corte de secretários e acólitos, trens puxados por cavalos e respectivo pessoal de apoio. A partida ocorre a seguir ao almoço, da quinta onde Bekford estava instalado, em Belém. A comitiva passa por Benfica, Senhora da Luz, Lumiar, e Loures. Caía a noite quando atravessou o rio Trancão a passou pela aldeia do Tojal em direcção à Quinta do Convento de São Vicente, perto da aldeia do Tojal, onde pernoitou.
4 de Junho - É passado na Quinta, ocupado com uma pescaria no Rio Trancão e uma visita ao Palácio do Patriarca em Santo Antão do Tojal.
5 de Junho - A comitiva continua a descansar do esforço do primeiro dia, por exigência do prior de São Vicente.
6 de Junho - Retoma-se a viagem, a caminho da chamada grande estrada das Caldas. Passagem, antes, por Alpriarte (Palácio do Duque de Lafões), seguindo-se Alhandra, Povos, Vila Franca e Carregado. Aqui a comitiva sai da estrada, ganhando o caminho de Cadafais, onde pernoitará, numa mansão pertencente também à ordem de São Vicente.
7 de Junho - A comitiva parte cedo, pretendendo chegar a Alcobaça no mesmo dia. Há quem defenda a vantagem de dividir esta jornada por dois dias, cumprindo o primeiro até às Caldas, mas o receio de que o calor aqui seja insuportável faz prevalecer a primeira opção.

Fonte: William Beckford, Alcobaça e Batalha. Recordações de Viagem. Introdução, tradução e notas de Iva Delgado e Frederico Rosa. Lisboa, Vega, 1997

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Estado da Nação

Presidente e Primeiro Ministro, falaram, com 5 dias de intervalo, sobre o estado da Nação. São duas visões não descoincidentes que todavia reflectem a perspectiva da função dos seus autores. O Presidente foi analítico e prospectivo e o Primeiro Ministro mobilizador e combativo. Esta divisão de trabalho talvez merecesse ser alvo de alguma redistribuição e pudéssemos também ouvir ao Presidente uma palavra de empenho e ao Primeiro Ministro uma de cariz estratégico.
Quanto aos temas conflitivos, que o nosso jornalismo se compraz em denominar "conflito institucional", foram, e bem, colocados no seu devido plano secundário. De qualquer forma, o Primeiro Ministro não deixou escapar a oportunidade de se colocar no centro da política. Eis alguém que não confunde mensagem ao país com soma de mensagens específicas para cada sector atingido pela crise (como bem notou Medeiros Ferreira na sua crónica política).  Tem sido esse o seu melhor instinto e provavelmente o seu melhor trunfo.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Obsessões

A última edição da Gazeta das Caldas (2 de Janeiro) refere-se por três vezes à designação de membros não pertencentes à instituição para o Conselho Geral do Instituto Politécnico de Leiria. Em todas elas destaca o facto de o Presidente da Câmara das Caldas, Fernando Costa, ter sido uma das dez personalidades cooptadas. O forte destaque não é dado apenas pelo facto de o acontecimento obter três referências na mesma edição, mas sobretudo pela forma como as notícias foram paginadas: em duas delas o acontecimento figura no título e na terceira é objecto de uma valorização positiva (numa secção de Notas Favoráveis e Desfavoráveis); duas delas surgem nas páginas nobres do jornal, a primeira e a última.
O jornal fez uma escolha noticiosa, certamente justificada, mas não informou os seus leitores sobre o sucedido. Vejamos.
Em primeiro lugar, esqueceu-se de datar e identificar o acontecimento. De facto, a cooptação ocorreu a 4 de Dezembro (há um mês, portanto) na primeira reunião do Conselho Geral do Instituto. O Conselho Geral é formado por vinte e três membros eleitos e um por inerência (o Presidente do IPL), vinte e dois dos quais com direito a voto. A 4 de Dezembro, reuniram-se para cooptar, por voto secreto, outros dez membros, de entre personalidades não pertencentes à Instituição. Nada disto foi explicado nas notícias. Dispenso-me de enfatizar de que forma a ausência destas explicações compromete a legibilidade do que a Gazeta noticiou.
Na reunião de 4 de Dezembro foram propostos dezanove nomes. Houve pois nove nomes que ficaram de fora, no final da votação. A notícia aponta alguns deles. Mas não explica que o método estatutário de votação obrigava a que os nomes a cooptar obtivessem uma maioria qualificada dos votos.
À Gazeta importou sobretudo, como vimos, noticiar que o Presidente da Câmara das Caldas tinha sido incluído no lote das dez personalidades cooptadas para o Conselho. Transformou esse facto no objecto principal da notícia e valorizou-o de forma especial. Trata-se, porém, de um facto singular? O próprio jornal responde: não. E não foi porque todos os Presidentes das Câmaras dos concelhos onde o IPL tem escolas foram cooptados: o Presidente das Caldas, o Presidente de Peniche e a Presidente de Leiria.
Analisemos agora as restantes sete personalidades cooptadas: o Bastonário da Ordem dos Engenheiros, o presidente do Nucleo Empresarial da Região de Leiria, o Presidente da Associação para o Desenvolvimento de Leiria, o Governador Civil de Leiria, um diplomado pela Escola de Tecnologia e Gestão de Leiria, um professor jubilado da Universidade de Aveiro. Personalidades todas elas com curriculum e actividade de âmbito nacional ou em directa relação com Leiria. Mas há uma que diz alguma coisa a Caldas da Rainha: foi director do Museu de José Malhoa, foi o presidente da Comissão Instaladora do Museu do Hopsital e das Caldas, foi o Comissário da primeira edição da Festa da Cerâmica, é autor de diversos estudos sobre aspectos da vida artística e cultural das Caldas da Rainha. Trata-se do Dr. Paulo Henriques, actualmente director do Museu de Arte Antiga.
Em nenhuma das três referências que a Gazeta incluiu na sua edição de 2 de Janeiro ao resultado da reunião do Conselho Geral do IPL de 4 de Dezembro, houve o mais pequeno sublinhado sobre a eleição de Paulo Henriques.
E, no entanto, como é evidente, penso eu, essa é que seria a notícia. No Conselho Geral do IPL, pela primeira vez na história do Conselho, Caldas da Rainha estará triplamente representada: por um representante dos professores, pelo Presidente da Câmara actual e por uma personalidade da mundo artístico e cultural com o qual as formações da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha se articulam.
Foi este facto que a Gazeta deixou na sombra. Preferiu destacar o óbvio, o institucional, em vez do novo, do resultado de uma dimensão não institucional.
E o reconhecimento deste facto - o que a Gazeta não destacou - seria tanto mais relevante quanto, numa eleição muito exigente como foi a de 4 de Dezembro, o Dr. Paulo Henriques foi o único nome a obter a totalidade dos votos possíveis: vinte e dois em vinte e dois.
*
Um curriculum vitae do Dr. Paulo Henriques fica disponível aqui (clique na imagem para a tornar legível).







António Borges Coelho: um dos que ficou na prisão de Peniche

Historiador/escritor, António Borges Coelho é, em primeiro lugar, uma daquelas personalidades que cativam pelo trato afável e pelo gosto da partilha. Conheci-o na década de 80, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde dera entrada para fazer, aos 50 anos, uma carreira académica tardia, que o salazarismo impedira fosse feita na sequência normal da obtenção da primeira graduação.
O seu nome era-me familiar, porém, desde os anos 60, quando alguns livros seus, à revelia dos meus professores de então, se tornaram leitura obrigatória de um pequeno grupo de alunos de História da mesma Faculdade, no qual eu me incluía. Refiro-me a Revolução de 1383: tentativa de caracterização (Portugália, 1965), Raízes da Expansão Portuguesa (Prelo, 1964) , Alexandre Herculano (Presença, 1965) e à edição da Crónica de D. Pedro, por Fernão Lopes, que prefaciou e organizou para a Portugália em 1967.
Depois destes trabalhos, o António Borges Coelho dedicou-se sobretudo à filosofia (Leibniz, Espinosa) e eu devo ter prestado mais atenção à obra do poeta, que entretanto também foi saindo. Mas em 1972, o historiador voltou com um importante trabalho que muito contribuiu para mudar o nosso entendimento das origens civilizacionais de Portugal e que enterrou um conjunto de ideias feitas sobre os modelos de relacionamento entre cristãos e árabes (Portugal na Espanha Árabe, 4 volumes. Seara Nova, 1972-1975).
Da década de 80 para cá, foram várias as ocasiões em que me cruzei com António Borges Coelho, testemunhei e beneficiei da sua palavra esclarecida, da sua camaradagem intelectual e imensa simpatia. 
Momento especial que recordo foi o das suas provas de doutoramento, em 1986, para as quais fui mobilizado por um telefonema do Professor José Mattoso. Um grupo numeroso de admiradores de António Borges Coelho fez questão de o acompanhar naquele momento tão singular da sua vida de historiador feita à margem da academia perante um juri de académicos, onde pontuavam figuras que ele combatera politicamente. Deve dizer-se que o "candidato" se vira forçado a substituir o seu patrono inicial, o Professor Joaquim Barradas de Carvalho, entretanto falecido. Da notável dissertação que defendeu brilhantemente, sobre A Inquisição de Évora: 1533-1668, guardo uma 2ª edição na qual o autor quis apor uma bela dedicatória (Março de 2002).
Jubilou-se em 1998. No ano anterior, tive o privilégio de o acompanhar, e ao Cláudio Torres, numa visita oficial a Marrocos. O que então aprendi com esta extraordinária dupla de conhecedores do Mediterrâneo e da sua história não tem paralelo.
Depois disso, houve outras ocasiões de encontro fraterno e de homenagem (como aquela em que o Presidente da República lhe impôs uma das mais altas distinções nacionais). Entre estas últimas, gostaria de destacar as que tiveram origem em evocações da liberdade realizadas em Peniche, nomeadamente a que teve lugar nas vésperas do 25 de Abril de 2004, nas comemorações nacionais do 30º aniversário da revolução democrática.
De facto, António Borges Coelho foi um dos detidos no Forte de Peniche. Aderiu ao Partido Comunista e foi seu funcionário político. Foi preso na década de 50, passou pela cadeia do Aljube e mais tarde pela de Peniche, onde aliás se casou. Ele foi um dos que ficou quando Álvaro Cunhal e outros membros do mesmo Partido realizaram com êxito a fuga de 3 de Janeiro de 1960. Foi portanto dos que sofreram as represálias adicionais, após este afrontamento à eficiência dos métodos repressivos do Autoritarismo.
O Núcleo Museológico das antigas celas da prisão política de Peniche guarda diversos registos - cartas, poemas manuscritos - da passagem deste humanista por aquele espaço que hoje é de memória da Resistência e de celebração da Liberdade. A liberdade que António Borges Coelho definiu nestes termos em Janeiro de 1957:

Liberdade
... amo-te de menino
Encontrei-te 
num mundo de operários
na prisão.
É tempo! É tempo!
O nosso Povo sofre
Sai para a rua
Com uma flor na mão!

O Professor José Mattoso disse recentemente (associando-se a uma homenagem que o Campo Arqueológico de Mértola prestou ao Professor António Borges Coelho no ano em que perfez 80 anos):

No princípio da sua vida adulta arriscou a vida e a liberdade lutando contra a ditadura salazarista. Não virou a cara às agressões da tortura, da humilhação, da violência física e da prisão. Por isso pôde falar, ainda há poucos meses, em nome das vítimas do tribunal da Boa Hora da época salazarista, «gravemente ofendidas na sua dignidade e no seu próprio corpo», e dizer que é preciso avivar a memória e lembrar as «mulheres e homens que nada tinham senão o corpo e a mente, e indicavam, com o seu sacrifício, que há momentos em que é preciso dizer não para que a água da vida corra limpa». Desprezou o cerco das ameaças, da marginalização e da vigilância da PIDE, viveu do seu trabalho como jornalista, e, sem bolsas, sem ajuda de ninguém, fez o seu curso de Histórico-Filosóficas.
Pedimos-lhe, enfim, Professor Borges Coelho, que aceite esta homenagem por ter alcançado o mais alto lugar na hierarquia universitária, e por ter, como mestre, orientado, ajudado e encorajado muitos alunos e discípulos a desenvolver as suas capacidades. E ainda que a aceite por não ter esquecido os seus compromissos e o seu respeito pela cultura popular, por ter demonstrado sempre, na vida pública, uma atitude de clara e inteira responsabilidade cívica.
[O texto integral da intervenção do Professor José Mattoso pode ser lido aqui]

A 29 de Outubro de 2006, António Borges Coelho proferiu, no cemitério do Alto de S. João, uma alocução de homenagem a todos aqueles que foram encarcerados no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Publico um extracto [o texto completo pode ser lido aqui] que bem ilustra a figura deste historiador e escritor e a sua grande alma.

Canto aqueles que caíram
Os que deitados à terra
Já estão nascendo no trigo
[Rafael Alberti]

Viemos homenagear homens simples que veneramos. Muitos dos seus nomes entraram no imaginário colectivo: Bento Gonçalves, Mário Castelhano e tantos outros. 
Direi retomando o poeta Rafael Alberti na evocação dos mártires da Espanha republicana: 

A quem nomearei primeiro? 
Ninguém aqui é segundo 
quando o aço é de aço.

Todos os que resistiram à brutalidade e à infâmia merecem o primeiro lugar. Viemos homenagear homens comuns, operários, marinheiros, intelectuais. Viemos prestar homenagem aos marinheiros do “Afonso de Albuquerque”, do “Dão", do “Bartolomeu Dias” que ousaram levantar-se contra a ditadura; aos operários da Marinha Grande que tomaram a vila em protesto contra a ilegalização dos sindicatos livres; e a todos aqueles que vieram da luta legal e clandestina contra o fascismo e pela liberdade.
Eram comunistas, anarquistas, democratas, homens que se orgulhavam dos seus ideais e por eles arriscavam a vida. Acreditavam na justeza da sua causa e que a história a tinha designado como vencedora. 

Me feriram
golpearam

Até a morte me deram


Sujeitaram-nos a trabalhos forçados sem outro sentido senão o da humilhação e o da destruição física. Inventaram a “Frigideira”, uma caixa de cimento de nove metros quadrados onde o ar e a luz entravam por buracos abertos na porta. Por vezes a sede era tanta que passavam a língua pelas paredes para absorver as gotas da respiração. Gabriel Pedro viveu naquele inferno cento e cinquenta e três dias. 
Cedo chegaram as doenças e a morte. A febre devorava os corpos. Houve momentos em que na barraca da enfermaria mortos e vivos se confundiam. Deram-lhes choques eléctricos nos pés. O marinheiro João Faria Borda reagiu e sobreviveu depois de dezasseis anos de presídio. 
O Campo da Morte não existia só para dobrar e liquidar os presos mas para ameaçar toda e qualquer resistência no país. “Sabem o que vos espera.”

Pelo Campo passaram até 1954 trezentos e quarenta presos políticos, trinta e dois dos quais estão aqui sepultados. Morreram na força da vida: dois contavam vinte e quatro anos, os mais entre vinte e quatro e quarenta anos. 
Em 1978 uma multidão, calculada em 200 000 pessoas, acompanhou os seus restos mortais até este mausoléu e memorial. 
Certamente, aos presos não faltaram horas e horas de angústia e desespero. Não estavam no palco. Ninguém via como sofriam e aguentavam. Os olhos que os cercavam ressumavam ódio e procuravam todos os pretextos para a humilhação, os espancamentos e as torturas. Mas muitos podiam subscrever, dia a dia, as palavras de Spartaco Fontano, fuzilado pelos nazis: “Querida Mãe”, “não culpe mais ninguém pela minha morte, eu mesmo escolhi o meu destino”.
Vivia-se então o tempo de Guernica, do odor a sangue e fezes que soprava das terras de Espanha –“Não passarão!”. Era o tempo das hordas nazis, da Gestapo, da PVDE e de outras polícias de repressão, tortura e morte.

À Guerra Civil e transnacional de Espanha, onde participaram voluntários de cinquenta países, sucedia a Segunda Guerra Mundial com o seu cortejo de horrores: 50 milhões de mortos, milhões de mutilados, campos de extermínio, fábricas, cidades e campos destruídos. Mas, por toda a parte, dos escombros brotava impetuosa a esperança de que no final viria um mundo melhor.

E quando chegou a Vitória, multidões em delírio inundaram no mundo as ruas e praças das cidades vencedoras; as ruas de Lisboa, do Porto, de Coimbra e das principais cidades de Portugal.
A liberdade estava já ali. Demorou vinte e nove anos, afinal.
Não podemos perder a liberdade. Olhai, como levou tempo a recuperá-la.