sábado, 4 de julho de 2009

A propósito da pandemia da gripe

De um artigo que o secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon e a directora geral da OMS, Margaret Chan, publicaram esta semana na imprensa mundial:

Nada é mais importante que investir em saúde materna. Nos países mais pobres, em especial, as mulheres constituem o tecido da sociedade. São, de forma desproporcionada, quem cultiva a terra, transporta a água, cria e educa as crianças e cuida dos enfermos. Mas, de todos os objectivos do milénio, o da saúde materna foi o que menos se atingiu. Em 2005 as taxas de mortalidade à escala mundial foram 400 mortes maternas por 100.000 nados vivos. A atenção à saúde materna é um barómetro que indica como o sistema funciona. Seria imperdoável não mobilizar recursos e vontade política para pôr fim a esta absurda tragédia.
Sim, o mundo enfrenta a sua primeira pandemia e gripe em mais de 40 anos. Devemos continuar vigilantes contra as mutações dos virus. E estar preparados para responder a repercussões potencialmente distintas em zonas do mundo em que se registam subnutrição, sida e outras afecções graves. Em suma, devemos permanecer vigilantes e continuar a combater activamente esta pandemia. Ao mesmo tempo, a pandemia lembra-nos que temos de pensar e actuar em todo o resto. Só assim, podemos proteger verdadeiramente as nossas populações, os nossos países, a nossa economia e a nossa sociedade mundial.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Missão em Espanha

José Relvas partiu para Espanha a 16 de Outubro de 1911. João Chagas, presidindo ao 1º Ministério constitucional da República, chamou, de Madrid, Augusto de Vasconcelos, a quem entregou a pasta dos Negócios Estrangeiros, nomeando em sua substituição José Relvas. O novo ministro plenipotenciário do Estado português começou a desempenhar funções 12 dias após a entrada em Portugal de uma coluna de cerca de 950 homens, comandada por Paiva Couceiro, a qual ocupou por algum tempo Vinhais.
A minha intervenção ontem na Casa Veva de Lima  centrou-se nesta missão: o lugar da Espanha na política externa republicana, as dificuldades da conjuntura, as diversas orientações sobre o modo como lidar com a Monarquia Espanhola (e em paralelo, com as forças republicanas espanholas), os condicionamentos ligados à percepção das opiniões públicas de um e outro lado da fronteira, e, enfim, a personalidade e capacidade de actuação do nosso embaixador.
Duas citações. 
De Hipólito de la Torre Gómez, professor de História Contemporânea da Universidade de Madrid: "As perseverantes diligências do ministro [plenipotenciário] de Lisboa, José Relvas, desempenharam papel essencialíssimo na decisão espanhola de afastar definitivamente os emigrados [monárquicos portugueses] da fronteira. A sua actuação prudente, realista e sempre fundada nos seus prognósticos sobre o evoluir dos acontecimentos, esteve a ponto de ruir perante a atitude do chefe do governo e do Ministro dos Estrangeiros, Augusto de Vasconcelos, simplesmente porque este estava disposto a levar a ruptura das relações com Espanha até ao limite, contando com a duvidosa suposição do apoio da Inglaterra, enquanto Relvas sabia que que este apoio não estava disposto a ser concedido" (Conspiração contra Portugal (1910-1912). As relações políticas entre Portugal e Espanha. Lisboa, Horizonte, 1978. p. 141).
De Manuel Teixeira Gomes, embaixador de Portugal em Inglaterra, em carta enviada de Londres a 21 de Janeiro de 1914 e dirigida a José Relvas, a propósito do seu afastamento da embaixada de Madrid: "A sua saída de Madrid impressionou-me imenso e constitui um caso de muita gravidade que demandaria largas considerações, se não fosse já facto consumado e irremediável. Os políticos em Portugal, no seu desconhecimento das conveniências e exigências internacionais, nem de longe lhe mediram o alcance. O José Relvas não põe ao serviço da República somente a sua inteligência, dedicação e trabalho, põe também o seu nome, o prestígio da sua origem fidalga, a experiência do trato social, a sua fortuna, e isso tudo de colaboração com uma Senhora que será sempre distinta entre as mais distintas" (João B. Serra (coord), José Relvas, o Conspirador Contemplativo. Lisboa, Assembleia da República, 2008. p. 98).

Relvas, embaixador em Madrid, retratado pelo pintor espanhol Asterio Mananoz

Sempre é o que era.

Cumpriu-se a tradição. Nenhum Ministro da Economia cumpre o tempo de um Governo de legislatura.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Os Relvas da Golegã e Alpiarça

Senhor Convidado / Caro Consócio,

Uma família recente, que socialmente ainda esteja a furar para ganhar o seu lugar ao sol, tem pouco que se lhe diga; uma família antiga demais já se levantou e caíu tantas vezes, já passou por tantos ciclos de oiro e de ferrugem, que começa a ser difícil saber qual das suas fases verdadeiramente a representa. No meio há aquelas famílias sólidas, nas quais toda a gente reconhece um ciclo histórico bem definido, com o qual elas nasceram e cresceram, que elas perfeitamente encarnaram - e nas quais se espelhou o melhor e o pior dessa época de que foram fruto, e que por seu turno ajudaram a moldar e a caracterizar.
Se o século XIX foi o século do liberalismo burguês capitalista, que frondosamente floresceu quando explodiu a velha e anacrónica tampa abafante do feudalismo e do absolutismo – e que com os seus progressos e misérias, glórias e contradições, afinal tão sem dar por isso preparou a sua própria derrocada e fertilizou as sementes do futuro que inevitavelmente se lhe tinha de seguir ; então, se há entre nós uma família que epitomize o turbulento mas fascinantemente remoçado século XIX português, é talvez esta dos Relvas da Golegã e Alpiarça - viçosa, vistosa e saborosa como um rubicundo e sumarento tomate ribatejano cheio de sol, daqueles que matando a fome e tirando a sede, nos alegram a vista e a alma !
Aos Relvas se aplica à letra o velho aforismo de que “a primeira geração junta, a segunda acrescenta, a terceira gasta e a quarta vende”: vindo, logo que a guerra civil entre liberais e miguelistas acabou, do seu nativo lugar de Relvas, na Sertã (Beira Baixa), para a Golegã, como feitor da Labruja, o patriarca José Relvas soube cavalgar com mestria a vaga da renovação social e económica que a nova paz desencadeou e, deitando mão aos pedaços mais suculentos que marqueses, ordens e conventos íam deixando cair, morreu rico, senhor de casa e com a respeitabilidade bem documentada em retrato formal de honorável “primeiro antepassado”. O seu filho Carlos Relvas, com a elegância e o à vontade de quem já nasceu rico, aumentou essa riqueza, e deu-lhe um brilho social espaventoso – cavaleiro tauromáquico afamado, construiu na Golegã uma praça de toiros privativa e o atelier  sumptuoso de primeiro fotógrafo amador português, recebeu a Família Real no casarão que desde então ficou palácio, e recusou galhardamente um banalizado título de visconde, dizendo que preferia continuar a ser ... “o rei dos lavradores”, e olé por quem me tomas !!!
Mais presente na memória de todos nós está o neto, o José Relvas que “saíu” da Golegã, estudou lá fora, e em Lisboa marcou lugar na política e foi amigo e protector dos maiores artistas da época – suficientemente forte para ser livre, assumiu-se como republicano activo, e no dia 5 de Outubro de 1910 foi por direito próprio o proclamador oficial da República na varanda dos Paços do Conselho! Transformou o casarão agrícola dos Patudos, em Alpiarça, no verdadeiro solar de uma nova e sólida grande família, culta, elegante e cosmopolita; soberbamente recheada com a colecção ecléctica e de gosto requintado que garbosamente foi constituindo, e na qual o melhor do seu tempo se enobrecia ao ser exibido lado a lado com inquestionáveis glórias do passado – essa casa acabou por ser o centro e a montra pública da fundação com fins filantrópicos que ele, perante a cruel derrocada da sua vida familiar, generosamente constituiu e encabeçou na “sua” vila de Alpiarça.
Para nos contar a saga desta família Forsythe à portuguesa, vamos ter connosco o Prof. João Bonifácio Serra [na próxima quarta-feira, dia 1 de Julho, às 20h30]; e convidamo-lo para no sábado ir almoçar à Golegã e Alpiarça! Marque já lugar !!!

Pela Direcção
Alfredo Magalhães Ramalho


ASSOCIAÇÃO CASA VEVA DE LIMA
Rua Silva Carvalho, 240
1250-259 Lisboa

terça-feira, 30 de junho de 2009

Os pés!

[...] Só ele, o anfitrião e entrevistado, não riu nem sorriu e, em voz alta, repetiu-se a si mesmo a pergunta:
- Qué es lo más importante en un cambatiente?
No inverno úmido, a asma reaparecia e, às vezes, lhe travava a respiração, mas Ernesto Che Guevara não titubeou na resposta:
- As extremidades! A extremidade inferior, os pés - exclamou, e a gargalhada de zombaria foi quase geral.
Outra vez, só ele não riu. E, sem ouvir o riso galhofeiro dos que se riam unicamente por pensarem que ele também ria, tomou um tom ainda mais sério, alongou a explicação e começou a falar da importância das extremidades. Sim, porque os cuidados essenciais são três, e nessa santíssima trindade está o poder de ataque e defesa do combatente, sua condição de céu ou inferno. Primeiro, a cabeça, extremidade superior não só por lá estar em cima no corpo, mas porque conduz tudo. Perder a cabeça é perder-se, seja onde for, não só na guerrilha. Logo, as extremidades laterais, os braços. Ágeis, envolventes e voluptuosos como no amor, ou lentos e inertes como no sono, os braços - e neles as mãos - definem um ritmo, o ritmo do corpo que controla a carabina, movendo-se como uma bailarina na dança ou uma serpente na árvore.
Por fim, as extremidades inferiores, os pés, sustentação do corpo e dos braços. Base da base e base de tudo o que é básico, os pés definem e guiam o passo da coluna guerrilheira. A velocidade de quem avança, quem marca é o pé mais cansado ou menos cansado. A cadência, é ele que dá, até mesmo na correria do recuo, quando nos atacam e retrocedemos. Se o pé aguenta, tudo se aguenta. Aguenta-se.
- A nossa experiência guerrilheira em Cuba mostra algo simples, rudimentar. Pode tratar-se mal de todo o corpo, menos dos pés. Um combatente pode ficar semanas ou meses sem um banho, mas deve lavar os pés cada dia. A roupa pouco importa, mas o calçado é importante! - completou Guevara, pernas cruzadas, tocando com a mão a própria bota, do cano à sola, numa irrefreável caricia.

Flávio Tavares, O Dia em que Getúlio Matou Allende e Outras Novelas do Poder. 5ª edição. Rio de Janeiro, Editora Record, 2004. p. 289-290.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A República e o General

Em Março de 2004 integrei uma comitiva oficial que visitou a República de Cabo Verde. No Município de Ponta do Sol, Ilha de Santo Antão, enquanto decorriam as cerimónias de boas vindas no terreiro em frente da Câmara, entrei neste edifício e procurei o gabinete do Presidente. A intenção era aproximar-me da varanda e daí obter uma fotografia do conjunto da praça. Levava pois comigo uma pequena máquina fotográfica de bolso. Mas no gabinete esperava-me uma surpresa "histórica". Em lugar de destaque, por detrás da secretária do Presidente, uma fotografia de um general português de origem cabo-verdiana que participara na Primeira Guerra Mundial e um busto colorido da República alusivo ao 5 de Outubro de 1910. Ambos os ícones tinham sobrevivido a dois regimes e atravessado duas pátrias.

domingo, 28 de junho de 2009

Mais simples e barato

A acreditar no que a maioria dos comentadores hostis ao Primeiro Ministro pretende acreditar, tudo teria sido mais simples e mais barato se Luis Filipe Vieira tivesse respeitado o calendário estatutário do Benfica, que apontava para Outubro a realização de eleições.
Neste caso, José Eduardo Moniz teria trocado a TVI pela presidência do "glorioso" e poupado a José Sócrates o engenhoso e dispendioso ardil de ordenar à PT que adquirisse 30% da Média Capital com o objectivo (mal) escondido de colocar Moniz no mercado de transferências.
Na política como nos negócios, cada um acredita no que quer.

sábado, 27 de junho de 2009

Concordo

Passagens do artigo A "renovação" que se exige, de José Pacheco Pereira, no Público, de hoje:

[...] Por exemplo, para mim, renovar é trazer para a política pessoas com vida e profissão, que tenham conhecido dificuldades, desilusões, derrotas, perdas, que sejam mais de carne do que de plástico. Há cada vez menos gente assim na política, à medida que nos partidos as jotas funcionam como incubadoras de carreiras semiprofissionais e profissionais de política. Elas implicam quase sempre baixa qualificação profissional, cursos de segunda, pouca experiência profissional e vidas que rapidamente acedem a regalias e prebendas que separam os que as recebem do comum dos cidadãos e dos seus companheiros de geração.
[...] É para mim incompreensível que alguém que discorda profundamente de uma direcção partidária (já não digo de uma política, porque aí é tudo muito maleável) queira ser deputado em representação dessa maneira de fazer política que abomina.
[...] Por exemplo, para mim, renovar significa escolher pessoas que mostrem ter uma intransigência grande com a corrupção. Não basta serem honestas e sérias, o que muita gente é na política. É preciso ir mais longe, dada a natureza do meio e das suas tentações, é preciso não pactuar com quem seja menos honesto. Embora este seja um terreno difícil, a "ética republicana" como queria Pina Moura não é apenas a lei e os prevaricadores não são apenas os culpados em tribunal. É necessário que nos partidos políticos haja cada vez mais gente que não ajuda, promova, seja indiferente com quem abusa do seu lugar, quem enriquece sem explicação, quem serve o contínuo tráfego de influências que passa pela política. Os partidos políticos, em particular o PS, o PSD e o CDS, pagam em termos da opinião pública um preço elevado pelo comportamento dos seus dirigentes e militantes, envolvidos em histórias pouco dignificantes, mesmo que não cheguem a ser crimes. Muito da regeneração possível dos partidos passa por aí, embora reconheça as enormes pressões para marginalizar quem não pactua com esses hábitos.
Para mim, renovar é procurar diversidade, de modo que Portugal todo caiba na política e não apenas os eleitos pela fortuna, pela riqueza e pela classe social e pelo nascimento. [...] É o problema de qualificar a acção política por "saberes" diversos, fruto da experiência, do conhecimento de vida, do estudo, para evitar o progressivo divórcio entre a realidade nacional e a representação política.
Podia continuar, mas penso que já se percebe. Faça-se a "renovação" por aqui e encontrar-se-á gente nova e mais velha, capaz de nos fornecer melhores políticos. Mas para que tal seja possível nos partidos é necessário ir muito mais longe do que os poderes e equilíbrios internos, porque a realidade mostra que as escolhas das direcções nacionais são mais racionais do que as dos aparelhos interiores aos partidos.[...]

Ao Vasco Trancoso


Parte final do depoimento que ontem fiz na festa de homenagem a Vasco Trancoso organizada por um grupo de amigos e antigos colaboradores.

[...]
Peço desculpa a todos, se num momento de convívio e celebração com um homem que admiramos, trago aqui, em vez de um enunciado de predicados, um repertório de obra feita. Mas compreendam-me: não há muitas oportunidades como esta de, em vez das coisas “serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias”, falar do “amor dos homens”, ou seja do “desespero que as busca”. Estou a usar propositadamente as palavras de um poema de António Gedeão, “Poema das coisas”. Este poema conclui assim:
Põe-se a pedra na mão, e a pedra pesa,
pesa connosco, forma um corpo inteiro.
Fecha-se a mão, e a mão toma-lhe a forma,
conhece a pedra, entende-lhe o feitio,
sente-a macia ou áspera, e sabe em que lugares.
Abre-se a mão, e a mesma pedra avulta.


Se fosse o amor dos homens
Quando se abrisse a mão já lá não estava

O amor dos homens transforma pois, absorve, integra a pedra. É disso que trata o processo criativo.
Há uma longa e sólida tradição de homens da medicina que desenvolveram em simultâneo uma actividade literária e artística de invulgar qualidade. A profissão médica convive pois bem com a forma porventura mais decisiva de “amor dos homens”. Talvez ela seja afinal uma outra forma, não plástica, mas não menos criativa, de “amor dos homens”.
Resta-me falar, para continuar no mesmo registo de palavras, do amor do Vasco Trancoso pelas pedras do nosso Hospital Termal. De facto, aqui tudo conflui: o médico, o artista plástico, o patrimonialista. Viveu intensamente os problemas, sobressaltou-se com os obstáculos institucionais e as dificuldades de equipamento das termas erguidas pela Rainha D. Leonor. Cuidou desse imenso património singular e admirável. Sofreu com as incompreensões humanas face a esse gigante de pedras que assiste sereno ao desfiar dos séculos. Fotografou-o e pintou-o. Cuidou-lhes das feridas e modernizou-o. Estudou-lhe o passado e procurou garantir-lhe o seu destino cumulativo e unitário. Procurou e descobriu o seu espírito, um espírito de lugar.
Volto a Gedeão, e ao princípio do seu poema:
Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está, e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.

E, permita-me agora o poeta que jogue com as suas palavras, para acertar o poema
Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o AMOR as busque.

Em 1990, Vasco Trancoso representou-se a si próprio sentado a pintar um animal feroz enquanto à sua volta a selva da politica o olhava ameaçadora. Não sei se hoje é esse ainda o destino que ambiciona ou a previsão que tece para si.

Em nome de todos os seus amigos que aqui se reúnem, desejo-te as maiores felicidades.
Podes contar connosco.


sexta-feira, 26 de junho de 2009

Calendários

Depois de ter deixado a opinião pública antever a sua posição, pode o Presidente deixar caír a sua preferência pela simultaneidade das eleições legislativas e autárquicas?

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Jorge de Sena

Vai inaugurar-se o museu da caridade.

Aceitam-se récitas da dita.
Aceitam-se chás dançantes.
Aceitam-se confessionários.
Aceitam-se misericórdias.
Aceitam-se subscrições públicas.
Aceitam-se esmolas ao sábado.
Aceitam-se valas comuns.
Aceitam-se bairros económicos.
Aceitam-se associações de protecção às raparigas.
Aceitam-se conferências de S. Vicente de Paula.
Aceitam-se consultas grátis.
Aceitam-se hospitais.
Aceitam-se dispensários.
Aceitam-se necrológios.
Aceitam~se artigos de fundo.
Aceitam-se discursos patrióticos.
Aceitam-se sugestões para acrescentar esta lista.

E também se aceitam poemas sociais como este.

11/3/1942

40 Anos de Servidão. 2ª ed., Morais Editores, 1982. p33

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Equivalentes culinários

A reportagem no El País sobre exposição de uma jovem artista no Museo Rainha Sofia surge recheada de expressões pedidas de empréstimo à culinária. Patrícia Esquivia, escultora, é venezuelana e nasceu em 1979. A sua instalação é uma crítica aos centros culturais e museus que na ultima década brotaram como cogumelos em toda a Espanha, alguns com projecto assinado por mediáticos arquitectos, cuja programação tem sido porém decepcionante. Muitas vozes e poucas nozes, não se fazem omeletas sem ovos, o que não tem ligação sabe a alho, uma paelha não se faz em 20 minutos - são algumas das alusões culinárias usadas no texto do jornal.
Particularmente eficaz - se bem que não original - é a assimilação do processo criativo ao processo culinário. Se a culinária não é apenas o resultado de uma mistura de ingredientes (por melhores que sejam), precisa de tempo (de fogo lento), a criação deve desconfiar da facilidade, operar selecções, saber esperar, não passar ao lado da investigação. 

terça-feira, 23 de junho de 2009

Boris Vian

Morreu há 50 anos. Tinha 39.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

domingo, 21 de junho de 2009

Está na altura de tratar do roseiral

Adverte, oportuno, o Le Monde. Nesta altura do ano, as roseiras trepadeiras, sobretudo, são vulneráveis ao oidio, detectável através de um insidioso pó branco que recobre a folhagem e impede a plena abertura dos botões da flor. Há diversos tipos de tratamento possíveis, desde os clássicos tratamentos químicos aos mais modernos, "verdes", amigos do ambiente. Em qualquer caso, podar o roseiral é, neste momento, uma medida que se impõe. Sob condição de já não haver rosas no jardim do Outono.

sábado, 20 de junho de 2009

Por-do-sol na Foz do Arelho










21 horas. Fotografias obtidas com o telemóvel.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Passagem para a imortalidade

Jean Clair foi eleito em 2008 para a 39ª cadeira das 40 dos imortais franceses. Tomou agora posse dela, num discurso breve em que lhe competia falar do seu predecessor, acto cerimonial destinado, diz-se, a evitar ao recém-escolhido a incomodidade de se ocupar da sua própria vida e obras. O ritual de passagem enfrentou-o este historiador de arte, antigo director do Museu Picasso e um dos principais renovadores da exposição de arte (Marcel Duchamp, le Grand Fictif, Paris 1977; Les realismes, entre révoluction et réaccion, Paris 1980; L'Apocalypse Joyeuse, Paris 1986; Cosmos - du Romantismo à l'Avant-garde, Montreal 1999;  Identity and Alterity, Veneza 1995; Mélancolie - Génie et Folie dans l'Occident, Paris 2005) com um discurso breve (pode ser lido aqui) que inscreveu numa espécie de "comércio da morte": "No momento em que me vejo morrer, é necessário que reviva" - disse perante a Academia Francesa.
Não é o que fazemos todos os dias nós, pobres mortais?

Sondagens (de novo)

"Já descobriram o motivo do vosso engano?" - pergunta Maria Flor Pedroso aos representantes das empresas de sondagens que não acertaram nos resultados das europeias. Pedro Magalhães responde:" A única resposta que temos é esta: não conseguimos antecipar as abstenções; sem esse dado, as previsões do voto tornam-se muito mais difíceis."
Aparentemente, os responsáveis pelo tratamento das respostas dos portugueses nunca se colocaram o problema da fiabilidade dessas respostas. Quem lhes garante que um número elevado de eleitores não decide votar em sondagem de maneira diferente da que vota para valer? 

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Roteiro republicano

As mudanças de regime deixaram marcas na cidade. Os republicanos, que constituíram o primeiro partido político moderno, implantado transversalmente na sociedade da época, com formas de organização, de mobilização e de direcção próprias de um partido de massas, tinham uma percepção da cidade como espaço de afirmação e exercício do poder simbólico. Por isso lançaram mão, nos dias subsequentes à vitória sobre a monarquia, a um recurso de valor estratégico para a ocupação simbólica da cidade: a alteração da toponímia. Fizeram-no com parcimónia, cirurgicamente, mudando a designação das praças e ruas centrais e substituindo os nomes mais significativos da ordem anterior, designadamente os nomes de anteriores Chefes de Governo e Rainhas de Portugal.
Isabel Xavier conduziu-nos ontem pela toponímia republicana das Caldas da Rainha, refazendo o percurso urbano que os republicanos pretenderam destacar no período em que foram poder (1910-1926). Depois da primeira vaga de alterações toponímicas, efectuada no rescaldo da reviravolta de 5 de Outubro de 1910, nos dias que se seguiram, a República seguiu uma orientação moderada, realizando poucas mudanças e reservando os novos nomes para as novas ruas. Mas, mesmo nestes casos, prevaleceu uma orientação prudente, evitando os republicanos propor designações polémicas.
A completar a sua comunicação, Isabel Xavier abordou também o tratamento que da República foi feito nos períodos anterior (dominado pelas temáticas da reacção ao Ultimatum e do comemoracionismo camoniano), e posterior ao da Primeira República (Estado Novo, Democracia).
Casa cheia e entusiasmada para ouvir e aplaudir, no CCC, a Presidente da Associação Património Histórico.

Ironia da história

O "capitalismo popular,  em cuja virtude baseamos o funcionamento e o crescimento das economias neo-liberais, não podia ter outra consequência ao primeiro sinal sério de crise no sistema financeiro senão a intervenção do Estado. Não deixa porém de constituir uma daquelas terríveis ironias da história que a decisão mais impopular de alguns governos, entre os quais o português, parece ter sido a de injectar dinheiro nos bancos em risco de falência.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

As duas faces do capitalismo

Maurice Duverger - numa passagem do seu livro de 1972, Janus, Les Deux Faces de l'Occident, que muitas vezes citei nas minhas aulas - refere-se, a propósito da crise dos regime liberais das décadas de 20 e 30 do século XX, às manifestações políticas dessa crise: instabilidade, impopularidade dos governos, dificuldade em formar maiorias. A opinião pública tornou-se então presa fácil dos críticos radicais da política e dos políticos, apontando uma e outros como a fonte de todos os males que afligiam os povos. O capitalismo, escreveu Duverger, responsabilizava então os governos pela sua própria impotência, acusando-os de incapacidade de evitar ou resolver a crise de que ele afinal era autor.

terça-feira, 16 de junho de 2009

À espera do Bloco?

Curioso exercício: no seu blogue Margens de Erro, Pedro Magalhães procedeu a uma conversão dos resultados europeus em mandatos de deputados. Vejamos o que apurou:

PSD: 96 deputados
PS: 73 deputados
CDU: 23 deputados
BE: 21 deputados
CDS: 16 deputados
MEP: 1 deputado

Só haveria, neste cenário, uma combinação possível maioritária: um Governo de Bloco Central.

Sondagens

Anda por aí um clamor contra as sondagens, à mistura com um clamorzinho contra a ausência de um enorme clamor contras as sondagens.
Até parece que é a primeira vez que os vaticínios eleitorais se não confirmam. Memórias curtas.
Quanto ao procedimento a adoptar, concordo que em vez de lançar suspeitas sobre os centros de sondagens, se promova uma auditoria sobre sondagens, como advogava Pedro Magalhães ontem no Público.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

À espera do Governo

Como toda a gente acha que foi o Governo que perdeu as eleições, é daí que se aguardam as reacções. O PS, que não se viu na campanha eleitoral e parece reduzido a uma máquina eleitoral mais um grupo parlamentar, prepara-se para ouvir o que o Governo terá para dizer. Má inspiração. Aconselha-se, na falta de produção própria, a ler o que José Pacheco Pereira escreveu sobre o "ornintorrinco". Substituindo a sigla PSD por PS, fica uma prosa muito estimulante para espíritos afoitos.

domingo, 14 de junho de 2009

Resultados e consequências

Foi um Primeiro Ministro do PS que iniciou a prática de tirar consequências sobre a legitimidade política  de um Governo que sofrera um desaire em eleições não legislativas. Como alguém advertiu nessa altura, as regras da democracia não autorizam, porém, esse tipo de ilações. Há actos eleitorais legislativos, autárquicos, europeus e presidenciais, cada um com fins próprios. Por algum motivo, eles têm calendários diferentes e agendas distintas. Não é aceitável pretender que o Governo veja diminuída a sua capacidade de conduzir a política nacional por efeito de umas eleições que não se destinavam a avaliar a sua actuação. Quem acha plausível que o Governo seja transformado numa espécie de governo com capacidade diminuída devia levar a posição até às últimas consequências e pedir a demissão do Governo. Não seria inoportuno que o Presidente esclarecesse a sua posição sobre este tema capital.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

Valor da assinatura

Enviado por Isabel de C.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Difícil de explicar

O Ministério Público, a quem compete defender o Estado Democrático, acusou o Dr. Jorge Sampaio de ter cometido um crime no exercício do seu mandato como Presidente da Câmara, crime que entretanto prescrevera. Reagiu o antigo Presidente da República chamando a atenção para que nem sequer fora ouvido sobre a matéria antes de o Procurador ter tornado pública acusação tão grave relativa a uma pretensa atribuição de casas. Afinal, verificou-se agora, o dito Procurador não verificara as datas e cometera um erro grosseiro atribuindo a autoria do acto ilegal a quem, nessa data, nem sequer tomara ainda posse do lugar de Presidente da Câmara. Aqui a notícia deste caso difícil de explicar.

Nobody Dies (only a little)

Do not stand at my grave and weep.
I am not there. I do not sleep.
I am a thousand winds that blow;
I am the diamond glints on snow.
I am the sunlight on ripened grain;
I am the gentle Autumn’s rain.

When you awaken in the morning’s hush.
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circled flight.
I am the soft star that shines at night.
Do not stand at my grave and cry.
I am not there; I did not die.

Mary Frye

Todos contra um

Todos contra um. O PS não podia resistir. A menos que tivesse incorporado o lema: um por todos.