domingo, 19 de agosto de 2012
European Wind Quinteto
Uma formação de sopros da Fundação Orquestra Estúdio, hoje à noite na freguesia de Brito (sala dos Espaços Criativos, antiga Carreira de Tiro.
O ouro vale mais?
A criança não dá mais valor ao ouro do que ao vidro. E na verdade, o ouro vale mais? — A criança acha obscuramente absurdos as paixões, as raivas, os receios que vê esculpidos em gestos adultos. E não são na verdade absurdos e vãos todos os nossos receios, e todos os nossos ódios, e todos os nossos amores?
Ó divina e absurda intuição infantil! Visão verdade das coisas, que nós vestimos de convenções no mais nu vê-las, que nos embrumamos de ideias nossas no mais directo olhá-las!
Será Deus uma criança muito grande? O universo inteiro não parece uma brincadeira, uma partida de criança travessa? Tão irreal, tão (...), tão (...)
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. p - 441.
sábado, 18 de agosto de 2012
Poema dedicado a Couros
um dia passámos numa cidade do norte
um dia passámos numa cidade do norte
e alguém nos falou de um sítio que estava a degradar-se
mas digno de se ver: fomos assim às fábricas
de curtumes abandonadas, no coração oculto do lugar
onde um riacho corria, tanto faz, entre pedras,
muros estreitos, gerânios e mau cheiro/ era grande o contraste
com a poética tradicional das praxes pra turistas
e muito bela a geometria dos tanques de granito:
vaziamente inúmeros ou com flores, clausos,
mas sempre a cubicarem o espaço, subpostos
a um outro labirinto: sobrados, grades, frágeis
construções de madeira, de tábuas sobre poços,
lajes escorregadias, condutas de água, calhas.
crescia ali curtida essa memória de vestígios
vazia de instrumentos, a irregularidade desabitada
de uma indústria primitiva de trabalhar as peles. não,
nenhum instrumento, aparência ou cabo de utensílio.
a luz surpreendida aqui e ali nas frestas
do todo apodrecendo, algumas perspectivas
rasando a altura dos olhos, uma certa humildade
de urbanismo e trabalho / comoveu-nos aquela
presença da razão a organizar um espaço
artesanal e antigo. não fazia sentido
falar de relações de propriedade, o risco era
partir assim de espaços melancólicos. tratava-se
de agir sobre aquilo: o amor é agressivo
e tem a ver com tudo quanto toca, nunca há
modelos inocentes.
isso foi muito limpo. observar, medir, tocar as pedras,
recordar m. c. escher, pensar uma grafia cautelosa
e multilateral, coisas difíceis de devassar, afectivas, incrustadas,
no alçado rigoroso que fomos provocar-lhes.
poderia dizer-se que não fizemos nada
a não ser povoar o mundo imaginário
e que isso é fabricar o real, mas de um só lado, triste
como se devesse durar uma invencibilidade das coisas.
todavia a observação tem uma qualidade modulante
que a linguagem poética documenta; então notaste
que a observação é um trabalho político
que toda a observação modifica a realidade (a matéria da música)
todas as outras áreas: a ternura, estranhezas mimeticas
os labirintos do sentimentalismo crítico. etc.) há de facto
um angelismo construtivo, pressuposto versátil
de vários actos que pensamos livres
Vasco Graça Moura, Instrumentos para a melancolia. Porto, Oiro do Dia, 1980
um dia passámos numa cidade do norte
e alguém nos falou de um sítio que estava a degradar-se
mas digno de se ver: fomos assim às fábricas
de curtumes abandonadas, no coração oculto do lugar
onde um riacho corria, tanto faz, entre pedras,
muros estreitos, gerânios e mau cheiro/ era grande o contraste
com a poética tradicional das praxes pra turistas
e muito bela a geometria dos tanques de granito:
vaziamente inúmeros ou com flores, clausos,
mas sempre a cubicarem o espaço, subpostos
a um outro labirinto: sobrados, grades, frágeis
construções de madeira, de tábuas sobre poços,
lajes escorregadias, condutas de água, calhas.
crescia ali curtida essa memória de vestígios
vazia de instrumentos, a irregularidade desabitada
de uma indústria primitiva de trabalhar as peles. não,
nenhum instrumento, aparência ou cabo de utensílio.
a luz surpreendida aqui e ali nas frestas
do todo apodrecendo, algumas perspectivas
rasando a altura dos olhos, uma certa humildade
de urbanismo e trabalho / comoveu-nos aquela
presença da razão a organizar um espaço
artesanal e antigo. não fazia sentido
falar de relações de propriedade, o risco era
partir assim de espaços melancólicos. tratava-se
de agir sobre aquilo: o amor é agressivo
e tem a ver com tudo quanto toca, nunca há
modelos inocentes.
isso foi muito limpo. observar, medir, tocar as pedras,
recordar m. c. escher, pensar uma grafia cautelosa
e multilateral, coisas difíceis de devassar, afectivas, incrustadas,
no alçado rigoroso que fomos provocar-lhes.
poderia dizer-se que não fizemos nada
a não ser povoar o mundo imaginário
e que isso é fabricar o real, mas de um só lado, triste
como se devesse durar uma invencibilidade das coisas.
todavia a observação tem uma qualidade modulante
que a linguagem poética documenta; então notaste
que a observação é um trabalho político
que toda a observação modifica a realidade (a matéria da música)
todas as outras áreas: a ternura, estranhezas mimeticas
os labirintos do sentimentalismo crítico. etc.) há de facto
um angelismo construtivo, pressuposto versátil
de vários actos que pensamos livres
Vasco Graça Moura, Instrumentos para a melancolia. Porto, Oiro do Dia, 1980
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Nem os mortos ficam em segurança
Fazer trabalho de historiador não significa saber "como as coisas realmente se passaram". Isto significa apoderar-se de uma lembrança sempre que ela surge em momento de perigo. Para o materialismo histórico, trata-se de reter a imagem do passado que inopinadamente se oferece ao sujeito histórico no momento do perigo. Esse perigo ameaça quer os conteúdos quer os destinatários da tradição. Tanto para uns como para outros, o perigo é idêntico, o de se tornarem instrumento da classe dominante. Em cada época é preciso arrancar novamente a tradição ao conformismo que está em vias de a subjugar. O messias não chega apenas como redentor, mas também como vencedor do anti-cristo. O dom de atear no passado a chama da esperança pertence apenas à historiografia intimamente persuadida de que, se o inimigo triunfar, nem os mortos ficam em segurança. E esse inimigo não cessa de triunfar.
Walter Benjamin, "Sur le Concept d'Histoire", in Oeuvres, III. Paris, Gallimard, 2000. p. 431.
Walter Benjamin, "Sur le Concept d'Histoire", in Oeuvres, III. Paris, Gallimard, 2000. p. 431.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Homo viator
Viajantes de Deus e do século, abandonavam se necessário fosse a terra e os bens que lhes conferiam identidade e estatuto, para se consagrarem a vicissitudes sistemáticas ou circunstanciais pelas regiões menos ou mais distantes onde havia que terçar amas ou tecer a paz, administrar justiça, fugir ou dar caça, fazer oração, ensinar e aprender, cobrar impostos, vender e comprar, pastorear ou ceifar. Digressão de vivos em ócio ou negócio e cortejo de mortos ou de relíquias, a viagem medieval não deixa nunca de se fazer acompanhar dos ritos da sacralização, num exercício de religiosidade permanentemente renovado pela mimese corporal do conceito segundo o qual todo o cristão é transeunte no mundo. Homo viator, caminhante fugaz da vida à morte, perdido no "vale de lágrimas" que o século XII verbaliza compondo a Salve Regina, não admira que o homem da Idade Média tenha preenchido a sua existência com deslocações no espaço físico, da mesma forma que o imaginário do tempo integrava a dimensão simbólica da viagem.
Margarida Sérvulo Correia, As Viagens do Infante D. Pedro. Lisboa. Gradiva, 2000. p. 22-23.
Margarida Sérvulo Correia, As Viagens do Infante D. Pedro. Lisboa. Gradiva, 2000. p. 22-23.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Viajar? Para viajar basta existir.
Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.
«Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.» Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. p - 387.
domingo, 12 de agosto de 2012
sábado, 11 de agosto de 2012
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Robinson Crusoe e a olaria
Seria,
certamente, motivo digno de riso e, ao mesmo tempo, de lástima, contar ao leitor os meios estranhos de
que me vali para preparar o barro; as coisas caprichosas, desengraçadas e feias que fiz; a frequência com que se dividiam em
bocados, pois a argila não era bastante firme para resistir ao seu próprio peso, ou então as que estalavam por tê-las exposto com demasiada
precipitação
aos grandes ardores solares, e as vezes que as minhas vasilhas se quebraram
porque as usava antes de estarem completamente secas ou quando já o estavam de mais. Em suma:
depois de me ter custado um trabalho infinito encontrar a argila, extraí-la, amassá-la, transportá-la e laborá-la, consegui apenas, após dois meses de trabalho, duas
informes massas de barro, a que mal me atrevo a chamar dornas.
Apesar de
tudo, estando aquelas duas vasilhas bem endurecidas pelo sol, cheguei a pô-las em pé e colocá-las em duas grandes canastras
de vime que lhes tinha preparado para não se partirem, e como enchi com palha de cevada e arroz o
espaço vazio
que havia entre o cesto e a vasilha, julguei que as duas dornas,
conservando-se sempre secas, poderiam servir-me para guardar o grão enxuto, e ainda talvez a
farinha quando o pisasse.
Embora
tivesse obtido tão mau
êxito na confecção das vasilhas grandes, fiz
com o maior acerto grande número de pequenas, como tachos, pratos, cântaros e alguidares e todas as
coisas que podia construir; o ardor solar dava-lhes uma dureza extraordinária. Mas ainda não havia atingido o meu fim
principal, que era possuir uma grande dorna capaz de conter líquidos e de ir ao lume, porque
não dispunha de qualquer outro
utensílio
para este serviço.
Algum tempo depois, tendo ateado um grande fogo para preparar a comida,
encontrei ao retirar os carvões um pedaço dos meus cacos perfeitamente cozido, tão duro como a pedra, e da cor
das telhas. Isto deu-me uma grande satisfação e pensei que as vasilhas poderiam ser cozidas inteiras, já que os pedaços separados tinham saído tão bem cozidos.
Meti-me,
assim, a estudar a maneira como poderia dispor o lume para cozer as vasilhas. Não tinha qualquer ideia, nem da
construção
dos fornos de que se servem os oleiros, nem do verniz com que revestem as suas
obras, embora tivesse chumbo para o fazer. Mas formei um montão de grandes cântaros e e três potes, dispondo cinza por
baixo, e acendi à sua
volta um grande lume de lenha, cujas chamas cobriam o meu vidrado por todos os
lados, até que
vi as vasilhas adquirirem uma cor vermelho-clara sem se racharem. Mantive esse
calor durante cinco ou seis horas, no termo das quais vi uma que, pareceu-me, não estalava mas se derretia,
pois a areia que estava misturada com a argila fundia-se com a intensidade do
calor e ter-se-ia convertido em vidro se tivesse conservado aquela temperatura.
Então
abrandei gradualmente o meu lume, até que as vasilhas perderam a cor vermelha, e velei toda a
noite para evitar que esfriassem repentinamente. No outro dia de manhãzinha possuía três cântaros muito bons, embora não muito formosos; outros dois
potes, tão
cozidos como eu queria, e um terceiro, que a fundição de areia tinha coberto de
verniz. Não é preciso dizer que depois
deste prova fiquei a saber fabricar todas as vasilhas que me pudessem ser úteis; mas devo confessar que não se distinguiam pela forma
pois não
tinha, na verdade, nenhuma das coisas necessárias para este género de trabalho, e procedia
como as crianças
que fazem figuras de barro, ou como uma mulher que quer fazer pastéis sem ter aprendido a
manusear a massa.
Jamais
alegria humana igualou a que senti ao ver que chegara a fabricar uma panela de
barro que podia levar ao lume. Quase não tive paciência para esperar que arrefecesse; e assim que tal
aconteceu enchi-a de água para cozer a carne, o que obteve um êxito feliz.
Daniel
Defoe, As Aventuras de Robinson Crusoe.
Lisboa, Leya, 2009. p. 112-114.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
terça-feira, 7 de agosto de 2012
A causa histórica
Foi, pois, um erro procurar as "causas" dos factos históricos, que são, em último caso, factos biológicos. Em rigor, a única causa que actua na vida de um homem, de um povo, de uma época é esse homem, esse povo, essa época. Dito de outra forma: a realização histórica é autónoma, causa-se a si mesma. Em comparação com a influência que nós, espanhóis, temos tido sobre nós mesmos, o influxo do clima é estritamente desdenhável.
Fata ducunt, non trahunt [a fatalidade dirige, não arrasta].
José Ortega y Gasset, Notas de Andar e Ver. Viagens, Gentes e Países. Lisboa, Fim de Século, 2007. p. 97
Fata ducunt, non trahunt [a fatalidade dirige, não arrasta].
José Ortega y Gasset, Notas de Andar e Ver. Viagens, Gentes e Países. Lisboa, Fim de Século, 2007. p. 97
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Predomínio da praça
Deve-se chamar a atenção para uma importante coincidência. A
linha de Espanha onde começam a pulular os escudos marca o fim das cidades. Faz
tempos que Corpus Barga* sublinhou esse facto de que no País basco não existe a
urbe. Um meridional não poderá conceber a sua ideia de cidade vendo esta
dispersão de habitações, que parecem fugir umas das outras e constituem as
vilas do Norte. A cidade andaluza ou castelhana é uma escultura compacta; a
cidade cantábrica é antes uma paisagem, uma urbe centrifugada onde cada
edifício foi lançado em direcção aos campos.
Isto levar-nos-ia a reflexões algo complicadas sobre o
ruralismo cantábrico. Como toda a Espanha é rural, é de não pouca subtileza
definir a forma genuína de cada ruralismo regional. Deste modo, não há grupo
nacional que pareça ter sido mais chamado a construir uma urbe sólida e sem
poros do que Bilbau. Contudo,
quando Bilbau quis alargar-se evadiu-se do perfil oficial que o Município
propunha. O verdadeiro alargamento bilbaíno não é o que assim se chama, mas
Neguri, Algorta, Las Arenas – a povoação centrífuga com campina interior.
Ora bem, a urbe autêntica supõe o predomínio da praceta,
agora ou foro. Da mesma forma que se define o canhão como um agulheiro rodeado
de aço, seria bastante exacto dizer que a urbe é uma abertura ou praça rodeada
de fachadas. O resto da casa mais alem da fachada não é essencial para a urbe
(refresque o leitor a sua imagem de Atenas, de Roma). Isto quer dizer que
apenas há urbe onde predomina o público sobre o privado, o Estado sobre a
família. Em toda a Cantábria acontece o contrário: o instinto de
consanguinidade triunfa sobre o instinto politico e isto explica-nos de um só
golpe a dispersão do casario e a hipertrofia dos escudos. Os cantábricos e
bascos sentem o orgulho da tradição familiar e vivem animados por uma ilusão genealógica.
A planta familiar agarra-se a um pedaço de campina porque precisa de raízes
profundas com que nutrir o seu milenário destino vegetal.
José Ortega y Gasset, Notas
de Andar e Ver. Viagens, Gentes e Países. Lisboa, Fim de Século, 2007. p.
149-150.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Um ano depois, exactamente o mesmo post
O'Neill sempre presente:
A alegria de ser eleito
a alegria de ser notado
a alegria de ser perfeito
a alegria de ser devorado
Alexandre O'Neill, Coração Acordeão. Edição de Vasco Rosa. Lisboa, O Independente, 2004. p.18
A alegria de ser eleito
a alegria de ser notado
a alegria de ser perfeito
a alegria de ser devorado
Alexandre O'Neill, Coração Acordeão. Edição de Vasco Rosa. Lisboa, O Independente, 2004. p.18
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
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