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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Na fábrica de Cabrita Reis

À terceira tentativa consegui. Da primeira, na noite da inauguração, estava tanta gente que não se percebia nada. À segunda, bati com o nariz na porta. Mas hoje pude observar detidamente a instalação que Pedro Cabrita Reis contruíu na Igreja de S. Tiago, em Óbidos, como evocação de Rafael Bordalo Pinheiro e da Fábrica de Faianças Bordalo Pinheiro.
Em primeiro lugar, há que dizer que PCR foi eficaz na escolha dos materiais e na reconstrução do ambiente fabril. Captou e devolveu em ironia o riso de Bordalo e irmanou-se com ele no excesso, nalguma turbulência criativa, na admissão de um lugar para o imponderável, o inesperado. A cerâmica é isso, não? Cabrita Reis fez bom uso (inteligente e criterioso) dos processos e produtos da cerâmica fabril de inspiração bordaliana.
Quanto ao entendimento do espaço, PCR não me "convenceu". Os materiais que dispôs na sala despojada da Igreja manifestam mais indiferença que procura de uma relação, mesmo que conflitual. Os ritmos das plataformas, marcados pelas lâmpadas de néon, são insuficientes para riscarem o espaço sagrado do templo. Este problema não parece ter sido encarado, pelo menos aprofundado.





domingo, 28 de dezembro de 2008

Bordalo em Óbidos

Rever os Bordalos em Óbidos, com José Nuno e Maria do Mar.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Na árvore do Natal (5)

Aos comentadores mais assíduos deste blog, uma lembrança de Natal. Esta é para Isabel Xavier, contrapondo ao seu fascínio pelo mistério poético e pela pintura de histórias o seu (não menor, espero) apreço pelo riso. 
Extracto de um dos mais interessantes depoimentos sobre Rafael Bordalo Pinheiro por quem com ele privou.

Dispunha como ninguém do senso humorístico, e era o primeiro a rir com a própria obra.
Não forçava o assunto. Precisava primeiro encontrar o ser ou o aspecto caricatural. Antes mesmo de o reproduzir, só à ideia do que via ou imaginava, ei-lo a rir, com as suas gargalhadas incessantes.
Ao estrebuchar de um Carnaval, último ano em que a Avenida viu um simulacro de batalha de flores, resolvemos passar juntos as três noites de Entrudo.
E o que mais o divertiu foi ver o Manuel Gustavo a rir. Manuel Gustavo fora educado pelo avô e quando Rafael estava no Rio de Janeiro ficara também em Alcobaça. A educação severa do avô e a admiração de Manuel pelo génio do pai faziam com que não ousasse ostentar a sua graça diante de Bordalo, que tinha muita pena de não gozar o espírito do filho. Tomás Bordalo, irmão de Rafael, pai de Pedro e Dinis Bordalo Pinheiro, foi dar com ele, justamente nessa noite de Carnaval, escondido atrás de uma coluna do hall do Teatro D. Maria.
- Que estás a fazer?
- Estou a ver o Manuel a rir com uns amigos!...
[...]
De vez em quando, ao despedir-se à porta de casa, anunciava-nos:
- Amanhã vou às Caldas.
E desaparecia uns dias.
Por um luminoso dia de Janeiro, arrastou-me com ele às régias termas.
Outra personagem completamente diferente: blusa, com as pontas da lavalière às pintas azuis e brancas por fora da gola e boina - o oleiro.
Percorreu comigo a via sacra das Figuras do Bussaco, inesquecível romagem! Ao passar, levantou os panos que cobriam um busto de mulher admiravelmente bela - era a Visconti, antes de o cancro ter destruido a obra prima da sua beleza. Foi um relâmpago: tornou a velar o busto e foi talvez a única vez em que vi no rosto dele uma velatura de malancolia.
Logo adiante, um motivo de hilariedade esboçado no barro: nem mais nem menos que o Marquês de Franco, a quem Bordalo implacavelmente castigou por certa desatenção. Coisa de nada! Rafael mandara pedir ao Marquês de Franco que lhe cedesse, numa noite célebre, uma das duas cadeiras de S. Carlos. O Marquês respondera que uma era para ele e a outra para o seu sobretudo.
Bordalo caricaturou-o cruelmente! Começou por lhe desenhar a cadeira, guardada a corrente e cadeado; depois, apresentou-o de bouquet em punho ante as bailarinas, e acabou por o ver e mostrar aos raios x. Quando lhe aplicou os raios x às algibeiras da sobrecasaca, não se imagina o que a placa revelou: charutos - uns enormes, para ele, outros mais pequenos, para os amigos - pratos com sardinhas, guardanapos, talheres, ramos de flores, o diabo!
E para cúmulo o pelourinho de barro, que creio não se chegou a acabar. Mas era flagrante, era o Marquês de Franco, a sobrecasaca cintada, levantada pelas proeminências e pelas algibeiras atafulhadas.
E Bordalo ria, porque aquele homem, em quem se pressentia certa amargura, sobretudo depois de ter modelado o busto que ele mal desvelara, só tinha na sua oficina, quer trabalhasse com a pedra litográfica, quer com o barro, um único material: o riso. Quando alguma página apoteótica criava e as personagens eram ídolos do seu coração ou do seu cérebro, Bordalo imolava-se, a ele próprio ou ao gato, para que o público e ele tivessem sempre o seu quinhão de alacridade. Nas suas festas de família, no próprio aniversário, Bordalo punha uma coroa de louros na cabeça e ria da sua figura, ria do absurdo: a glória em Portugal, a sua glória.
[...]
Para nós, Portugueses, foi bom que rimos, pelo menos enquanto ele vivo foi.
[...]
Caminhando século XIX além, topa-se com ervaçal de ridículos; ao exprimirmos alto o nosso juízo, ouve-se um eco - a caricatura de Bordalo; continuando, vai-se dar ao poço motejador que não é senão a gargalhada do artista batendo na rocha da época, e que faz gorgolejar a água negra onde revolteiam tipos e costumes no fundo do poço que ri.

Joaquim Leitão, O Poço que Ri. Rafael Bordalo Pinheiro e o Seu Tempo. Lisboa, 1936. p. 53-62


sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Bordalo na Quadratura do Círculo

Pela mão de José Pacheco Pereira que esteve no sábado, 22, na inauguração da Exposição de grandes peças bordalianas em Óbidos (galeria municipal Nova Ogiva). JPP sublinha, e bem, que a obra de Bordalo resistiu ao tempo e às inevitáveis mudanças de gosto. Isso é verdade sobretudo para a cerâmica. Mérito sem dúvida da criatividade e ousadia (a visão) de Rafael, e mérito da permanência da actividade produtiva que tem possibilitado a recuperação dos antigos modelos e a sua reprodução.
A obra gráfica de Bordalo também merece, julgo, ser revisitada. Não poderia o Museu Bordalo Pinheiro (e a Câmara de Lisboa) pensar na possibilidade de uma exposição, para 2010, sobre o desenho bordaliano?

domingo, 23 de novembro de 2008

Grandela, Relvas, Bordalo

Breve registo de um dia - o de ontem - particularmente preenchido.
De manhã, última sessão do Colóquio Lisboa e a República, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, cujo comissário científico foi António Reis. Tema da sessão: "Lisboa há 100 anos". Ana Paula Pires traçou uma panorâmica da sociedade lisboeta dos finais do século XIX e das mudanças verificadas na transição do século. Daniel Alves caracterizou a Lisboa do pequeno comércio, identificando os ramos de negócio e a sua distribuição pela cidade. Eu revisitei o percurso de Grandella e procurei fixar um retrato do comerciante, do activista cívico e do político. Paulo Ferreira de Castro apontou os aspectos dominantes do gosto musical dos lisboetas nas vésperas da República e surpreendeu a assistência cantando os versos de A Portuguesa com a música de A Marselhesa e os versos de A Marselhesa com a música de A Portuguesa. Rosalia Vargas, vereadora da Cultura, encerrou o colóquio com a apresentação dos trabalhos realizados  pelos meninos de uma escola primária das Gaivotas depois de terem visitado a exposição "À urna pela lista republicana de Lisboa!" Foi assim há 100 anos (na Galeria de Exposições dos Paços do Concelho).
Segui para a Assembleia da República, depois de desafiar o Prof. Paulo Ferreira de Castro a visitar a exposição do dirigente republicano que mais cultivou a música. Cheguei em cima da hora (consegui evitar as sequelas do ensaio do terramoto) ao local de encontro com os "convocados" pelo João Miguel Azevedo Santos para uma visita guiada a José Relvas, o conspirador contemplativo.
A exposição está a chegar ao fim. Dia 29, o próximo sábado, é o ultimo dia em que pode ser visitada. Esta era pois a minha última visita. Gostaria de ter sabido transmitir às duas dezenas de visitantes que me escutaram durante duas horas o entusiasmo e o prazer com que eu e a pequena equipa de investigação (Laurinda Santos Paz, Jorge Estrela, Nicolau Borges) preparámos este trabalho, entusiasmo e prazer que se transmitiu à equipa de restauro (em especial à Maria José) e ao atelier de Design (Nuno Gusmão). Este comissariado desempenhei-o em condições muito particulares de calendário, representando um esforço concentrado para o efectivar em tempo útil e dignas condições técnicas e científicas.
Nas escadarias da Assembleia, uma mulher ainda jovem, uruguaia, perguntou a um dos do grupo se a aceitariam na visita. Evidentemente que sim, respondi. Por diversas vezes, ao longo do périplo, encontrei o seu olhar vivo e atento, procurando acompanhar as minhas palavras e seguir as minhas sugestões. A esta ouvinte inesperada e desconhecida dediquei a visita que mais lamento não ter conseguido fazer. Uma parte da minha história - que nos ultimos dois anos passou pelo estudo da figura de José Relvas, pela Casa dos Patudos e por Alpiarça - ficou ali.
O Eng.º João Miguel Azevedo Santos é um colega mais novo dos bancos do Colégio onde fizemos o liceu. Redige uma newsletter com informação sobre eventos culturais (pode ser lida aqui às sextas à noite ou sábados de manhã ou solicitada por mail). Pôs a circular a visita de ontem e recebeu as inscrições. Entre elas, a de outros quatro ex-alunos do colégio. E entre estes últimos, a de Manuela Gama Vieira, assídua comentadora deste blog, que veio da Sertã com a sua exuberante simpatia e um saco de preciosos livros patrocinados pela Câmara Municipal onde trabalha (uma nota de sua autoria sobre a visita à exposição pode ser lida no blog dos antigos alunos).
Em Óbidos, onde cheguei com meia hora de atraso, era inaugurada uma exposição intitulada Bordalo Contemporâneo e contemporâneos com Bordalo, comissariada por Ana Calçada e Elsa Rebelo. Grandes peças de Rafel Bordalo Pinheiro foram produzidas expressamente para esta exposição e são mostradas na galeria Nova Ogiva com uma montagem despojada, que recorre aos próprios suportes utilizados na fábrica, mas muito eficaz. No catálogo, há textos de Ana Calçada, Elsa Rebelo, Isabel Xavier, Isabel Castanheira, Rodrigo de Freitas, e "Joaquim B. Serra". Convidado a falar, remeti os ouvintes para o meu texto no catálogo e tentei homenagear a persistência dos homens.
Chegámos aqui porque houve indústria, que sobreviveu, com empresários que fizeram invstimentos em instalações e trabalho, e porque houve muito trabalho especializado, tecnicamente habilitado. Chegámos aqui porque diversas gerações se esforçaram por começar de novo. A Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha sossobrou após a morte de Rafael Bordalo Pinheiro, mas o filho Manuel Gustavo recuperou modelos e criou uma nova empresa, já lá vão cem anos. Por sua vez, esta também estava em dificuldades nos anos 1920, quando um grupo de investidores caldense se apresentou para a adquirir. Todos estes homens juntaram à suas capacidades de financiamento uma visão, um misto de sonho e de prospectiva. Se não tivesse havido empresários e trabalhadores, o que teria chegado até nós era apenas o que os museus tivessem conseguido preservar. Bordalo Pinheiro não era um grande gestor, segundo se diz, mas um artista. E sem artistas a cerâmica não teria incorporado a inovação que lhe trouxe prestígio, reconhecimento e longevidade. Também aqui houve visão, neste caso uma visão alimentada pela imaginação e pelo talento.
 Ao longo deste dia irrepetível, emocionante, viajei entre Grandella, Relvas e Bordalo, homens de poderosa visão que ajudaram a fazer o Portugal do século XX.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Bordalo em Óbidos

Passagem por Óbidos, onde Ana Calçada está a desenvolver um programa de exposições com diversas passagens pela cerâmica. Há um mês, Eduardo Constantino. No final de Novembro, Bordalo Pinheiro, a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Oportunidade também para alguns artistas contemporâneos apresentarem propostas em confronto com o imaginario cerâmico bordaliano. Tudo isto num momento em que passam exactamente 100 anos sobre o início de laboração da Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, fundada por Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro e Elvira Bordalo Pinheiro em 1908.

Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro retratado por seu tio, Columbano.