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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O cálculo eleitoral

Pedro Magalhães vem, no Público, de hoje, reintroduzir o tema da governabilidade num cenário de vitória do PS sem maioria absoluta. De facto o PS perdeu a maioria absoluta em intenções de voto no auge do embate das suas políticas reformistas com as corporações e não a recuperou. A sua erosão eleitoral à esquerda criou um espaço onde se instalou Manuel Alegre.
O Congresso do CDS/PP trouxe o debate político para o terreno dos cenários governativos. Portas ofereceu-se para viabilizar um governo minoritário do PS, pretendendo com isso prevenir uma inclinação do Governo socialista para a sua esquerda. A hipótese que o CSD/PP queria desta forma evitar é precisamente aquela que Manuel Alegre quer garantir.
Mas sejamos realistas. O cenário mais pesado que estará em cima da mesa no caso de uma vitória do PS sem maioria absoluta não é o da aliança à direita ou à esquerda, é o da aliança ao centro. É para aí que a crise económica apontará, as medidas drásticas que então se imporão e que exigem um governo com ampla maioria. É para aí, para o bloco central, que o Presidente, feitas as contas, se inclinará também. Não é isso que significa a escolha de Manuela Ferreira Leite para a liderança do PSD?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A implosão...

... do sistema financeiro da globalização continua. Fracasso da regulação? Não, os Estados há muito que dela se tinham retirado. Fracasso da auto-regulação.

Sobre o escândalo Madoff, escreve o editorialista do Le Monde, hoje:
Os franceses BNP Paribas e Natixis, o espanhol Santander, o japonês Nomura, o suiço Union bancaire privé... Em todos os continentes, os banqueiros mais reputados deixaram-se ludibriar durante anos, décadas talvez, por alguém que é já tido como um dos maiores escroques de sempre de Wall Street: Bernard Madoff, gestor de um fundo de investimento que reconheceu ter feito perder aos seus clientes a ninharia de 50 mil milhões de dólares.
Se a crise do subprime tinha evidenciado o risco dos produtos financeiros demasiado sofisticados, o caso Madoff daria vontade de rir, se não colocasse em perigo as economias de inúmeras poupanças, longe de serem todas de milionários. Assenta num mecanismo de uma simplicidade infantil: a remuneração dos investidores mais antigos não é feita através dos lucros obtidos com as suas aplicações, mas com o dinheiro entregue pelos investidores mais recentes, atraídos pela promessa de ganhos miríficos. Enquanto os investidores iniciais não tentarem recuperar os seus depósitos, tudo vai bem. Mas quando eles se retirarem do jogo, a pirâmide cai por terra.
Que um homem de negócios abuse da confiança que inspirou não é novo. Que grandes nomes da finança mundial se comportem como simples particulares colombianos, vítimas nas últimas semanas de um cenário equiparável, é nitidamente mais inquietante. Prova que colocaram dinheiro dos seus clientes sem qualquer preocupação sobre o modo como os ganhos eram obtidos.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Quem paga a crise?

O sinal que veio da Aula Magna e de Manuel Alegre terá mais efeito mediático, mas é um erro tentar circunscrevê-lo àquele forum e a este protagonista. O diagnóstico da crise feito para Comissão Europeia e pelos governos europeus só aparentemente é consensual. Como escreveu ontem Manuel Maria Carrilho, baseia-se num conjunto de dogmas que a globalização consagrou que podem vir a tornar-se fortemente questionados. Por enquanto, a divergência parece ter sido assumida apenas por alguns cientistas sociais, mas não é crível que não se amplie e mobilize mais profundamente o sector intelectual. É por outro lado evidente que o caminho escolhido pelo establishment, de abertura do sector público aos privados e de garantia pública à finança privada, terá um impacte porventura insuportável sobre o futuro. A dívida que garante a dívida que garante a dívida é um mecanismo corrosivo, não apenas do salário e da produção, mas da ética em que assentámos a legitimidade do Estado e fundámos a democracia. Em suma: a agenda política mediática pode entrar em colisão com uma agenda política cidadã. Provavelmente o eco das palavras de Manuel Alegre é um sintoma disso mesmo. Malgré lui.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Efeitos sociais da crise

Com a imprensa portuguesa distraída com o caso BPN, transcrevo parte do texto publicado na edição de hoje do Le Monde:
Num contexto económico super pesado, agravado pela chegada dos primeiros frios, as associações de luta contra  a pobreza afirmam que começam a observar, no terreno, os primeiros efeitos da crise. O Socorro católico publicou, no dia 13, o seu relatório anual, intitulado este ano Famílias, infância e pobrezas. A associação, que ajudou 1,4 milhões de pessoas em 2007, põe em destaque a parte cada vez mais significativa de pessoas com mais de 50 anos nos centros de acolhimento. "Muitas famílias em situação de precariedade vêm procurar alimento e vestuário nos nossos centros para poderem pagar a renda de casa", refere um funcionário da instituição. A nota redigida pela Cruz Vermelha francesa não é muito diferente: "A situação continua a degradar-se. Os pobres estão cada vez mais pobres e outras camadas da população estão a ficar mais frágeis", explica Didier Pillard, director da acção social. "Há novos públicos a apresentarem-se, desde o princípio do ano, nos nossos 650 pontos de distribuição alimentar e nas nossas lojas alimentares especiais; os reformados são em número cada vez maior; mas também trabalhadores pobres a tempo completo, funcionários municipais e estudantes". A rádio local de Toulouse constatou uma subida de 100% da população que acorre à lojas alimentares especiais. Em Redon (Ille-et-Vilaine) aumentou 26% num mês. Sensíveis à crescente impotência das populações com que lidam, quatorze grandes associações de luta contra a pobreza, membros da rede Uniopss, tencionam tocar o sinal de alarme, a 28 de Novembro, junto dos poderes e da opinião pública.