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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

À janela de Taraio (4)

Uma entrevista que a Gazeta das Caldas fez com Taraio há cerca de um mês. Fica aqui arquivada, disponível para leitura, bastando clicar na imagem.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

À janela de Taraio (3)

Aqui se recorda Manuel Taraio, o amigo, o pintor, o homem. Mais depoimentos e memórias sobre Taraio enviados para este blog. 


Olá, provavelmente lembra-se de mim... Chamo-me Ana Sofia Almeida, tenho 15 anos e tive, infelizmente conhecimento da terrível notícia que abala a família de Manuel Taraio, neste momento e para sempre.Sei o que estão a sentir, pois já senti o mesmo, e sei que nada do que os outros façam ou digam nos pode fazer sentir melhor. Porém espero com a minha experiência poder ajudar-vos a lidar com o sofrimento que é perder alguém que amamos.Deixo, para finalizar uma mensagem de apoio e de esperança de que melhores dias virão...
Ana Sofia Almeida
*
Olá, deverão estar a perguntar-se quem sou e porque escrevi este pequeno comentário. Não o faço por um bom motivo por isso desejava nunca o fazer, mas assim não foi possivel, infelizmente.Sou uma jovem de 15 anos, chamada Filipa, que teve o enorme prazer de conhecer Manuel Taraio, bom homem, bom pai, bom marido, bom pintor.
Conheci-o no condominio da quinta da rosa, onde ele habitava, era vizinha dele.Não falámos muito, mas deu para perceber que tinha prazer na vida que levava e que fazia o que gostava.
Em relação à familia, só posso dar os meus pêsames, e mostrar-me ao dispor para prestar qualquer ajuda que seja necessária.
Também já passei pela morte de um familiar, mas de forma mais leve porque era mais nova, mas sei o quanto custa a perda de alguém.
Irei sempre relembrar Taraio como um homem muito bem disposto e simpático.
Para a familia lembro que ele estará sempre a olhar por vocês e que gostaria de vos ver alegres, pois assim também ele o era.
Cumprimentos,
Filipa (vizinha de Manuel Taraio).
*
Privei com o Taraio (para nós, Luís) algumas vezes, sei-o hoje que foram insuficientes. Sabemo-lo sempre tarde demais.
O Luís foi sempre um homem íntegro, de família, amante dos espaços abertos, dos amanheceres e entardeceres, da luz especial que cada dia vai depositando na nossa vida.
Tinha um sentido estético superior e transportava-o de forma magistral para os quadros que pintava.
O Luís foi sempre (na vida, na família e nos quadros) a serenidade.
O mundo perde um excelente pintor, nós perdemos um amigo apaixonado pela luz e pelos outros.
Permanecer no coração de quem fica, não é morrer.
Até logo,
Luís!
*
Taraio ocupou durante 2 anos, a carteira imediatamente atrás da minha, na turma F do Liceu D. João III, em Coimbra.
Para além de grande jogador de andebol da Académica, já tinha bem vincado o seu futuro profissional. 
Queria ser pintor!
Aliás, já o era.
Deliciava-me vê-lo a desenhar durante aquelas aulas mais "chatas".
Adeus, Querido Colega de Turma
Carlos Rodrigues de Carvalho

*
Tive o prazer de conhecer e privar com o Sr. Manuel Taraio em duas das Exposições que fez na Audiomania. Era um senhor muito simpático, nada parecido com a imagem que geralmente temos de um artista.
Nunca pude infelizmente comprar nenhum dos seus quadros mas não os apreciava e admirava menos por isso. Era um grande pintor, como o João Jales diz, e não digo isto por vivermos ambos nas Caldas. 
Não sei falar da sua morte como o João Jales, não tenho aquele dom da escrita, mas achei que devia escrever a tristeza que sinto e apresentar os meus pêsames à Família.
Pedro Simões

*
Não conhecia pessoalmente Taraio. Tenho no entanto visto trabalhos seus, em casa de amigos, e vi a exposição que levou este ano à galeria do Casino Estoril. É um bom pintor, numa fase  de maturidade, propícia a novas "aventuras". Houve aqui uma mão cruel do destino. Mas há uma obra, um legado valioso.
MT
*
5 de Dezembro
O dia tornou-se mais pesado e triste quando olhei o quadro, assinado TARAIO, e datado de 1994. 
Já lá estava a saudade. O adeus. O irremediável.
Conhecemo-lo desde que ele chegou às Caldas, através do Carlos Mota, na altura, dono de uma galeria no Terreiro das Gralhas. Passámos a contactar muito directamente com os seus trabalhos e aprendemos a apreciá-los. Encontrávamo-nos com frequência, à volta de agradáveis conversas e petiscos. Um dos convivas, o Nuno, desapareceu para sempre e os encontros rarearam. As notícias do Taraio vinham de fortuitos encontros e da Mizá.
Um dia, em Atenas, entrei num café da Plaka, onde encontrei vários quadros dele. Espanto, surpresa e contentamento. Dirigi-me ao patrão… para falar dele, o autor dos seus quadros, e para saber mais. Que não, disse-me ele, estes são de um pintor grego chamado Cristo. Mas não desisti. Fotografei-os e trouxe-os comigo, em slides que entreguei à Guidó, fiel depositária de elementos que pudessem contribuir para a biografia de Taraio. Guardo-os na memória e não os distingo facilmente dos dele. Ambos falámos sobre este fenómeno da criação que parece mostrar que tudo está inventado.
E os encontros espaçavam-se, mas lembro muito bem do último, aqui em casa, à volta de bibliografia que pudesse ajudar a investigar os temas que estava a preparar para a exposição no Estoril. Vimos traje português e joalharia em filigrana, com motivos portugueses. Falámos também da ausência do Nuno, e da morte. Mal eu poderia imaginar que o dia de hoje fica para sempre associado ao desaparecimento de ambos. 
Olho para o teu corpo, Taraio, e interrogo-me se ainda estás aqui ou lá, dando-lhe notícias…E assim, o dia tornou-se ainda mais pesado e triste.
Teresa Perdigão
*
Olá João
Só agora ouvi da São que o teu amigo Taraio faleceu e quero dizer-te o quanto lamento! 
Que difícil seguir na vida quando sabemos que um amigo já não vai continuar a estar presente fisicamente...
E quanto dói perdermos tão definitivamente uma pessoa que nos é querida.
É este definitivo, tão radical, que acho imensamente doloroso.
Fiquei impressionada quando, graças a ti, tive a oportunidade de ver quadros dele...tão impressionada que falei deles à São
Eram tão macios e tão movimentados...as cores e a textura duma macieza invulgar.
Lindíssimos todos eles!

Acredito em vida depois da morte! 
Acredito também que o Taraio vai continuar a acompanhar quem lhe era querido e agora mais livre e sem o sofrimento físico que a doença inflige.
Gostaria de poder suavizar o teu sofrimento mas também sei que só o tempo tem esse condão.
Assim resta-me desejar que em cada dia que passe a tua tristeza, vá sendo substituída por imagens alegres, vivas e felizes das vivências que partilharam.
Sê forte.
Um beijinho querido
Isabel Caixinha


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

À janela de Taraio (2)


Comentários a "À janela de Taraio (1)"

João Jales:
Os artistas são imorredoiros!
Quer melhor recordação do que ficar com um bocado da alma de Taraio, ao VÊ-LO nos quadros que ele pintava "como se lhe arrancasse um pedaço cada vez que pintava"?
Tenho a certeza que sabe o que significará para si o seu AMIGO, mesmo morto (?)
Manuela Gama Vieira
*
Sei que a morte, que é tudo, não é nada.
E que, de morte em morte, a alma que há
Não cai num poço: vai por uma estrada.
Em Sua hora e a nossa. Deus dirá."
- Fernando Pessoa -

É o que tenho para dizer neste momento.
Isabel Xavier
*
Tive o prazer de conhecer o Taraio através do João Jales.Como eu compreendo e sinto a dor do JJ, por esta dolorosa partida.
Relembrarei a sua côr, opaca e virtuosa, de quem irradia vida e mais vida...
Abraço solidário para o João Jales e demais amigos e familiares.
NB
*
A João Jales (na morte de um amigo):
Na morte de um amigo sinto que estou presente, como que querendo perpetuar a amizade até à eternidade.
Mas o acaso traz nos amigos.  Aquando da morte do Luiz Pacheco, eu e o João Serra estávamos presentes para prestar homenagem a um amigo comum ,e não nos conhecíamos. Foi aí que começou uma nova amizade, a do João Serra. Por ele tive conhecimento do Blog dos ex alunos do ERO e de ti. 
Nada alterou a minha recordação do Luiz Pacheco e com gratidão digo para mim, “obrigado Luiz” (deste-me mais amigos).
Um abraço amigo do
João Ramos Franco
*
Lembro-o como uma pessoa bem disposta, conversadora, simpática, preocupado com o que o rodeava. Tivemos algumas conversas descontraidas (era um bom conversador). Gosto imenso das suas obras e tive a oportunidade de lho dizer pessoalmente. Lembro-me das manhãs em que vinha até ao seu jardim ver o dia nascer, dizer bom dia ... mesmo durante a sua doença, a última frase que me disse pouco após a última ida para o hospital foi "lutamos um dia de cada vez" e era verdade. Acho que Manuel Taraio nunca perdeu a vontade de lutar apesar dessa luta ter sido sempre desigual...
Um até sempre.
Ana Paula Almeida (conhecida de Manuel Taraio e familia - vizinha do Lado na Quinta da Rosa, vivenda 5, onde actualmente residia).
*
Olá! Eventualmente não sabe quem sou. Chamo-me João e tenho 14 anos.
Era vizinho de Manuel Taraio e da sua família. Soube desta trágica notícia, o falecimento de Manuel Taraio.
Taraio era sem dúvida uma pessoa que eu admirava bastante. Para mim, ele tinha um dom. Um dom muito especial. Ele pintava quadros simplesmente lindos e com muita da sua personalidade. Isso em mim cativou-me imenso, pois para mim, Manuel Taraio era um ídolo. Eu sempre adorei desenho e até pensei que ele me pudesse dar umas dicas e/ou que até pudessemos grandes amigos.
Para além de ele ser um grande amigo e bom vizinho, Taraio era uma pessoa que sempre me pareceu calma, alegre e bem disposta. Gostava muito da natureza, e da sua belíssima família. Às vezes os meus pais e o resto dos vizinhos, juntavam-se com ele e todos falavam de tudo um pouco. Esse momento parecia magia.
Com duas filhas lindas e com uma mulher espectacular, tinha tudo para ser feliz...
Nós, não nos falamos muito, só a típica conversa de vizinho, mas não mais do que isso.
Cheguei a ir a casa dele, onde permaneciam expostos os seus magníficos quadros, todos com um bocadinho de si.
Tenho agora uma dor no coração, ao saber que Taraio, deixa em Terra duas filhas e uma mulher sozinhas e com muito sofrimento irreparável.
Não tenho mais nada a dizer sobre este acontecimento triste e desolador.
Só me resta dar os pêsamos à sua família e dizer-lhes que tenham força para superar este acontecimento. Eu sei que não é fácil, pois eu também já passei por isso, mas com outra pessoa, de outro grau de parentesco e foi horrível e a pior coisa que me aconteceu em toda a minha curta vida. Ainda hoje penso no meu avô todos os dias, e quando ganho alguma coisa dedico-a a ele.
E agora, para se alguma vez a família de Manuel Taraio ler este comentário, pensem no como que é que ele gostaria de vos ver. E não se esqueçam que ELE ESTARÁ A OLHAR SEMPRE POR VÓS.
Ass: João Carlos Almeida (5)
*
Vizinhos, dentro de uma Igreja, ele a pintar e eu no Património Histórico. Começou aí uma enorme amizade. Desse tempo guardo todo o processo criativo de um pintor. O que eu aprendi com ele. E conversávamos muito, e ao fim da tarde chegava o João Lourenço que também opinava sobre o trabalho do dia. Depois de tanto lhe organizar os portofolios, conhecia-lhe os quadros quase que de cor. Fecho os olhos e vejo, pessoas, danças, muita música, desde a mais popular, à última exposição nas Caldas (Audiomanias) sobre Jazz; vejo caixas, como um lugar cénico, vejo janelas, como uma abertura de luz para o outro mundo, mais além; e árvores, muitas ou uma só, pinheiros creio, muito simples, delicados; vejo também muitos brinquedos infantis, ursos, soldadinhos de chumbo e uma menina de tranças ou de franjinhas, de quem tanto gostava; vejo outra também pintada com o coração. 
Lembro de amigo comum que me disse:
tens que conhecer um pintor que tem uma cores e uma luz...
Fica aqui um uma dor espaçada no meu coração. Uma saudade...

Margarida Araújo
*
João
Não tive o privilégio de conhecer o M Taraio, mas através das suas palavras amigas fiquei a conhecê-lo um pouco. 
Lamento muito.
Sei o que está a sofrer. Há relativamnte pouco tempo passei pelo mesmo: o meu marido, também partiu sem me avisar. É a dor que dói mais, não há outra que se lhe compare.
A saudade e as boas recordações perduram para sempre, o tempo encarregua-se de amenizar a perda, sempre o disse o nosso povo e é verdade. 
Acreditemos que eles estão ali, apenas do outro lado do caminho, à nossa espera.
Os meus pesamos a todos quanto o amavam de verdade,
Um beijo,
m rodrigues

*
Que sorte a de João Taraio, ter conhecido este menino de 14 anos, chamado João! Tão menino, e já tão "grande".
A este João, um beijo especial!

Manuela Gama Vieira
*
Conhecia o Taraio.
Conversávamos por vezes.
Sentidas condolências à família e aos amigos.
Paulo Prudêncio

À janela de Taraio (1)

Conheci-o em 1994, quando a associação "Património Histórico" das Caldas da Rainha lhe cedeu a Capela de S. Sebastião para organizar uma exposição de pintura. Nessa altura, ele trabalhava nos seus óleos as formas arredondadas (que sempre o atraíram) e os verdes, azuis e cinzas levemente esbatidos. Percebemos todos que estávamos perante um pintor de excelentes recursos, adquiridos em escola, pesquisa e experimentação. 
Taraio nasceu em 1956, em Coimbra, onde recebeu as primeiras lições de pintura, no atelier de Vasco Berardo. Aos 19 anos partiu para França, onde frequentou a Escola de Belas Artes de Bordéus e a Escola Nacional de Artes Decorativas de Nice. Obteve nesta última o diploma de Arquitecto Paisagista. Fixou residência nas Caldas da Rainha na década de 90.
Está representado em diversas colecções particulares em Portugal e no Estrangeiro, na colecção permanente do Museu de Arte Contemporânea de Nice. Nas Caldas da Rainha, há obras suas na colecção do Património Histórico e na do Centro Hospitalar. Expôs individualmente em Coimbra, Nice (França), Sauve (França), Porto, Lisboa, Leiria, Caldas da Rainha, Vila Franca de Xira, Aveiro, Santa Cruz (Madeira). Esteve presente em inúmeras exposições colectivas, bienais e mostras de pintura em Portugal e em França.
Estivemos juntos celebrando o aniversário de João Jales a 27 de Junho. Nessa altura pude ver um excelente conjunto de quadros dedicados ao jazz, trabalhos onde sublinhava a dimensão do instrumentista com cores quentes e dourados. 

O João Jales enviou-me este testemunho. Dispensa, evidentemente, qualquer comentário da minha parte.

O melhor pintor do mundo


Soube hoje que morreu o meu amigo Manuel Taraio. Há algum tempo que esperava a notícia que, pensava eu, seria o anúncio da sua libertação de um processo doloroso, de uma luta sem hipóteses e de um sofrimento sem motivo ou esperança. Mas o Manel vivo era um amigo, morto não sei o que é. E sofro, de forma egoísta, pela sua ausência. 

Há uma semana, numa cama do Hospital das Caldas, sabendo de ligeira maleita que me aflige (coisas da idade.) ralava-se ele comigo e repetia, enfático e preocupado, uma série de conselhos para que eu me cuidasse. Tinha meia-dúzia de dias para viver e estava preocupado com o meu colesterol. Só ele.

Conhecemo-nos através de uma amizade e admiração comum pelo João Lourenço. Aproximámo-nos mais e acabámos por tentar encontrar um no outro o amigo perdido, quando o Joni morreu em 1996. Tentativa só parcialmente bem sucedida, porque há realmente pessoas insubstituíveis. E aqui estou eu, agora sozinho, a falar deles dois, levados cruel e ironicamente pela mesma doença. 

Os quadros do Taraio têm todos um bocado da sua alma, como se lhe arrancasse um pedaço cada vez que pintava. Era um artista sofredor, torturado pelo receio da falta de inspiração e imaginação, sempre insatisfeito com as suas obras. Sem razão, diziam-lhe os amigos, mas ele duvidava sempre.

Lembro sobretudo os nossos almoços, as eternas discussões sobre tudo e nada, futebol e política, amizades e ódios, falávamos do seu fascínio pelo futuro e a sua ânsia pela inovação tecnológica, como se adivinhasse que não ia ver tudo o que seria natural ver e conhecer. Mas não é possível falar agora da nossa amizade. Não hoje.

Já doente, ainda pensava na próxima série de quadros. Procurava incessantemente novas imagens, ideias e fantasmas. Acreditou até ao fim que só morreria depois de amanhã, porque amanhã ainda ia pintar mais um quadro.

Era o melhor pintor do Mundo. Para mim, claro.

João Jales