Antínoo responde-lhe:
Pois fica sabendo que não são os pretendentes os culpados,
mas a tua querida mãe, sobremaneira astuciosa!
Na verdade já vamos no terceiro ano - em breve virá o quarto -
em que ela engana os corações dos Aqueus.
A todos dá esperança e a cada homem manda recados,
mas o seu espírito está voltado para outras coisas.
Também este engano congeminou em seu coração:
colocando um grande tear nos seus aposentos -
amplo, mas de teia fina - foi isto que nos veio declarar:
"Jovens pretendentes! Visto que morreu o divino Ulisses,
tende paciência (embora me cobiçais como esposa) até terminar
esta veste - pois não queria ter fiado a lã em vão -
uma mortalha para o herói de Laertes, para quando o atinja
o destino deletério da morte irreversível,
para que entre o povo nenhuma mulher me lance a censura
de que jaz sem mortalha quem tantos haveres granjeou."
Assim falou e os nossos corações orgulhosos consentiram.
Daí por diante trabalhava de dia ao grande tear,
mas desfazia a trama de noite à luz das tochas.
Deste modo durante três anos enganou os Aqueus.
Mas quando sobreveio o quarto, volvidas as estações,
uma das mulheres, que estava por dentro, contou-nos o sucedido,
e encontrámo-la a desfazer a trama maravilhosa.
De maneira que a terminou, obrigada, contra sua vontade.
Homero, Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa, Livros Cotovia, 2003. p. 40-41
