Levantava a tábua do balcão e entrava
com visível respeito, pelo menos tão sentido
como se fôra na igreja nova. O cheiro das tintas
e o ruído ritmado da impressora. À força de pedais
as folhas saíam, o rolo subia e logo descia
sobre o prato circular e caíam os prospectos das
festas e dos filmes. A um canto, o senhor Humberto
compunha maiúscula e minúscula, letras são
letras e impressas guardam para nós a escrita
e ouvia o Leonel (dos irmãos já só me lembro do
Cândido) louvar a habilidade requerida para a
punção, a feitura da matriz e a moldagem do tipo
e o Jorge de Almeida estendia em redor do desenho
a ponta do lápis da sua arte
sulco agudo numa camada fina de cera
deposta numa cama de metal. E a cera removia
para deixar uma letra em relevo. A Atalanta, vestido
de seda preto acentuava o vermelho dos lábios, dava-
-me farrapos de papel guilhotinados. E o &
a letra preferida desses cartazes, guardava todos os
anos pela feira de agosto, os do circo: palhaços,
trapezistas, pouco mais; a mulher do barril tinha
um certo efeito sobre o tacto do olhar. O velho Evaristo
era o dono (eu era então muito pequeno)
quando me deu a caixa com os casulos do bicho da
seda, e levou-me à estrada do cemitério para me mostrar
a tenra folha da amoreira. Era outra a folha irregular do
livro para que possa ser aparada e escrita,
erradamente à mão.
As máquinas paravam num repente de silêncio
quando a folha de tamanho reduzido mostrava o desejo
de prender a atenção, letra negra quanto possível, a
barra, a cruz, distância travada de pez
anunciava à vila o lance áspero da morte. Passo muitas
vezes à porta da Tipografia Judícibus
já não há prensa nem folhetos nem o cartão de
visita a imprimir (quis um gótico, semelhante aos rótulos que
meu pai desenhava nos frascos da
farmácia, somente o subiaco, por sinal bem bonito,
consegui) nem ninguém
daqueles que me ajudaram a perceber
um livro é uma coisa para se ler & foi por aí que comecei.
João Miguel Fernandes Jorge, Termo de Óbidos. Lisboa, Relógio d'Água, 2006.
