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sábado, 27 de setembro de 2008

A parede vazia e o gorro de pele (II)

O episódio narrado por Kundera na introdução ao conto "Cartas Perdidas" pode ser lido como uma metáfora do património. Não é original este entendimento. Costumo abrir com ele os trabalhos lectivos na cadeira de "Património Cultural".
De facto, o gorro é o elemento de continuidade do passado, o vestígio que sobreviveu à destruição perpetrada neste caso pelos homens (há testemunhos que desaparecem, por acção do tempo ou da natureza). O vestígio chegou até nós, mas não fala por si. Sem a leitura, a crítica de contexto, a descodificação, atribuição de significado, em suma a interpretação, realizadas com recurso à história e às ciências do património, permaneceria mudo e indecifrado.