A ele deu resposta a excelsa Hera, congeminando um dolo:
"Crónida terribilíssimo, que palavra foste tu dizer!
Se o que tu queres é agora deitar-te em amor
nos píncaros do Ida, isso estaria à vista de todos!
Como seria de um dos deuses que são para sempre
nos visse a dormir e depois fosse contar a todos os deuses?
Pela minha parte já não poderia regressar à tua casa,
depois de me levantar do leito, pois isso seria uma vergonha.
Mas se é essa a tua vontade e se é agradável ao teu coração,
tens um tálamo, que te construiu o teu próprio filho,
Hefesto, tendo ajustado às ombreiras portas robustas.
Vamos então deitar-nos lá, visto que o leito é o teu desejo."
A ela deu resposta Zeus que comanda as nuvens:
"Hera, não receies que algum deus ou homem
observe o acto, tal é a nuvem dourada com que
te esconderei. Nem o próprio Sol nos descortinaria,
embora nenhuma luz veja mais agudamente que a dele."
Falou; e nos seus braços tomou a esposa o filho de Crono.
Debaixo deles a terra divina fez crescer relva fresca,
a flor de lótus orvalhada e açafrão a jacintos macios
em profusão, que os mantiveram acima do solo.
Foi neste leito que se deitaram, ocultando-se numa nuvem
bela e dourada, a qual destilava gotas reluzentes.
Deste modo adormeceu tranquilo o Pai no píncaro de Gárgaro,
subjugado pelo sono e pelo amor, com a esposa nos braços.
Porém o Sono suave correu até às naus dos Aqueus
para dar a notícia aos deus que segura e sacode a terra.
Postando-se junto dele proferiu palavras apetrechadas de asas:
"Com afinco agora aos Dânaos, ó Posídon, presta auxílio!
Outorga-lhes a glória, exígua embora seja a sua duração,
enquanto dorme Zeus, já que o cobri com o sono macio:
pois Hera o seduziu para com ele se deitar em amor".
Homero, Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa, 291-292.Edições Cotovia, 2005. p.
