- Porque sou assim louco? - o velho sentou-se e começou a comer devagar, tirando uma ervilha de cada vez do prato que lhe tinha sido de novo colocado na frente. - Sim, eu sou louco. Como começou esta minha loucura? Aqui há muito anos, pus-me a observar as ruínas do mundo, as ditaduras, os estados e as nações depedaçados, e disse comigo: que posso eu fazer? Eu, um homem velho e fraco? Reconstruir toda esta devastação? Iso sim! Mas uma noite em que me encontrava meio a dormir, senti tocar dentro da cabeça um velho disco de gramofone. Duas irmãs chamadas Duncan costumavam cantar, quando eu era pequeno, uma canção chamada "Recordar". "Nada mais posso fazer do que recordar, querido. Por isso, recorda tu também!" Cantei essa canção e deixou de ser uma canção para se transfomar numa norma de vida. Que tinha eu para oferecer a um mundo que estava a esquecer tudo? A minha memória! De que podia isto servir-lhe? Fornecendo-lhe um termo de comparação, mostrando aos jovens como tudo era dantes, fazendo-os apreender tudo o que tínhamos perdido. Descobri que quanto mais recordava, mais conseguia recordar! Consoante as pessoas junto de quem me encontrava, lembrava-me de flores artificiais, telefones de marcador automático, frigoríficos, pífaros (o senhor já alguma vez tocou pífaro?), dedais, molas de bicicleta (refiro-me a molas para prender as calças dos ciclistas). Não é estranho tudo isto? Coberturas de sofás... Sabe o que é? Um dia um homem perguntou-me se eu me lembrava como era o tablier de um Cadillac. Eu lembrava-me e descrevi-lho com todos os pormenores. Ele ouviu e começaram a escorrer-lhe grossas lágrimas pela cara abaixo. Lágrimas de tristeza ou de alegria? Não sei dizer. Só sei recordar. Não conheço a literatura. Não, nunca tive cabeça para peças de teatro ou para poemas; passam-me de ideia, morrem. O que eu sou é um monte de restos de uma civilização que desapareceu num abismo.Ray Bradbury, O Abismo de Chicago. Lisboa, Livros do Brasil, 1963 [1ª edição, em 1949]