Na altura, Soares chefiava o IX Governo Constitucional, uma coligação PS-PSD, formado a 9 de Junho de 1983. As tensões com a Igreja podem ser assinaladas em Outubro desse ano, quando D. António Ribeiro fala de “corrupção moral” a propósito dos projectos de legislação sobre o aborto e os campos de nudismo. De facto o Partido Socialista decidira no seu Congresso realizado a 2 de Outubro, contra a vontade de Mário Soares, apresentar uma iniciativa legislativa sobre o aborto. A 6 de Janeiro de 1984, uma pastoral dos bispos classificava tal legislação, a ser posta em vigor, de “iníqua”. A 22, o Cardeal de Lisboa apelou mesmo a uma sanção eleitoral aos partidos que a votassem.
Foi neste ambiente que o Parlamento votou, a 27 de Janeiro, a despenalização do aborto, com os votos favoráveis do PS, PCP, MDP, UEDS, ASDI, Verdes e um deputado do PSD, e contra do PSD, CDS e um deputado do PS. A coligação do governo tremeu. Mota Pinto, líder do PSD e n.º 2 do Governo, afirmou que o PS “não respeitou o espírito da coligação”.
O Presidente, Ramalho Eanes, enviou a lei para Tribunal Constitucional a 27 de Fevereiro. Foi esta aberta que Mário Soares aproveitou para o contra-ataque. Telefonou ao Cardeal Casaroli, que conhecera em 1974, por sugestão de Willy Brandt, no contexto da descolonização, e solicitou-lhe uma audiência com o Papa, João Paulo II. Esta efectivou-se a 4 de Março, permitindo a Mário Soares declarar à saída da audiência que “as relações entre Portugal e a Santa Sé são excelentes”. Baldada fora a tentativa de D. António Ribeiro e do Bispo de Aveiro que tinham partido para Roma dias antes a tentar anular a audiência.
Refira-se que o Tribunal Constitucional deu parecer favorável a 15 de Março e a Lei foi promulgada.
Tempos depois, foi a vez de Casaroli combinar com Soares uma vinda a Portugal, ocasião para um jantar em S. Bento. Deve tratar-se de uma visita efectuada em Março de 1985, registada num documento da Sé de Braga, onde o Cardeal esteve a 23.
Casaroli recomendou a Soares que não deixasse de convidar D. António Ribeiro. As relações entre ambos tinham esfriado totalmente desde o ano anterior. Soares duvidou mesmo que ele comparecesse, mas Casaroli retorquiu: "Deixe isso comigo".
No final do jantar, Casaroli dirigiu-se com o Cardeal de Lisboa, que evidentemente aceitara o convite, junto do Primeiro Ministro, pegou nas mãos de ambos, colocou a do primeiro sobre a do segundo e sentenciou: "Estão feitas as pazes".
