terça-feira, 20 de novembro de 2012
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Tesouro
Manuel António Pina era membro do Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães desde Outubro de 2011. Não foi necessário esgrimir argumentos em favor da proposta. Mais difícil de explicar seria o da omissão anterior.
O valor do intelectual que aliou a independência crítica a um fino discurso analítico da realidade portuguesa e do escritor para quem a plasticidade da língua não conhecia limites justificava a sua presença num organismo que incluía já a figura tutelar de Eduardo Lourenço. Acresce que o consabido fascínio de Manuel António Pina pelo cinema o trouxera até ao convívio amigo e noctívago dos dirigentes do cine-clube vimaranense. Era estimado na cidade.
O Manuel António Pina, a quem me dirigi com a solicitação de inclusão pro bono na Capital Europeia da Cultura, era um homem afável, que nem por um momento pôs em dúvida a pertinência do projecto a que se iria ligar. Sorriu-me com aquela expressão de inocência com que nos brindava de lábios apertados à sombra do bigode. Esse sorriso era o sinal da cumplicidade que tão bem sabia reconhecer e cultivar. Também a designou por amizade, "uma espécie de tesouro escondido onde só se alcança depois de ter vencido longamente caminhos e tempestades".
João Serra, Presidente da Fundação Cidade de Guimarães
[Publicado no Jornal de Notícias de ontem]
sábado, 17 de novembro de 2012
Registo. Fernando Távora
Esta exposição sobre a vida e obra
do arquitecto Fernando Távora assinala um momento de grande importância da
programação de Guimarães 2012.
Esse particular significado prende-se,
em primeiro lugar, com a posição cimeira que Távora preenche na história da arquitectura
portuguesa e na história do ensino da arquitectura. Tanto numa como na outra, a
sua acção representou uma mudança, criando novos paradigmas e estimulando novos
caminhos. Precursor e mestre,
inspirador e protagonista, o seu impulso criador deixou marcas nas cidades e
deu oportunidade a discípulos. Por ele passou, homem de visão e de cultura
invulgares, também a descoberta do fio que levaria a arquitectura portuguesa a
projectar-se, como se projectou, no exterior.
Guimarães 2012 não poderia passar
ao lado deste figura eminente e prestar-lhe a homenagem devida. Para isso
contou desde a primeira hora com o empenho inexcedível do arquitecto Álvaro
Siza Vieira e da Casa da Arquitectura, dirigida pelo arquitecto Carlos
Castanheira. Estou muito grato a ambos, como Presidente da Fundação Cidade de
Guimarães e como programador da área do pensamento da Capital Europeia da
Cultura, onde este projecto foi inicialmente acolhido e desenvolvido. Em ambos
encontrei sempre a força para tornear dificuldades e vencer obstáculos e a
clarividência indispensável para encontrar soluções.
Mas também devo referir que, sem a
colaboração da família de Fernando Távora, designadamente da Senhora D.ª Luísa
Távora, do Arq. Bernardo Távora, e da Dr.a Maria José Távora esta exposição não
teria sido possível. Neste âmbito, é justo destacar o papel facilitador do Dr.
Álvaro Sequeira Pinto.
Uma palavra de agradecimento é
igualmente devida à Fundação Marques da Silva, uma das primeira instituições
com que a Fundação Cidade de Guimarães cooperou no passado e que agora
disponibilizou o vasto acervo à sua guarda para a pesquisa e selecção de
materiais destinados à presente exposição.
Também quero agradecer à Escola de
Arquitectura da Universidade do Minho a forma como desde o principio acolheu e
acarinhou este projecto de execução complexa e exigente. Neste agradecimento
envolvo igualmente as Faculdades de arquitectura das Universidades do Poro e de
Coimbra e a Secção Regional do Norte da Ordem dos Arquitectos.
A presença de Fernando Távora em Guimarães está
atestada em diversos edifícios por si projectados, públicos e particulares, a começar pela sua própria casa, a
casa da Covilhã, e a terminar nesta casa de formação de arquitectos, inserida
no campus vimaranense da Universidade do Minho.
Mas não foi só em edifícios que o
saber e experiência de Távora se desdobrou. Ele foi o grande mentor do projecto
de reabilitação urbana, desenvolvido a partir dos anos 80 do século passado e que
permitiu em 2001 o reconhecimento do centro histórico de Guimarães como
património mundial. Guimarães deve-lhe essa visão, essa construção.
O visitante da cidade, surpreendido
com a qualidade do espaço urbano histórico, a preservação que o torna acolhedor
e amigável, é levado a crer que o que vê hoje sempre foi assim. Ora, as cidades
tem uma história, e esse história é feita de abandono, de descuido, de
destruição, tanto quanto de regeneração, de inovação, de reconstrução. E até,
para utilizar uma expressão de Shumpeter a propósito das crises do capitalismo,
de destruição criativa.
Guimarães ostenta as marcas do
sonho do arquitecto. Eu que o não conheci, dou muitas vezes por mim a procurar
nas ruas, nas casas, nas praças desta cidade o olhar que sobre elas lançou
Fernando Távora antes e durante o longo processo de maturação e execução da
reabilitação do casco histórico da cidade. Se fosse cineasta, proporia a mim
próprio redescobrir os passos e as conjecturas desse sonhador que se deixou
seduzir por uma cidade velha e rude, orgulhosa e sombria, onde como sugeriu Raul
Brandão, as calçadas são desgastadas por cima pelos vivos enquanto os mortos as
percorrem do lado inverso. Uma cidade cuja energia transbordante decerto
contagiou o arquitecto.
Gostaria de ser capaz de
surpreender essa elaboração – desejo e pensamento – de Fernando Távora sobre
Guimarães. Ele não esteve só. Homem de uma cultura superior e invulgar trouxe
para a sua beira, para usar uma expressão de desvelo como alguém me sublinhava
recentemente , além de Raul Brandão, Francisco Martins Sarmento, Alberto
Sampaio, Abel Salazar e Joaquim Novais Teixeira. A modernidade da reflexão, da
análise, da cultura.
Aqui há atrasado – outra expressão
que aprendi a usar aqui no Norte também há pouco tempo – Álvaro Siza fez-me
chegar às mãos um projecto do arquitecto António Meneres sobre arquitecturas populares
no Norte de Portugal. Entre a documentação que me entregou figurava uma
fotografia datada de 22 de Maio de 1966.
Essa seria a imagem inicial do meu
imaginário filme. Nua rua do centro histórico da cidade de prédios com janelas
de guilhotina, sobe um casal em traje domingueiro (e de facto, 22 de Maio nesse
ano calhou a um Domingo). De acordo com a legenda, João Toscano (suponho
tratar-se do arquitecto brasileiro, paulista, discípulo de Niemeyer, nascido em
1933 e recentemente falecido, João Walter Toscano) fotografa o interior de um
dos edifícios. Uma menina de soquettes e sapatos brancos está em primeiro
plano. Não terá mais de três ou quatro anos e aponta inquiridora para qualquer
coisa que não podemos descortinar, mas que esta no campo de visão do fotógrafo,
seu pai.
Numa esquina, observando a cena e o
espaço urbano, está Fernando Távora, de pólo branco e lenço ao pescoço, na
plenitude dos seus 42 anos. Ele é o único que testemunha e como que absorve o
espírito do lugar.
E por aqui me fico, com esta imagem
sugestiva.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Felicidade?
Uma das personagens de Vidros partidos, o filme de Victor Erice apresentado ontem em Guimarães:
- "Não sei o que é a felicidade. Sei o que é a alegria, mas não sei o que é a felicidade."
Lembrei-me de um texto de Manuel António Pina:
"Eu diria que o índice mais fiável de felicidade é não se perguntar se se é feliz. Quando se pergunta já o caldo de felicidade está entornado. O que quer dizer que, se formos felizes, provavelmente não o saberemos. Mas como sermos felizes sem o saber?"
Jean-Jacques Rousseau: amor e inocência
A minha alma, cujas faculdades mais preciosas os meus órgãos ainda não tinham desenvolvido, não possuía nenhuma forma precisa. Ela esperava, com uma espécie de impaciência, o momento que lha devia dar, mas esse momento, apressado por esse encontro [com a senhora de Warens], não chegou porém de imediato, e, graças à simplicidade de costumes que a educação me dera, vi prolongar-se por muito tempo esse estado delicioso em que o amor e a inocência habitam o nosso coração. Ela tinha-me afastado de si. Tudo ma fazia lembrar e tive de regressar. Esse regresso determinou o meu destino e, por muito tempo antes de a possuir, não vivia senão para ela. Ah!, se eu tivesse bastado ao seu coração como ela bastava ao meu! Que dias tranquilos e deliciosos teríamos passado juntos! Vivemos alguns, mas como foram curtos e rápidos, e que destino lhes sucedeu! Não existe um só dia em que eu não me lembre com alegria e ternura dessa única e curta época da minha vida em que fui plenamente eu próprio, sem mistura e sem obstáculos, e em que posso dizer que vivi verdadeiramente. Posso dizer mais ou menos o que disse aquele chefe da legião pretoriana que, tendo caído em desgraça no tempo de Vespasiano, foi acabar pacificamente os seus dias no campo: "Passei na terra setenta anos e só vivi sete".
Jean-Jacques Rousseau, Devaneios do Caminhante Solitário. 2a ed. Lisboa, Livros Cotovia, 2007. p. 149-150
Jean-Jacques Rousseau, Devaneios do Caminhante Solitário. 2a ed. Lisboa, Livros Cotovia, 2007. p. 149-150
Original e audacioso
Carta de João Chagas a Rafael Bordalo Pinheiro.
Carta dirigida a Rafael Bordalo Pinheiro a agradecer uma prenda que tinha recebido do artista (provavelmente uma peça de cerâmica das Caldas): " Cheguei hontem do Porto, onde estive alguns dias e só hontem me inteirei de que o caixote saído das Caldas continha o lindo presente que me quis fazer." Depois em tom laudatório e até quase premonitório diz : " Estas pequenas jóias de cerâmica meu caro Raphael, ainda não são avaliadas no seu justo valor. Só mais tarde, muito mais tarde, quando consigo a sua arte houver desaparecido, o gosto e a cultura de outra geração, saberão ver nos documentos da sua obra de ceramista o que ella conteve de original, de engenhoso, de petulante, como direi? De audacioso nas suas novas concepções. Digo-lhe obrigado com muito reconhecimento, como seu amigo muito devotado e como seu perfeito admirador."
[Em leilão da Livraria Burnay]
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Eu não existo
Um dia numa entrevista perguntaram a Borges:
"Quem é afinal, Borges?"
"Eu não existo", respondeu Borges. "Eu sou todos os livros que li, todos os lugares que conheci, todas as pessoas que amei..."
Somos feitos de memória. Mesmo aquilo de nós que não é circunstância individual, é apenas memória, memória genética e memória da espécie. A própria imaginação é uma espécie de arte combinatória da memória (o Minotauro é um homem e um touro, a sereia uma mulher e um peixe...)
Manuel António Pina, "Livros e filmes que somos".
terça-feira, 13 de novembro de 2012
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Um pedra atirada de propósito
Em todos os males que nos acontecem, olhamos mais para a intenção do que para o efeito. Uma telha que cai de um telhado pode ferir-nos mais, mas não nos desola tanto como uma pedra atirada de propósito por uma mão maldosa. O golpe, por vezes, falha mas a intenção nunca erra o alvo.
Jean-Jacques Rousseau, Os Devaneios do Caminhante Solitário. 2ª ed. Lisboa, Cotovia, 2007. p. 122
Jean-Jacques Rousseau, Os Devaneios do Caminhante Solitário. 2ª ed. Lisboa, Cotovia, 2007. p. 122
domingo, 11 de novembro de 2012
sábado, 10 de novembro de 2012
Registo (no Expresso de hoje)
Guimarães 2012: os
desafios da transferência
A Capital Europeia da Cultura (CEC) entra nos seus dois
últimos meses de programação com um activo de reconhecimento público, de
consistência programática e de rigor orçamental. Como previsto, para que se
possa completar a totalidade dos seus enunciados, será necessário ainda dispor
do primeiro semestre de 2013, período onde se procederá também à finalização do
estudo de impactes dos projectos executados. Mas o tempo da transição deve ter
início desde já, se se quer garantir continuidade e sustentação ao legado
produzido.
As preocupações expressas nos fora internacionais, designadamente europeus, sobre o investimento
na cultura, acentuam hoje, cada vez mais, os temas do futuro, centrados no
reforço das estruturas de produção artística e cultural e na adopção de novos
modelos de relação entre cultura e educação e cultura e economia.
A este propósito cabe recordar as conclusões de uma reunião
efectuada em Bruxelas, para assinalar, em 2010, os 25 anos das CEC’s: “O legado
está longe de ser automático (...). Na verdade, ele tem que ser planeado,
orçamentado e trabalhado. Uma das principais chaves para o sucesso de tal
objectivo - garantir um legado de longo prazo – reside em incorporar o evento
como parte de uma estratégia de desenvolvimento cultural a longo prazo,
concebida dentro do próprio desenvolvimento a longo prazo da cidade como um
todo, através de sinergias entre a cultura e outras áreas (desenvolvimento
urbano, educação, etc.)”.
O legado de Guimarães 2012 não se resume a equipamentos e estruturas,
porventura os elementos de mais imediata referenciação, até pela dotação
orçamental que exigem. De facto, o legado abarca outros aspectos, da ordem do software (e não do hardware) gerado, experimentado e valorizado ao longo do processo
da CEC: a nova criação resultante de encomendas, o exercício de programação e
gestão cultural em rede, o principio da residência artística e do laboratório
de curadoria em diversas áreas, as contaminações e disseminações
tradicional/contemporâneo, o investimento do espaço público como metáfora da
participação e da integração social e da cidade como espaço criativo
multifuncional, o revigoramento do
sentido de pertença e partilha do território, a ampliação e diversificação das
audiências, a internacionalização da cultura de portuguesa no seu duplo
movimento (de fora para dentro e de dentro para fora), a introdução de novos
factores de urbanidade (percursos, narrativas, vivências pessoais e colectivas).
Os protagonistas políticos e institucionais que decidiram e
desenharam Guimarães 2012 postularam uma transferência de legado robusta, cujo
núcleo duro deveria residir numa Fundação dotada de meios e princípios de
salvaguarda duma política pública pertinente e capacitada por uma prática
relevante de contactos externos, sobretudo europeus, e de gestão de programas
de financiamento com fundos comunitários.
Ao pôr em causa, de forma apressada e injustificada, a
continuidade desta instituição que ele próprio criara há três anos, o Estado
pode ter incorrido no risco de desacautelar a transferência prevista. As
organizações locais estão conscientes de que serão chamadas a reequacionar o
seu papel na transição e estão convictas de que o novo secretário de Estado da
Cultura possui a experiencia e a competência intelectual e política indispensáveis
para poder dar um contributo crucial para esta reflexão. De facto, pela
primeira vez, de há muito a esta parte, a pasta da cultura é confiada a alguém
que tem um vasto currículo de exercício de funções políticas e técnicas na cultura,
tanto no plano local como no central, e uma preparação compriovada no estudo e
discussão das políticas culturais.
João Serra
Presidente da Fundação Cidade de Guimarães/Capital Europeia
da Cultura
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
O enxoval da Madre de Deus
Inauguração hoje à noite, no Museu Alberto Sampiao, da exposição "Elegância, Moda e Fé: o Enxoval de Nossa Senhora da Madre de Deus", que reúne as 65 peças de roupa reunidas desde 1748 até ao início do século XX no Convento da Madre de Deus, em Guimarães, vulgarmente designado por Convento das Capuchas ou das Capuchinhas. As peças destinavam-se a vestir as imagens da Sagrada Família.
Como em todas as colecções, o valor do conjunto prevalece sobre a desigual qualidade de algumas das suas componentes, onde todavia sobressaem as mais antigas.
Esta exposição, sucedendo à que o Museu organizou sobre a temática dos Anjos, valoriza um património vimaranense, detido pela Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e dos Santos Passos, e assinala, simbolicamente, o princípio da continuidade da Capital Europeia da Cultura, pois é intenção do Museu só a desmontar em Fevereiro de 2013.
Oportunidade para sublinhar o espírito de colaboração leal, generosa e empenhada da direcção do Museu com a Capital Europeia da Cultura, de cuja rede soube ser um elemento actuante e potenciador.
Como em todas as colecções, o valor do conjunto prevalece sobre a desigual qualidade de algumas das suas componentes, onde todavia sobressaem as mais antigas.
Esta exposição, sucedendo à que o Museu organizou sobre a temática dos Anjos, valoriza um património vimaranense, detido pela Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e dos Santos Passos, e assinala, simbolicamente, o princípio da continuidade da Capital Europeia da Cultura, pois é intenção do Museu só a desmontar em Fevereiro de 2013.
Oportunidade para sublinhar o espírito de colaboração leal, generosa e empenhada da direcção do Museu com a Capital Europeia da Cultura, de cuja rede soube ser um elemento actuante e potenciador.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Registo (Maribor, Eslovénia)
Senhores Presidentes da Camara de Maribor e Guimarães
Senhora Directora Geral de Maribor 2013 Capital Europeia da Cultura
Quero em primeiro lugar, em meu nome e dos restantes membros da delegação de Guimarães 2012, agradecer-vos a hospitalidade com que temos sido recebidos em Maribor, o cuidado e carinho posto na preparação desta visita.
Celebramos neste momento o intercâmbio cultural entre duas cidades e entre dois projectos europeus a que as nossas cidades deram corpo neste ano de 2012.
Tenho consciência de que a distancia física entre os nossos países e condicionantes decorrentes de restrições financeiras impediram que levássemos mais longe a ambição dos responsáveis das duas capitais no aprofundamento das relações artísticas e culturais.
Ainda assim, em praticamente todos as áreas de programação houve projectos desenvolvidos de um lado e do outro, com a participação de um e do outro, tendo como destinatários recíprocos Maribor e Guimarães. Alguns deles serão mostrados agora, outros tiveram lugar anteriormente.
Demos pois, de acordo com o propósito do programa europeu que nos juntou, um contributo relevante para o conhecimento mutuo, para o trabalho conjunto, para a troca artística, para fazer da cultura um traço de união entre as nossas cidades e os nossos povos.
Esse contributo não pode deixar de ter um impacto positivo no futuro, no futuro a curto prazo. Ganhamos uma experiência aos mais diversos níveis que importa valorizar e, desejavelmente, repercutir em novo trabalho conjunto.
Salientaria, se me permitem, três áreas a que poderíamos dar prioridade nessa intenção de partilha de experiências e projectos.
Em primeiro lugar o reforço do papel da cultura enquanto sistema urbano. As nossas capitais não se limitaram a equacionar o papel das instituições políticas que tradicionalmente se ocupam da cultura. Implicaram no processo instituições publicas e privadas, centrais, locais e regionais, de base associativa e estatal. Puseram de pé uma rede mais ampla e mais densa e mais internacionalizada de organizações culturais. Estimularam a procura e a oferta artística e cultura, criaram estruturas de apresentação e de criação, deixam um legado que trouxe ao marcado cultural novos produtos e novos actores. Trouxe a cultura ao debate da questão económica e da questão educativa.
Em segundo lugar, o tema da gestão cultural. Não ha sistema sem gestão e durante muito tempo a gestão foi tratada de forma amadorística, casuística ou desligada do debate sobre o território e os vectores da política publica cultural. Importa que a experiência das nossas capitais se repercuta em novos modelos e novas exigências na formação de gestores culturais, desde o exercício da programação cultural paravas cidades até à captação e aplicação de recursos financeiros.
Em terceiro lugar, a relação as instituições europeias. Se a União Europeia não dispôs até hoje de uma política cultural propriamente dita, a experiência da capitais europeias da cultura tem suprido de certa forma essa ausência. Sabemos da intenção da Comissão Europeia em avançar com um quadro de estimulo à criatividade. Creio que as experiências de Guimarães e Maribor serão relevantes para este tema e desde já.
Estamos pois apostados em aprofundar com os responsáveis de Maribor 2012 estes e outros temas, e é essa mensagem de continuidade e trabalho conjunto que aqui queria deixar.
Esperamos que seja possível concretizar esta intenção e desde já nos colocamos à vossa disposição para, encerradas formalmente as nossas capitais, encarar a possibilidade de iniciar o debate das questões comuns nos dias seguintes.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Siza
Encontro com Álvaro Siza Vieira na Pousada de Santa Marinha da Costa onde toma um pequeno almoço com dois arquitectos japoneses. Ainda convalescente do acidente em que partiu o braço, Siza está bem disposto. Por volta do meio dia, saímos em direcção à praça da Mumadona, o único projecto que tem em Guimarães e que ficou incompleto. Entramos no Tribunal para ver uma das mesas de Pistoletto e em seguida vamos até a Vila Flor, onde vê a exposição dos Archigram. Explica por que motivo esta corrente o não interessou. "É um pós-modernismo sem história. Só industria". Destaca a qualidade dos desenhos de Peter Cook.
Almoçamos no Carreira, onde escolhe arroz de feijão com sardinhas. Mostra interesse em ver a Plataforma das Artes e da Criatividade e o Centro de Artes José de Guimarães, onde termina a visita.
Almoçamos no Carreira, onde escolhe arroz de feijão com sardinhas. Mostra interesse em ver a Plataforma das Artes e da Criatividade e o Centro de Artes José de Guimarães, onde termina a visita.
Cozinha
Saudação aos organizadores e participantes do Congresso Nacional dos Profissionais de Cozinha, que hoje se inicia no espaço ASA. Tema central: o peixe.
Oportunidade para recordar as minhas origens geografias e a relação com o mar e o pescado. Um produto que devemos valorizar, desde a gestão as espécies, à captura, até ao consumidor.
Uma palavra também sobre o lugar da gastronomia nos factores de atractividade das cidades, o seu enquadramento patrimonial e cultural.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
domingo, 21 de outubro de 2012
Memórias das Caldas da Rainha
Reedição facsimilada do livro de Augusto da Silva Carvalho, Memórias das Caldas da Rainha, 1484-1884, Lisboa, Férin, 1939 ontem apresentada no Centro Cultural e de Congressos, Caldas da Rainha.
Fotos cedidas por Blogue dos Antigos Alunos do Externato Ramalho Ortigão, e pelo editor, Eng.º Carlos Fernandes
Fotos cedidas por Blogue dos Antigos Alunos do Externato Ramalho Ortigão, e pelo editor, Eng.º Carlos Fernandes
sábado, 20 de outubro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Manuel António Pina
Café do Molhe
Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia)
porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia
que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe
(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse
de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito
sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa
que tudo o que soubesse não saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
Manuel António Pina, Poesia Reunida, Lisboa, Assirio & Alvim, 2001
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Janelas fotográficas da colecção Life
10/1948 - Postwar Vienna (Vienna, Austria)
Viennese window shoppers looking longingly at pastries
displayed in window of a bakery which they can not yet afford to buy in their
postwar economy.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Janelas fotográficas da colecção Life
9/1945 - Jimmy Stewart Comes Home (Indiana, PA, USA)
Uniformed
actor Jimmy Stewart with his father, Alex, standing outside the family hardware
store upon his return from World War II.
domingo, 14 de outubro de 2012
Janelas fotográficas da colecção Life
1/24/1943, Marrakesh, Morocco
US President Franklin Roosevelt sitting on wicker chair and looking out window as British PM Winston Churchill stands to his side facing
camera, following Casablanca Conference during World War II.
sábado, 13 de outubro de 2012
A cidade, Guimarães, Europa, 2012
Apesar dos vestígios, dos sinais do tempo, a experiência de
todos os dias parece contrariar tudo o que o conhecimento indica. A cidade
surge-nos como se sempre tivesse sido assim, quando a sua dimensão, como o de
todas as criações humanas, é a da história. É como se, quais operadores de “Photoshop”,
sempre começássemos por ordenar “flatten image” (espalmar, aglomerar a imagem),
ocultando os “layers” (planos, estratos) de que ela se compõe.
“Guimarães 2012” parte desta contradição, que enfrenta declinando
os distintos modos e formas em que ela se desenrola. Se o papel da criação
artística é, sumariamente, o de acrescentar novos elementos ao plano (“layer”)
da contemporaneidade, ela também intervém na desocultação que possamos hoje
fazer dos planos que o tempo comprimiu.
Os atenienses forjaram uma cidade de deuses para melhor
pensar a cidade dos homens. De facto a sua cidade de deuses era uma cidade de
filósofos, onde se discutia a dimensão, o governo e o destino da cidade. Mas os
templos magníficos da Acrópole dispersaram referencias líticas pela cidade dos
homens, como se, de cada ponto de observação da cidade alcandorada, os
pensadores tivessem de dispor, em todos os quadrantes. de réplicas, ainda que
incompletas ou menores, dos templos onde buscavam e exerciam a inspiração.
Ser capital europeia da cultural é para Guimarães uma
oportunidade para actualizar o discurso “multi-layer” sobre a cidade,
proporcionando um conjunto de conectores que permitem a todos, habitantes e
visitantes, produtores e consumidores, descobrir ou redescobrir as
temporalidades e as espacialidades, as construções e as descontruções de que se
faz uma cidade.
Péricles, no famoso discurso de elogio fúnebre reelaborado
por Tucídides, passa em revista todos os “layers” que faziam a singularidade de
Atenas, metáfora da cidade ideal.
“Começo pelos nossos antepassados” – disse o orador. “É
justo e adequado que, numa ocasião como esta, lhes seja dedicada a primeira
menção. Foram eles que viveram neste país, sem interrupção, de geração em geração,
e, graças ao seu valor, legaram-no livre aos que aqui vivem presentemente”.
Mas não esquece a geração precedente. “E se os nossos mais
remotos antepassados são dignos de louvor, muito mais são os nossos pais, que
acrescentaram à herança recebida o império que agora possuímos, não poupando
sacrifícios para serem capazes de deixar as suas conquistas aos que, como nós,
constituímos a presente geração”. E enumera em seguida as componentes
essenciais da República de que justamente se orgulha a sua geração e pelos
quais merece panegírico: a decisão pelo método democrático, a justiça
igualitária, o livre acesso aos cargos públicos, a não profissionalização da
actividade politica, a inviolabilidade da vida privada, a tolerância para com a
diferença, o império da lei e a protecção dos oprimidos, o direito à educação,
ao lazer e à cultura, o gosto pelo requinte sem extravagâncias, a abertura ao comércio
externo e a aceitação do estrangeiro na respectiva diversidade cultural, o
respeito pelos vencidos,
Péricles sabe que desta visão, desta grandeza, há
testemunhos. A memória ficou corporizada na literatura e nas artes. “A admiração
dos tempos presente e futuro ser-nos-á devida, uma vez que não deixámos o nosso
poder sem testemunhos, antes os recordamos em grandiosos monumentos”. A eles
acrescem todavia “uma memória não escrita que (...) permanece nos corações das
suas gentes”.
Como não ver aqui, neste patriotismo da cidade, os traços da
modernidade politica anunciada da Europa? Este é o desafio das gerações
actuais. Honrar o passado, os passados, avaliar o futuro. É alias nessa
capacidade de avaliação colectiva que reside para Péricles o segredo do modelo
de governo ateniense.
“Nós atenienses, somos capazes de ajuizar todos os
acontecimentos públicos e, em vez de considerarmos a discussão dos mesmos como
um obstáculo para a acção, pensamos que ela constitui um passo preliminar indispensável
a qualquer acção prudente”.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Conselho
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
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