terça-feira, 14 de abril de 2009

Identidade e escolha individual

Fernando Savater no El País:
Sobre a questão das identidades, o melhor livro que li há muito tempo é o de Amy Gutman, La identidad en democracia (ed. Katz). Estuda as vantagens que as identidades colectivas podem oferecer aos que as adoptam e à promoção de certas ideias ou formas de vida, mas assinala também que "o respeito pelas pessoas implica não respeitar a tirania exercida pelas maiorias ou minorias culturais e não considerar as culturas como todos homogéneos". Em democracia, a sobrevivência de grupos ou tradições culturais não se pode comprar pelo preço da limitação da escolha individual. O indivíduo deve ser educado para poder optar pela mudança de fidelidades e para sair, sem perda nem trauma, daquela que em princípio lhe coube em sorte.

À janela de Sena da Silva

Elevador, Lisboa, 1956/57
Cervejaria, Lisboa, 1956/57

Sena da Silva: uma Retrospectiva. Porto, Fundação de Serralves, 1990.

Pensamento em fotografia

Hoje envio um conjunto de grandes pedras perfeitamente encaixadas há décadas numa esquina da Mata.
Na Mata há, como sabem, várias pedras de grandes dimensões - colocadas em geral para evitar a passagem inapropriada de veículos.
Mas este conjunto que fotografei não está no meio de um dos múltiplos caminhos que se nos deparam.
Está num canto, abrigado pela sombra fresca das árvores vizinhas.
Há muitos anos que as conheço e diferencio.
Sempre que as contemplo aprecio a serenidade do seu porte silencioso, enquanto lá no alto o som dos pássaros, acompanhando a eternidade que cabe nesses momentos, desce com a luz por entre os ramos das árvores.
Com o decorrer do tempo foi dando guarida a pequenos fetos, musgos, heras e trevos de flor amarela, que as pintaram progressivamente com vários verdes – vibrantes e profundos.
Como um pequeno jardim secreto e mágico, transmite uma inexplicável sensação de Solidariedade incondicional.
Como a Solidariedade que senti por parte dos meus Amigos ao longo dos últimos meses.
E como um prazer que afinal prolonga outro – a Amizade recebida, transmito-vos a minha Gratidão sob a forma de uma foto – que é também um símbolo da solidariedade recíproca.
Vasco Trancoso: foto e texto 
[Enviados a amigos a 1 de Abril de 2009]

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Aventino Teixeira


Conheci-o capitão, de férias nas Caldas da Rainha, no Verão de 1966. E a última vez que o vi foi também nas Caldas, há meia dúzia de anos. Falou-me então como se nos tivéssemos encontrado na véspera, dando-me recados para o Presidente e falando no mesmo tom arrastado de sempre, mudando surpreendentemente de tema e, aqui e ali, sorrindo com uma ironia cansada das esquinas e alçapões que não previmos.
Em 1966, o capitão Aventino Teixeira decidira fazer o Curso de Direito e, mais do que uma valorização de carreira, pareceu-me que a ideia era experimentar a hipótese de mudar de carreira. Fiquei convencido que estava saturado da vida militar, que acumulara motivos de insatisfação com a hierarquia e que estava à beira de uma ruptura (se a não fizera já) com a política da guerra.
Como eu próprio tencionava então fazer esse Curso, a aproximação entre nós começou por ter um conteúdo prático. O capitão matricular-se-ia como aluno voluntário e esperava de mim, aluno ordinário, alguma colaboração em apontamentos e notas relativas às matérias dadas nas aulas. Pouco a pouco, porém, nesse ano de múltiplas transições, as conversas entre nós, apesar da diferença de idades, foram-se ampliando e as cumplicidades tecendo. Aventino Teixeira era um cavaqueador inexgotável, sobretudo a partir do meio da tarde. Dispunha-se frequentemente a ir-me buscar ou levar ao Carvalhal Benfeito, a troco de um conversa que se prolongaria depois de jantar pela madrugada do Inferno d'Azenha.
Em Lisboa e na Faculdade o nosso convívio foi mais espaçado. Passei-lhe os meu livros e o Código Civil anotado pelo Prof. Dias Marques, no dia em que decidi mudar de Curso dizendo-lhe qualquer coisa deste género: - Este é o meu contributo para que possas tu um dia mudar de carreira. Não o fez, é certo, mas nunca o vi fardado e não consigo imaginá-lo a desempenhar funções do foro estritamente militar. Em 1969, se não estou em erro, proporcionou-me um encontro em sua casa, na Praça Olegário Mariano, com Arnaldo Matos, de quem era amigo, para troca de informações sobre a crise do movimento associativo em Lisboa, após a demissão do Secretariado da Reunião Inter-Associações de que faziam parte Alberto Costa, Jaime Gama, Teresa Milhano e Serras Gago. Nos anos setenta procurei-o, no quadro de outras missões, no Procópio, onde marcou presença desde a fundação, em 1972. Segui, sempre com benevolente curiosidade, as suas inúmeras aparições no Prec e no período subsequente, como observador crítico, irreverente e muitas vezes desconcertante. Diziam-me que o General Eanes o ouvia atentamente. Não consigo imaginar tal situação sem uma estranha sensação de divertimento.
Fotografia de Margarida Araújo

Dylan

Um novo disco, editado a 28 de Abril: Together Through Life.

Prémio Pritzker de Arquitectura

Atribuído ao suiço Peter Zumthor. O juri salientou, na atribuição deste que é considerado o Nobel da Arquitectura, a obra prima deste arquitecto nascido em 1943: os banhos termais de Vals, Colónia.
Em Outubro do ano passado, a Experimenta organizou uma exposição sobre Edifício e Projectos de P. Zumthor. Pode ler o que se escreveu na altura aqui e aqui.

domingo, 12 de abril de 2009

À janela de Jacques Brel

Les fenêtres

Les fenêtres nous guettent
Quand notre cœur s'arrête
En croisant Louisette
Pour qui brûlent nos chairs
Les fenêtres rigolent
Quand elles voient la frivole
Qui offre sa corolle
À un clerc de notaire
Les fenêtres sanglotent
Quand à l'aube falote
Un enterrement cahote
Jusqu'au vieux cimetière
Mais les fenêtres froncent
Leurs corniches de bronze
Quand elles voient les ronces
Envahir leur lumière

Les fenêtres murmurent
Quand tombent en chevelure
Les pluies de la froidure
Qui mouillent les adieux
Les fenêtres chantonnent
Quand se lève à l'automne
Le vent qui abandonne
Les rues aux amoureux
Les fenêtres se taisent
Quand l'hiver les apaise
Et que la neige épaisse
Vient leur fermer les yeux
Mais les fenêtres jacassent
Quand une femme passe
Qui habite l'impasse
Où passent les Messieurs

La fenêtre est un œuf
Quand elle est œil-de-bœuf
Qui attend comme un veuf
Au coin d'un escalier
La fenêtre bataille
Quand elle est soupirail
D'où le soldat mitraille
Avant de succomber
Les fenêtres musardent
Quand elles sont mansardes
Et abritent les hardes
D'un poète oublié
Mais les fenêtres gentilles
Se recouvrent de grilles
Si par malheur on crie
" Vive la liberté"
Les fenêtres surveillent
L'enfant qui s'émerveille
Dans un cercle de vieilles
A faire ses premiers pas
Les fenêtres sourient
Quand quinze ans trop jolis
Ou quinze ans trop grandis
S'offrent un premier repas
Les fenêtres menacent
Les fenêtres grimacent
Quand parfois j'ai l'audace
D'appeler an chat un chat
Les fenêtres me suivent
Me suivent et me poursuivent
Jusqu'à ce que peur s'ensuive
Tout au fond de mes draps

Les fenêtres souvent
Traitent impunément
De voyous des enfants
Qui cherchent qui aimer
Les fenêtres souvent
Soupçonnent ces manants
Qui dorment sur les bancs
Et parlent l'étranger
Les fenêtres souvent
Se ferment en riant
Se ferment en criant
Quand on y va chanter
Ah je n'ose pas penser
Qu'elles servent à voiler
Plus qu'à laisser entrer
La lumière de l'été

Non je préfère penser
Qu'une fenêtre fermée
Ça ne sert qu'à aider
Les amants à s'aimer


sábado, 11 de abril de 2009

À janela de Gérard Castello Lopes

1957, Algarve
1956, Évora
1958, Paris
1958, Paris
1958, Paris

Gérard Castello Lopes, Oui Non. Catálogo. Lisboa, CCB, 2004.

À janela de Mallarmé

Las du triste hôpital et de l'encens fétide
Qui monte en la blancheur banale des rideaux
Vers le grand crucifix ennuyé du mur vide,
Le moribond, parfois, redresse son vieux dos,

Se traîne et va, moins pour chauffer sa pourriture
Que pour voir du soleil sur les pierres, coller
Les poils blancs et les os de sa maigre figure
Aux fenêtres qu'un beau rayon clair veut hâler.

Et sa bouche, fiévreuse et d'azur bleu vorace,
Telle, jeune, elle alla respirer son trésor,
Une peau virginale et de jadis ! encrasse
D'un long baiser amer les tièdes carreaux d'or.

Ivre, il vit, oubliant l'horreur des saintes huiles,
Les tisanes, l'horloge et le lit infligé,
La toux. Et quand le soir saigne parmi les tuiles,
Son œil, à l'horizon de lumière gorgé,

Voit des galères d'or, belles comme des cygnes,
Sur un fleuve de pourpre et de parfums dormir
En berçant l'éclair fauve et riche de leurs lignes
Dans un grand nonchaloir chargé de souvenir !

Ainsi, pris du dégoût de l'homme à l'âme dure,
Vautré dans le bonheur, où tous ses appétits
Mangent, et qui s'entête à chercher cette ordure
Pour l'offrir à la femme allaitant ses petits,

Je fuis et je m'accroche à toutes les croisées
D'où l'on tourne le dos à la vie et, béni,
Dans leur verre lavé d'éternelles rosées
Que dore le matin chaste de l'Infini,

Je me mire et me vois ange ! Et je meurs et j'aime
- Que la vitre soit l'art, soit la mysticité -
À renaître, portant mon rêve en diadème,
Au ciel antérieur où fleurit la beauté !

Mais, hélas ! Ici-bas est maître : sa hantise
Vient m'écœurer parfois jusqu'en cet abri sûr,
Et le vomissement impur de la Bêtise
Me force à me boucher le nez devant l'azur.

Est-il moyen, ô Moi qui connais l'amertume,
D'enfoncer le cristal par le monstre insulté,
Et de m'enfuir, avec mes deux ailes sans plume,
- Au risque de tomber pendant l'éternité ?

Stéphane Mallarmé, "Les fenêtres", Album de vers et de prose. Bruxelas, Librairie nouvelle, 1887.
In Fenêtres. Paris, Éditions des Cendres, col. "Collages, 1983.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Stop the war!

Atenção ao texto de comentário que Edgar Ximenes acaba de enviar para este blogue (e que, desde já agradeço). Observações pertinentes e desassombradas que merecem uma reflexão. Este espaço está à disposição de todos os que queiram prosseguir a discussão do tema.

Solitude (by Jeremy Bailey)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Clip do dia 9


Miranda July ("Babelia", El Pais, edição on line)

A la mode de Palissy

Proposta da designer japonesa Junko Shimada.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Obama e Aliança: uma perspectiva comum

Em Istambul, 6 e 7 de Abril, II Forum da Aliança das Civilizações cujo alto Representante é o antigo Presidente Jorge Sampaio (vide entrevista sobre as relações entre a Aliança e a nova Administração americana).

À la mode de chez nous

[Pavilhão de Portugal, 1889]
Abre amanhã, dia 9, uma exposição de Joana de Vasconcelos e Júlio Pomar na Gulbenkian em Paris
Sob coordenação de Lúcia Marques, são apresentados trabalhos que estabelecem explicitamente relação com o universo imaginário e produtivo de Rafael Bordalo Pinheiro, ceramista nas Caldas da Rainha, entre 1884 e 1905.
[Hansi Stäel]
A convite da comissária, escrevi um texto para o catálogo da exposição, no qual além de caracterizar alguns dos aspectos emblemáticos da obra de Rafael e de referenciar a sua presença em Paris em 1889, na Exposição Universal que assinalou a passagem do primeiro centenário da Revolução Francesa,
[Paula Rego]
aludo aos autores contemporâneos cujas obras têm tecido articulações com a cerâmica bordaliana: Joana de Vasconcelos, Júlio Pomar, Hansi Stäel, Paula Rego e Ferreira da Silva.
[Ferreira da Silva, 1994]
Não criei condições para poder estar presente, mas desejo aos autores, comissária e restantes colaboradores uma jornada bem sucedida.

sábado, 4 de abril de 2009

Stop the war!

Tenho o maior apreço pelo trabalho realizado no Agrupamento Escolar de Santo Onofre. Conheço há muito alguns dos professores que com a sua dedicação e competência fizeram da escola EBI de Santo Onofre uma escola de que a comunidade local justamente se orgulha. Sei também como foi difícil lutar pela integração de uma unidade escolar que foi territorialmente mal planeada e socialmente mal implantada. Testemunhei o esforço organizativo feito internamente e o valor de inúmeras realizações das equipas da Escola, aliás reconhecidas por instituições nacionais e internacionais. Chegaram-me provas da alta craveira profissional dos seus responsáveis a quem a cidade das Caldas deve o empenho e o exemplo.
Lamento por isso que Santo Onofre se tenha tornado palco da guerra que opõe professores e ministério da Educação. Não que a controvérsia seja em si condenável ou a divergência menos legítima. Mas porque, quando todos os instrumentos de mediação falham, corremos o risco sério de segmentar o que antes era dinâmico, quebrar o ímpeto do serviço público e afinal destruir em poucos dias o que tanto tempo levou a erguer.
Sabemos o capital acumulado que representa levantar e manter instituições sociais - neste caso escolas - conscientes e seguras dos seus objectivos, eficazes na articulação de interesses e motivadas para a sua realização. As cidades dependem mais delas do que nunca. Boa parte da sua atractibilidade está aí. A qualidade das escolas é um dos mais importantes indicadores da qualidade da vida urbana.
É preciso saber parar esta guerra, com a sua lógica mutiladora.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Subscrevo

Infelizmente, penso que o primeiro-ministro irá ter o calvário de Leonor Beleza, o que é gravíssimo para a credibilidade do Estado Português e para a estabilidade das instituições em época de crise. E seria fácil evitá-lo: num país normal, Sócrates já fora acusado ou teria arquivado em relação a si o processo. Para o sistema judicial e a sua imagem qualquer das soluções serve; eternizar tudo é que não serve.

José Miguel Júdice, no Público de hoje.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Tarefa tão íntima em mão anónima

[A quem justamente se não rende a capacetes.]
Quando ouviu dizer que eu ia à cidade, Vovó Nzdima emitiu as maiores suspeitas:
- E vai ficar em casa de quem?
- Fico no hotel, avó.
- Hotel? Mas é casa de quem?

Explicar como? Ainda assim, ensaiei: de ninguém, ora. A velha fermentou nova desconfiança: uma casa de ninguém?
- Ou melhor, avó: é de quem paga - palavreei para a tranquilizar.
Porém, só agravei - um lugar de quem paga? E que espíritos guardam uma casa como essa?
A mim me tinha cabido um prémio do Ministério. Eu tinha sido o melhor professor rural. E o prémio era visitar a grande cidade. Quando, em casa, anunciei a boa nova, a minha mais-velha não se impressionou com o meu orgulho. E franziu a voz:
- E, lá, quem te faz o prato?
- Um cozinheiro, avó.
- Como se chama esse cozinheiro?

Ri, sem palavra. Mas, para ela, não havia riso nem motivo. Cozinhar é o mais privado e arriscado acto. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Quem assegura a pureza da peneira e do pilão? Como podia eu deixar essa tarefa, tão íntima, ficar em mão anónima? Nem pensar, nunca tal se viu, sujeitar-se a um cozinhador de quem nem o rosto se conhece.
- Cozinhar não é um serviço, meu neto - disse ela - Cozinhar é um modo de amar os outros.

Mia Couto,
O Fio das Missangas. Contos.3ª ed. Lisboa, Caminho, 2004. p. 127-128

Desculpe a pergunta, mas sabe quem são os 20?

O G-20 é constituído pelos Ministros das Finanças e Governadores de Bancos Centrais dos seguintes 19 países:
Africa do Sul
Alemanha
Arábia Saudita
Argentina
Austrália
Brasil
Canadá
China
Coreia do Sul
Estados Unidos
França
India
Indonésia
Inglaterra
Itália
Japão
México
Russia 
Turquia
O vigésimo membro é a União Europeia, representada pelos Presidentes do Conselho e do Banco Europeu.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Lembro-me...

Teresa Perdigão disse:

Lembro-me de ter sido operada à garganta faz hoje 50 anos, no Hospital de Leiria, sem anestesia (ou talvez sim...), de mãos agarradas atrás das costas, ao colo de uma freira...
Lembro-me de ninguém acreditar que havia uma urgência... porque era dia das mentiras!
Lembro-me de ter comido sorvetes, a seguir.

Na Gulbenkian em Paris




terça-feira, 31 de março de 2009

Na Bordalo Pinheiro

Lembrar-se-ão alguns do que aqui escrevi no dia 6 de Fevereiro, manifestando inteira confiança no Grupo empresarial que corria ter entrado em processo negocial com os accionistas da Fábrica de Faianças Bordalo Pinheiro. De facto conheço bem o Grupo Visabeira, criado nos anos 80 do século passado, e em especial o seu líder, o Engº Fernando Nunes. 
A cerimónia de hoje à tarde nas instalações da empresa nas Caldas da Rainha teve uma expressão afectiva que muito tempo perdurará na memória dos que estiveram presentes. Penso que essa dimensão calorosa só foi possível porque tanto a nova administração da Bordalo como o representante dos trabalhadores imprimiram ao acontecimento uma forte nota humana, sem deixarem de ser claros nos objectivos que se propuseram. A presença do Primeiro Ministro, o interesse que manifestou pela história da empresa, o cuidado que colocou no gestos e nas palavras e o entusiasmo que transmitiu aos responsáveis pela solução encontrada sublinhou o forte carácter simbólico desta transmissão de poderes.
O Ministro da Economia falou em "milagre". Claro que se trata de um milagre de humanos. De Fernando Nunes e de Vera Jardim, de Castro Guerra, de Manuel Pinho e de José Sócrates, de Carlos Elias e trabalhadores da Bordalo, de Fernando Costa, de Elsa Rebelo, de Isabel Xavier (PH-Caldas), de Joana Vasconcelos, Catarina Portas e Henrique Cayatte e um sem número de outros personagens anónimos que advogaram, persuadiram, encorajaram, facilitaram o encontro de soluções.
Um milagre, sobretudo, de um dos nomes mais emblemáticos da criação portuguesa, desse génio chamado Rafael Bordalo Pinheiro.
Em todos as esquinas da história da empresa que o trouxe às Caldas em 1883/1884, foi o seu nome que salvou a unidade produtiva e lhe garantiu a continuidade. Em 1891/92, quando o primeiro grupo de accionistas desertou e ele ficou sozinho à frente da Fábrica, em 1900 quando o seu nome susteve a cobrança de dívidas por parte dos bancos, em 1908 quando seu filho recuperou na justiça os modelos que criara, em 1924 quando inspirou um grupo de investidores caldenses a adquirirem a sociedade. E em Março de 2009 quando, uma noite em Viseu, o seu sorriso largo se intrometeu num jantar do Eng.º Fernando Nunes para o convencer em definitivo que a Bordalo Pinheiro precisava da sua visão de empresário e da sua generosidade de português do mundo.
Nota
Registei fotograficamente a visita de hoje à tarde. Mas a imagem com que me apetece ilustrá-la é a de uma fotografia que o Vasco Trancoso fez na Foz do Arelho no passado Domingo e que enviou. A paisagem luminosa que reteve é exactamente aquela que serviu de moldura ao almoço onde estive hoje com o Engº Fernando Nunes e os administradores das sub-holdings da Visabeira.

Lembro-me...

De o Pedro nascer há 25 anos.

Lembro-me...

Fascinado pelo livro de Georges Perec (1936-1982), Je me Souviens. Les Choses Comunnes, publicado em 1978, Juan Bonilla  abriu uma página com o mesmo título. Qualquer pessoa pode enviar-lhe o seu Je me souviens (lembro-me), para ser publicado.
Perec escreveu um livro com 480 entradas todas elas começadas por um Je me souviens. Trata-se de uma obra deliberadamente não literária, onde cada entrada remete para uma recordação concreta, do tipo "Lembro-me que o meu Tio tinha um CV11 com a matrícula 7070RL". Os 480 registos de memórias de Perec constituem - embora nem todos sejam facilmente identificáveis pelo leitor - uma narrativa sobre o seu tempo sustentada pela experiência retida pela memória.
Bonilla colecciona edições de Perec. Sucede que o editor acrescentara umas páginas em branco, convidando o leitor a somar as suas recordações às do autor. O próprio Bonilla não resistiu a esse convite e preencheu as páginas do primeiro exemplar que adquiriu, com anotações como  "Lembro-me do Skylab", ou "Lembro-me do macaco azul que foi a primeira prenda que dei ao meu sobrinho".  Num dos livros da sua colecção, o anterior proprietário escrevera: "Lembro-me que o meu primeiro cão que tive era cego e diabético", "lembro-me do som do mar pela noite dentro".
É provavelmente nesta capacidade de recordar que reside o essencial do espírito humano, o que nos distingue do não-humano. Os distúrbios de tal faculdade prenunciam em regra a perda de outras. A psicologia debruçou-se sobre os efeitos devastadores de lesões neurológicas que afectaram os centros coordenadores da memória em seres humanos.
Miriam Jimenez escreveu a 20 de Novembro de 2008 no Je me souviens de Juan Bonilla:
"Lembro-me da primeira vez que vi nevar"
Susana Panullo escreveu a 28 de Março de 2009:
"Lembro-me da manhã fria de seis de Janeiro quando saí de casa e no meu coração se tinha instalado uma profunda tristeza.
Lembro-me que quando saí de casa triste e sombria me dirigi ao cabeleireiro que estava fechado e logo percebi que era dia de Reis.
Lembro-me de quando fechaste a porta e saí e nunca mais te vi."

segunda-feira, 30 de março de 2009

O vendedor de berbigão

Presença regular nas tardes de sextas-feiras do final do Verão, fazia-se anunciar pelo toque da corneta que precedia o ruído característico da carrocita puxada pelo burro. Vinha da Foz do Arelho, com o berbigão dentro de sacos de serapilheira, um alguidar de água salgada onde os bivalves eram mergulhados para não morrerem na longa viagem que o levava às aldeias do interior das Caldas e Bombarral.
Evoquei esta imagem da minha infância de há quase meio século numa crónica na Gazeta das Caldas, em seguida recolhida no livro Continuação. Crónicas dos anos 50/6o.
Hoje, na escola Grandela da Foz do Arelho, um dos presentes interpelou-me. 
- O Senhor é que é o escritor?
- Não, respondi eu, o escritor é aqui o Dr. Vasco Trancoso.
Mas o homem insistia.
- Não, este sei eu quem é. Não foi o Senhor que escreveu no jornal sobre um homem que vendia berbigão e tocava uma "gaitinha"?
- Sim, admiti, surpreendido, e o Senhor quem é?
- Pois olhe, eu sou o vendedor. E acrescentou: já não tenho a "gaitinha", porque a ofereci para o museu da Junta, mas o Senhor pode vê-la lá atrás.
Chama-se Salomão Quaresma, tem 87 anos. A "gaitinha" lá estava, como me disse, no Museu.

domingo, 29 de março de 2009

Grandela e a Foz do Arelho

Lançamento na Foz do Arelho da 2ª edição revista de Grandela e a Foz do Arelho, da autoria de Vasco Trancoso, com uma interessante participação da população.
Passaram mais de 14 anos sobre a 1ª edição (que foi lembrada aqui), tal como esta patrocinada pela Junta de Freguesia da Foz, mas a obra, remoçada nos conteúdos e no grafismo, continua a desempenhar a função que a fez surgir: recordar a história de um visionário empreendedor que marcou a história do século XX na localidade, tanto nos projectos urbanísticos como na acção educativa.
Verifiquei, na cuidada intervenção do actual Presidente da Junta, que o conhecimento do papel da Grandela entre as novas gerações só foi possível graças ao esforço do Vasco Trancoso que coligiu paciente e generosamente os dados relativos à presença de Grandela na Foz, elaborando com eles uma clara e acessível narrativa, e da associação Património Histórico que com ele trabalhou na respectiva edição.
Parabéns ao Vasco Trancoso por mais este contributo para a história das Caldas da Rainha. Parabéns também à Isabel Xavier, presidente da associação PH, que se empenhou particularmente nesta 2ª edição, e apresentou a obra com referências pertinentes ao quadro ideológico e político do republicanismo em que Grandela se inspirou na sua obra em prol da instrução popular.

Hora do Planeta

3.929 cidades de 88 países aderiram à iniciativa de sensibilização relativa às alterações climáticas proposta pela organização ecologista WWF, de apagar as luzes durante uma hora.
Imagem do edifício da Opera de Sidney (Austrália), antes e depois do apagão.

Requiem por Pablo

sábado, 28 de março de 2009

Sinais

Reportagem do NYT sobre os acampamentos ilegais de homeless em cidades americanas, a lembrar as favelas surgidas durante a Grande Depressão de 1929. Aqui, um grupo de tendas ao longo do American River, junto à baixa de Sacramento.

À janela de Duchamp

Marcel Duchamp
Fresh Widow, 1920/1964

Duchamp criou o original em 1920 em Nova Iorque. Em 1964, foi produzida esta réplica pela Galeria Schwarz de Milan, com supervisão de Duchamp. Esta terceira versão pertence ao Centre Pompidou e foi adquirida em 1986.

À janela de Duchamp

Marcel Duchamp
Moulin à café, 1911

- Na altura em que terminou o Nu descendant un escalier, realizou o Moulin à café, que antecipa os seus desenhos mecânicos.
- É muito mais importante para mim. As origens são simples. O meu irmão tinha uma cozinha na sua pequena casa de Puteaux e teve a ideia de decorá-la com quadros dos amigos. Pediu a Gleizes, Metzinger, La Fresnaye e também, suponho, a Léger, que fizessem pequenas pinturas, da mesma dimensão. como uma espécie de friso. Pediu-me também e executei um moinho de café que fiz explodir; o pó cai ao lado, as engrenagens estão em cima e a manivela é vista simultaneamente em diversos pontos do seu circuito, com uma seta para indicar o movimento. Sem saber, tinha aberto uma janela para alguma outra coisa.
Esta seta foi uma inovação que me agradou muito; o aspecto diagramático era interessante do ponto de vista estético.
- Ela não tinha uma significação simbólica?
- Nenhuma. A não ser a de introduzir na pintura meios um pouco diferentes. Era uma espécie de escape. Sempre senti essa necessidade de escapar...

Marcel Duchamp, Engenheiro do Tempo Perdido. Entrevistas com Pierre Cabanne. Lisboa, Assírio & Alvim, 2002. p. 47-48.

Nota:
Em resposta a um "Submarino Amarelo".

sexta-feira, 27 de março de 2009

Fenetres ouvertes simultanément


Robert Delaunay
Fenêtres simultanées [2e motif, 1re partie]), 1912

Fenêtres ouvertes simultanément (1ère partie 3ème motif)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Ventura Terra

Excelente exposição sobre a obra de Ventura Terra (1866-1919) organizada pela Assembleia da República para assinalar a inauguração das obras da sala das sessões.
Arquitecto do ecletismo, deixou trabalhos em Lisboa, Funchal, Esposende, Caminha, Porto, Gaia, Salvaterra de Magos, Coimbra. Cascais, Viana do Castelo.
Em 1895, um fogo destruiu parcialmente o edifício do parlamento, atingindo em especial a sala das sessões. Ventura Terra ganhou o concurso público da reconstrução. Esta obra ficou concluída em Janeiro de 1903.
Ventura Terra não escondia as suas preferências pela República. Do espólio do arquitecto, patente na actual exposição, figura uma carta datada de 21 de Agosto de 1910, na qual o arquitecto se dirige ao irmão, no Brasil, nos seguintes termos:

"Caríssimo mano António
Caríssimo compadre
Caríssimo amigo
Cidadão!
Saúde e República é o que do coração te desejo, em companhia de todo esse nosso povo"

quarta-feira, 25 de março de 2009

Centro Mário Dionísio

Gerir a crise

Compreende-se que gerir a crise seja a tarefa prioritária de quem tem responsabilidades. A extensão dos problemas e o seu ritmo são avassaladores. O tempo outrora reclamado pelos aspectos formais e metodológicos parece agora sempre excessivo e talvez inútil. As grandes questões, as de que depende a confiança e coesão, pedem uma atenção e uma capacidade de decisão que parecem ficar sempre aquém do desejável.
Gerir a crise não se confina porém ao horizonte mais imediato. Exige que se ouse projectar alguma coisa sobre o futuro. Os sacrifícios actuais valem também pelo que pudermos criar de novo, ultrapassando compromissos e vias que se esgotaram.