quarta-feira, 11 de março de 2009

"Arqueologia". 1969


"Arqueologia": exumação de papéis e documentos do meu arquivo pessoal.

Diário de Lisboa, 14 de Novembro de 1969. Diálogo entre João Serra e Isabel Maria Sena, na altura a viver nos Estados Unidos com os pais (Jorge e Mécia Sena) sobre a universidade e os universitários nos dois países. A iniciativa pertenceu ao escritor José Fernandes Fafe (hoje embaixador aposentado) que conhecia a família do escritor Jorge de Sena.

terça-feira, 10 de março de 2009

Uma Casa de Memórias

É o título da história da Sociedade Portuguesa de Autores editada em 2006 e que o autor teve a gentileza de me enviar. Vitor Wladimiro Ferreira, que conheci na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, quando por ali passámos como docentes nos princípios da década de 80, é um especialista de história da cultura portuguesa contemporânea. 
Conhecedor profundo da literatura e do jornalismo oitocentistas, o Vítor é um homem de múltiplos saberes, das artes plásticas à gastronomia, do teatro à enologia. Prefaciou e anotou (espero que não me fiquem a faltar muitos autores) reedições de obras de Bulhão Pato, Ceferino Carrera, Teixeira Gomes, Luis Augusto Palmeirim e o "nosso" Júlio César Machado. Escreve com camiliana graça, numa prosa enleante recheada de saborosas pistas e citações. Às vezes um pouco amargo, suaviza a crítica com ironia queirosiana ou chiste bordaliano.
Uma Casa de Memórias é um livro competente que regista, com recurso a diferentes fontes, algumas das quais particulares, a história da instituição que defende os nossos direitos enquanto autores. 
É bem certo que quase se ia "esquecendo" de o fazer no caso do livro do Vitor Wladimiro, mas o autor recorreu àquela prestimosa instituição para acautelar o seus direitos e foi bem sucedido. A SPA defendeu-o da SPA. No exemplar que me chegou às mãos, Uma Casa das Memórias tem o autor referido na sobrecapa e num autocolante aposto manualmente na ficha técnica da edição. 

segunda-feira, 9 de março de 2009

Aliança das Civilizações


O Presidente Barack Obama confirmou que estará presente na 2ª reunião do Forum da Aliança das Civilizações em Istambul (6 e 7 de Abril próximos).
A nova administração americana cauciona deste modo a iniciativa de que Jorge Sampaio é o primeiro responsável, enquanto Alto Representante das Nações Unidas para esta organização a que já aderiram mais de 90 membros.
Uma boa notícia para o ex-Presidente no dia em que passam três anos em que deixou o Palácio de Belém.

Voo das águias

Fizeram-se adoptar pela encosta da Gaeiras. Sobrevoam pela manhã ou ao fim da tarde as imediações da A8, fronteira a Óbidos. Durante anos, acompanhei o crescimento e multiplicação do casal, trocando mensagens com quem conhece hábitos e características desta espécie. Nos últimos meses deixei da as ver. Culpa minha certamente, que não tenho passado perto da sua morada nos tempos certos. Mas ontem deixaram-me que as surpreendesse pairando sobre o vale, deslizando pela brisa fresca do oeste. Saudei-as, regressado, cúmplice.

domingo, 8 de março de 2009

Ciclo da água

Angélique Ionatos. "La poésie c'est comme les rêves, personne ne vieillit jamais." 

sábado, 7 de março de 2009

Ephemera

Desde muito novo que José Pacheco Pereira adquire e organiza uma vasta documentação. Começou por ter origem na família e nas suas próprias deambulações, contactos e investigações. Estas viriam, nas ultimas décadas, a originar uma vasta incorporação de materiais, por compra e doação. O conjunto forma hoje um dos maiores arquivos privados portugueses.
José Pacheco Pereira criou agora o blogue Ephemera onde procede à divulgação destes documentos. E anuncia a intenção de "a prazo, tornar disponível a todos este acervo".

Tempo de quem colhe

Hans Christiansen, L'Heure du Berger, 1898 (Litografia)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Viva a República!

Uma página de história política contemporânea: 10 de Março de 1976, a Assembleia Constituinte delibera sobre o nome que terá na Constituição da República o Parlamento.

O Sr. Presidente: - O Sr. Deputado Mota Pinto tenha a bondade.
O Sr. Mota Pinto (INDEP.): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Apesar de o meu amigo e colega Jorge Miranda já ter dito que perdemos muito tempo com esta questão, eu sinto-me também no direito de emitir uma opinião a este respeito.
[...] Eu creio que poderíamos chamar à Assembleia Legislativa, pura e simplesmente, Assembleia da República. Assembleia da República, porque é o órgão colegial que exprime e traduz a República.
Há o Presidente da República, uma figura singular, que encabeça e simboliza, portanto, o Estado. E há um órgão colegial que exprime, que é o representante do povo português. Creio que esta expressão que está em paralelismo com a designação «Presidente da República», põe em relevo o carácter colegial, reabilita e dá o devido valor a uma fórmula: a palavra «República», que na história das ideias, que na história das formas de Estado, tem um conteúdo progressista, tem um conteúdo democrático, é sinónimo de democracia em todas as dimensões que a democracia pode exprimir. Por esse motivo, e sem atribuir a este problema nenhuma importância especial, eu sugeriria a fórmula «Assembleia da República».
O Sr. Presidente: - Um pedido de esclarecimento do Sr. Deputado Jorge Miranda.
O Sr. Jorge Miranda (PPD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Um pedido de esclarecimento.
Por sinal, já há pouco o Sr. Deputado José Luís Nunes, tinha sugerido, em conversa informal, o termo «Assembleia da República», e por isso eu estou muito satisfeito por haver essa concordância dos bons espíritos que são o Deputado Mota Pinto e o Deputado José Luís Nunes.
[...] Mas queria perguntar se ele não se terá inspirado na expressão «Congresso da República», da Constituição de 1911. Pela minha parte, e em meu nome pessoal, seria mais uma homenagem que esta II República democrática portuguesa prestaria aos homens da I República.
O Sr. Presidente: - Sr. Deputado Mota Pinto, diga da sua inspiração.
O Sr. Mota Pinto (INDEP.): - Sr. Presidente: Eu creio que este pedido de esclarecimento é um pedido de perscrutação dos motivos subconscientes que me levaram a propor esta fórmula. [...] Acho que a palavra «República» exprime alguma coisa na história das ideias e dos sistemas de Governo, que comporta potencialidades no domínio político, no domínio social e no domínio económico correspondentes a uma sociedade democrática em todos os seus desenvolvimentos. Só por isso.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado José Luís Nunes.
O Sr. José Luís Nunes (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Valha a verdade que diga que a expressão «Assembleia da República» me foi sugerida pelo meu colega e camarada Carlos Candal, depois de ter ouvido uma série de Deputados do grupo parlamentar.
[...] Dito isto, Sr. Presidente, Srs. Deputados, nós damos a nossa adesão à designação de Assembleia da República.
Mas gostava de dizer uma coisa, a finalizar. É que esta discussão, ao contrário do que se pensa, de forma nenhuma foi uma discussão estéril. Os símbolos e as designações dos órgãos têm um aspecto emocional de tal ordem importante que, em 5 de Outubro de 1910, os homens da República, embora continuando a tradição liberal dos homens do passado que fundaram a Nação, substituíram a bandeira azul e branca pela bandeira verde-vermelha. Bandeira hoje que é nossa e que orgulhosamente arvoramos. Portanto, ao fazermos, ou ao chamarmos à assembleia representativa do povo português Assembleia da República, nós, de certa maneira, reafirmamos a vinculação eterna e para sempre do nosso destino aos ideais nobres de justiça e fraternidade do 5 de Outubro de 1910 e aos homens eminentes que os incarnaram.
O Sr. Presidente: - E até, se me permitem, vai-nos proporcionar - desculpem esta intervenção um bocadinho atrevida - que nos nossos comícios do futuro se dêem vivas à República, que é uma coisa que nunca ouvi. Não se dão vivas à República. Dá-se vivas à Revolução, vivas a Portugal - raríssimas vezes; que me recorde, nem tenho lembrança de nenhuma vez em que se tenha dado vivas à República em comícios.
Mas parece que continua em discussão.
[...] O Sr. Presidente: - Vem então a proposta?
Suponho, se estiverem de acordo, que a poderíamos votar.
Ela vai entrar na Mesa, com certeza, com as assinaturas recolhidas e eu peço licença para sugerir à Assembleia que, dada a solenidade deste acto, porque se trata de um acto eminentemente solene para a nossa vida pública, a votação será feita de pé por todos os Srs. Deputados. Os Srs. Deputados que aprovam tenham a bondade de se levantar.
Submetida à votação, a proposta foi aprovada por unanimidade.
Aplausos prolongados.
O Sr. Presidente: - Temos dez minutos. Vamos aproveitá-los. O Sr. Deputado Jorge Miranda.
O Sr. Jorge Miranda (PPD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: É para uma breve declaração de voto. Votando a designação «Assembleia da República» para a Assembleia representativa de todos os portugueses, o Grupo Parlamentar do Partido Popular Democrático deseja, em primeiro lugar, manifestar a sua satisfação pelo consenso que, apesar de todas as divergências reais que existem, foi possível estabelecer nesta Assembleia Constituinte. Deseja reafirmar a sua fé nos valores de liberdade, igualdade e fraternidade que estão associados ao termo «República» e deseja, por último, declarar que entende esta votação de algum modo como uma nova rectificação solene da proclamação da República em Portugal, tal como aconteceu com a Assembleia Constituinte de 1911.
O Sr. Presidente: - O Sr. Deputado José Luís Nunes.
O Sr. José Luís Nunes (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Em primeiro lugar, quero sublinhar, tal como fez o Sr. Deputado Coelho dos Santos, que foi o Sr. Deputado Mota Pinto o primeiro a propor esta designação; em segundo lugar; congratular-me por se ter conhecido um tão amplo consenso e por ter sido o meu grupo parlamentar a levantar o problema de uma designação que foi possível enfim melhorar; em terceiro lugar recordar aqui, assim e publicamente, que a designação deste órgão como Assembleia da República é de certa maneira a reentrada nesta Sala de todos aqueles que desde o dia 28 de Maio de 1926, sob a violência e sob a força das armas, a abandonaram e nunca mais voltaram aqui a entrar.
É, de certa maneira, o regresso a esta Casa de Afonso Costa; é, de certa maneira, o regresso a esta Casa de António José de Almeida e António Sérgio; é, de certa maneira, o regresso a esta Casa do último Presidente da República Portuguesa, o último chefe do Governo, António Maria da Silva e Bernardino Machado; é, de certa maneira, o regresso a esta Casa de todos os homens da República que pelos caminhos do exílio tanto se sacrificaram e tanto sofreram e tanto lutaram pela liberdade do povo português. 
É a entrada nesta Casa novamente da sopro da liberdade e do livre pensamento a que esteve tanto tempo alheia; é, em verdade, a restituição do Palácio de S. Bento à sua verdadeira função de Assembleia dos mais altos representantes da Nação e é, também, e sé permitem a entrada aqui dentro de todo um cortejo de sombras, de todos os nossos companheiros que ao longo desta luta morreram e que não puderam aqui estar connosco.
É também a vitória e a entrada aqui dos homens da resistência de Carlos Cal Brandão e José Dias Coelho, que durante a longa noite fascista foram capazes de lutar pela liberdade.
É também a entrada nesta Casa dos revolucionários do 3 de Fevereiro e do 7 de Fevereiro e dos revoltosos da Marinha Grande.
E se permitem, correspondendo a um apelo do nosso Presidente, Srs. Deputados, meus camaradas:
Viva a República!
Vozes: - Viva!
Aplausos prolongados.
O Sr. Presidente: - Meus senhores, parece-me que depois deste acto emocional não levariam a mal ao Presidente que encerrasse a sessão, porque não vamos agora descer a meia dúzia de minúcias.
Considero comovidamente encerrada esta sessão.

À janela

Matisse, Fenêtre bleue, 1913.

"Cão como nós"

Cá está ele, uma vedeta na casa de Ted Kennedy. Foi ali que o casal Obama o conheceu. "Cão como nós", diria Alegre. 
Agora um primo enche de breves e alegres latidos a Casa Branca. É o cão de água português.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Vencerei não só estes adversarios/Mas quantos a meu Rei forem contrários

No juízo da Congregação para as Causas dos Santos, o relato de Guilhermina de Jesus, 65 anos, natural de Vila Franca de Xira, residente em Ourém foi decisivo: o beato Nuno de Santa Maria é milagreiro
Mas os produtores de heróis nacionais já o tinham canonizado e o chefe militar do Mestre de Aviz, que o ajudou a ser Rei de Portugal, já tinha ganho o direito a ser tratado por Santo Condestável.
O Presidente da República entende que o novo Santo "deve inspirar os portugueses na busca de um futuro melhor". Paulo Portas preferiu antes apontar o "líder destemido que sempre assentou a força na justiça". Guilhermina de Jesus cujo testemunho foi aceite como probatório, limitou-se a declarar: "sinto uma paz enorme".

quarta-feira, 4 de março de 2009

10 de Junho

Confidencia José Medeiros Ferreira que Jorge Sampaio um dia o convidou para suceder a Alçada Baptista na Presidência da Comissão para as Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estava-se, creio, em 1997. Medeiros declinou o convite por achar não ter ainda idade para tal. O argumento tinha graça e era elegante, o que atenuou, espero, a decepção presidencial.
Doze anos depois, foi recordado a propósito de idêntico convite dirigido por Cavaco Silva a António Barreto e, desta vez aceite.
Diz-se que o "Grupo de Genebra" formado na década de sessenta por, entre outros, Medeiros Ferreira, António Barreto, Eurico de Figueiredo, Ana Benavente, um dia terá feito, numa antevisão do Portugal democrático que lhes permitisse o fim do exílio e o regresso à pátria, uma distribuição de altas funções da República: eu serei Ministro dos Estrangeiros, eu serei Ministro da Educação, eu serei Ministro da Saúde, eu serei Presidente.
Não consta que nesta lista de gratas disponibilidades e preciosas ambições entrasse a Comissão do 10 de Junho. 

Maria Veleda

Maria Carolina Frederico Crispim nasceu em Faro em 1871 numa família burguesa. O Pai, com ascendentes britânicos, era personalidade com relevo na vida social e cultural local. Faleceu, porém, em 1882, deixando a família em dificuldades. A jovem Maria Carolina que tinha tido uma educação cuidada e convivia, desde cedo com livros, jornais e teatro, decidiu, aos 15 anos, conquistar autonomia de vida. Dedicou-se ao ensino, dando explicações particulares. Em 1896 vem para Lisboa, com um filho que adoptara cinco anos antes. Exercerá o professorado em Odivelas, Ferreira do Alentejo, Serpa, antes de regressar a Lisboa em 1905. Em 1899 tem um filho de uma ligação com o escritor Cândido Guerreiro, com quem no entanto decidira não casar.
Publicista de excelentes recursos, colaborou em jornais locais (na lista dos quais encontramos O Círculo das Caldas), publicou textos de intervenção e peças de teatro. Tornou-se uma figura cimeira do feminismo e enfileirou no republicanismo. Tem uma larga participação em ambos os movimentos, entre 1905 e 1921. Usou o nome de  guerra de Maria Veleda.
Foi Maria José da Franca, neta de Maria Veleda, que me proporcionou um primeiro conhecimento da biografia da sua avó e me informou que hoje, no Museu República e Resistência, teria lugar uma sessão evocativa que lhe seria dedicada. Vi a exposição - Maria Veleda: uma Professora Feminista, Republicana e Livre-Pensadora - obtive o catálogo e ouvi uma comunicação da Professora Natividade Monteiro, autora de uma tese de mestrado sobre Maria Veleda editada pela Comissão para a Igualdade.
Descobri uma personalidade fascinante (tem razão, Maria José!) cuja vida daria um filme ou um documentário ficcionado. Estou muito curioso de ler as suas memórias. Espero que seja possível reeditá-las.
Uma biografia breve de Maria Veleda pode ser lida aqui.

terça-feira, 3 de março de 2009

Pensar a representação

Saiu hoje o nº 2 dos Cadernos Par, uma publicação da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. É um repositório dos trabalhos de pesquisa e reflexão transdisciplinar efectuados pelos docentes agrupados num pequeno centro que dá pelo nome de "Pensar a Representação". No seu programa anual, são duas as iniciativas principais deste grupo: aulas abertas e um ciclo de cinema e debate. O motor destas actividades, a coordenação científica e a concepção do resultado editorial são assegurados pela Professora Madalena Gonçalves. Sem o empenho e competência que lhe tem dispensado, este projecto não teria sido possível.


segunda-feira, 2 de março de 2009

O sedutor seduzido com dolo

Hera de alvos braços congeminou um plano para seduzir Zeus. Obteve a colaboração de Sono Irmão da Morte, prometendo-lhe como esposa Pasítea, uma das jovens três Graças. Dirigiu-se então a Gárgaro, píncaro do alto Ida, onde se encontrava Zeus que comanda as nuvens. Hera conhecia bem Zeus, já fora em tempos seduzida pelo Crónida terribilíssimo. Zeus, Assim que a viu, o amor envolveu-lhe o espírito robusto, tal como quando primeiro fizeram amor, deitados na cama às ocultas dos seus progenitores. E pediu a Hera que acedesse ao seu desejo.

A ele deu resposta a excelsa Hera, congeminando um dolo:
"Crónida terribilíssimo, que palavra foste tu dizer!
Se o que tu queres é agora deitar-te em amor
nos píncaros do Ida, isso estaria à vista de todos!
Como seria de um dos deuses que são para sempre
nos visse a dormir e depois fosse contar a todos os deuses?
Pela minha parte já não poderia regressar à tua casa,
depois de me levantar do leito, pois isso seria uma vergonha.
Mas se é essa a tua vontade e se é agradável ao teu coração,
tens um tálamo, que te construiu o teu próprio filho,
Hefesto, tendo ajustado às ombreiras portas robustas.
Vamos então deitar-nos lá, visto que o leito é o teu desejo."

A ela deu resposta Zeus que comanda as nuvens:
"Hera, não receies que algum deus ou homem
observe o acto, tal é a nuvem dourada com que
te esconderei. Nem o próprio Sol nos descortinaria,
embora nenhuma luz veja mais agudamente que a dele."

Falou; e nos seus braços tomou a esposa o filho de Crono.
Debaixo deles a terra divina fez crescer relva fresca,
a flor de lótus orvalhada e açafrão a jacintos macios
em profusão, que os mantiveram acima do solo.
Foi neste leito que se deitaram, ocultando-se numa nuvem
bela e dourada, a qual destilava gotas reluzentes.
Deste modo adormeceu tranquilo o Pai no píncaro de Gárgaro,
subjugado pelo sono e pelo amor, com a esposa nos braços.

Porém o Sono suave correu até às naus dos Aqueus
para dar a notícia aos deus que segura e sacode a terra.
Postando-se junto dele proferiu palavras apetrechadas de asas:
"Com afinco agora aos Dânaos, ó Posídon, presta auxílio!
Outorga-lhes a glória, exígua embora seja a sua duração,
enquanto dorme Zeus, já que o cobri com o sono macio:
pois Hera o seduziu para com ele se deitar em amor".

Homero, Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa, 291-292.Edições Cotovia, 2005. p. 

domingo, 1 de março de 2009

Jerry Lewis

Passou quase em silêncio a homenagem que a Academia prestou na noite de 22 de Fevereiro a Jerry Lewis. A JL, que fará 83 anos a 16 deste mês, foi atribuído o Prémio Humanitário Jean Hersholt, pela relevância da sua participação em campanhas de angariação de fundos para o combate à distrofia muscular e pela sua condição de "cómico que levou o riso a milhões de pessoas de todo o mundo".

Jerry Lewis é um dos símbolos mais genuínos da nobre tradição americana da comédia e do burlesco. Nos anos 50, em particular, a solo ou nos muitos filmes em que formou uma célebre dupla com Dean Martin, Jerry afirmou-se como legítimo herdeiro de mestres como Charles Chaplin, Buster Keaton ou Stan Laurel. A partir de The Bellboy/Jerry no Grande Hotel (1960), na sua tripla condição de actor/realizador/produtor, construiria um dos capítulos mais fulgurantes da história moderna do género cómico, nele se incluindo obras-primas como The Ladies Man/O Homem das Mulheres (1961), The Nutty Professor/As Noites Loucas do Dr. Jerryll (1963) e The Family Jewels/Jerry e os 6 Tios(1965).
Pelo génio da sua arte de representar, pela ousadia narrativa e simbólica da linguagem dos seus filmes e também pelo sentido de experimentação do seu trabalho (foi pioneiro, por exemplo, na introdução dos ecrãs de video como forma de verificação do material filmado), Jerry é uma daquelas personalidades que nos ajudam a perceber melhor as transfigurações históricas do cinema. Em boa verdade, para compreendermos as convulsões por que passou Hollywood ao longo dos anos 60, a sua obra é tão importante como as de Martin Scorsese ou Francis Ford Coppola.


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Escolhas

Como os Congressos são hoje sobretudo encenações consagratórias de escolhas previamente efectuadas e intervenções cuidadosamente preparadas para o palco mediático, o anúncio do cabeça de lista para o Parlamento Europeu adquiria uma especial projecção neste Congresso do Partido Socialista. A escolha foi aliás gerida de forma a criar expectativa e apanhar a comunicação social de surpresa. Esta prestou-se gostosamente a esse jogo, fazendo e desfazendo nomes até ao momento da revelação.
Evidentemente ninguém se preocupou em discutir os critérios e, uma vez conhecido o o resultado da escolha, os comentadores agarraram, vorazes, a presa, sondando as intenções e fazendo cálculos sobre o êxito da aposta.
Não estando em causa o mérito intelectual de Vital Moreira, o seus curriculum e prestígio académicos, a qualificação do seu trabalho como jurisconsulto, o brilho da sua acção quer como parlamentar quer como juiz do Tribunal Constitucional, a relevância da sua actividade cívica, a avaliação desta escolha do Partido Socialista deveria ser estabelecida em função dos objectivos que lhe estão subjacentes.
Sendo o principal objectivo do Partido Socialista renovar a maioria absoluta, distintos são não apenas os caminhos a que se atribui prioridade, como os riscos a evitar ou os métodos para estabelecer um controlo de danos. O Congresso de Espinho apontou como risco maior para o PS o do crescimento à sua esquerda, nomeadamente o crescimento polarizado pelo Bloco. Esse crescimento tem aliás sido em grande parte favorecido por Manuel Alegre. Neste quadro, a escolha de Vital Moreira é compreensível. Se eu não estiver enganado, iremos assistir a um duro combate entre Vital e Louçã nos próximos tempos.
De qualquer forma, a aceitação por parte de Vital Moreira deste cargo, tem um significado prático que não deve ser esquecido. Desde 1991, altura em que reconheceu publicamente que a sua militância política se faria na área do PS, Vital Moreira manteve-se (mau grado uma breve passagem pela Assembleia) fora do exercício de responsabilidades políticas directas. Abandonou agora esse distanciamento relativo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Entre Setúbal e Alpiarça, reler LP num quarto de hotel

Prá minha cela atiraram-me um pão duro (envenenado); a água da bilha, bebi-a (tinha bichos). Hoje um raio de sol quis entrar cá dentro e cuspi-lhe. O desprezo dos homens, que me importa? Sabiam que o meu destino era este (Ela sabia) e não mo diziam por piedade. Que importa? não queria sol nem pão nem água nem piedade, apenas que, onde estiver, por um  segundo apenas, a Amada, aquela a única se lembre agora de mim.

Tarde demais, amigos! Nada a fazer agora estou pronto. Não tenho safa, parece. Saio do camarim assobiando: A  Vida me aborrece, a morte quero, balada em voga, para o maior número do espectáculo, a minha rábula, prometido no cartaz e já previsto há muito, isto é, a mágica inevitável levitação sonâmbula a muitos  mil metros de altura (tantos! ... ai a minha mania das alturas... perdoem se exagero) e depois o salto mortal lá mais pró fim, no trapézio sem rede sem esperança sem avé-marias sem nada. Olho para baixo, sinto o medo dos tipos da plateia, uns cagões, mortos do medo que devia ser o meu, e eu tenho, rapazes! e eu escondo, cavalheiros! detrás da minha fatiota larga, sarapintada, cetim fulgurante a sete e quinhentos o metro, fato de palhaço barato para melhor e mais os intrujar, ofender, insolências de polichinelo feitas a rir para gente que dá vontade de rir - e quem neste suave país não há-de querer rir, mesmo com o rabo cagado de medo?

Atiro o chapéu e ele vai a rebolar pelo ar, levando agarrado o meu chinó cor-de-rosa.; em pontapés raivosos de boneco, largo as calças e mostro umas ceroulas encarnadas; dispo o jaquetão e lá vai ele a saracotear feito espantalho voador, pássaro tosco, sem cabeça nem destino certo; estou agora preso só por um braço à barra do trapézio e trinco uma banana, com trejeitos de macaquito. Finjo que me solto e vou cair, dou um grande grito, eles gritam também todos, arfam (serão asmáticos?) tudo a fingir, a fingir pois que compreendem a minha aflição, gesticulação, representação, mastigação ou reinação. O que eles gostavam, o que tinha verdadeiramente graça para eles, eu sei, era que tivesse uma morte rápida, espectacular, sublime se possível, ora essa! ou que fosse tudo a fingir, como eles fazem (gostam), uma coisa breve que os arrepiasse brevemente (evitai o pânico) que não os fizesse desconfiar se estou a rir ou a sério, ou de quem me rio, afinal, se deles ao certo se da morte certa que me espera lá em baixo, quando os tambores começam a rufar (como é seu dever), reconciliado, parado, perdoado e consentido já, rindo todo, estatelado, desconjuntado no meio da pista, estrapaçado de todo como diz o povo, rindo também - e é tão fácil a um morto rir! é tão fácil rir de um morto!...
Esperem, esperem!


Luiz Pacheco, Textos Sadinos. Setúbal, Plurijornal, 1991. p. 30-31.

Em Setúbal, com Pacheco

A convite de Valdemar Santos, não podia faltar. Levei comigo, ontem à noite, a caminho de Setúbal, o João Ramos Franco que todo o tempo evocou episódios passados na sua antiga casa da Rua do Viriato, espécie de ancoradouro de perdidos na noite lisboeta.
O pequeno auditório da Biblioteca Municipal encheu-se de gente que queria recordar Luiz Pacheco: a sua história, feita de inúmeras histórias (episódios de fio de navalha, transições bruscas entre a ternura e a desapiedade, medo e coragem, rábulas que confundem autor e personagem). 
A iniciativa foi do PCP/Setúbal e teve a presença de José Casanova. Não sendo necessário fazer o PCP entrar em Luiz Pacheco, havia que tentar fazer caber Luiz Pacheco dentro do PCP.  Esforço meritório, mas tarefa inglória, e ainda bem.
Da venda de João Carlos Raposo Nunes ("O Raposão") trago, por "uma de vintes", Textos Sadinos, edição Plurijornal 1991.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Cidade imaginária

Visita rápida, à hora de almoço, para ver os 30 quadros de Nadir Afonso, na Assembleia da República (As cidades no Homem).
Nadir não pinta cidades, mesmo quando admite a figuração de pontes, praças, edifícios monumentais desta  ou daquela cidade. Nadir pinta a cidade, o espaço urbano na sua linha, na sua cor, na especificidade e na densidade da sua forma. A cidade imaginária.

Imprensa leiriense na Primeira República

Sala cheia, ontem, para ouvir Acácio de Sousa no Arquivo Distrital falar dos jornais que se publicaram em Leiria entre 1910 e 1926. Reflectindo as metodologias de investigação da história das elites no período contemporâneo, uma apresentação viva e consistente sobre fontes que o autor domina amplamente, a imprensa local. E uma reconstituição dos traços que individualizam a cidade com os seus grupos de sociabilidade e os seus grupos políticos, as instituições que articulavam interesses, os jornais que lhes conferiam expressão e influência.
Este ponto de encontro mensal de um heterogéneo público interessado na história local e regional - uma "Bica no arquivo Distrital" - está a revelar-se um sucesso crescente. A fórmula da sessão,  pondo em contacto informal investigadores e técnicos do Arquivo, documentos, pesquisa qualificada, curiosidade intelectual, é muito apelativa. O enquadramento arquitectónio e urbanístico onde isto se passa é, também ele, convidativo.
Há quem esteja disponível para prolongar a tertúlia, transferindo para um restaurante das proximidades a animação da troca de ideias. Desta vez, sob a égide da República e das suas figuras. Oportunidade, desta feita, para inventariar percursos e projectos, experiências, com colegas das escolas de Leiria (obrigado Ana Paula, Nídia, António Maduro). E para tomar conhecimento, a traços rápidos mas impressivos, da personalidade singular de uma mulher republicana, Maria Veleda (obrigado Maria José, pelo entusiasmo contagiante com que se referiu a sua avó). 
Mas sobre Maria Veleda espero em voltar aqui com mais elementos.

"Não há sanduiches para ninguém"

Ouvira nesse dia um aluno reclamar por não ter tido pão junto da funcionária que percorria ao meu lado o pátio e que faz trabalho na cantina. A senhora retorquira que o que ele queria era fazer sanduiches e que não podia ser. Ele desandou, nós seguimos caminho e eu manifestei estranheza. Aprendera há muito que muitos dos alunos, com grande sentido de autodefesa, quando não conseguiam, ao almoço, comer tudo o que tinham no prato abriam um pão e enfiavam lá para dentro as sobras. Vi fazer sanduiches de arroz que eram gostosamente papadas ao lanche. Não, não pode ser, ó setora, as sanduiches, bem calha, nem são para eles, são para os que estão cá fora e nem senha de almoço têm...
Não há sanduiches para ninguémpronto.
Com tantos alunos por ali que pouco comem, onde alguns, sabiamente, ao pequeno almoço comem um resto de massa cozida - o jantar da véspera, montes de meninos magricelas à nossa volta, não há pão, não há sanduiches para ninguém.


Escreveu Maria Eugénia Prata Pinheiro no seu blogue "Escola da Setora". Leia o resto do texto aqui.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Intervenção do Estado

Carta Aberta a Sua Exa. O Primeiro Ministro
 
Em 1884, Bordalo Pinheiro funda uma fábrica de cerâmica artística, que pretende exemplar, nas Caldas da Rainha. Aí, aquele que muitos consideram o maior artista português do séc. XIX desenha, inventa, modela e pinta milhares de peças que concretizam, excedem e amplificam toda uma tradição, definindo um estilo que ainda hoje, tantos anos volvidos, todos identificamos imediatamente. Mais de cem anos após a sua morte, a fábrica herdeira do seu saber continua a produzir esta obra genial. 
 As notícias recentes e inquietantes sobre o futuro da Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro obrigam-nos neste momento a manifestar-nos publicamente. Por preocupação com um património histórico único e em defesa da obra de um artista que desde finais do séc. XIX integra o imaginário nacional. 
 Num momento em que a vida desta empresa conhece piores dias e quando se perspectiva a venda desta fábrica, apelamos a uma intervenção do Estado, qualquer que seja o seu futuro, no sentido de: 
-         salvaguardar que o espólio do artista Bordalo Pinheiro (moldes, desenhos e peças originais) se mantenha na fábrica e seja a matriz de uma nova estratégia de qualidade e afirmação da marca Bordalo Pinheiro;
-         aprofundar a inventariação, estudo, preservação e divulgação deste espólio, promovendo o reconhecimento de uma faceta menos consagrada deste artista;
-         salvar uma fábrica única pela sua história e pelo saber especializado daqueles que aí trabalham, assegurando a transmissão deste na formação de futuras gerações, de modo a fazer também desta empresa um lugar de ensino;
-         estimular, simultaneamente, a renovação da marca Bordalo Pinheiro, envolvendo nomes prestigiados e novos valores do design e das artes;
-         contribuir para a definição de uma estratégia que reposicione a marca Bordalo Pinheiro num segmento de mercado de excelência, a nível nacional e internacional, investindo na sua divulgação, marketing e distribuição. 
Os autores desta carta apelam pois ao Estado para que, neste momento crítico, olhe para a singularidade desta situação e, nós próprios, não nos demitindo das nossas responsabilidades enquanto cidadãos, disponibilizamo-nos para contribuir para essa reflexão.
 
Autores: 
Raquel Henriques da Silva, Professora de História da Arte, FCSH Universidade Nova Lisboa
Joana Vasconcelos, Artista Plástica
Elsa Rebelo, 
Coordenadora do Atelier Artístico da Fábrica Bordalo Pinheiro
Henrique Cayatte, Designer, Presidente do Centro Português de Design
Bárbara Coutinho, Directora do MUDE. Museu do Design e da Moda
Catarina Portas, Empresária A Vida Portuguesa
Lúcia Marques, Curadora Independente
Carmo Afonso, Advogada


As autoras apelam à assinatura pública desta carta. Aqui fica o endereço, embora não entenda o alcance prático de tal iniciativa, curiosamente tomada mais de um mês depois da da associação Património Histórico-Grupo de Estudos das Caldas da Rainha:
http://www.petitiononline.com/Bordalo/petition.html

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Da Vinci?

Nicola Barbatelli, medievalista, fazia investigações nos arquivos de uma rica família italiana quando se deparou com este retrato que fora identificado como sendo de Galileu, na pequena cidade de Acerenza, no sul de Itália. Mas rapidamente se convenceu de que aquele aquele homem de olhos azuis, nariz aquilino e chapéu de plumas representava Leonardo da Vinci, aliás um auto-retrato, por comparação com um outro existente em Florença. O assunto está agora em exame.

Museu de Bagdad

Reabriu o Museu de Bagdad. Segundo o New York Times, mais de metade do acervo museológico, roubado em 2003, não foi recuperado.
Para muitos, trata-se de uma pura operação política, tendente a fornecer para o exterior uma imagem de normalidade da situação política iraquiana, O que se compreende.
Mas o que fica, para sempre, é a destruição de um dos mais extraordinários patrimónios da humanidade. A invasão americana não garantiu a segurança e a continuidade de bens culturais que representam o que de melhor as antigas civilizações mesopotâmica, persa e islâmica legaram à Humanidade (onde aliás a filosofia grega foi recolhida antes de passar à Península Ibérica) . A reabertura do Museu de Bagdad também fornece ao exterior essa memória de destruição consentida.

Ideias simples

Recebo a newsletter de La Central, uma livraria de Mallorca que também procede à distribuição de obras por correio. A livraria organiza regularmente oficinas, através de um serviço intitulado "Obrador de la Central". Eis a lista das oficinas abertas este mês:
- Como se lê um poema?
Aprender a detectar os elementos de um poema e a ler a grande poesia de poetas modernos e contemporâneos
- Livros ilustrados para os mais pequenos
Para crianças entre os 8 e os 12 anos: como se faz um livro.
- Gabinete de leitura: Filosofia
5 autores comentam em 5 sessões 5 obras de Filosofia
- Gabinete de leitura. História
Idem, idem, 5 obras de História

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Velaturas

Se gosta de arte e poesia, se valoriza a informação pertinente e o bom gosto, se sente atraído pela polivalência e partilha o sentido da descoberta, então não deixe de passar pelo blogue Velaturas.
O autor, Nicolau Borges (NB) é um comentador frequente deste blogue.
Gozo do privilégio da sua amizade e do seu companheirismo, com um activo de múltiplos projectos e trabalhos realizados em comum nos últimos anos. Por vezes, reunimo-nos em torno de coisas simples que sentimos o dever de celebrar: um bom peixe de mar, preferencialmente obtido em pesqueiros de Peniche, uma descoberta num arquivo ou uma visita a um museu, uma natureza morta de Josefa ou um banquete de caracóis na borda de uma piscina em Reguengos de Monsaraz, uma viagem a Madrid ou aos Açores, um poema perdido no canto de uma fotografia ou um olhar azul com reminiscências de África (como o que trago dentro de mim).
"Velaturas" é o resultado de uma deambulação, é certo, mas sem o erratismo que por vezes parece querer tomar conta de "O que eu andei...". Pelo contrário: segue por caminhos bem definidos e sólidos, os do registo da obra de arte em diálogo com a criação poética. O autor sabe do que fala e e sobretudo sabe falar do que o - e nos - surpreende.

Porto

Se há cidade portuguesa que conheço bem é o Porto. Ali trabalhei, estudei, exerci múltiplas actividades de natureza política, desde a década de 70. Ao Porto também me ligam experiências irrepetíveis e amigos estimáveis. É sempre com prazer que lá vou e pouco me parece o tempo que ali permaneço.
Conheço bem as vicissitudes da vida autárquica que acompanhei directamente desde a presidência do Eng.º Nuno Cardoso, passando pelas do Dr. Rui Rio. 
Compreendo a generosidade da candidatura da Professora Elisa Ferreira e admiro a sua inteligência e combatividade.
Por todas estas razões, o destino das eleições autárquicas no Porto não me é indiferente.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Tango


Adriana Varela: Los Mareados

Buenos Aires (foto cedida por Paulo Simões)

Pausa (ciclo de Carnaval). A vereadora antropófaga

Curta-metragem de Pedro Almodovar: La Consejala Antropófaga. Sete minutos delirantes de promoção do próximo filme do realizador Los Abrazos Rotos. Uma vereadora do pelouro dos assuntos sociais para quem "o sexo é, tanto no plano pessoal como profissional um assunto profundamente social".
Durante dois dias o pequeno filme pôde ser visto integralmente no Youtube, linkado por toda a grande imprensa europeia, até que a produtora o mandou retirar com fundamento na protecção dos direitos de autor. Uma breve apresentação pode ser vista aqui.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A grande Paris do futuro

Foram entregues ontem no Ministério da Cultura francês, os projectos encomendados a 10 equipas de urbanistas sobre a Grande Paris do futuro. Serão expostos a 29 de Abril, na Cidade da Arquitectura e do Património. O Le Monde antecipa, sumariamente (clique aqui para ver a apresentação), os trabalhos dos ateliês de Roland Castro, Bernardo Secchi, Agência AUC (Djamel Klouche), Christian de Portzamparc, Grupo Descartes (Yves Lion) e Antoine Grumback.
Aparentemente a prioridade é conferida à circulação. Como de De Haussman a Le Corbusier. Paris à procura de um novo modernismo.

Pausa (ciclo do Carnaval). Velhas soluções

Entre nós e a realidade

José Pacheco Pereira no Público de hoje:

O universo mediático-político em que vivemos, usando o vocabulário comum, com a distanciação do real, a obsessão pela imagem e pela encenação, empobrecido e devastado pela crescente ignorância dos seus actores, políticos e jornalistas, ofuscado pela espectacularidade, tornou-se um poderoso ecrã que se interpõe entre a nós e a realidade. Às vezes duvido se haverá essa coisa subtil que é o real, mas recordo sempre, quando me lembro - ah! estas reminiscências! - de que há pobreza, desemprego, vidas difíceis, insegurança, doença e morte. Lá fora.

Eis um tema que de que a filosofia ocidental se ocupa desde Platão e a sua alegoria da caverna. Outras disciplinas, além da filosofia, se têm proposto ajudar o homem a encontrar o real: da psicologia à história, da antropologia às ciências da comunicação, da sociologia à política.
O que sucede é que hoje os mediadores estão sentados à nossa frente, 24 horas sobre 24 horas, nas rádios, nos jornais, na televisão. Os jornalistas dão as notícias e logo vemos ao lado os comentadores. Eles virão logo a  seguir explicar a notícia, dar-nos a perceber, desviar-nos o olhar para o ecran. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pausa (ciclo do Carnaval). Maldita sexta-feira

Alguma coisa não corre bem com a Procuradoria da República em Torres Vedras

Transcrevo da edição de hoje do Público:

Ontem, às 12h26, a autarquia recebeu um fax assinado pela procuradora, com a referência de "muito urgente". No documento ordenava-se a "remoção do conteúdo do computador Magalhães que se encontra exposto frente ao Hotel Império até às 15h30" e remetia-se para um decreto-lei sobre "publicação e comercialização de objectos e meios de comunicação social de conteúdo pornográfico". O processo terá sido desencadeado após queixa apresentada por um cidadão do concelho, alegando que as imagens poderiam chocar as crianças.
Mais tarde, a Câmara de Torres Verdes recebeu nova ordem: entregar o autocolante no tribunal local, o que cumpriu "por respeito aos órgãos de soberania", mas não sem substituir a imagem do ecrã. No monitor do Magalhães agora lê-se "Conteúdo removido/censurado por ordem da senhora procuradora adjunta da Primeira Delegação do Tribunal de Torres Vedras"
.


Machadada certeira no prestígio da magistratura a quem compete defender o Estado de Direito. Até apetece recorrer a uma teoria conspirativa da história.