terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Yes, we can

Ion Favreau tem 26 anos e é a partir de hoje o chefe dos speeech writers do Presidente. Já tinha feito, como estagiário, a campanha de Kerry, mas desde 2007 esteve por detrás dos discursos do candidato vitorioso. "Yes we can" tem o seu dedo. E intenção.

Há mais défice?

Preocupações no horizonte com as consequências de uma corrida desenfreada ao defice para acorrer aos impactes da crise. De facto, o apoio dos Governos às economias com base em medidas de política financeira têm limites. Há quem julgue que já se teria ido longe de mais. Apetece perguntar: há mais défice para além da vida?

Bons dias, bons dias! Bonitas!

Continuação da viagem literária pelo mundo vegetal povoado de afectos compreendidos e correspondidos. Depois do texto introdutório, pedido ao agrónomo Joaquim Vieira Natividade, parámos em Ortega y Gasset (reportando-se a Anna de Nouailles) e Eça de Queirós. Prosseguimos agora com Aquilino Ribeiro.

[...] As tílias, que o circundam e recobrem [o Autor refere-se ao pátio da sua casa da Soutosa, Moimenta da Beira] de sombras e perfumes, plantei-as eu, e ano por ano as fui acalentando e tutelando. Por isso, quando arribo de Lisboa, recebem-me luxuriantes, sonoras das abelhas que lhes chupam o pólen, todas elas voltejantes e doiradas como as estrelas que recamam nos painéis os halos das Virgens. Também não dou licença que lhes apanhem a flor, nem para calmante de nervosos, ainda que o mundo se desconjunte com ataques de epilepsia.
As flores converter-se-ão no néctar dos meus cortiços e num sobrecéu de pingentes, pérolas baças, maçanetas de castorina, que dão ideia de que arrearam para uma festa. Chegam a parecer-me mais tafuis que esposas de marajás. Um ano que as deixei esflorar, partiram um ramo nesta, uma frança naquela, fizeram destroços noutras. Imagino a depressão, para não dizer sofrimento, desta árvore que, sendo casquilha, põe todo o desvelo na toilette. Realmente, se há planta que tenha o senso da simetria e das belas ordenanças, numa palavra, ponha a garridice no seu amanho, é esta. Mutiladas, enquanto não escondem o aleijão e não retomam a sua forma, não dormem. São um pouco preciosas, túmidas da frieza de seus climas originários, mas a poder de bem parecidas acabamos por considerá-las quase afáveis. Será pedantaria formular que me conhecem e me aguardam todos os anos, por alturas de fins de Julho? Quando chego, o meu primeiro olhar é para a sua ramagem, o especioso. Um olhar que lhes fala: Bons dias, bons dias! Bonitas! Depois, outro para os fustes: O que vocês cresceram! Daqui a pouco já não as posso abraçar a expandidos braços. Verdade, mais uns anos e bem de junto as não abraçarei. Receberão os abraços dos meus filhos, ao mesmo tempo que passem por cima delas em bólide ignescente os vindouros dos marantéus que tomei sob a guarda.

Aquilino Ribeiro, Geografia Sentimental (História, Paisagem, Folclore). Lisboa, Bertrand, 2008 [1ª ed. 1951]. p. 25-26.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Setora em greve

Eugénia Pinheiro, professora de Português na Escola EB 2-3 Mário de Sá Carneiro, em Camarate, já decidiu - lê-se no Público, edição de hoje - não vai entregar [os objectivos individuais]. "Querem convencer-me de que ando a trabalhar há 36 anos sem objectivos, que durante estes anos nada fiz que tivesse préstimo, que nunca fui avaliada, em suma que nem existi".

Maria Eugénia Prata Pinheiro, que conheço desde os bancos da Faculdade, já o tinha dito no seu blog, "Escola da setora"
Quando a desobediência civil é recurso desta geração de professores, não é possível ignorar que alguma coisa se rompeu, que a crise é profunda.

A caminho de Peniche (Agosto de 1919)

Serra d'el Rei

Alguns minutos e sigo pela estrada triste até à Serra d'el Rei. O chão produz milho amarelo, baixinho, e a areia um vinho branco que tem fama. São três horas de caminho até este sítio onde viveu D. Pedro, o Cruel. Do seu drama restam paredes desmanteladas e uma fonte que continua a correr e a apagar a sede de quem passa. Curvei-me, bebi também, e, transposto o pinheiral, dei com o amplo panorama de terra e mar: a costa, à esquerda o Cabo Carvoeiro, em frente a rocha do Baleal e ao fundo as Berlengas delicadamente pousadas na água.

Raul Brandão, Os Pescadores. Cit. p. 11-112

Mr. Tambourine Man

Canta Melanie Safka. Interpretação recomendada por António Macedo, companheiro de viagem no regresso de Coimbra. Imperdível, de facto.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Um Congresso para?

A ideia parece que é tirar a maioria absoluta ao PS. Para a dar a quem?
O CDS/PP é contra maiorias absolutas de um só partido. Sejam do PS ou do PSD. Consequentemente não advoga a substituição de uma maioria absoluta de um partido pela de outro. O que acha desejável - e para tal veio até às Caldas em Congresso - é que os partidos vitoriosos sejam obrigados a entender-se com outro ou outros para fazer Governo. 
Não pode surpeeender-se que as perguntas dos jonalistas - e provavelmente do eleitorado - decorram deste enunciado. Se e quando não houver maioria absoluta (e portanto a sua tese fizer vencimento), que posição adoptará o CDS? Pretende fazer parte da solução do problema de governabilidade em que se empenhou, ou fica na bancada a ver?

À janela (Matisse)

Henri Matisse, Conversation, 1911.
Museu Ermitage, São Petersburgo.

Pierre Schneider escolheu este quadro para a ilustração da obra monumental em 752 páginas que dedicou a Matisse (Matisse, Paris Flammarion, 1984, nova edição 1992).O quadro representa um par (de facto, o próprio pintor e sua mulher, Amèlie) e mostra a dualidade sobre a qual assenta a relação: linhas direitas e linhas curvas, de pé e sentado, interior e exterior. A janela separa e une. Partindo da dualidade, cria cumplicidade. 

Uma curiosa leitura desta obra é proposta por Schneider, que mostra como Matisse se separou do modelo de representação do casal estabelecido por Van Eyck em Arnolfini Portrait (1434), buscando inspiração no modelo da Annunciation de Fra Angelico (ca. 1450). 

Les Epoux Arnolfini de Van Eyck oferecia o modelo mais conseguido do género. Marido e mulher dão-se a mão. O laço que os une é materializado através de um contacto físico sem insistência: sinal de consentimento e não se sujeição.[…] É o que se teria passado em La Conversation, se a janela - a arte – não tivesse vindo interromper aquela relação. A janela separou os dois esposos, substituindo, como se tivessem acabado de receber uma notícia grave inesperada, a calma familiar por um clima de solenidade hierática. 

E de facto um novo esquema composicional é agora introduzido, a meio caminho, tanto formalmente como pelo seu sentido, entre o quadro do casal e o da trindade teofânica: o da anunciação, onde uma das personagens revela à outra a existência da divindade, a qual no entanto é apenas implícita, formando um triângulo cujo vértice dominante é invisível. Na Conversation, o homem surge separado da mulher, como o anjo da Virgem, em inúmeras Anunciações, pensando nomeadamente na de Fra Angélico nas Cenas da Vida de Jesus Cristo, onde o que os separa é uma janela aberta sobre um jardim […] 

Pierre Schneider, op. cit. p. 22-23

A caminho de Peniche (Agosto de 1919)

Raúl Brandão visitou Peniche e as Berlengas em Agosto de 1919.  A descrição dessa viagem foi publicada em Os Pescadores, obra editada em 1923. Consultei a edição de 1957, da Editorial Estúdios Cor, com prefácio de Manuel Mendes.

Óbidos

Óbidos visto da estrada é o cenário dum presépio, com as muralhas recortadas e moinhos de vento a trabalhar na encosta. Só lhe faltam alguns pastores, com gaitas de foles, descendo o monte... Pequena vila adormecida e quase intacta. Nunca passo por uma destas terrinhas que não me fique pena de lá não morar algum tempo, no silêncio recolhido, deixando a minha vida presa aos vivos e aos mortos. Isto tem um ar tão afastado do mundo! Não se ouve rumor. Um sino tange ao longe... Se há aqui interesses, estão submersos. A vila foi agora mesmo desenterrada com as suas igrejas, e a ruazinha principal onde não mora ninguém - tudo cercado de muralhas de pedra escura, que aproveitaram as ondulações do terreno, até se fecharem lá em baixo na porta principal com azulejos, e que parecem ter crescido tão naturalmente do morro como as árvores...

Raul Brandão, op. cit. p. 121.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Médicos, charlatães e melgas nas Caldas (fins do século XVIII)

Narração de William Beckford, de passagem pelas Caldas no seu regresso da viagem a Alcobaça, 11 de Junho de 1794:

Em breve se espalhou pelas Caldas a notícia da chegada de um grande médico alemão, ex-físico da Casa de Sua Ex-majestade Cristianíssima, e ainda não tinham passado cinco ou seis minutos depois de termos posto o pé no lajedo escaldante deste empório da medicina, quando apareceu uma deputação da Faculdade. Estes sábios vieram expressamente para se apresentarem ao dr. Ehrahrt e reclamarem a honra da sua presença numa ronda profissional pelos seus principais pacientes. Foi deveras original a descrição que depois fez, em francês alsaciano, latim puro e português esfarrapado, da aparência e condição lamentável dos desgraçados inválidos metidos em tinas e tanques.
- Encontrei muito deles - disse o indignado médico - com pulsos galopantes, excitados quase até ao frenesi devido à insensata aplicação destas águas potentes; e outros quase sem pulsações. Estes últmos terão em breve repouso absoluto. Tendo em conta os malefícios que aqueles convictos galenistas exercem, com os seus cozimentos e julepos, com as suas pílulas condimentadas e polpa de ossos, e sabe-se lá que mais, acho que em breve irão todos parar à cadeia, e que as almas das vítimas de charlatanices desmascaradas serão rapidamente libertadas dos seus desgraçados corpos, transformadas na pior das prisões por uma corja de reconhecidos vigaristas.
Nunca esquecerei o esgar de indignação e fúria do meu médico contra os que desdenham os remédios e as plantas medicinais. As suas ebulições de ira só amainaram depois de ter emborcado o conteúdo de uma enorme garrafa de vinho, diluído com umas gotinhas de água e acompanhado com um prato com aqueles saborosos bolbos que se usam em Inglaterra para rechear gansos. O objectivo deste petisco, assim o confessou abertamente, era diminuir a flatulência e expelir o príncipe dos gases e todos os seus satélites. Julguei que o prior de São Vicente nunca mais ia parar de rir com esta nova espécie de exorcismo. Em geral, os portugueses são grandes apreciadores de piadas grosseiras, e não me passaria pela cabeça fingir que a do dr. Ehrhart não pertencia a este género. Os donos do comprido casarão onde fomos recebidos acharam por bem acender eles próprios as velas de todos os castiçais e candelabros de vidro da Boémia que enchiam a sala rústica do piso térreo. O intenso clarão, pelo menos igual ao de um ridotto numa pequena cidade italiana, chamava a atenção dos transeuntes, da mesma forma que a luz de uma vela atrai todas as traças e melgas das redondezas. Não tínhamos portanto falta de companhia.
A nossa mesa de chá, que por prudência tinha sido colocada, tanto quanto possível, fora do alacance do festim do dr. Ehrhart, logo se viu rodeada por toda a sociedade caldense que escapava à rigorosa vigilância médica: oficiais velhos e pretensiosos que nada aprenderam sob o comando do conde de Lippe, fidalgos barrigudos que ainda não tinham suado o suficiente para ficar com proporções menos indecorosas, desembargadores e homens de leis, ávidos como tubarões e pesados como cavalos de carga.
Um dos mais ponderosos do grupo, personagem de alguma importância política e distinto doutor da Universidade de Coimbra, começava a ficar um tanto irrequieto porque eu não queria sentar-me a seu lado e explicar-lhe ao pormenor algumas passagens dos Comentários de Blackstone que ele estava ansioso por esclarecer. Enquanto eu afastava a minha cadeira para longe deste teimoso maçador, ele arrastava a sua atrás de mim, com um tal ímpeto que pouco faltou para me abalroar, o que talvez redundasse em grande embaraço meu se entretanto as costas e as pernas da sua cadeira não se tivessem desconjuntado sob o peso. Estatelou-se no chão térreo e toda a gente rebentou a rir, até mesmo os emproados oficiais aposentados do conde de Lippe.

William Beckford, op. cit. p. 94-96

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Poder local

Reunião, em Coimbra, na sede da Associação Nacional dos Municípios Portugueses. Enquanto espero que o Secretário Geral da Associação, Eng.º Artur Trindade, termine outra reunião, tento reconhecer o edifício onde estive há mais de uma década.
Uma placa numa das paredes da recepção recorda-me a circunstância. Em 7 de Abril de 1997. Celebravam-se 20 anos do poder local. Jorge Sampaio assinalou a data estabelecendo por um dia a Presidência da República ali mesmo.
O modelo de descentralização que esta Segunda República adoptou assenta num contrato entre Estado e municípios. Daí o impacte sobre a vida política que a acção municipal tem tido desde há três décadas. Por outro lado, trata de uma instância cuja representatividade se actualiza numa relação de proximidade com os cidadãos. Esse é um capital de governância que importa aprofundar e não desbaratar ou descredibilizar.

À janela (Henri Matisse)

Le violiniste à la fenêtre, 1918
Centre Georges Pompidou

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Vontade e movimento

- Como a inteligência aqui se liberta, hem? E como tudo é animado duma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não há aqui pensamento...
- Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...
- Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
- Ora essa! Mas eu...
- Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor...
- Que não sou!
- A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e naquele pedaço de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de forças que se revelam, e que atingem a sua expressão suprema, que é a Forma. Não, essa tua filosofia está ainda extremamente grosseira...
- Irra! mas eu não...
- E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa diversidade de formas...E todas belas!
Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com reverência. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as ideias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há de mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... A mesmice - eis o horror das Cidades!
- Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três semanas que cada manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentação me poderia fartar...
Eu murmurei:
- É pena que não converse!
O meu Príncipe recuou, com olhares chamejantes, de Apóstolo:
- Como que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está claro, não tem ditos, nem parola teorias, ore rotundo. Mas nunca eu passo junto dele que não me sugira um pensamento ou não me desvende uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é isenta de trabalho, da ansiedade, do esforço que a vida humana impõe; não tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta majestade. Pois não achas?

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras. Porto, Lelo & Irmão Editores, s/d. p. 194-195 (as últimas revistas pelo autor]

15 de Janeiro

Do mesmo modo que implantámos marcas afectivas pelo território, reportamos a nossa identidade a marcos afectivos distribuído pelas séries do tempo. Construímos um geografia sentimental e uma história sentimental. Construímo-nos com ambas.
Se há um espírito do lugar, ele devolve-nos a impressão da nossa passagem. Ali fui feliz, digo, ali soube ser feliz, digo de outro modo, rememorando lugares com os quais faço e refaço um itinerário irrepetível. Se há um espírito do tempo é ele que nos permite reconstituirmo-nos permanentemente como passado. Fazemos da nossa história uma chave para descobrirmos o sentido dos nossos passos.
É por isso que um rasgão nesta arquitectura interior pode ser tão difícil de suturar. Os lugares perdem a luz que os fixavam ao mapa e o fio do tempo perde a continuidade. Há insegurança na leitura do espaço, incerteza na do tempo. A rede tem agora os nós lassos ou desfeitos. O som do eco a que nos habituáramos esvai-se. Uma névoa cinzenta espalha-se lentamente pela paisagem e absorve tudo: os sons e as silhuetas. Nela vagueamos como sonâmbulos.


Munch, Melancholy, 1894-1895.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Reformar a escola pública

Recebi do Professor Paulo Prudêncio, comentador regular deste blog e autor do blog Correntes a seguinte mensagem:

Respeito e compreendo a sua decisão de fechar o debate na entrada anterior sobre a escola pública. Depois de ler esta nova entrada, fui reler os comentários da entrada anterior; estabeleceu-se uma interessante polémica que ajuda o cerne desta discussão: o futuro da escola pública em Portugal. O João imagina como isso é importante para o combate que estamos decididos a travar. Sei que muitos dos intervenientes nestas discussões não gostam que se use o plural: naturalmente que conhecem professores a quem não reconhecem grande profissionalidade. Sei que o que vou escrever a seguir é demasiado, mas que seja: esses não estão na luta; estão, quando muito, nas manifestações onde se podem resguardar no meio de mais de uma centena de milhar de professores.
Há uma questão, no meio de muitas outras claro, que ficou no ar: uma escola só se reforma de fora para dentro. Não concordo, mas não concordo mesmo, com esta asserção: não cabe neste espaço a discussão, mas se alguém estiver interessado no assunto estou completamente disponível para esse importante debate.

Paulo Prudêncio

Confiança na escola pública?

Com a resposta da comentadora que desencadeou a pequena tempestade em torno do, repito, excelente texto da Professora Cristina Nobre (que aconselho a ler na íntegra aqui), achei por bem encerrar os comentários ao post "Confiança na escola pública".
Enquanto decorria a polémica, lembrei-me muitas vezes da frase de Hannah Arendt: "A forma extrema de poder é Todos contra Um. A forma extrema de violência é Um contra Todos". Os mosqueteiros inventados por Alexandre Dumas usavam a fórmula da camaradagem: Todos por Um. Eu participei numa campanha política que tinha por lema: Um por Todos.
A escolha é nossa: de todos e cada um.
Voltarei, assim o espero e desejo, ao tema da escola.

Futebol de salão

Não quero (nem seria certamente oportuno) beliscar o orgulho nacional em alta com a vitória do jogador do Manchester na lista anual dos melhores do mundo. Mas não posso deixar de registar a associação cada vez mais íntima entre este tipo de promoção do futebol, o estrelato dos jogadores, e as revistas "people". Deste ponto de vista - jogadores novos heróis dos media do chamado "social" - Cristiano Ronaldo já destronou Beckham.
Resta saber o que vai suceder a partir daqui ao futebolista propriamente dito. O acidente com o Ferrari devia ser tomado como um aviso sério.
Há quem recomende o imediato regresso do treinador adjunto Queirós ao Manchester, ou melhor, à curadoria do jovem madeirense.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Melancolia (s)

Julio Romero de Torres (1874-1930).
Leitura, 1901-1902. Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia.

Não sei o que mais impressiona neste quadro do jovem pintor de Córdova: se a (irónica?) paleta de cores, se a rigidez da atitude do corpo de formas vincadas, se o olhar que se desprende do livro para nos olhar sem nos ver.

Confronte-se agora a Leitura, com Musa Gitana, obra (1907) que o tornaria para sempre conhecido dentro e fora da sua terra natal. Posição similar da modelo.
Mas ausência dos elementos roupa e livro repercutem-se indelevelmente na paleta de cores da composição e na intensidade do olhar da personagem. 

Vinho do Porto

OS ANIMAIS GIGANTES DE BORDALO LUTAM PELA VIDA

Centenas de moldes centenários das peças de cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro estão guardados numa cave da Fábrica de Faiança das Caldas da Rainha. Com a fábrica em risco de fechar, o que irá acontecer à vespa, às rãs, aos golfinhos mitológicos e a toda a fauna e flora criados por Bordalo? Há quem apele ao Estado para que ajude a manter vivo este património. A artista plástica Joana Vasconcelos, que tem vendido muitas peças feitas a partir de Bordalo, garante que esta produção tem toda a viabilidade económica.
Na sexta-feira, a vespa gigante ainda estava no forno. Só dois dias depois é que se saberia se o animal, criado há mais de um século por Rafael Bordalo Pinheiro e recriado agora a partir do molde original, sairia bem. "É a primeira que se fabrica desde 1900. Isto é histórico", diz a técnica de cerâmica Elsa Rebelo. Só há uma vespa igual a esta, é centenária, e está ali mesmo ao lado, num muro da fábrica de cerâmica das Caldas da Rainha.
Na loja da fábrica já resta muito pouco. As prateleiras foram-se esvaziando ao longo das últimas semanas ao ritmo das notícias sobre a crise económica e os riscos de encerramento das Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro.
Mas quem passar para lá da loja, atravessar o jardim, com o laguinho em redor do qual ainda estão alguns dos animais do tempo de Bordalo Pinheiro, passar pelo lobo, pelo golfinho mitológico, pela abelha gigante, e seguir até às oficinas da fábrica, vai encontrar alguns operários (trabalham aqui cerca de 12 ou 13 pessoas) agarrados às peças que fazem à mão há anos.
Uma delas está a decorar uma concha enorme com limos e musgo, molhando o barro com uma esponja, corrigindo os defeitos com uma faca pequena, e adicionando os detalhes. Na bancada em frente, outro operário faz folhinhas a partir de um molde de gesso. Encostados a uma parede estão duas cabeças de cavalo gigantes, um banco em forma de cogumelo e uma réplica do lobo e a cegonha.
"Esta" - Elsa aponta para a peça dos dois animais - "esteve três ou quatro meses para secar, está à espera de ser pintada a pincel com vidrados cerâmicos, e depois ainda terá nova cozedura." Quem encomendar uma peça desta dimensão terá, por isso, que se preparar para esperar alguns meses, sobretudo se o tempo estiver húmido, o que atrasa o processo de secagem.
São, todas elas, peças que só voltaram à vida há poucos anos, depois do lento e complexo processo de recuperação dos moldes centenários de Bordalo. "O cavalo foi feito há menos de um ano. O caracol é muito recente, ainda só fizemos dois ou três." Desmembrada ainda está uma enorme lagosta, porque os animais gigantes são feitos em vários bocados e depois de saírem do forno têm ainda de ser montados.
A montagem tem a dificuldade acrescida de os animais serem curvos, sem uma base estável, porque foram, em muitos casos, concebidos para decorar beirais de telhados. "Bordalo tinha uma equipa de técnicos que, como nós hoje, estudavam em conjunto a melhor maneira de fazer as coisas", diz Elsa, que é, ela própria, filha de ceramistas. "Por vezes chegamos a estar três, quatro ou cinco pessoas à volta de uma peça a pensar 'como é que vamos fazer isto?'"

Um chalé de cortiça
Muitos destes animais gigantes terão sido criados para decorar o pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Paris de 1889. Nessa altura já a fábrica estava em crise (a actual não é a primeira). Elsa Rebelo tira de uma gaveta velhas fotografias já meio sumidas que mostram o que era este espaço no tempo de Rafael. "A fábrica não era aqui onde é agora. Ficava num terreno contíguo a este e era muito diferente." Mostra uma imagem em que se vê o chalé de cortiça, no meio das árvores, onde vivia Bordalo. "O edifício da fábrica era lindíssimo, com uma arquitectura algo oriental, uma mistura muito grande de influências. Tinha um frontão de cobras enroladas, um jardim com fontes, lagos, grandes cerâmicas."
Desde há oito ou nove anos que os operários especializados começaram a recuperar os moldes originais do criador da figura do Zé Povinho, guardados numa cave, e a tentar refazer as peças - primeiro as mais pequenas e depois, à medida que iam ganhando confiança, as maiores, até chegarem aos animais gigantes. Depois, um dia, há poucos anos, a artista plástica Joana Vasconcelos visitou a fábrica, apaixonou-se pelos animais e começou a fazer encomendas. A vespa que sexta-feira estava no forno é para ela.
Mas este é um mundo em risco. As Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro estão à beira da falência, os 172 operários já não recebem há dois meses, e Jorge Serrano, o principal dos treze sócios da empresa, não vê possibilidades de a empresa continuar a funcionar depois da quebra brutal das encomendas, feitas sobretudo pelos Estados Unidos, da louça de fabrico industrial que nos últimos tempos garantiu a sobrevivência do negócio.
Catarina Portas, que vende peças de Bordalo - incluindo as célebres andorinhas - na sua loja A Vida Portuguesa, em Lisboa, lançou o alerta numa crónica recente no P2: "Na minha loja, vendo Bordalo Pinheiro. E porque vejo o brilho nos olhos dos designers ou jornalistas estrangeiros quando miram e compram uma peça Bordalo, asseguro-vos que este é um património que pode e deve ser explorado comercialmente. E terá sucesso. Assim exista compreensão para mudar uma estratégia seguida nos últimos anos que fez a Bordalo crescer, preferindo a grande produção para exportação de loiça quase corriqueira e facilmente copiável, em vez de apostar seriamente naquilo que mais ninguém tem nem sabe fazer, a delicada e laboriosa reprodução do seu acervo."
Um apelo que é repetido por Joana Vasconcelos. "Há um património do Rafael mal estimado, que devia ser uma coisa do país e não propriedade de uma fábrica", diz, indignada. Descobriu-o quando estava a preparar uma exposição no Museu Bordalo Pinheiro. "Estava a trabalhar com o sapo, e dou de caras com aquele caranguejo gigante. 'Há mais disto?', perguntei." Depois não parou. "Andamos há quatro anos a tentar recuperar a vespa, é um trabalho de enorme complexidade técnica."
Às vozes que pedem um apoio para salvar a herança de Bordalo junta-se a de Raquel Henriques da Silva, investigadora e professora de História de Arte. "A crise está ligada à fábrica de produção corrente, em massa, essa é a área que entrou em ruptura. Por seu lado, o núcleo histórico tem vindo a ser reactivado, e agora corre o risco de ser engolido nesta crise."

Uma jarra com 2,5 metros
A fábrica começou a funcionar em 1884, mas uma década depois a situação era já bastante difícil. Em 1895, Bordalo recebeu do político José Relvas uma encomenda para fazer uma jarra. Decidiu dedicá-la a Beethoven e fazê-la enorme. "Tinha 2,60 metros", conta Elsa. João B. Serra, professor na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, explica, num texto publicado na Gazeta das Caldas, a importância que a jarra teve na altura: "Encarada como uma extravagância bordaliana, uma provocação de génio aos condicionamentos do processo cerâmico, a Jarra Beethoven pode talvez ser tomada como uma tentativa de esconjurar a maldição de uma empresa que falhara sucessivamente os projectos industriais que presidiram à sua criação. Certo é que a maldição se abateu cedo sobre a própria jarra."
José Relvas achou-a demasiado grande e, depois disso, "a jarra deambulou ao longo dos anos 1898 e 1899 entre Caldas e Lisboa [...] e entre Lisboa e Rio de Janeiro, sempre em busca de um comprador que lhe fizesse jus". Para tentar salvar a fábrica, Bordalo viajou com a jarra até ao Brasil na esperança de a vender. Foi leiloada, mas ficou numa rifa que não fora comprada por ninguém. Sem mais alternativas, Bordalo acabou por a oferecer às autoridades brasileiras. Hoje, conclui João Serra, "permanece prisioneira da sua maldição, num discreto recanto do Museu das Belas-Artes do Rio de Janeiro".
Rafael Bordalo Pinheiro morreu em 1905, a fábrica foi vendida em hasta pública, mas o filho, Manuel Gustavo, conseguiu recuperar na justiça os moldes centenários que lhe pertenciam por herança. "Os operários não quiseram um novo patrão, por isso juntaram-se a Manuel Gustavo e, mesmo em ateliers emprestados, nunca pararam de trabalhar", conta Elsa. Três anos depois da morte do pai, Manuel Gustavo fundou, no terreno ao lado do original, a Fábrica San Rafael. Com a sua morte, em 1920, um grupo de caldenses tomou conta da fábrica. "Houve vários ciclos e tornou sempre a renascer. Espero que desta vez aconteça o mesmo."
Mas se a Jarra Beethoven é peça única, outras que Bordalo fez não precisam de o ser (embora no museu da fábrica das Caldas existam algumas que também estão condenadas a isso, por não terem já molde, como o São Jorge e o Dragão que está à entrada do museu). Existe uma cave cheia até ao tecto de moldes de gesso, cuidadosamente arrumados e identificados. A lápis está escrito o que o formato redondo do exterior do molde não deixa perceber: "vespa", "a cegonha e o lobo". Mais à frente, numa prateleira, estão os bustos, de Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós e do próprio Rafael Bordalo Pinheiro, no meio de um medalhão de frutos.
"Começou-se a arrumar os moldes nesta cave e, paralelamente, a recuperar peças, mas de pequeno porte, como o Arola, a figura do imigrante português que volta do Brasil, e que há tempo que não se produzia", continua Elsa. "Há cinco ou seis anos decidimos aventurar-nos nas peças gigantes. E isso é outro mundo. Um molde recente da vespa ou da lagosta pesa, no seu conjunto, uns 500 ou 600 quilos. São precisos seis homens para o virar ao contrário. O custo de recuperação destas peças é avultadíssimo." Os moldes antigos são cheios uma última vez, o bloco de barro que sai desse molde é depois trabalhado, para acentuar os relevos, e daí é tirado um novo molde.
Quando estas figuras, há muito desaparecidas, recomeçaram a aparecer nas lojas da fábrica, "as pessoas ficaram muito admiradas, mesmo os caldenses, que não conheciam muitas delas". Alguns tinham fotografias antigas onde se podia ver um ou outro daqueles bichos, "outros, mais idosos, lembravam-se de algumas destas peças, como os caracóis, a decorar o parque D. Carlos I nas Caldas".
Apesar da situação da fábrica, Elsa Rebelo parece ter uma energia renovada enquanto anda de um lado para o outro, recebendo jornalistas e visitantes. "Temos trabalhado aqui, a fazer arqueologia industrial, sem um cêntimo de apoio de lado nenhum, e, no fundo, a salvaguardar um património que pertence a um país." Se não surgir uma solução para a fábrica, corre-se o risco de perder este património - que é também humano, já que estes são operários especializados em cerâmica bordaliana e não existe hoje (ao contrário do que acontecia no tempo de Bordalo) uma escola que ensine estas técnicas específicas às gerações mais novas.

Reinventar Bordalo
"Se se perder esta dinâmica é muito difícil voltar a encontrá-la", avisa Raquel Henriques da Silva, defendendo "um apoio especial do Governo para garantir que este núcleo histórico possa continuar". É preciso, diz, "reactivar a produção destas peças gigantescas, que são um deslumbre, são de uma beleza perturbante".
A intervenção de Joana Vasconcelos e as encomendas de Catarina Portas são prova do potencial comercial deste núcleo, acredita Raquel Henriques da Silva. "O que estimulou o Bordalo está a voltar a acontecer. Ele era um artista interessado em dar uma feição moderna [à cerâmica das Caldas]. Agora está a acontecer com a Joana Vasconcelos." É importante, frisa, que estes moldes não vão parar a um museu, mas que se mantenha a produção viva. "Gostava que um economista me provasse que isto não tem viabilidade económica."
Joana Vasconcelos confirma. "Estamos a falar de um grande artista português. Aquilo devia ser património do Estado, e estimado como tal. Além disso, tem valor comercial. Podia ser vendido como objecto de luxo, topo de gama, da nossa cultura. Eu própria vendo estas peças e apercebi-me do poder comercial que elas têm." Uma das suas sugestões é a de que se convidem designers para fazer novas obras a partir daqueles moldes, reinventando o trabalho de Bordalo com uma visão contemporânea. "Cada vez que lá vou arrepio-me a pensar nas peças fantásticas que estão naqueles moldes."
Para explicar o que está em causa, Raquel Henriques da Silva usa uma comparação: "É como se o vinho do Porto estivesse em risco de acabar submerso em vinho a martelo."
Interrogado sobre o assunto, na sexta-feira, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, disse à Rádio Renascença que considera muito importante conservar os moldes, mas que o mais importante é "manter aquela fábrica viva" e que isso não passa pelo seu ministério. "Ultrapassa-me completamente enquanto ministro da Cultura." O P2 contactou o Ministério da Economia, mas não foi possível obter uma resposta em tempo útil.
Elsa Rebelo não desanima e continua a fazer planos. Olha para um par de rãs debaixo de uma bananeira, uma delas com um pequeno leque na mão, numa peça já danificada. "O molde das rãs está a desfazer-se completamente. Se não for impossível, será pelo menos muito difícil recuperar este par de rãs. Mas eu ainda não desisti de o pôr em pé."

Texto: Alexandra Prado Coelho
Foto: Pedro Cunha
in
Jornal Público | 13 de Janeiro de 2009

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Confiança na escola pública

Cristina Nobre é minha colega no Instituto Politécnico de Leiria, docente na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria, onde coordenou o Departamento de Línguas e Literaturas e a Secção de Português. Conheci-a, antes de nos encontramos no decurso de actividades pedagógicas por si coordenadas, através dos seus estudos sobre Afonso Lopes Vieira (que culminaram, em 2007, com a publicação de uma Fotobiografia daquele escritor). Sou leitor assíduo da crónica que mantém no Jornal de Leiria, uma janela sobre a vida e a educação, que elabora naquela linguagem clara e franca que frequentemente se julga ser apenas uma manifestação da natureza humana, em vez do resultado de uma aprendizagem e treino bem sucedidos.
Na sua crónica publicada a 8 de Janeiro,  Cristina Nobre relata a apreensão de um telemóvel ao seu filho, aluno do ensino básico, descrevendo o entendimento e reacções que então o episódio lhe suscitou. Não resisto a transcrever aqui parte desse relato:

Mas - e embora pessoalmente não concorde em absoluto com todas as regras da escola e ache até que algumas delas afundam ainda mais o fosso entre os tempos e as gerações (haverá alguma lei perfeita ou alguma democracia sem falhas?) – acredito que a escola é uma instituição fiável, em cuja autoridade confio, capaz de me ajudar e, tantas vezes, coadjuvar na espinhosa tarefa de educar os filhos nesta confusa época em que tudo muda mais depressa do que o nosso entendi-mento das coisas mais elementares.Para mim este episódio serviu para demonstrar que a escola procura acompanhar como pode os tempos que correm (uma maratona sem fim...), sem desistir nunca da sua função primeira, da razão da sua existência desde o princípio: educar para saber estar em comum.
Fá-lo, agora, de uma forma nem sempre consensual mas partilhada, envolvendo todos os intervenientes no processo e procurando ouvi-los e responsabilizar cada um deles pelas suas atitudes. Se, porventura (nunca se sabe...) eu tivesse que vir a participar na avaliação do professor-personagem desta situação, não hesitaria em dizer que ele exerceu num ponto alto a sua autoridade, mais do que isso, levou a cabo a sua quota parte na responsabilização imensa na difícil tarefa educativa, atrevendo-se ao despeito de um encarregado de educação menos compreensivo e sujeitando-se a expor a sua própria integridade a pessoas menos bem formadas (se ainda soubermos o que isso é).
Quem tirou o telemóvel ao meu filho (não apenas por isso, mas isto é uma parábola, entenda-se) deve, na minha frágil opinião, ser considerado um bom professor. Usei as metodologias da escola moderna. Fiz o inquérito final ao meu filho: e ele também avaliava o professor como um bom professor. Feitas bem as contas, ainda sabemos identificar claramente o que é um bom professor, uma boa escola, um bom pai, um bom filho.
Há outros conceitos bem mais confusos à nossa volta... 

Sentir o universo como uma magnólia, uma rosa ou um jasmim

[...] Anna de Noailles é hoje a maior tecedeira do lirismo francês. [...] Dir-se-ia que o livro precedente se desfez e foi necessário voltar a tecê-lo. Ana de Noailles é, literariamente, Penélope.
O último volume chama-se As forças eternas. [...] São quatrocentas páginas de poesia minuciosa. Chega até nós um livro repleto de flores, de astros, de abelhas, de nuvens, andorinhas e gazelas.
[...] A alma que nesta poesia se expressa não é espiritual: é, pelo contrário, a alma de um corpo que se diria vegetal.
Se tentarmos imaginar a alma de uma planta, não lhe poderemos atribuir ideias nem sentimentos: não haverá nela mais do que sensações, e mesmo estas, vagas, difusas, atmosféricas. A planta sentir-se-á bem sob um céu benigno, sob a mão branda de um vento suave; sentir-se-á mal debaixo de um temporal, açoitada pela neve inverniça. A voluptuosidade feminina é, talvez, de todas as impressões humanas, a que nos parece mais próxima da existência botânica.
Anna de Noailles sente o universo como uma magnólia, uma rosa ou um jasmim. Daí a sua prodigiosa sensibilidade para as mudanças atmosféricas, climas, estações. Não obstante a sua insistência amorosa, é revelador que o homem não apareça nunca desenhado no fundo aéreo desta poesia. Em contrapartida, intervêm os seres anónimos e difusos: o vento, a humanidade, o azul, o silêncio.
Le flot léger de l'air vient par ondes dansantes...
Não caberá esta ideia perfeitamente no coração de uma papoila?
E, noutro lugar:
Le vents légers ont ce matin
Cette odeur d'onde et de loitain
Qu'ont les vagues contre les rives.
De outra vez, fala do "secreto odor metálico do frio" e do "jovial odor da neve", ou reconhece no vento os aromas de que se foi carregando durante a sua viagem, como no vinho se sente o sabor do odre. Odores, sabores, contactos - são estas as suas paisagens. O enquadramento visual falta quase sempre: seria demasiado humano, demasiado "espiritual" para este génio vegetativo. É divinamente cega como uma camélia.
Uma vez classificada como planta sublime, não nos estranha que seja "rebelde ao Outono" e lhe dedique uma sincera afronta:
Je ne vous aime pas, saison mélancolique...
Trata-se de uma condessa eminentemente estival. Nas suas paisagens, tudo é Verão; ou, pelo menos, um Estio que se recorda da sua Primavera infantil ou assoma à vertente declinante do seu Outono. Nesta poesia não há Inverno. O que nela mais abunda é o céu resplandescente. Imaginamos a condessa com um gesto vago de crioula, sentada à varanda, sobre um jardim, bebedora de azul.
Certes, rien ne me plaît que tes étés, ô monde!
Magnólia, rosa, jasmim, delicia-se com a terra húmida, saboreia as brisas e estremece quando passa no canal, tremente, a água andarilha [...]

Ortega y Gasset, Estudos sobre o Amor. Lisboa, Relógio d'Água, 2002. p. 111-114

domingo, 11 de janeiro de 2009

Sermão das plantas

Quem analisará alguma vez a psicologia das plantas?
Só para responder à ansiosa e sempre fútil consulta dos namorados, a alcachofra, que à beira dos caminhos esconde o florido capítulo numa couraça guerreira de brácteas, é capaz de reflorescer com mais brilho depois de queimada à labareda da fogueira de S. João.
Com imprevista sensibilidade, das flores de verbasco desprende-se a corola logo que colhemos a airosa espiga, ou a castigamos com uma pancada mais rude. A flor triste e desprezada da roselha ou do sargaço, ou da nívea rosa brava, depois de colhida deixa cair, agonizante, as pétalas, e quando julgamos segurar entre os dedos, latejando, uma vida, temos nas mãos, lugubremente, um cadáver.
Mas nem todas as plantas possuem a graciosidade que nos comove, a cor que nos encanta, a fragrância que nos enleva, ou se envolvem num mistério que nos intriga.
As gramínias, por exemplo, só nos causam desapontamento. São seres recatados, que desprezam os recursos infinitos do baton e do rouge, que desdenham o perfume, e cuja vida sentimental parece reger-se por álgido puritanismo. Certas plantas, da tribu das Hordeas (o trigo, o centeio, a cevada), hirtas e orgulhosas como velhas misses, desprovidas de graça, tornariam a seara esteticamente insuportável se a Natureza, amante dos contrastes, não houvesse ali colocado a álacre papoila, a transbordar de sensualidade e de vida, e que dir-se-ia uma gargalhada juvenil, irreverente e saudável de uma alegre camponesa num comício de sufragistas. E atrevo-me a supor que sem a presença dos atrevidos pampilhos, jamais a seara ondearia ao vento com a graça lânguida que é o segredo do mar.
Há plantas às quais a Natureza impôs rudes provações, e que, triunfando na adversidade, nelas vibra com mais ardor o anseio de viver. Foi-lhes recusada a campina ubertosa, rica de húmus fecundo, e onde em plena canícula vicejam verduras tenras; está-lhes vedada a margem dos regatos, o encanto de ouvir a alegre canção da água; não usufruem o regalo do vale umbroso, ou a paz idílica e acolhedora de uma quebrada.
O seu solar é a charneca triste e rude, batida no inverno pela nortada agreste, ou calcinada impiedosamente no estio pelo sol ardente; é o outeiro predegoso, seco, ingrato; o cerro alcantilado; ou então a areia fulva e sáfara que o vento arrasta brincando em rodopios de loucura.
O alecrim, a alfazema, o rosmaninho, o ourégão, o tomilho e tantas outras labiadas, cuja vida é um sombrio rosário de misérias e de renúncias, constituem enternecedor exemplo de resignação e de humildade. Mas são tão graciosas e aromáticas, e delas emana tal encantamento que as abelhas, pressurosas, abandonam as nossas flores mais belas, e avidamente beijam as pequeninas corolas, os longos e perfumados lábios que se lhes oferecem, trémulos e sôfregos. [...]

Joaquim Vieira Natividade, Jornada a um Mundo de Beleza Eterna. Edição facsimilada, Alcobaça, 2000 [1ª edição: 1948].


Fotografia de Rosa Nunes (cujo album pode ser visto aqui)

sábado, 10 de janeiro de 2009

Sã Miguel (III): Natália

Auto-Retrato

Espáduas brancas palpitantes
asas no exílio de um corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o combóio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

"Poemas", 1955. In Natália Correia, Poesia Completa. O Sol nas Noites e o Luar nos Dias. Com um Prefácio da Autora. 3ª edição. Lisboa, D. Quixote, 2007. p. 72.

Bual: Retrato Imaginário de Natália Correia (1983).
Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (foto JBS)

Natalia Correia nasceu em São Miguel, em 1923. Morreu em Lisboa aos 70 anos.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Love Stream

Passagem pela Galeria Fonseca Macedo, a caminho da Biblioteca Publica e Arquivo Regional de Ponta Delgada, onde ontem me apercebi que foi inaugurada uma exposição de fotografia.
Os trabalhos são de Sandra Rocha, fotógrafa nascida na Terceira em 1974, membro do colectivo Kameraphoto, com exposições anteriores e prémios.
Sandra Rocha tem realizado, entre outros, projectos nas ilhas  da Macaronésia. Um deles, patrocinado pelo Instituto Açoriano de Cultura, pode ser visto aqui.
"Love Stream" é o título desta exposição que tem um fio antológico.

Sã Miguel (II): Marga

[...] Anos depois encontrei Vitorino no lançamento de um livro de Ana Maria Botelho. Conversámos imenso e ficou combinado ele ir a minha casa. A convivência tornou-se assídua, e um dia, sem saber a razão, encontrei-me nos braços dele.
[...] Não descrevo o Vitorino como poeta, escritor e grande intelectual, porque todo o mundo já se pronunciou nesse sentido e conhece a sua obra. Vitorino, o meu Vitorino, não é esse, mas sim o boémio, o humano, o sociável, o apaixonado, o bom amante. Um dos seus divertimentos era tocar as belas canções da Terceira, as célebres canções do José da Lata.
Vitorino não gostava da minha casa da Fajã de Baixo. Achava-a grande de mais, género palacete, mas adorava o jardim onde abundavam espécies exóticas. O que ele desejava era que eu vivesse numa casita pequena, com porta e duas janelas. E via-me a viver nessa poética fantasia.
[...] Surgiu o momento em que, em Lisboa, resolveram fazer uma reportagem sobre Vitorino Nemésio, mas na sua ilha Terceira. Ora, nessa altura estávamos os dois em S. Miguel, quando fomos informados que nos devíamos deslocar à Terceira. Assim foi.
[...] Acompanhei-o em vários acontecimentos, tais como na visita a uma casa solarenga que tinha pertencido a alguém ligado à sua família e a um almoço em casa dum senhor (de forma alguma me lembro do nome), uma casa de campo adorável e com um jardim cheio de flores.
Esse almoço, não posso nunca esquecer, foi muito alegre. Cantaram-se as melhores canções da Terceira, acompanhadas à viola pelo Vitorino, que várias vezes se enganou, mas lá vinha em seu auxílo um amigo ou amiga que o ajudavam a retomar a velha toada.
Fui com o Vitorino visitar a sua propriedadezinha chamada Mão roxa, realmente um sítio de conto de fadas, devido à situação da casa. Para se chegar lá, subia-se uma grande escadaria de pedra, coberta de musgo, muito verde, ladeada de um lado e de outro de velhas faias e de incensos. Nessa altura não tive a noção de viver uma realidade. Tudo me parecia fora deste mundo e só ouvia a voz do Vitorino dizer-me: É para aqui que nós viremos viver!
[...] Ele tinha a paixão dos cartões-de-visita. Os cartões-de-visita que hoje uso foram mandados fazer por ele, e, realmente, são muito elegantes, assim como os outros, de brincadeira, que são adoráveis, como este que a seguir reproduzo, alusivo a nós e à Mão roxa:

Margarida Victória, Amores da Cadela "Pura". Confissões da Marquesa de Jácome Correia. Vol. II. Lisboa, Bertrand, 2004. p. 150-158.

Portas do mar

Nova frente marítima e portuária de Ponta Delgada. Projecto de Manuel Salgado.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sã Miguel (I): Vitorino


Oh Ilha de Sã Miguel, cotada nos livros dos ingleses
Que o alfarrabista (sebo em brasileiro) paga a conto de réis
E eu compro às vezes - sobretudo depois que o Gonçalves Rodrigues me mandou de Londres os dois volumes dos Buller:

Ilha assim anóbia e brochadamente célebre,
Pelos geysers, pelas lombas, por Antero de Quental:
Eu te... quê? Saúdo ou amo? Adopto ou fujo?
Depende.
Tenho as minhas razões para te ser grato e firme,
Por uma coisa siquer
Que me não deixe de te ir-me
É um nada de mulher:
Fala de samiguel, gravidade corisca,
Um não sei quê de bravio e "peloê" nas ventanilhas,
Disfarçado depois com alguma laca e cré:
Ilha que a verde e ocre se faz nos rolões enevoados,
No Espírito Santo abutroque e na cana verde do Senhor Santo Cristo, da fé,
Na Cordilheira Atlântica como um violoncelo em seu estojo (Oh vagalhões arcadas!),
Mas também imitante a um lobo do mar em sua câmara fojo:
Pelo mais - cheia de Medeiros, de Pachecos, de Bicudos, de Raposos,
Exportadora de criptoméria
E mãe da mulher séria que tirou a Santo Agostinho e a Rousseau
O exclusivo de dizer que se enganou
Na arte da vida.
E essa mulher pequenina tem nome de flor corrente,
Inflorescência cor-de-rosa:
Mas eu não quero ser escarnecido por gente
Caçadora de escândalo venusino,
E por isso lhe chamo flor de sândalo fino: mas o seu nome de vida,
Mal a agrida quem quiser,
Que eu não digo,
O amargurado, o malgridado nome dessa mulher,
Em Crotona e Antioquia santa de altar:
Para mim, mãe da minha última poesia
E do saber da dor e do mais que eu não sabia.
Vai-te deitar Malagrida (suponhamos),
Vai-te deitar!
Que eu lá vou ter, com a espada de Floripes a meio,
Não porque falte a outra,
Mas porque agora dormimos como irmãos
No berço da cama de holandilha,
Rezando juntos e ouvindo chover na Ilha,
Té alta madrugada.
"Te Deum laudamus" por esta castidade incrível,
Com lâmpada ao Senhor da Esponja com púrpura a sangue e fel.
É preciso que o saibas, Ilha de Sã Miguel!

Vitorino Nemésio,Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga. Obras Completas, vol. III. Lisboa. Imprensa Nacional, 2003. p188-189

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Luiz Pacheco

Luiz Pacheco (aqui numa fotografia junto ao Hospital Termal das Caldas da Rainha) morreu a 7 de Janeiro de 2008.
Nas Caldas, onde viveu alguns anos, ainda não conseguimos realizar a justificada evocação desses tempos.

De regresso a Lisboa, nos fins do século XVIII

William Beckford permaneceu em Alcobaça 8, 9 e 10 de Junho de 1794. A 11 encetou a viagem de regresso a Lisboa.
A comitiva saiu de Alcobaça em direcção à Pederneira, Nazaré, Alfeizerão, chegando às Caldas ao anoitecer. 
A descrição da vila e do seu hospital, por motivos que os leitores não precisam que sublinhe, tem merecido pouca atenção da parte dos historiadores locais.

A alguma distância vimos um castelo mouro, de grandes dimensões, que se elevava orgulhosamente num monte isolado; o seu nome também é grande: Alfeizerão. Este belo monumento, a quietude e os tons suaves do entardecer, o perfume das lupulinas, era tudo tão agradável que não podíamos deixar de lamentar a nossa chegada às Caldas ainda com luz suficiente para distinguir toda a sua fealdade: as suas casas insípidas e monótonas, com grosseiras persianas verdes e portadas que o vento poeirento fazia bater para lá e para cá; e as suas pesadas varandas, pintalgadas a ocre, e listradas aqui e ali a azul e vermelho, formando padrões dignos de Tombuctu ou Achanti.
A meu ver, toda esta famosa caldeira tinha um aspecto malsão e pouco atractivo. Quase em cada três ou quatro pessoas, encontra-se um apotecário cor de marmelo, ataviado como um cortesão a caminho da sala de audiências e transportando num pequeno saco de veludo uma série de instrumentos úteis, tão pomposo como um lorde chanceler. E em cada dez ou doze, encontra-se um doente reumático ou entrevado com os membros todos torcidos e a boca torta, levado a banhos numa cadeira. Quase não se podia dar um passo sem bater com a cabeça na volumosa peruca de um professor de medicina e sem ouvir o tremendo batuque da sua bengala de punho de ouro.

William Beckford, Op cit. p. 94.