A minha mãe conhecia o Dr. Mário dos bancos da ecola. Ficou confiante, apesar da delicadeza da cirurgia. Quando tudo terminou, pediu-me que encontrasse uma lembrança para testemunhar ao antigo companheiro escolar a sua gratidão. Informei-me sobre os gostos do médico e adquiri um exemplar encadernado de Poeta Militante de José Gomes Ferreira.
Meia dúzia de anos mais tarde, cruzar-me ia com o Dr. Mário Gonçalves em diversas jornadas do V Centenário da Fundação do Hospital e das Caldas e nas eleições autárquicas de Dezembro de 1985. Integrei, como independente, a lista do PS para a Assembleia Municipal das Caldas da Rainha, que ele próprio encabeçava. Foram eleitos três vogais por esta lista, sendo eu exactamente o terceiro. Durante quatro anos, sob a sua liderança informada e sólida, exercitei a dura tarefa de ser oposição combativa num órgão hegemonizado por uma larga maioria de um só partido. A minha admiração e a minha amizade pelo Dr. Mário Gonçalves consolidaram-se nesta particular circunstância.
Na primeira metade da década de 90 ajudou-me a construir a associação Património Histórico-Grupo de Estudos. O Conselho de Administração do Centro Hospitalar, a que presidia desde 1974, cedeu sede e apoios logísticos, patrocinou edições e ajudou a encontrar mecenatos. Também me acompanhou em diversas diligências para a instalação da Escola Superior de Artes e Design (entre 1989 e 1990) e foi com ele que se estabeleceu o acordo que permitiu que a ESAD ocupe hoje instalações que estavam afectas ao Centro Hospitalar e onde se localizava o Hospital de Santo Isidoro. Por meu turno, fui seu vice-presidente na Direcção da Casa da Cultura, colaborei activamente na coordenação científica do projecto que levaria à criação do Museu do Hospital e das Caldas inaugurado em 1999 e integrei uma pequena equipa que constituiu para formular um projecto de reconversão dos Pavilhões do Parque e anexos numa unidade hoteleira e clínica termal a concessionar a privados. Em 1995 pedi-lhe que aceitasse presidir à Comisssão de Honra municipal da candidatura presidencial de Jorge Sampaio, de que eu era mandatário. Foi um enorme prazer organizar com ele nas Caldas da Rainha essa memorável campanha (Novembro de 1995 a Janeiro de 1996).
As ocasiões em que a mútua solidariedade foi testada e reforçada, a partir de então, não cessaram. Recordo-me particularmente de dois momentos delicados: o encerramento do Hospital Termal em razão da detecção de uma contaminação bacteriológica e a reorganização dos serviços de saúde implicando uma nova inserção territorial do Centro Hospitalar caldense.
Em 18 de Junho de 1999, por ocasião da sua aposentação, um grupo de cidadãos, de que fiz parte, organizou uma festa para testemunhar a gratidão "por uma vida à vida inteiramente dedicada". O escultor José Aurélio elaborou uma peça alusiva. A associação Património Histórico editou um livro com depoimentos, curriculum e fotografias do homenageado.
De 1999 a esta parte, prossegue sem desfalecimentos, a acção cívica: no Conselho da Cidade, nas associações de Amigos dos Museus, sugerindo, discutindo, organizando, liderando. É um privilégio para uma cidade contar assim com o empenho e a visão esclarecida de um homem experiente e sábio e a disponibilidade para participar na vida associativa de um militante de nobres causas.
Oportunissima a homenagem que hoje o Rotary Club das Caldas da Rainha prestou a Mário Gualdino Gonçalves. Motivo de regozijo para os seus amigos e admiradores.
Capa do Livro de Homenagem editado em 1999. Org. de Fátima V. Lino, F. Paulo Monteiro, J. B. Serra, J. A. Santos Silva, J. L. Almeida e Silva, Leonor Salvo, Orlando Santos, Óscar Ferreira, P. Pessoa de Carvalho, com apoio de Eduarda Maria Fernandes.[Exemplares disponíveis; pedidos a caldas.ph@gmail.com]

