terça-feira, 31 de Março de 2009

Na Bordalo Pinheiro

Lembrar-se-ão alguns do que aqui escrevi no dia 6 de Fevereiro, manifestando inteira confiança no Grupo empresarial que corria ter entrado em processo negocial com os accionistas da Fábrica de Faianças Bordalo Pinheiro. De facto conheço bem o Grupo Visabeira, criado nos anos 80 do século passado, e em especial o seu líder, o Engº Fernando Nunes. 
A cerimónia de hoje à tarde nas instalações da empresa nas Caldas da Rainha teve uma expressão afectiva que muito tempo perdurará na memória dos que estiveram presentes. Penso que essa dimensão calorosa só foi possível porque tanto a nova administração da Bordalo como o representante dos trabalhadores imprimiram ao acontecimento uma forte nota humana, sem deixarem de ser claros nos objectivos que se propuseram. A presença do Primeiro Ministro, o interesse que manifestou pela história da empresa, o cuidado que colocou no gestos e nas palavras e o entusiasmo que transmitiu aos responsáveis pela solução encontrada sublinhou o forte carácter simbólico desta transmissão de poderes.
O Ministro da Economia falou em "milagre". Claro que se trata de um milagre de humanos. De Fernando Nunes e de Vera Jardim, de Castro Guerra, de Manuel Pinho e de José Sócrates, de Carlos Elias e trabalhadores da Bordalo, de Fernando Costa, de Elsa Rebelo, de Isabel Xavier (PH-Caldas), de Joana Vasconcelos, Catarina Portas e Henrique Cayatte e um sem número de outros personagens anónimos que advogaram, persuadiram, encorajaram, facilitaram o encontro de soluções.
Um milagre, sobretudo, de um dos nomes mais emblemáticos da criação portuguesa, desse génio chamado Rafael Bordalo Pinheiro.
Em todos as esquinas da história da empresa que o trouxe às Caldas em 1883/1884, foi o seu nome que salvou a unidade produtiva e lhe garantiu a continuidade. Em 1891/92, quando o primeiro grupo de accionistas desertou e ele ficou sozinho à frente da Fábrica, em 1900 quando o seu nome susteve a cobrança de dívidas por parte dos bancos, em 1908 quando seu filho recuperou na justiça os modelos que criara, em 1924 quando inspirou um grupo de investidores caldenses a adquirirem a sociedade. E em Março de 2009 quando, uma noite em Viseu, o seu sorriso largo se intrometeu num jantar do Eng.º Fernando Nunes para o convencer em definitivo que a Bordalo Pinheiro precisava da sua visão de empresário e da sua generosidade de português do mundo.
Nota
Registei fotograficamente a visita de hoje à tarde. Mas a imagem com que me apetece ilustrá-la é a de uma fotografia que o Vasco Trancoso fez na Foz do Arelho no passado Domingo e que enviou. A paisagem luminosa que reteve é exactamente aquela que serviu de moldura ao almoço onde estive hoje com o Engº Fernando Nunes e os administradores das sub-holdings da Visabeira.

Lembro-me...

De o Pedro nascer há 25 anos.

Lembro-me...

Fascinado pelo livro de Georges Perec (1936-1982), Je me Souviens. Les Choses Comunnes, publicado em 1978, Juan Bonilla  abriu uma página com o mesmo título. Qualquer pessoa pode enviar-lhe o seu Je me souviens (lembro-me), para ser publicado.
Perec escreveu um livro com 480 entradas todas elas começadas por um Je me souviens. Trata-se de uma obra deliberadamente não literária, onde cada entrada remete para uma recordação concreta, do tipo "Lembro-me que o meu Tio tinha um CV11 com a matrícula 7070RL". Os 480 registos de memórias de Perec constituem - embora nem todos sejam facilmente identificáveis pelo leitor - uma narrativa sobre o seu tempo sustentada pela experiência retida pela memória.
Bonilla colecciona edições de Perec. Sucede que o editor acrescentara umas páginas em branco, convidando o leitor a somar as suas recordações às do autor. O próprio Bonilla não resistiu a esse convite e preencheu as páginas do primeiro exemplar que adquiriu, com anotações como  "Lembro-me do Skylab", ou "Lembro-me do macaco azul que foi a primeira prenda que dei ao meu sobrinho".  Num dos livros da sua colecção, o anterior proprietário escrevera: "Lembro-me que o meu primeiro cão que tive era cego e diabético", "lembro-me do som do mar pela noite dentro".
É provavelmente nesta capacidade de recordar que reside o essencial do espírito humano, o que nos distingue do não-humano. Os distúrbios de tal faculdade prenunciam em regra a perda de outras. A psicologia debruçou-se sobre os efeitos devastadores de lesões neurológicas que afectaram os centros coordenadores da memória em seres humanos.
Miriam Jimenez escreveu a 20 de Novembro de 2008 no Je me souviens de Juan Bonilla:
"Lembro-me da primeira vez que vi nevar"
Susana Panullo escreveu a 28 de Março de 2009:
"Lembro-me da manhã fria de seis de Janeiro quando saí de casa e no meu coração se tinha instalado uma profunda tristeza.
Lembro-me que quando saí de casa triste e sombria me dirigi ao cabeleireiro que estava fechado e logo percebi que era dia de Reis.
Lembro-me de quando fechaste a porta e saí e nunca mais te vi."

segunda-feira, 30 de Março de 2009

O vendedor de berbigão

Presença regular nas tardes de sextas-feiras do final do Verão, fazia-se anunciar pelo toque da corneta que precedia o ruído característico da carrocita puxada pelo burro. Vinha da Foz do Arelho, com o berbigão dentro de sacos de serapilheira, um alguidar de água salgada onde os bivalves eram mergulhados para não morrerem na longa viagem que o levava às aldeias do interior das Caldas e Bombarral.
Evoquei esta imagem da minha infância de há quase meio século numa crónica na Gazeta das Caldas, em seguida recolhida no livro Continuação. Crónicas dos anos 50/6o.
Hoje, na escola Grandela da Foz do Arelho, um dos presentes interpelou-me. 
- O Senhor é que é o escritor?
- Não, respondi eu, o escritor é aqui o Dr. Vasco Trancoso.
Mas o homem insistia.
- Não, este sei eu quem é. Não foi o Senhor que escreveu no jornal sobre um homem que vendia berbigão e tocava uma "gaitinha"?
- Sim, admiti, surpreendido, e o Senhor quem é?
- Pois olhe, eu sou o vendedor. E acrescentou: já não tenho a "gaitinha", porque a ofereci para o museu da Junta, mas o Senhor pode vê-la lá atrás.
Chama-se Salomão Quaresma, tem 87 anos. A "gaitinha" lá estava, como me disse, no Museu.

domingo, 29 de Março de 2009

Grandela e a Foz do Arelho

Lançamento na Foz do Arelho da 2ª edição revista de Grandela e a Foz do Arelho, da autoria de Vasco Trancoso, com uma interessante participação da população.
Passaram mais de 14 anos sobre a 1ª edição (que foi lembrada aqui), tal como esta patrocinada pela Junta de Freguesia da Foz, mas a obra, remoçada nos conteúdos e no grafismo, continua a desempenhar a função que a fez surgir: recordar a história de um visionário empreendedor que marcou a história do século XX na localidade, tanto nos projectos urbanísticos como na acção educativa.
Verifiquei, na cuidada intervenção do actual Presidente da Junta, que o conhecimento do papel da Grandela entre as novas gerações só foi possível graças ao esforço do Vasco Trancoso que coligiu paciente e generosamente os dados relativos à presença de Grandela na Foz, elaborando com eles uma clara e acessível narrativa, e da associação Património Histórico que com ele trabalhou na respectiva edição.
Parabéns ao Vasco Trancoso por mais este contributo para a história das Caldas da Rainha. Parabéns também à Isabel Xavier, presidente da associação PH, que se empenhou particularmente nesta 2ª edição, e apresentou a obra com referências pertinentes ao quadro ideológico e político do republicanismo em que Grandela se inspirou na sua obra em prol da instrução popular.

Hora do Planeta

3.929 cidades de 88 países aderiram à iniciativa de sensibilização relativa às alterações climáticas proposta pela organização ecologista WWF, de apagar as luzes durante uma hora.
Imagem do edifício da Opera de Sidney (Austrália), antes e depois do apagão.

Requiem por Pablo

sábado, 28 de Março de 2009

Sinais

Reportagem do NYT sobre os acampamentos ilegais de homeless em cidades americanas, a lembrar as favelas surgidas durante a Grande Depressão de 1929. Aqui, um grupo de tendas ao longo do American River, junto à baixa de Sacramento.

À janela de Duchamp

Marcel Duchamp
Fresh Widow, 1920/1964

Duchamp criou o original em 1920 em Nova Iorque. Em 1964, foi produzida esta réplica pela Galeria Schwarz de Milan, com supervisão de Duchamp. Esta terceira versão pertence ao Centre Pompidou e foi adquirida em 1986.

À janela de Duchamp

Marcel Duchamp
Moulin à café, 1911

- Na altura em que terminou o Nu descendant un escalier, realizou o Moulin à café, que antecipa os seus desenhos mecânicos.
- É muito mais importante para mim. As origens são simples. O meu irmão tinha uma cozinha na sua pequena casa de Puteaux e teve a ideia de decorá-la com quadros dos amigos. Pediu a Gleizes, Metzinger, La Fresnaye e também, suponho, a Léger, que fizessem pequenas pinturas, da mesma dimensão. como uma espécie de friso. Pediu-me também e executei um moinho de café que fiz explodir; o pó cai ao lado, as engrenagens estão em cima e a manivela é vista simultaneamente em diversos pontos do seu circuito, com uma seta para indicar o movimento. Sem saber, tinha aberto uma janela para alguma outra coisa.
Esta seta foi uma inovação que me agradou muito; o aspecto diagramático era interessante do ponto de vista estético.
- Ela não tinha uma significação simbólica?
- Nenhuma. A não ser a de introduzir na pintura meios um pouco diferentes. Era uma espécie de escape. Sempre senti essa necessidade de escapar...

Marcel Duchamp, Engenheiro do Tempo Perdido. Entrevistas com Pierre Cabanne. Lisboa, Assírio & Alvim, 2002. p. 47-48.

Nota:
Em resposta a um "Submarino Amarelo".

sexta-feira, 27 de Março de 2009

Fenetres ouvertes simultanément


Robert Delaunay
Fenêtres simultanées [2e motif, 1re partie]), 1912

Fenêtres ouvertes simultanément (1ère partie 3ème motif)

quinta-feira, 26 de Março de 2009

Ventura Terra

Excelente exposição sobre a obra de Ventura Terra (1866-1919) organizada pela Assembleia da República para assinalar a inauguração das obras da sala das sessões.
Arquitecto do ecletismo, deixou trabalhos em Lisboa, Funchal, Esposende, Caminha, Porto, Gaia, Salvaterra de Magos, Coimbra. Cascais, Viana do Castelo.
Em 1895, um fogo destruiu parcialmente o edifício do parlamento, atingindo em especial a sala das sessões. Ventura Terra ganhou o concurso público da reconstrução. Esta obra ficou concluída em Janeiro de 1903.
Ventura Terra não escondia as suas preferências pela República. Do espólio do arquitecto, patente na actual exposição, figura uma carta datada de 21 de Agosto de 1910, na qual o arquitecto se dirige ao irmão, no Brasil, nos seguintes termos:

"Caríssimo mano António
Caríssimo compadre
Caríssimo amigo
Cidadão!
Saúde e República é o que do coração te desejo, em companhia de todo esse nosso povo"

quarta-feira, 25 de Março de 2009

Centro Mário Dionísio

Gerir a crise

Compreende-se que gerir a crise seja a tarefa prioritária de quem tem responsabilidades. A extensão dos problemas e o seu ritmo são avassaladores. O tempo outrora reclamado pelos aspectos formais e metodológicos parece agora sempre excessivo e talvez inútil. As grandes questões, as de que depende a confiança e coesão, pedem uma atenção e uma capacidade de decisão que parecem ficar sempre aquém do desejável.
Gerir a crise não se confina porém ao horizonte mais imediato. Exige que se ouse projectar alguma coisa sobre o futuro. Os sacrifícios actuais valem também pelo que pudermos criar de novo, ultrapassando compromissos e vias que se esgotaram.

terça-feira, 24 de Março de 2009

Ministério da Cultura

Vale a pena visitar o sítio do Ministério da Cultura do Brasil, agora confiado a Juca Ferreira. Particularmente interessante a informação relativa à revisão da lei Rouanet, actualmente em consulta pública. Acções contra a burocratização e contra o dirigismo cultural surgem aí a par de medidas de apoio aos consumidores/utentes, como a de atribuir aos trabalhadores mais pobres um vale de 16 euros mensais para gastos em teatro, cinema e livros.

À janela


Miguel Torga e Andrée Crabbé Rocha à janela do consultório do Dr. Adolfo Rocha, em Coimbra, 1991.

segunda-feira, 23 de Março de 2009

Maitre de ballet


Marc Ghagall termina a tela para o novo tecto da Ópera de Paris (1964).

Escolhemos esse sacrifício

O acaso objectivo, tal como Breton o expõe, apresenta-se como outra explicação do enigma da atracção amorosa. Como as restantes - a bebida mágica, a influência dos astros ou as tendências infantis da psicanálise - deixa intacto o outro mistério, o fundamental: a conjunção entre destino e liberdade. Acidente ou destino, acaso ou predestinação, para que a relação se realize precisa da cumplicidade da nossa vontade. O amor, qualquer amor, implica um sacrifício; contudo, sabendo isto, escolhemos sem pestanejar esse sacrifício. Este é o mistério da liberdade, como admiravelmente o viram os trágicos gregos, os teólogos cristãos e Shakespeare. Também Dante e Cavalcanti pensavam que o amor era um acidente que, graças à nossa liberdade, se transformava numa escolha. Cavalcanti dizia: o amor não é a virtude mas, nascido da perfeição (da pessoa amada), é o que a torna possível. Devo acrescentar que a virtude, seja qual for o sentido que dermos a essa palavra, é primeiro que tudo e sobretudo um acto livre. Em suma, para dizê-lo usando uma enérgica expressão popular: o amor é a liberdade em pessoa. A liberdade encarnada num corpo e numa alma...

Octávio Paz, "O Astro da Alvorada", in A Chama Dupla. Lisboa, Assirio & Alvim, 1995. p.105-106.

domingo, 22 de Março de 2009

Vem aí o bloco?

Reduzi drasticamente o peso da leitura de fim de semana. A versão digital da imprensa ocupa agora o lugar dominante, o que me torna mais selectivo. Apenas um ou outro semanário/revista exerce direitos antigos. Alguns blogues são de passagem obrigatória.
A política, assim filtrada, aparece aqui como coisa cada vez mais distante. Percebe-se o esforço concentrado no fim de semana do jornalismo para empolar um debate, afinal sem grande vivacidade. De Alegre a Manuela Ferreira Leite, de Paulo Portas a Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, o que resta é cansaço e aqui e ali sinais de conformismo.
Vem aí o bloco. Central, claro. Estão todos à espera dele.
Menos José Sócrates, aparentemente.

sexta-feira, 20 de Março de 2009

Leiria sob fogo

[Vista geral sobre o Rossio de Leiria. Versão a sépia segundo desenho de George Vivian litografado por Louis Hague para o livro Scenary of Portugal & Spain, publicado em Londres em 1839]

A aplicação da estratégia da "terra queimada" pelos exércitos franceses durante as invasões peninsulares de 1808 a 1810 teve uma particular incidência em Leiria. É da devastação geral a que a cidade foi sujeita no período que trata a excelente obra de Jorge Estrela agora publicado (Jorge Estrela, Leiria no Tempo das Invasões Francesas. Lisboa, Gradiva, 2009). 
O autor trabalhou um vasto conjunto de imagens do período permitindo-lhe reconstituir na história urbana de Leiria os impactos profundos daquele período. Fazem ainda parte das informações deste livro referências a momentos da guerra na região da Estremadura e de algumas das localidades da região (Óbidos, Pombal, Ourém, Nazaré, Alcobaça, Porto de Mós. Batalha, por exemplo).
O historiador Jorge Estrela, um especialista da história da pintura europeia, é actualmente director da Casa Museu - Centro Cultural João Soares, das Cortes. Esta obra é o resultado da investigação efectuada para uma exposição que esteve patente naquela Casa Museu no Verão de 2008.

[Óbidos. Versão a cores de um desenho de Alexandre-Jean Noel datado de 1780]

quinta-feira, 19 de Março de 2009

Controlo da água

O Sindicato Central de Regantes do Aqueduto Tejo-Segura, que convocou uma manifestação para ontem em Múrcia, estima que aderiu meio milhão de pessoas.
Todos os partidos políticos da região se fizeram representar.
Em causa o controlo do transvase do Tejo por parte de Castilla-LaMancha, contestado pela Comunidade Valenciana.
Apelou-se à solidariedade regional, a um Pacto Nacional sobre a Água. 

Volta, António

As declarações de Bento XVI condenando o uso do preservativo vão ao arrepio dos esforços de inúmeras organizações humanitárias que, com o apoio da Igreja, se aplicam na contenção do HIV/SIDA no continente africano.
A 5 de Dezembro de 1992, uma caricatura de António, publicada no Expresso originou uma extensa polémica, cujos contornos podem ser recordados aqui.

quarta-feira, 18 de Março de 2009

Gravar por cima

Gravar por cima é um repositório de documentos que conservei. Concentra-se num tempo anterior aos anos 80 e abrange imagens, recortes e papéis, manuscritos ou impressos.
Eduarda Maria ajudou-me a organizar parte desta documentação. Será, depois de concluída essa tarefa, incluída em Arquivo com estrutura apropriada e âmbito adequado.
José Pacheco Pereira já aceitou recebê-lo em depósito.

Pendente deste muro da Calçada da Graça

Poema da buganvília

Algum dia o poema será a buganvília
pendente deste muro da Calçada da Graça.
Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego, a família,
e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.

Mas antes desse dia há-de secar a buganvília
e o varredor há-de levar as flores secas para o monturo.
Depois cairá o muro.
E como o tempo passa
mesmo contra vontade,
também há-de acabar a Calçada da Graça
e o resto da cidade.

Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso
que é o mais leve de tudo o que se pode supor,
será esse o momento de o poema ser flor,
mas já não é preciso.

António Gedeão, Poemas Escolhidos. Lisboa, Edições Sá da Costa, 1997. p. 68-69.

terça-feira, 17 de Março de 2009

Direitos Humanos

Anualmente, o Conselho da Europa distingue duas personalidades que se tenham destacado pelo seu trabalho em favor dos direitos humanos.
No ano passado, esse prémio foi atribuído a Simone Weil e a Kofi Annan. Este ano a Rania Al Abdullah (Rainha da Jordânia) e a Jorge Sampaio (Enviado Especial do Secretário Geral das Nações Unidas para a Luta contra a Tuberculose e Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações).
Se há constante na vida pública de Jorge Sampaio, desde os seu tempos de estudante da Faculdade de Direito de Lisboa, é a defesa dos direitos humanos.

Espírito do lugar

É talvez o sentido que tem esta procura da história e da memória: surpreender o espírito do lugar.
É talvez o sentido afinal da própria vida: a procura de um lugar onde espalhar as nossas cinzas.

segunda-feira, 16 de Março de 2009

Espírito de "blogger"?

Continuamos tão diferentes como é da natureza humana, com histórias de vida ocasionalmente cruzadas e dificilmente poderíamos ser considerados um grupo homogéneo. Partilhamos no entanto um rito diário: abrir um blogue, à procura de "novidades", um episódio bem contado, uma recordação divertida, uma fotografia desenterrada do passado. Eventualmente contribuir para essa corrente de memória com um pequeno texto, um comentário uma imagem.
Há um espírito ERO (Externato Ramalho Ortigão), como existem "espíritos de lugar"? Não estou certo disso. Mas parece existir um "espírito" do blogue e foi em resposta ao seu apelo que meia centena de pessoas se encontrou no sábado.

domingo, 15 de Março de 2009

V Exposição: Caldas, 1927




















Vª Exposição Agrícola, Pecuária e Industrial das Caldas da Rainha, 1927.
Fotos de Mário Novais.
Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian.
Concepção da Exposição: Paulino Montês (Arquitecto)

sábado, 14 de Março de 2009

FS esta Sexta na "Molde"

João
Vou-te enviar algumas fotografias desta Sexta na “Molde”. Mano a atacar nelas, nas peças, à "facada" (dito por ele, eu tinha dito intervenção cirúrgica), mas também com muitas festas pelo meio (nelas, nas peças).
O mesmo espanto, o meu, de o ver há anos a desenhar com caneta os desenhos da “Leda e do Cisne”, sem praticamente levantar o aparo, e aqui a mesma precisão de corte, sem hesitações (mas com excitações), aplicando os fragmentos excedentários como adereços femininos, todas as mulheres de olhos muitos espantados e pestanudos. São máscaras também, convidam-nos a espreitar, ou será que são elas que nos espreitam?
Aqui é como que uma pega de caras, olha-se de frente o bicho e vá de agarrá-lo pelos cornos, salvo seja.
Muito ele queria que tu lá fosses ver as novas peças, por isso liguei, não fosses tu andares por aí sem nada para fazer...
São ao todo 29 peças, com três moldes distintos por base. Hoje durante a manhã "atacou" e terminou 3, as últimas. Agora aguardam secadura para não estalarem na cozedura.
Ferreira da Silva, ao rever as fotografias de Monsaraz recordou aquele momento feliz e repetia várias vezes: o que eu gostei quando os vi chegar. Os "os" erámos nós! Apetecia-lhe voltar a trabalhar no “Velhinho”, para agora, a par da produção fabril (molde de base) haver a intervenção novamente do oleiro.
Gostei de ver o Sr. Almerindo, “ajudante de campo” do Ferreira da Silva, todo contente com a colaboração. E vendo que eu fotografava tudo o que mexia e não mexia, já no fim sugeriu-me que fotografasse os moldes abertos.
A cabeça de FS não pára. Fomos falando de arte, da cerâmica na arte, do Barceló de que ambos gostamos, da escala e de música.
Almoçámos borrego a lembrar paladares alentejanos.
Deixa-me que te diga que as condições de luz eram tão boas, uma luz coada, que por momentos pensei que estaria no Estúdio Relvas, só com a diferença do décor.
Bjs.
Margarida

sexta-feira, 13 de Março de 2009

"As águas cingiam-me até à alma"

Aquilo que imediatamente nos chama atenção é a sua singularidade no conjunto dos textos proféticos. Esta obra breve, a única que foi escrita na terceira pessoa, é a mais dramática história de solidão de toda Bíblia e, no entanto, é contada como que do exterior dessa solidão - como se, ao mergulhar no negrume dessa solidão, o "eu" se tivesse perdido de si mesmo. Portanto, o "eu" só pode falar de si mesmo como um outro. Como na frase de Rimbaud: "je est un autre".
Jonas não se mostra apenas relutante em falar (como Jeremias, por exemplo). Não, Jonas recusa-se mesmo a falar. "Agora a palavra do Senhor foi dirigida a Jonas (...) Mas Jonas levantou-se e fugiu da face do Senhor".
Jonas foge. Paga a sua passagem e embarca num navio. Rebenta uma tempestade terrível, de tal forma que os marinheiros temem que o navio naufrague. Todos pedem aos seus deuses que os poupem. Jonas, pelo contrário, "tinha descido ao porão e, deitando-se ali, dormia profundamente". O sono, portanto, como retirada absoluta do mundo. Sono como uma imagem de solidão. Oblomov enroscado no seu divã, regressando pelo sonho ao útero da mãe. Jonas no ventre da baleia.
O comandante do navio encontra então Jonas e diz-lhe que reze ao seu Deus. Entretanto, os marinheiros deitam sortes para ver quem será o responsável pela tempestade: "...e a sorte caiu sobre Jonas".
"E então ele disse-lhes: 'Pegai em mim e lançai-me ao mar e o mar se acalmará porque sei que foi por minha causa que vos sobreveio esta tempestade.'
"No entanto, os homens remavam para ver se conseguiam ganhar a terra, mas em vão, pois o mar cada vez se embravecia mais contra eles" (...).
"E foi assim que pegaram em Jonas e o lançaram ao mar e a fúria do mar acalmou-se".
Não obstante a mitologia popular em torno da baleia, o grande peixe que engole Jonas não é de modo algum um agente de destruição. É o peixe que o salva de morrer afogado. "As águas cingiam-me até à alma, o abismo cerrava-se à minha volta, as algas pegavam-se à minha cabeça".

Paul Auster, Inventar a Solidão. Porto, Asa, 2004. p. 141

quinta-feira, 12 de Março de 2009

João Martins Pereira

Adquiri o livro As voltas que o capitalismo (não) deu de João Martins Pereira, das Edições Combate, uma recolha de textos publicadas naquele jornal dirigido por Francisco Louçã. Datam de 1989 a 1992.
João Martins Pereira, que faleceu em Novembro passado, foi um dos intelectuais portugueses que mais influenciou as correntes críticas da esquerda depois de 1969. A sua obra Pensar Portugal Hoje, publicada em 1971, foi um marco. Ali se recolhiam artigos escritos para a revista O Tempo e o Modo, a cuja 2ª série esteve associado. Num deles procedia João Martins Pereira à identificação das condições em que o capitalismo português fazia o caminho da aproximação europeia, apontando as contradições e impasses a que estava sujeito. Havia um rigor que não sacrificava inquietação, uma capacidade de análise invulgar que não se enquadrava nas ortodoxias dominantes e se afastava das vulgatas marxistas.
Conheci-o pessoalmente mais tarde, na Gazeta da Semana e na Gazeta do Mês, duas publicações que se singularizaram não apenas pela competência dos jornalistas que nelas colaboraram (Jorge Almeida Fernandes, Adelino Gomes, Joaquim Furtado, por exemplo), como pela inovação do design e da ilustração (João Botelho, Zé D'Almeida). Na Gazeta da Semana (1976) tive uma colaboração regular, com Eduarda Dionísio, abordando temas de política de ensino e de política sindical. Na Gazeta do Mês (1980) publiquei um ensaio sobre "Política e a História", em conjunto com José Manuel Sobral.
Entre os diversos livros de João Martins Pereira destaco principalmente O Dito e o Feito. Cadernos, 1984-1987, Lisboa, Salamandra, 1989, um texto de rara finura que se tece da reflexão diarística sobre a vida, as ideias, as pessoas e as cidades.

Só...

Só o ser amado realiza em mim a totalidade do meu desejo do mundo: não só o desejo por ele próprio, ser amado, mas o do meu corpo por mil corpos, o do meu ser por mil seres, com que cada dia fugazmente me cruzo. Só a densidade da relação amorosa, só as misteriosas afinidades electivas, permitem cumprir em recíproco êxtase o que nunca passou de virtualidade, de fantasma - ou de efémera mutilação.

João Martins Pereira, O Dito e o Feito. Cadernos, 1984-1987. Lisboa, Salamandra, 1989. p. 65.

Onde não andei






Dancing House
Praga
Republica Checa

Frank Gehry 1996

The site of Gehry's Dancing House was originally occupied by a house in the Neo-renaissance style from the end of the 19th century. That house was destroyed during bombing in 1945, its remains finally removed in 1960. The neighboring house (with a small globe on the roof) was co-owned by Czech ex-president Vaclav Havel, who lived there from his childhood until the mid-1990s. He ordered the first architectural study from Vlado Milunic (who has been involved in re-building Havel's appartment in the neighboring house). Afterwards the Dutch bank ING agreed to build a house there, and asked Milunic to invite a world-renowned architect. Milunic first asked Jean Nouvel, who rejected the invitation because of the small size of the site (491 square meters); he then asked Frank Gehry, who and he accepted the challenge. Gehry had an almost unlimited budget, because ING wanted to create an icon in Prague. The construction started in 1994 and the house was finished in 1996.

Its unusual shape and technical solutions caused a big public debate. After ten years emotions are over, and the house has its place in modern Prague.

quarta-feira, 11 de Março de 2009

"Arqueologia". 1969


"Arqueologia": exumação de papéis e documentos do meu arquivo pessoal.

Diário de Lisboa, 14 de Novembro de 1969. Diálogo entre João Serra e Isabel Maria Sena, na altura a viver nos Estados Unidos com os pais (Jorge e Mécia Sena) sobre a universidade e os universitários nos dois países. A iniciativa pertenceu ao escritor José Fernandes Fafe (hoje embaixador aposentado) que conhecia a família do escritor Jorge de Sena.

terça-feira, 10 de Março de 2009

Uma Casa de Memórias

É o título da história da Sociedade Portuguesa de Autores editada em 2006 e que o autor teve a gentileza de me enviar. Vitor Wladimiro Ferreira, que conheci na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, quando por ali passámos como docentes nos princípios da década de 80, é um especialista de história da cultura portuguesa contemporânea. 
Conhecedor profundo da literatura e do jornalismo oitocentistas, o Vítor é um homem de múltiplos saberes, das artes plásticas à gastronomia, do teatro à enologia. Prefaciou e anotou (espero que não me fiquem a faltar muitos autores) reedições de obras de Bulhão Pato, Ceferino Carrera, Teixeira Gomes, Luis Augusto Palmeirim e o "nosso" Júlio César Machado. Escreve com camiliana graça, numa prosa enleante recheada de saborosas pistas e citações. Às vezes um pouco amargo, suaviza a crítica com ironia queirosiana ou chiste bordaliano.
Uma Casa de Memórias é um livro competente que regista, com recurso a diferentes fontes, algumas das quais particulares, a história da instituição que defende os nossos direitos enquanto autores. 
É bem certo que quase se ia "esquecendo" de o fazer no caso do livro do Vitor Wladimiro, mas o autor recorreu àquela prestimosa instituição para acautelar o seus direitos e foi bem sucedido. A SPA defendeu-o da SPA. No exemplar que me chegou às mãos, Uma Casa das Memórias tem o autor referido na sobrecapa e num autocolante aposto manualmente na ficha técnica da edição. 

segunda-feira, 9 de Março de 2009

Aliança das Civilizações


O Presidente Barack Obama confirmou que estará presente na 2ª reunião do Forum da Aliança das Civilizações em Istambul (6 e 7 de Abril próximos).
A nova administração americana cauciona deste modo a iniciativa de que Jorge Sampaio é o primeiro responsável, enquanto Alto Representante das Nações Unidas para esta organização a que já aderiram mais de 90 membros.
Uma boa notícia para o ex-Presidente no dia em que passam três anos em que deixou o Palácio de Belém.

Voo das águias

Fizeram-se adoptar pela encosta da Gaeiras. Sobrevoam pela manhã ou ao fim da tarde as imediações da A8, fronteira a Óbidos. Durante anos, acompanhei o crescimento e multiplicação do casal, trocando mensagens com quem conhece hábitos e características desta espécie. Nos últimos meses deixei da as ver. Culpa minha certamente, que não tenho passado perto da sua morada nos tempos certos. Mas ontem deixaram-me que as surpreendesse pairando sobre o vale, deslizando pela brisa fresca do oeste. Saudei-as, regressado, cúmplice.

domingo, 8 de Março de 2009

Ciclo da água

Angélique Ionatos. "La poésie c'est comme les rêves, personne ne vieillit jamais." 

sábado, 7 de Março de 2009

Ephemera

Desde muito novo que José Pacheco Pereira adquire e organiza uma vasta documentação. Começou por ter origem na família e nas suas próprias deambulações, contactos e investigações. Estas viriam, nas ultimas décadas, a originar uma vasta incorporação de materiais, por compra e doação. O conjunto forma hoje um dos maiores arquivos privados portugueses.
José Pacheco Pereira criou agora o blogue Ephemera onde procede à divulgação destes documentos. E anuncia a intenção de "a prazo, tornar disponível a todos este acervo".

Tempo de quem colhe

Hans Christiansen, L'Heure du Berger, 1898 (Litografia)

sexta-feira, 6 de Março de 2009

Viva a República!

Uma página de história política contemporânea: 10 de Março de 1976, a Assembleia Constituinte delibera sobre o nome que terá na Constituição da República o Parlamento.

O Sr. Presidente: - O Sr. Deputado Mota Pinto tenha a bondade.
O Sr. Mota Pinto (INDEP.): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Apesar de o meu amigo e colega Jorge Miranda já ter dito que perdemos muito tempo com esta questão, eu sinto-me também no direito de emitir uma opinião a este respeito.
[...] Eu creio que poderíamos chamar à Assembleia Legislativa, pura e simplesmente, Assembleia da República. Assembleia da República, porque é o órgão colegial que exprime e traduz a República.
Há o Presidente da República, uma figura singular, que encabeça e simboliza, portanto, o Estado. E há um órgão colegial que exprime, que é o representante do povo português. Creio que esta expressão que está em paralelismo com a designação «Presidente da República», põe em relevo o carácter colegial, reabilita e dá o devido valor a uma fórmula: a palavra «República», que na história das ideias, que na história das formas de Estado, tem um conteúdo progressista, tem um conteúdo democrático, é sinónimo de democracia em todas as dimensões que a democracia pode exprimir. Por esse motivo, e sem atribuir a este problema nenhuma importância especial, eu sugeriria a fórmula «Assembleia da República».
O Sr. Presidente: - Um pedido de esclarecimento do Sr. Deputado Jorge Miranda.
O Sr. Jorge Miranda (PPD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Um pedido de esclarecimento.
Por sinal, já há pouco o Sr. Deputado José Luís Nunes, tinha sugerido, em conversa informal, o termo «Assembleia da República», e por isso eu estou muito satisfeito por haver essa concordância dos bons espíritos que são o Deputado Mota Pinto e o Deputado José Luís Nunes.
[...] Mas queria perguntar se ele não se terá inspirado na expressão «Congresso da República», da Constituição de 1911. Pela minha parte, e em meu nome pessoal, seria mais uma homenagem que esta II República democrática portuguesa prestaria aos homens da I República.
O Sr. Presidente: - Sr. Deputado Mota Pinto, diga da sua inspiração.
O Sr. Mota Pinto (INDEP.): - Sr. Presidente: Eu creio que este pedido de esclarecimento é um pedido de perscrutação dos motivos subconscientes que me levaram a propor esta fórmula. [...] Acho que a palavra «República» exprime alguma coisa na história das ideias e dos sistemas de Governo, que comporta potencialidades no domínio político, no domínio social e no domínio económico correspondentes a uma sociedade democrática em todos os seus desenvolvimentos. Só por isso.
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado José Luís Nunes.
O Sr. José Luís Nunes (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Valha a verdade que diga que a expressão «Assembleia da República» me foi sugerida pelo meu colega e camarada Carlos Candal, depois de ter ouvido uma série de Deputados do grupo parlamentar.
[...] Dito isto, Sr. Presidente, Srs. Deputados, nós damos a nossa adesão à designação de Assembleia da República.
Mas gostava de dizer uma coisa, a finalizar. É que esta discussão, ao contrário do que se pensa, de forma nenhuma foi uma discussão estéril. Os símbolos e as designações dos órgãos têm um aspecto emocional de tal ordem importante que, em 5 de Outubro de 1910, os homens da República, embora continuando a tradição liberal dos homens do passado que fundaram a Nação, substituíram a bandeira azul e branca pela bandeira verde-vermelha. Bandeira hoje que é nossa e que orgulhosamente arvoramos. Portanto, ao fazermos, ou ao chamarmos à assembleia representativa do povo português Assembleia da República, nós, de certa maneira, reafirmamos a vinculação eterna e para sempre do nosso destino aos ideais nobres de justiça e fraternidade do 5 de Outubro de 1910 e aos homens eminentes que os incarnaram.
O Sr. Presidente: - E até, se me permitem, vai-nos proporcionar - desculpem esta intervenção um bocadinho atrevida - que nos nossos comícios do futuro se dêem vivas à República, que é uma coisa que nunca ouvi. Não se dão vivas à República. Dá-se vivas à Revolução, vivas a Portugal - raríssimas vezes; que me recorde, nem tenho lembrança de nenhuma vez em que se tenha dado vivas à República em comícios.
Mas parece que continua em discussão.
[...] O Sr. Presidente: - Vem então a proposta?
Suponho, se estiverem de acordo, que a poderíamos votar.
Ela vai entrar na Mesa, com certeza, com as assinaturas recolhidas e eu peço licença para sugerir à Assembleia que, dada a solenidade deste acto, porque se trata de um acto eminentemente solene para a nossa vida pública, a votação será feita de pé por todos os Srs. Deputados. Os Srs. Deputados que aprovam tenham a bondade de se levantar.
Submetida à votação, a proposta foi aprovada por unanimidade.
Aplausos prolongados.
O Sr. Presidente: - Temos dez minutos. Vamos aproveitá-los. O Sr. Deputado Jorge Miranda.
O Sr. Jorge Miranda (PPD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: É para uma breve declaração de voto. Votando a designação «Assembleia da República» para a Assembleia representativa de todos os portugueses, o Grupo Parlamentar do Partido Popular Democrático deseja, em primeiro lugar, manifestar a sua satisfação pelo consenso que, apesar de todas as divergências reais que existem, foi possível estabelecer nesta Assembleia Constituinte. Deseja reafirmar a sua fé nos valores de liberdade, igualdade e fraternidade que estão associados ao termo «República» e deseja, por último, declarar que entende esta votação de algum modo como uma nova rectificação solene da proclamação da República em Portugal, tal como aconteceu com a Assembleia Constituinte de 1911.
O Sr. Presidente: - O Sr. Deputado José Luís Nunes.
O Sr. José Luís Nunes (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Em primeiro lugar, quero sublinhar, tal como fez o Sr. Deputado Coelho dos Santos, que foi o Sr. Deputado Mota Pinto o primeiro a propor esta designação; em segundo lugar; congratular-me por se ter conhecido um tão amplo consenso e por ter sido o meu grupo parlamentar a levantar o problema de uma designação que foi possível enfim melhorar; em terceiro lugar recordar aqui, assim e publicamente, que a designação deste órgão como Assembleia da República é de certa maneira a reentrada nesta Sala de todos aqueles que desde o dia 28 de Maio de 1926, sob a violência e sob a força das armas, a abandonaram e nunca mais voltaram aqui a entrar.
É, de certa maneira, o regresso a esta Casa de Afonso Costa; é, de certa maneira, o regresso a esta Casa de António José de Almeida e António Sérgio; é, de certa maneira, o regresso a esta Casa do último Presidente da República Portuguesa, o último chefe do Governo, António Maria da Silva e Bernardino Machado; é, de certa maneira, o regresso a esta Casa de todos os homens da República que pelos caminhos do exílio tanto se sacrificaram e tanto sofreram e tanto lutaram pela liberdade do povo português. 
É a entrada nesta Casa novamente da sopro da liberdade e do livre pensamento a que esteve tanto tempo alheia; é, em verdade, a restituição do Palácio de S. Bento à sua verdadeira função de Assembleia dos mais altos representantes da Nação e é, também, e sé permitem a entrada aqui dentro de todo um cortejo de sombras, de todos os nossos companheiros que ao longo desta luta morreram e que não puderam aqui estar connosco.
É também a vitória e a entrada aqui dos homens da resistência de Carlos Cal Brandão e José Dias Coelho, que durante a longa noite fascista foram capazes de lutar pela liberdade.
É também a entrada nesta Casa dos revolucionários do 3 de Fevereiro e do 7 de Fevereiro e dos revoltosos da Marinha Grande.
E se permitem, correspondendo a um apelo do nosso Presidente, Srs. Deputados, meus camaradas:
Viva a República!
Vozes: - Viva!
Aplausos prolongados.
O Sr. Presidente: - Meus senhores, parece-me que depois deste acto emocional não levariam a mal ao Presidente que encerrasse a sessão, porque não vamos agora descer a meia dúzia de minúcias.
Considero comovidamente encerrada esta sessão.

À janela

Matisse, Fenêtre bleue, 1913.

"Cão como nós"

Cá está ele, uma vedeta na casa de Ted Kennedy. Foi ali que o casal Obama o conheceu. "Cão como nós", diria Alegre. 
Agora um primo enche de breves e alegres latidos a Casa Branca. É o cão de água português.

quinta-feira, 5 de Março de 2009

Vencerei não só estes adversarios/Mas quantos a meu Rei forem contrários

No juízo da Congregação para as Causas dos Santos, o relato de Guilhermina de Jesus, 65 anos, natural de Vila Franca de Xira, residente em Ourém foi decisivo: o beato Nuno de Santa Maria é milagreiro
Mas os produtores de heróis nacionais já o tinham canonizado e o chefe militar do Mestre de Aviz, que o ajudou a ser Rei de Portugal, já tinha ganho o direito a ser tratado por Santo Condestável.
O Presidente da República entende que o novo Santo "deve inspirar os portugueses na busca de um futuro melhor". Paulo Portas preferiu antes apontar o "líder destemido que sempre assentou a força na justiça". Guilhermina de Jesus cujo testemunho foi aceite como probatório, limitou-se a declarar: "sinto uma paz enorme".

quarta-feira, 4 de Março de 2009

10 de Junho

Confidencia José Medeiros Ferreira que Jorge Sampaio um dia o convidou para suceder a Alçada Baptista na Presidência da Comissão para as Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estava-se, creio, em 1997. Medeiros declinou o convite por achar não ter ainda idade para tal. O argumento tinha graça e era elegante, o que atenuou, espero, a decepção presidencial.
Doze anos depois, foi recordado a propósito de idêntico convite dirigido por Cavaco Silva a António Barreto e, desta vez aceite.
Diz-se que o "Grupo de Genebra" formado na década de sessenta por, entre outros, Medeiros Ferreira, António Barreto, Eurico de Figueiredo, Ana Benavente, um dia terá feito, numa antevisão do Portugal democrático que lhes permitisse o fim do exílio e o regresso à pátria, uma distribuição de altas funções da República: eu serei Ministro dos Estrangeiros, eu serei Ministro da Educação, eu serei Ministro da Saúde, eu serei Presidente.
Não consta que nesta lista de gratas disponibilidades e preciosas ambições entrasse a Comissão do 10 de Junho. 

Maria Veleda

Maria Carolina Frederico Crispim nasceu em Faro em 1871 numa família burguesa. O Pai, com ascendentes britânicos, era personalidade com relevo na vida social e cultural local. Faleceu, porém, em 1882, deixando a família em dificuldades. A jovem Maria Carolina que tinha tido uma educação cuidada e convivia, desde cedo com livros, jornais e teatro, decidiu, aos 15 anos, conquistar autonomia de vida. Dedicou-se ao ensino, dando explicações particulares. Em 1896 vem para Lisboa, com um filho que adoptara cinco anos antes. Exercerá o professorado em Odivelas, Ferreira do Alentejo, Serpa, antes de regressar a Lisboa em 1905. Em 1899 tem um filho de uma ligação com o escritor Cândido Guerreiro, com quem no entanto decidira não casar.
Publicista de excelentes recursos, colaborou em jornais locais (na lista dos quais encontramos O Círculo das Caldas), publicou textos de intervenção e peças de teatro. Tornou-se uma figura cimeira do feminismo e enfileirou no republicanismo. Tem uma larga participação em ambos os movimentos, entre 1905 e 1921. Usou o nome de  guerra de Maria Veleda.
Foi Maria José da Franca, neta de Maria Veleda, que me proporcionou um primeiro conhecimento da biografia da sua avó e me informou que hoje, no Museu República e Resistência, teria lugar uma sessão evocativa que lhe seria dedicada. Vi a exposição - Maria Veleda: uma Professora Feminista, Republicana e Livre-Pensadora - obtive o catálogo e ouvi uma comunicação da Professora Natividade Monteiro, autora de uma tese de mestrado sobre Maria Veleda editada pela Comissão para a Igualdade.
Descobri uma personalidade fascinante (tem razão, Maria José!) cuja vida daria um filme ou um documentário ficcionado. Estou muito curioso de ler as suas memórias. Espero que seja possível reeditá-las.
Uma biografia breve de Maria Veleda pode ser lida aqui.

terça-feira, 3 de Março de 2009

Pensar a representação

Saiu hoje o nº 2 dos Cadernos Par, uma publicação da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. É um repositório dos trabalhos de pesquisa e reflexão transdisciplinar efectuados pelos docentes agrupados num pequeno centro que dá pelo nome de "Pensar a Representação". No seu programa anual, são duas as iniciativas principais deste grupo: aulas abertas e um ciclo de cinema e debate. O motor destas actividades, a coordenação científica e a concepção do resultado editorial são assegurados pela Professora Madalena Gonçalves. Sem o empenho e competência que lhe tem dispensado, este projecto não teria sido possível.


segunda-feira, 2 de Março de 2009

O sedutor seduzido com dolo

Hera de alvos braços congeminou um plano para seduzir Zeus. Obteve a colaboração de Sono Irmão da Morte, prometendo-lhe como esposa Pasítea, uma das jovens três Graças. Dirigiu-se então a Gárgaro, píncaro do alto Ida, onde se encontrava Zeus que comanda as nuvens. Hera conhecia bem Zeus, já fora em tempos seduzida pelo Crónida terribilíssimo. Zeus, Assim que a viu, o amor envolveu-lhe o espírito robusto, tal como quando primeiro fizeram amor, deitados na cama às ocultas dos seus progenitores. E pediu a Hera que acedesse ao seu desejo.

A ele deu resposta a excelsa Hera, congeminando um dolo:
"Crónida terribilíssimo, que palavra foste tu dizer!
Se o que tu queres é agora deitar-te em amor
nos píncaros do Ida, isso estaria à vista de todos!
Como seria de um dos deuses que são para sempre
nos visse a dormir e depois fosse contar a todos os deuses?
Pela minha parte já não poderia regressar à tua casa,
depois de me levantar do leito, pois isso seria uma vergonha.
Mas se é essa a tua vontade e se é agradável ao teu coração,
tens um tálamo, que te construiu o teu próprio filho,
Hefesto, tendo ajustado às ombreiras portas robustas.
Vamos então deitar-nos lá, visto que o leito é o teu desejo."

A ela deu resposta Zeus que comanda as nuvens:
"Hera, não receies que algum deus ou homem
observe o acto, tal é a nuvem dourada com que
te esconderei. Nem o próprio Sol nos descortinaria,
embora nenhuma luz veja mais agudamente que a dele."

Falou; e nos seus braços tomou a esposa o filho de Crono.
Debaixo deles a terra divina fez crescer relva fresca,
a flor de lótus orvalhada e açafrão a jacintos macios
em profusão, que os mantiveram acima do solo.
Foi neste leito que se deitaram, ocultando-se numa nuvem
bela e dourada, a qual destilava gotas reluzentes.
Deste modo adormeceu tranquilo o Pai no píncaro de Gárgaro,
subjugado pelo sono e pelo amor, com a esposa nos braços.

Porém o Sono suave correu até às naus dos Aqueus
para dar a notícia aos deus que segura e sacode a terra.
Postando-se junto dele proferiu palavras apetrechadas de asas:
"Com afinco agora aos Dânaos, ó Posídon, presta auxílio!
Outorga-lhes a glória, exígua embora seja a sua duração,
enquanto dorme Zeus, já que o cobri com o sono macio:
pois Hera o seduziu para com ele se deitar em amor".

Homero, Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa, 291-292.Edições Cotovia, 2005. p. 

domingo, 1 de Março de 2009

Jerry Lewis

Passou quase em silêncio a homenagem que a Academia prestou na noite de 22 de Fevereiro a Jerry Lewis. A JL, que fará 83 anos a 16 deste mês, foi atribuído o Prémio Humanitário Jean Hersholt, pela relevância da sua participação em campanhas de angariação de fundos para o combate à distrofia muscular e pela sua condição de "cómico que levou o riso a milhões de pessoas de todo o mundo".

Jerry Lewis é um dos símbolos mais genuínos da nobre tradição americana da comédia e do burlesco. Nos anos 50, em particular, a solo ou nos muitos filmes em que formou uma célebre dupla com Dean Martin, Jerry afirmou-se como legítimo herdeiro de mestres como Charles Chaplin, Buster Keaton ou Stan Laurel. A partir de The Bellboy/Jerry no Grande Hotel (1960), na sua tripla condição de actor/realizador/produtor, construiria um dos capítulos mais fulgurantes da história moderna do género cómico, nele se incluindo obras-primas como The Ladies Man/O Homem das Mulheres (1961), The Nutty Professor/As Noites Loucas do Dr. Jerryll (1963) e The Family Jewels/Jerry e os 6 Tios(1965).
Pelo génio da sua arte de representar, pela ousadia narrativa e simbólica da linguagem dos seus filmes e também pelo sentido de experimentação do seu trabalho (foi pioneiro, por exemplo, na introdução dos ecrãs de video como forma de verificação do material filmado), Jerry é uma daquelas personalidades que nos ajudam a perceber melhor as transfigurações históricas do cinema. Em boa verdade, para compreendermos as convulsões por que passou Hollywood ao longo dos anos 60, a sua obra é tão importante como as de Martin Scorsese ou Francis Ford Coppola.