sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Escolhas

Como os Congressos são hoje sobretudo encenações consagratórias de escolhas previamente efectuadas e intervenções cuidadosamente preparadas para o palco mediático, o anúncio do cabeça de lista para o Parlamento Europeu adquiria uma especial projecção neste Congresso do Partido Socialista. A escolha foi aliás gerida de forma a criar expectativa e apanhar a comunicação social de surpresa. Esta prestou-se gostosamente a esse jogo, fazendo e desfazendo nomes até ao momento da revelação.
Evidentemente ninguém se preocupou em discutir os critérios e, uma vez conhecido o o resultado da escolha, os comentadores agarraram, vorazes, a presa, sondando as intenções e fazendo cálculos sobre o êxito da aposta.
Não estando em causa o mérito intelectual de Vital Moreira, o seus curriculum e prestígio académicos, a qualificação do seu trabalho como jurisconsulto, o brilho da sua acção quer como parlamentar quer como juiz do Tribunal Constitucional, a relevância da sua actividade cívica, a avaliação desta escolha do Partido Socialista deveria ser estabelecida em função dos objectivos que lhe estão subjacentes.
Sendo o principal objectivo do Partido Socialista renovar a maioria absoluta, distintos são não apenas os caminhos a que se atribui prioridade, como os riscos a evitar ou os métodos para estabelecer um controlo de danos. O Congresso de Espinho apontou como risco maior para o PS o do crescimento à sua esquerda, nomeadamente o crescimento polarizado pelo Bloco. Esse crescimento tem aliás sido em grande parte favorecido por Manuel Alegre. Neste quadro, a escolha de Vital Moreira é compreensível. Se eu não estiver enganado, iremos assistir a um duro combate entre Vital e Louçã nos próximos tempos.
De qualquer forma, a aceitação por parte de Vital Moreira deste cargo, tem um significado prático que não deve ser esquecido. Desde 1991, altura em que reconheceu publicamente que a sua militância política se faria na área do PS, Vital Moreira manteve-se (mau grado uma breve passagem pela Assembleia) fora do exercício de responsabilidades políticas directas. Abandonou agora esse distanciamento relativo.

sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Entre Setúbal e Alpiarça, reler LP num quarto de hotel

Prá minha cela atiraram-me um pão duro (envenenado); a água da bilha, bebi-a (tinha bichos). Hoje um raio de sol quis entrar cá dentro e cuspi-lhe. O desprezo dos homens, que me importa? Sabiam que o meu destino era este (Ela sabia) e não mo diziam por piedade. Que importa? não queria sol nem pão nem água nem piedade, apenas que, onde estiver, por um  segundo apenas, a Amada, aquela a única se lembre agora de mim.

Tarde demais, amigos! Nada a fazer agora estou pronto. Não tenho safa, parece. Saio do camarim assobiando: A  Vida me aborrece, a morte quero, balada em voga, para o maior número do espectáculo, a minha rábula, prometido no cartaz e já previsto há muito, isto é, a mágica inevitável levitação sonâmbula a muitos  mil metros de altura (tantos! ... ai a minha mania das alturas... perdoem se exagero) e depois o salto mortal lá mais pró fim, no trapézio sem rede sem esperança sem avé-marias sem nada. Olho para baixo, sinto o medo dos tipos da plateia, uns cagões, mortos do medo que devia ser o meu, e eu tenho, rapazes! e eu escondo, cavalheiros! detrás da minha fatiota larga, sarapintada, cetim fulgurante a sete e quinhentos o metro, fato de palhaço barato para melhor e mais os intrujar, ofender, insolências de polichinelo feitas a rir para gente que dá vontade de rir - e quem neste suave país não há-de querer rir, mesmo com o rabo cagado de medo?

Atiro o chapéu e ele vai a rebolar pelo ar, levando agarrado o meu chinó cor-de-rosa.; em pontapés raivosos de boneco, largo as calças e mostro umas ceroulas encarnadas; dispo o jaquetão e lá vai ele a saracotear feito espantalho voador, pássaro tosco, sem cabeça nem destino certo; estou agora preso só por um braço à barra do trapézio e trinco uma banana, com trejeitos de macaquito. Finjo que me solto e vou cair, dou um grande grito, eles gritam também todos, arfam (serão asmáticos?) tudo a fingir, a fingir pois que compreendem a minha aflição, gesticulação, representação, mastigação ou reinação. O que eles gostavam, o que tinha verdadeiramente graça para eles, eu sei, era que tivesse uma morte rápida, espectacular, sublime se possível, ora essa! ou que fosse tudo a fingir, como eles fazem (gostam), uma coisa breve que os arrepiasse brevemente (evitai o pânico) que não os fizesse desconfiar se estou a rir ou a sério, ou de quem me rio, afinal, se deles ao certo se da morte certa que me espera lá em baixo, quando os tambores começam a rufar (como é seu dever), reconciliado, parado, perdoado e consentido já, rindo todo, estatelado, desconjuntado no meio da pista, estrapaçado de todo como diz o povo, rindo também - e é tão fácil a um morto rir! é tão fácil rir de um morto!...
Esperem, esperem!


Luiz Pacheco, Textos Sadinos. Setúbal, Plurijornal, 1991. p. 30-31.

Em Setúbal, com Pacheco

A convite de Valdemar Santos, não podia faltar. Levei comigo, ontem à noite, a caminho de Setúbal, o João Ramos Franco que todo o tempo evocou episódios passados na sua antiga casa da Rua do Viriato, espécie de ancoradouro de perdidos na noite lisboeta.
O pequeno auditório da Biblioteca Municipal encheu-se de gente que queria recordar Luiz Pacheco: a sua história, feita de inúmeras histórias (episódios de fio de navalha, transições bruscas entre a ternura e a desapiedade, medo e coragem, rábulas que confundem autor e personagem). 
A iniciativa foi do PCP/Setúbal e teve a presença de José Casanova. Não sendo necessário fazer o PCP entrar em Luiz Pacheco, havia que tentar fazer caber Luiz Pacheco dentro do PCP.  Esforço meritório, mas tarefa inglória, e ainda bem.
Da venda de João Carlos Raposo Nunes ("O Raposão") trago, por "uma de vintes", Textos Sadinos, edição Plurijornal 1991.

quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Cidade imaginária

Visita rápida, à hora de almoço, para ver os 30 quadros de Nadir Afonso, na Assembleia da República (As cidades no Homem).
Nadir não pinta cidades, mesmo quando admite a figuração de pontes, praças, edifícios monumentais desta  ou daquela cidade. Nadir pinta a cidade, o espaço urbano na sua linha, na sua cor, na especificidade e na densidade da sua forma. A cidade imaginária.

Imprensa leiriense na Primeira República

Sala cheia, ontem, para ouvir Acácio de Sousa no Arquivo Distrital falar dos jornais que se publicaram em Leiria entre 1910 e 1926. Reflectindo as metodologias de investigação da história das elites no período contemporâneo, uma apresentação viva e consistente sobre fontes que o autor domina amplamente, a imprensa local. E uma reconstituição dos traços que individualizam a cidade com os seus grupos de sociabilidade e os seus grupos políticos, as instituições que articulavam interesses, os jornais que lhes conferiam expressão e influência.
Este ponto de encontro mensal de um heterogéneo público interessado na história local e regional - uma "Bica no arquivo Distrital" - está a revelar-se um sucesso crescente. A fórmula da sessão,  pondo em contacto informal investigadores e técnicos do Arquivo, documentos, pesquisa qualificada, curiosidade intelectual, é muito apelativa. O enquadramento arquitectónio e urbanístico onde isto se passa é, também ele, convidativo.
Há quem esteja disponível para prolongar a tertúlia, transferindo para um restaurante das proximidades a animação da troca de ideias. Desta vez, sob a égide da República e das suas figuras. Oportunidade, desta feita, para inventariar percursos e projectos, experiências, com colegas das escolas de Leiria (obrigado Ana Paula, Nídia, António Maduro). E para tomar conhecimento, a traços rápidos mas impressivos, da personalidade singular de uma mulher republicana, Maria Veleda (obrigado Maria José, pelo entusiasmo contagiante com que se referiu a sua avó). 
Mas sobre Maria Veleda espero em voltar aqui com mais elementos.

"Não há sanduiches para ninguém"

Ouvira nesse dia um aluno reclamar por não ter tido pão junto da funcionária que percorria ao meu lado o pátio e que faz trabalho na cantina. A senhora retorquira que o que ele queria era fazer sanduiches e que não podia ser. Ele desandou, nós seguimos caminho e eu manifestei estranheza. Aprendera há muito que muitos dos alunos, com grande sentido de autodefesa, quando não conseguiam, ao almoço, comer tudo o que tinham no prato abriam um pão e enfiavam lá para dentro as sobras. Vi fazer sanduiches de arroz que eram gostosamente papadas ao lanche. Não, não pode ser, ó setora, as sanduiches, bem calha, nem são para eles, são para os que estão cá fora e nem senha de almoço têm...
Não há sanduiches para ninguémpronto.
Com tantos alunos por ali que pouco comem, onde alguns, sabiamente, ao pequeno almoço comem um resto de massa cozida - o jantar da véspera, montes de meninos magricelas à nossa volta, não há pão, não há sanduiches para ninguém.


Escreveu Maria Eugénia Prata Pinheiro no seu blogue "Escola da Setora". Leia o resto do texto aqui.

quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Intervenção do Estado

Carta Aberta a Sua Exa. O Primeiro Ministro
 
Em 1884, Bordalo Pinheiro funda uma fábrica de cerâmica artística, que pretende exemplar, nas Caldas da Rainha. Aí, aquele que muitos consideram o maior artista português do séc. XIX desenha, inventa, modela e pinta milhares de peças que concretizam, excedem e amplificam toda uma tradição, definindo um estilo que ainda hoje, tantos anos volvidos, todos identificamos imediatamente. Mais de cem anos após a sua morte, a fábrica herdeira do seu saber continua a produzir esta obra genial. 
 As notícias recentes e inquietantes sobre o futuro da Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro obrigam-nos neste momento a manifestar-nos publicamente. Por preocupação com um património histórico único e em defesa da obra de um artista que desde finais do séc. XIX integra o imaginário nacional. 
 Num momento em que a vida desta empresa conhece piores dias e quando se perspectiva a venda desta fábrica, apelamos a uma intervenção do Estado, qualquer que seja o seu futuro, no sentido de: 
-         salvaguardar que o espólio do artista Bordalo Pinheiro (moldes, desenhos e peças originais) se mantenha na fábrica e seja a matriz de uma nova estratégia de qualidade e afirmação da marca Bordalo Pinheiro;
-         aprofundar a inventariação, estudo, preservação e divulgação deste espólio, promovendo o reconhecimento de uma faceta menos consagrada deste artista;
-         salvar uma fábrica única pela sua história e pelo saber especializado daqueles que aí trabalham, assegurando a transmissão deste na formação de futuras gerações, de modo a fazer também desta empresa um lugar de ensino;
-         estimular, simultaneamente, a renovação da marca Bordalo Pinheiro, envolvendo nomes prestigiados e novos valores do design e das artes;
-         contribuir para a definição de uma estratégia que reposicione a marca Bordalo Pinheiro num segmento de mercado de excelência, a nível nacional e internacional, investindo na sua divulgação, marketing e distribuição. 
Os autores desta carta apelam pois ao Estado para que, neste momento crítico, olhe para a singularidade desta situação e, nós próprios, não nos demitindo das nossas responsabilidades enquanto cidadãos, disponibilizamo-nos para contribuir para essa reflexão.
 
Autores: 
Raquel Henriques da Silva, Professora de História da Arte, FCSH Universidade Nova Lisboa
Joana Vasconcelos, Artista Plástica
Elsa Rebelo, 
Coordenadora do Atelier Artístico da Fábrica Bordalo Pinheiro
Henrique Cayatte, Designer, Presidente do Centro Português de Design
Bárbara Coutinho, Directora do MUDE. Museu do Design e da Moda
Catarina Portas, Empresária A Vida Portuguesa
Lúcia Marques, Curadora Independente
Carmo Afonso, Advogada


As autoras apelam à assinatura pública desta carta. Aqui fica o endereço, embora não entenda o alcance prático de tal iniciativa, curiosamente tomada mais de um mês depois da da associação Património Histórico-Grupo de Estudos das Caldas da Rainha:
http://www.petitiononline.com/Bordalo/petition.html

terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Da Vinci?

Nicola Barbatelli, medievalista, fazia investigações nos arquivos de uma rica família italiana quando se deparou com este retrato que fora identificado como sendo de Galileu, na pequena cidade de Acerenza, no sul de Itália. Mas rapidamente se convenceu de que aquele aquele homem de olhos azuis, nariz aquilino e chapéu de plumas representava Leonardo da Vinci, aliás um auto-retrato, por comparação com um outro existente em Florença. O assunto está agora em exame.

Museu de Bagdad

Reabriu o Museu de Bagdad. Segundo o New York Times, mais de metade do acervo museológico, roubado em 2003, não foi recuperado.
Para muitos, trata-se de uma pura operação política, tendente a fornecer para o exterior uma imagem de normalidade da situação política iraquiana, O que se compreende.
Mas o que fica, para sempre, é a destruição de um dos mais extraordinários patrimónios da humanidade. A invasão americana não garantiu a segurança e a continuidade de bens culturais que representam o que de melhor as antigas civilizações mesopotâmica, persa e islâmica legaram à Humanidade (onde aliás a filosofia grega foi recolhida antes de passar à Península Ibérica) . A reabertura do Museu de Bagdad também fornece ao exterior essa memória de destruição consentida.

Ideias simples

Recebo a newsletter de La Central, uma livraria de Mallorca que também procede à distribuição de obras por correio. A livraria organiza regularmente oficinas, através de um serviço intitulado "Obrador de la Central". Eis a lista das oficinas abertas este mês:
- Como se lê um poema?
Aprender a detectar os elementos de um poema e a ler a grande poesia de poetas modernos e contemporâneos
- Livros ilustrados para os mais pequenos
Para crianças entre os 8 e os 12 anos: como se faz um livro.
- Gabinete de leitura: Filosofia
5 autores comentam em 5 sessões 5 obras de Filosofia
- Gabinete de leitura. História
Idem, idem, 5 obras de História

segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Velaturas

Se gosta de arte e poesia, se valoriza a informação pertinente e o bom gosto, se sente atraído pela polivalência e partilha o sentido da descoberta, então não deixe de passar pelo blogue Velaturas.
O autor, Nicolau Borges (NB) é um comentador frequente deste blogue.
Gozo do privilégio da sua amizade e do seu companheirismo, com um activo de múltiplos projectos e trabalhos realizados em comum nos últimos anos. Por vezes, reunimo-nos em torno de coisas simples que sentimos o dever de celebrar: um bom peixe de mar, preferencialmente obtido em pesqueiros de Peniche, uma descoberta num arquivo ou uma visita a um museu, uma natureza morta de Josefa ou um banquete de caracóis na borda de uma piscina em Reguengos de Monsaraz, uma viagem a Madrid ou aos Açores, um poema perdido no canto de uma fotografia ou um olhar azul com reminiscências de África (como o que trago dentro de mim).
"Velaturas" é o resultado de uma deambulação, é certo, mas sem o erratismo que por vezes parece querer tomar conta de "O que eu andei...". Pelo contrário: segue por caminhos bem definidos e sólidos, os do registo da obra de arte em diálogo com a criação poética. O autor sabe do que fala e e sobretudo sabe falar do que o - e nos - surpreende.

Porto

Se há cidade portuguesa que conheço bem é o Porto. Ali trabalhei, estudei, exerci múltiplas actividades de natureza política, desde a década de 70. Ao Porto também me ligam experiências irrepetíveis e amigos estimáveis. É sempre com prazer que lá vou e pouco me parece o tempo que ali permaneço.
Conheço bem as vicissitudes da vida autárquica que acompanhei directamente desde a presidência do Eng.º Nuno Cardoso, passando pelas do Dr. Rui Rio. 
Compreendo a generosidade da candidatura da Professora Elisa Ferreira e admiro a sua inteligência e combatividade.
Por todas estas razões, o destino das eleições autárquicas no Porto não me é indiferente.

domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Tango


Adriana Varela: Los Mareados

Buenos Aires (foto cedida por Paulo Simões)

Pausa (ciclo de Carnaval). A vereadora antropófaga

Curta-metragem de Pedro Almodovar: La Consejala Antropófaga. Sete minutos delirantes de promoção do próximo filme do realizador Los Abrazos Rotos. Uma vereadora do pelouro dos assuntos sociais para quem "o sexo é, tanto no plano pessoal como profissional um assunto profundamente social".
Durante dois dias o pequeno filme pôde ser visto integralmente no Youtube, linkado por toda a grande imprensa europeia, até que a produtora o mandou retirar com fundamento na protecção dos direitos de autor. Uma breve apresentação pode ser vista aqui.

sábado, 21 de Fevereiro de 2009

A grande Paris do futuro

Foram entregues ontem no Ministério da Cultura francês, os projectos encomendados a 10 equipas de urbanistas sobre a Grande Paris do futuro. Serão expostos a 29 de Abril, na Cidade da Arquitectura e do Património. O Le Monde antecipa, sumariamente (clique aqui para ver a apresentação), os trabalhos dos ateliês de Roland Castro, Bernardo Secchi, Agência AUC (Djamel Klouche), Christian de Portzamparc, Grupo Descartes (Yves Lion) e Antoine Grumback.
Aparentemente a prioridade é conferida à circulação. Como de De Haussman a Le Corbusier. Paris à procura de um novo modernismo.

Pausa (ciclo do Carnaval). Velhas soluções

Entre nós e a realidade

José Pacheco Pereira no Público de hoje:

O universo mediático-político em que vivemos, usando o vocabulário comum, com a distanciação do real, a obsessão pela imagem e pela encenação, empobrecido e devastado pela crescente ignorância dos seus actores, políticos e jornalistas, ofuscado pela espectacularidade, tornou-se um poderoso ecrã que se interpõe entre a nós e a realidade. Às vezes duvido se haverá essa coisa subtil que é o real, mas recordo sempre, quando me lembro - ah! estas reminiscências! - de que há pobreza, desemprego, vidas difíceis, insegurança, doença e morte. Lá fora.

Eis um tema que de que a filosofia ocidental se ocupa desde Platão e a sua alegoria da caverna. Outras disciplinas, além da filosofia, se têm proposto ajudar o homem a encontrar o real: da psicologia à história, da antropologia às ciências da comunicação, da sociologia à política.
O que sucede é que hoje os mediadores estão sentados à nossa frente, 24 horas sobre 24 horas, nas rádios, nos jornais, na televisão. Os jornalistas dão as notícias e logo vemos ao lado os comentadores. Eles virão logo a  seguir explicar a notícia, dar-nos a perceber, desviar-nos o olhar para o ecran. 

sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Pausa (ciclo do Carnaval). Maldita sexta-feira

Alguma coisa não corre bem com a Procuradoria da República em Torres Vedras

Transcrevo da edição de hoje do Público:

Ontem, às 12h26, a autarquia recebeu um fax assinado pela procuradora, com a referência de "muito urgente". No documento ordenava-se a "remoção do conteúdo do computador Magalhães que se encontra exposto frente ao Hotel Império até às 15h30" e remetia-se para um decreto-lei sobre "publicação e comercialização de objectos e meios de comunicação social de conteúdo pornográfico". O processo terá sido desencadeado após queixa apresentada por um cidadão do concelho, alegando que as imagens poderiam chocar as crianças.
Mais tarde, a Câmara de Torres Verdes recebeu nova ordem: entregar o autocolante no tribunal local, o que cumpriu "por respeito aos órgãos de soberania", mas não sem substituir a imagem do ecrã. No monitor do Magalhães agora lê-se "Conteúdo removido/censurado por ordem da senhora procuradora adjunta da Primeira Delegação do Tribunal de Torres Vedras"
.


Machadada certeira no prestígio da magistratura a quem compete defender o Estado de Direito. Até apetece recorrer a uma teoria conspirativa da história.

Futurismo

20 de Fevereiro de 1909: primeiro Manifesto do Futurismo, publicado no Figaro, pelo escritor Filippo Tommaso Marinetti. Para enquadramento do tema, consultar este texto do El Pais.

1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia.
3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.
4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu com uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel que ruge, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.
5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita.
6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não disponha de um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.
8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que havemos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade omnipresente.
9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias pelas quais se morre e o desprezo da mulher.
10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.
11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifónica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes; as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o vôo deslizante dos aeroplanos, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta.
É da Itália que lançamos ao mundo este manifesto de violência arrebatadora e incendiária com o qual fundamos o nosso Futurismo, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, arqueólogos, cicerones e antiquários. [...]

quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Os dias de Penélope (I)

Telémaco, filho de Ulisses, dirigiu-se ao povo de Ítaca, para invectivar os Aqueus pretendentes à mão de sua mãe, Penélope, supostamente viuva, e cujos haveres saqueavam enquanto esperavam pela resposta.
Antínoo responde-lhe:

Pois fica sabendo que não são os pretendentes os culpados,
mas  a tua querida mãe, sobremaneira astuciosa!
Na verdade já vamos no terceiro ano - em breve virá o quarto -
em que ela engana os corações dos Aqueus.
A todos dá esperança e a cada homem manda recados,
mas o seu espírito está voltado para outras coisas.
Também este engano congeminou em seu coração:
colocando um grande tear nos seus aposentos - 
amplo, mas de teia fina - foi isto que nos veio declarar:

"Jovens pretendentes! Visto que morreu o divino Ulisses,
tende paciência (embora me cobiçais como esposa) até terminar
esta veste - pois não queria ter fiado a lã em vão -
uma mortalha para o herói de Laertes, para quando o atinja
o destino deletério da morte irreversível,
para que entre o povo nenhuma mulher me lance a censura
de que jaz sem mortalha quem tantos haveres granjeou."

Assim falou e os nossos corações orgulhosos consentiram.
Daí por diante trabalhava de dia ao grande tear,
mas desfazia a trama de noite à luz das tochas.
Deste modo durante três anos enganou os Aqueus.
Mas quando sobreveio o quarto, volvidas as estações,
uma das mulheres, que estava por dentro, contou-nos o sucedido,
e encontrámo-la a desfazer a trama maravilhosa.
De maneira que a terminou, obrigada, contra sua vontade.

Homero, Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa, Livros Cotovia, 2003. p. 40-41  

quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

COMISSÃO NACIONAL
PARA AS COMEMORAÇÕES DO
CENTENÁRIO DA REPÚBLICA

terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Missão

Cumprida, da forma que me foi possível, a missão confiada pelo Presidente da República e pelo Governo, na Comissão para a Comemoração do Centenário da República. Amanhã será apresentado publicamente o programa que o Governo aprovará formalmente na Quinta-Feira.
Pausa, em seguida, para repensar as condições e pressupostos do que haverá a fazer e do que eu poderei (ou não) fazer.

segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

A Professora Alda

Tínhamos 13 ou 14 anos e os nossos professores andavam pela idade dos nossos pais. Como o interesse que demonstravam pelas nossas ínfimas pessoas era ocasional e passageiro, a distância que nos separava deles não tinha medida. Partilhávamos um espaço físico e ocupávamos conjuntamente uma larga fatia de tempo, mas habitávamos mundos paralelos. Sabíamos pouco sobre eles (e esse pouco era limitado às idiossincrasias mais aparentes), e eles ignoravam-nos como pessoas. Havia excepções, claro: quem, de entre nós, transitasse com facilidade até ao mundo de um ou outro professor, mas percebia-se que se estaria perante uma situação singular, derivada de uma idêntica pertença tribal. E havia quem, por circunstâncias igualmente muito específicas, se esforçasse por manter abertos corredores pelos quais nos pudéssemos aproximar do outro mundo, mas esses propósitos não logravam continuidade nem produziam efeitos duradouros.
Quando a nova professora entrou pela sala de aula para leccionar Ciências, toda a turma pressentiu a diferença. A Dr.ª Alda Lopes, minha professora do 3º ou 4º ano, nos princípios da década de 60, no Externato Ramalho Ortigão das Caldas da Rainha, não fazia parte de um mundo paralelo. Ou melhor: todos achámos que iríamos tomar parte no seu mundo. 
E como isso nos pareceu então simples e natural! Não por determos qualquer chave que abrisse portas habitualmente reservadas, mas porque ela nos fazia sentir assim. Olhava-nos como se nos conhecesse desde sempre e sorria-nos como se fosse a nossa irmã que viera dar-nos uma ajuda para crescermos mais depressa. A sua simpatia não era defesa, a sua elegância não era pedestal. Durante aquele ano decisivo das nossas vidas insignificantes, a Dr.ª Alda foi o motivo do nosso orgulho de sermos alunos, e inesperada razão da confiança de sermos adolescentes.
Nota:
O blogue dos antigos alunos do Externato Ramalho Ortigão, coordenado por João Jales, tem registado diversos depoimentos sobre a Dr.ª Alda Lopes. Podem ser lidos aqui e aqui. Foi nele que encontrei esta magnífica fotografia da professora, na varanda do Externato, pertencente à colecção de Júlia Ribeiro.

domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Alto rendimento: um comentário, uma chamada de atenção

Entre os comentários ao post de ontem sobre o Centro de Alto Rendimento - Surf que foi lançado em Peniche, permito-me destacar o de Paulo Prudêncio. Trata-se de alguém que conhece bem esta problemática em razão de uma experiência familiar e interesse profissional. O seu testemunho é pois particularmente qualificado.

Olá João Serra
Como imagina este assunto dá pano para mangas.
Assim de repente, ou seja de um modo abreviado e com uma argumentação um pouco selvagem, a fórmula que se propõe na iniciativa descrita está mais do que gasta.
Para além das importantes questões de ordenamento, há aspectos desportivos a considerar. E o problema eterniza-se com o seguinte constrangimento: como compatibilizar a formação desportiva especializada com a formação escolar? E aí as respostas portugueses e europeias são confrangedoras.
Refiro, como exemplo, o seguinte: na principal competição profissional do mundo (tem 63 anos consecutivos a NBA, no basquete americano), os atletas só podem entrar depois de concluírem a sua formação universitária. Houve uns anos recentes em que se abdicou disso - podiam passar directamente do secundário - mas estão a reconsiderar. É até a discussão do momento. Vão voltar, obviamente, atrás. Por lá, os clubes só existem na competição profissional. Toda a formação desportiva é feita em plena articulação com a formação escolar.
Em Portugal é uma selva. O que é grave. Alicia-se os jovens para o treino intensivo desde cedo, com o prejuízo evidente dos seus estudos. Toma-se como exemplo o Ronaldo, o Figo ou o Tiago Pires. Mas ninguém refere os exemplos das centenas que ficaram pelo caminho: sem escolaridade e sem "alto" rendimento desportivo. Uma desgraça, pode crer.
Mas nunca aprendemos, e insistimos. Vemos políticos, conscientes ou inconscientes, conhecedores ou ignorantes, nem sei bem, a desfraldarem as bandeiras do nicho do alto rendimento, com claros desígnios eleitorais, por mais sinceros que sejam os seus propósitos. Intitulam-se uns bravos e uns defensores do desporto para os jovens.
E digo-lhe mais: já são tantos os disparates cometidos ao logos de décadas - piscinas, pavilhões e afins, sem qualquer utilidade - que temo pelo futuro.
Não, não sou um pessimista. Longe disso. Mas escrevo e publico sobre estas matérias há mais de 20 anos e nem por isso deixo de garantir as minhas obrigações como cidadão.
Acima de tudo, pode crer, move-me também a defesa dos direitos desportivos (educação para a saúde, e aí o alto rendimento é muito discutível, mas, e desculpe-me, ficará para outra altura), e os outros, claro, os das crianças e dos jovens.

Um abraço,
Paulo Prudêncio

Sombra sombria

Johan Heinrich Wilhem Tischbein (1751-1829),  Aguarela. Landesmuseum für Kunst und Kulturgeschichte, Oldenburg.
[O quadro integra a exposição História da Sombra, no Museu Thyssen, em Madrid.]


Falemos de casas como quem fala da sua alma

Prefácio

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes –
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
- Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
                     - Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.

Falemos de casas. É verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros –
comovidos, difíceis, dadivosos,
                                                      ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
                         - E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.

- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
Para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes que fulguram lentamente
Até uma baía fria – que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma,
Entre um incêndio,
Junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
                                                               de beleza.

Herberto Helder, A Colher na Boca. Lisboa, Ática, 1961. p. 13-15.
- Ou o Poema Contínuo. Lisboa, Assírio & Alvim, 2004. p. 9-12.

sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Esquinas

P. Lavery, Couple Dancing Tango, 1983

Dia de S. Valentim

[...] Hoje é dia de São Valentim e não é por acaso que há só um dia por ano para lembrar os aspectos positivos (e decorativos) do amor. O resto do ano é a selvajaria que se sabe. Sofrer por amor é uma constante e uma banalidade. Para mais, sofre-se em silêncio porque o sofrimento afugenta a pessoa amada e aborrece de morte os amigos. 
O amor transforma-nos numa pilha de nervos e de medos; de hesitações e incertezas. O amor faz ódio; faz ciúmes; faz fazer e dizer as maiores barbaridades. Os peritos dizem que os instintos de posse têm de ser controlados e até negociados, muitas vezes com a ajuda de pessoal especializado. Balelas. O mais que conseguem é fazer-nos aceitar que o amor, como o futebol, é mesmo assim. O amor é caríssimo - não por ser raro e valioso mas porque não temos voto na matéria. O preço que se paga em ansiedades e sofrimentos e saudades e remorsos não vale os poucos momentos de puro paraíso nem a relativa raridade de mera calma e harmonia [...]

Miguel Esteves Cardoso, "Raio de amor". Público, 14 de Fevereiro de 2009

Zé d'Almeida, Vidé Blogue Pitecos.

Esquinas

E. Hopper. Nightawks, 1942

Alto rendimento

Confesso que não sei o que significa exactamente "alto rendimento", mas posso testemunhar que o Presidente da Câmara era hoje um homem feliz por Peniche ter sido contemplado com um dos seis Centros de Alto Rendimento para o Surf que vão ser criados em Portugal.
Trata-se sobretudo, creio, de um reconhecimento do lugar que Peniche desempenha nesta modalidade que atrai - afirmou-se na sessão a que assisti esta tarde - cerca de cento e cinquenta mil praticantes em Portugal.
Deverão estes Centros apoiar o surf profissional e competitivo. Disse-se que esse nível de prática da modalidade tem efeitos virtuosos no ciclo económico. Não duvido, com a condição, não negligenciável, de não condicionar a prática não profissional.
Gostaria que a procura das ondas de Peniche por portugueses e não portugueses continuasse a ser tão livre como até aqui e, sobretudo, garantida por praias livres de carros, de aldeamentos, de motos 4, de poluição e de outras intervenções duras, com linhas dunares a salvo dos apetites predadores.

Esquinas

Holiday, Dante Meets Beatrice, 1883

Esquinas

Aqui estará uma imagem de uma esquina qualquer de Buenos Aires. Não me dirão qual é. Pode ser a de Charhas e Maipú, a da minha própria casa; imagino-a repleta dos meus fantasmas, inextricavelmente entrando e saindo e cruzando-se. Pode ser a que fica defronte, onde há agora um grande edifício com rampas e havia um bairro pobre com vasinhos de flores nas varandas, e antes disso uma casa que ignoro, e no tempo de Rosas, uma cabana, com a vereda de mosaicos e a rua térrea. Pode ser a desse jardim que foi o teu paraíso. Pode ser a de uma pastelaria do Once, onde Macedonio Fernández, tão receoso da morte, nos explicava que morrer é o mais banal que nos pode acontecer. Pode ser a daquela biblioteca de Almafro Sul, onde me foi revelado Léon Bloy. Pode ser uma esquina sem casas, das poucas que restam. Pode ser a daquela casa onde María Kodama e eu trouxemos uma cesta de vime com uma leve gata abissínia que se chamava Ódin e que atravessara o Oceano. Pode ser a de uma árvore que nunca saberá que é uma árvore e que nos oferece a sua sombra. Pode ser uma das muitas que Leandro Alem viu pela última vez, antes da carruagem se fechar e do balázio que lhe foi suficiente. Pode ser a dessa livraria onde descobri, ao longo do tempo, duas histórias da filosofia chinesa. Podser a de Esmeralda e Lavalle, onde morreu Estanislao do Campo. Pode ser cada uma das que formam o espalhado tabuleiro. Pode ser quase todas e é assim o nunca visto arquétipo.

Jorge Luis Borges, Obras Completas. Vol III. Lisboa, Teorema, 1998. p. 454.

sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Esquinas

Robert Doisneau, Waiting, 1957

quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Nossa Senhora do Pópulo


Igreja do Colégio ou Igreja de São João Evangelista no Funchal. Igreja construída pela Companhia de Jesus, que D. Sebastião autorizou em 1569 se instalasse naquela cidade.
Uma das capelas, do lado da Epístola é consagrada a Nossa Senhora do Pópulo. Imagem do início do século XVII.

quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Fotografia em pensamento

Conversa com a Dr.ª Helena Araújo, Directora do MuseuPhotographia "Vicentes" do Funchal. Como em relação ao tema - a fotografia -, o meu fascínio por ele só tem equivalente na minha ignorância, fiz perguntas e atrevi-me a apresentar sugestões, confiante na tolerância dos que muito sabem para com os que muito desconhecem.
Contei-lhe que uma aluna, natural da Calheta, um dia me dissera que os pais tinham vindo pela primeira vez ao Funchal, depois de casarem, para tirar uma fotografia. "Sim - retorquiu-me a Dr.ª Helena Araújo - vinham por terra e por barco. Habitualmente uns meses depois do casamento. Chegavam ao Funchal, vestiam outra vez cada um as suas vestes de noivo, e iam ao atelier fotográfico fazer fotografias. É comum existir uma diferença de 5 a 6 meses entre a data do casamento e a data da fotografia dos noivos".
Mais à frente refere um outro impulso que marca a relação dos madeirenses com a fotografia, a "fotografia em pensamento". Como a expressão é absolutamente extraordinária e me era desconhecida, aqui fica o que dela entendi. Com os maridos imigrados, as mulheres dirigem-se ao fotógrafo com os seus filhos. A fotografia dará conta ao ausente de como a sua família se encontra. Se a mulher se veste de negro e os filhos de branco, isso significa que o marido faleceu. A fotografia em pensamento é a testemunha dessa perda.

O voto dos senhores bispos

Os senhores bispos admitem aconselhar o voto nos partidos da direita. Porque entendem que o Partido Socialista não faz um "bom governo"? Porque consideram que os partidos da Direita têm soluções melhores?
Não, os senhores bispos escolheram uma questão moral para fazer opções de Governo. Os senhores bispos admitem entrar em campanha eleitoral. Se ganharem, responsabilizam-se por políticas? Se perderam, que lição tiram?
Não seria preferível avaliarem os riscos antes de um passo destes?

terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

O Orquestrofone da Quinta das Cruzes

No Funchal, visita "obrigatória" ao Museu das Cruzes. Oportunidade para reencontrar e trocar impressões com a Dr.ª Teresa Pais, actual Directora, que foi minha aluna na Faculdade de Letras de Lisboa. O museu está em obras, prevendo-se a sua reabertura em Junho. O local é magnífico e o jardim merece visita por si próprio. Desta vez, com um motivo excepcional de atracção, o Orquestrofone, instalado junto da cafetaria.
Em meu benefício, o instrumento foi ligado e pude ouvir numa gravação da época, porventura de data anterior a 1910. Fiz uma gravação de amador que ficará aqui disponível quando tiver condições para a instalar no Youtube. Mas no site do Museu é possível obter esta informação e ouvir a Marselhesa.

O Orquestrofone é um instrumento de reprodução musical mecânico, demonstrativo da relação estreita entre a história da ciência, da arte e do entretenimento. 
Estes instrumentos, que estiveram desde sempre vocacionados para a exibição pública em amplos espaços (cinemas, feiras, salões de baile), tiveram uma manufactura largamente divulgada na Europa a partir de finais do século XIX / início do século XX.
A complexidade mecânica do Orquestrofone, bem como a sua potência sonora, encobertas por uma enorme estrutura em madeira, com fachada sumptuosamente esculpida e policromada, justificaram o seu uso como instrumento de exploração comercial da música, animando bailes e festas ao ritmo de polkas, valsas, entre outras músicas, constituindo por si só, a atracção principal.
[...] O Orquestrofone, que integra as colecções do Museu Quinta das Cruzes, é constituído por um corpo principal em madeira, profusamente decorado, e possui na face posterior um sistema mecânico de leitura de cartões perfurados, accionável por manivela com adaptação a motor eléctrico, que emite o sinal para os diversos instrumentos, permitindo a reprodução da música.
Esta é hoje uma peça de grande interesse patrimonial, não só por constituir uma raridade no mundo dos instrumentos musicais mecânicos, como também por documentar uma época exuberante, presente nas suas decorações neo-barrocas, nos seus bonecos mecânicos (autómatos) e nas suas músicas arrancadas aos salões e teatros.
Este complexo instrumento, comprado pelo 1º visconde de Cacongo, João José Rodrigues Leitão (1843-1925), na Exposição Universal de Paris, em 1900, encontrava-se na Quinta de Nossa Senhora Mãe dos Homens, quando foi adquirido em 1978 pelo Governo Regional, por iniciativa da direcção do Museu, ao herdeiro da família, senhor Ricardo Nascimento Jardim. Com esta aquisição foram também entregues diversos cartões de músicas que incluem valsas, polkas, rapsódias, marchas militares, hinos, bem como outras músicas clássicas e populares, perfazendo um total de 167 exemplares, destacando-se algumas pelo seu carácter inédito, como a versão d’ “A Portuguesa de Alfredo Keil de 1904, diversos Hymnos dedicados aos reis D. Carlos e D. Amélia, bem como os Hymnos Português Nacional, Ilha da Madeira (1905).


Para ouvir a Marselhesa tocada pelo Orquestrofone, vá por esta página do museu.

segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Sartre em Lisboa

Leitura no avião Lisboa-Funchal, hoje: Simone de Beauvoir, A Cerimónia do Adeus. Lisboa, Cotovia, 2008 [edição francesa 1981]. 

De 23 de Março a 16 de Abril [de 1975], estivemos [a autora, 1908-1986, Jean Paul Sartre, 1905-1980] em Portugal onde tinha tido lugar um ano antes, a 25 de Abril de 74, aquilo a que se chamou a “revolução dos cravos”. Depois de cinquenta anos de fascismo, alguns oficiais - descontentes, entre outras coisas, com a guerra em Angola - tinham-se revoltado. Mas não se tratava apenas de um golpe de Estado militar: era o povo inteiro que tinha despertado e que apoiava o M. F. A. (Movimento das Forças Armadas). Sartre tinha vontade de conhecer mais de perto aquele acontecimento singular. À partida, inquietava-se: "Será que consigo mesmo ver Lisboa?" Mas não tardou a esquecer esta preocupação, Ficámos hospedados num hotel central, muito barulhento, perto de um grande mercado ao ar livre. Estava bom tempo, mas soprava um vento violento e não podíamos demorar-nos nas grandes varandas contíguas aos nossos quartos; andávamos pelas ruas, por onde deambulava uma multidão alegre, sentávamo-nos nas esplanadas do Rossio. Para Sartre, tratava~se principalmente de uma viagem de informação. Acompanhado por Pierre Victor e às vezes por Serge July, teve numerosas conversas com membros do M.F.A. Almoçou no "quartel vermelho", de que pouco tempo antes uns oficiais putschistas tinham tentado apoderar-se. Fez uma conferência perante estudantes que o desiludiram pela falta de reacção às perguntas que fez. Ficou com a impressão de que se sujeitavam à revolução mais do que a faziam. Em contrapartida, teve muito bons contactos com os operários de uma fábrica em auto-gestão, próximo do Porto. Participou numa reunião de escritores que se interrogavam, de uma forma embaraçada, sobre o papel que doravante teriam de desempenhar.
De regresso, Sartre fez na rádio uma boa emissão sobre Portugal e o Libération publicou, entre 22 e 26 de Abril, uma série de entrevistas redigidas por July com Sartre, Gavi e comigo: 1ª, "Revolução e militares"; 2ª, "As mulheres e os estudantes"; 3ª, "O povo e a auto-gestão"; 4ª, "As contradições"; 5ª, "Os três poderes". Sartre concluía exprimindo o seu apoio crítico ao M. F. A.

Sobre Jean Paul Sartre ver este site da Biblioteca Nacional Francesa.

O Primeiro Ministro nas sondagens recentes

Como o caso Lewinsky mostrou nos Estados Unidos, até a revelação de que um líder político faltou à verdade pode ser insuficiente para mudar as opiniões dos eleitores, quando vinga entre eles a percepção de que as notícias resultaram de objectivos igualmente censuráveis.

Pedro Magalhães "O caso Freeport e as sondagens". Publico, 9 de Fevereiro de 2009.

Recordar e desejar

Temos um passado que devemos recordar. Temos um futuro que podemos desejar.
Mas só recordamos e desejamos no presente: aqui e agora, no tempo que nos é dado para viver.

Carlos Fuentes, Discurso proferido na cerimónia em que recebeu o Prémio D. Quixote de la Mancha, em Toledo, a 13 de Outubro de 2008.

domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Donos domésticos

Parece o cacimbo africano, mas não é. É um capacete de humidade que abafa e que o paisano não estranha, tanta é a chuvinha que nos vai gelando os ossos. Mas acresce-lhe uma espécie de fuligem, daquela que nos devorava a garganta, quando, no Verão, a Malveira ardia. Não tenho explicação, mas incomoda. Só que, como tantos outros percalços da existência, não tem remédio ao nosso alcance. 
Sondei a 
Sara, o canídeo iluminado que devotou prazenteiramente a oportunidade, que a vida é, a desfrutar a sucessão dos seus momentos. Há entre nós uma afinidade filosófica. Mas foi em vão. Ansiosa e obsessiva, ela grudou-se ao fluir do tempo, à espera da eventual entrada de uma prima de sangue na Casa Branca. (Digo "prima" porque um senhor vizinho que, prudentemente, transferiu para a criação canina os rigores do sangue azul, asseverou que a Sara é a versão andaluza da eleita. Por mim, está bem. Porque, com Cervantes e Unamuno e outras prendas, a tanto monta o meu iberismo). Levantou os olhos por entre a franja preta e despejou em mim o antiquíssimo enfado dos animais domésticos perante donos que, para eles, o são também. Decidi, por isso, resignar-me. Porque é esse o exercício de que mais sólida tarimba guarda esta velha linhagem de rei, capitão, soldado, ladrão, menina bonita e os demais, em que me incluo. E deixei-a nos seus milenares langores mediterrânicos.


Nuno Brederode Santos na crónica semanal de hoje, no DN.

Sampaio revisto por Saramago


Gostei de o ver. É o mesmo homem, sóbrio, inteligente, sensível. Há vinte anos estivemos juntos na campanha para as eleições autárquicas que então se iam celebrar e que ganhámos, ele para o exercício inovador e competente da sua função de presidente da Câmara Municipal de Lisboa, eu para o desempenho pouco afortunado do cargo de presidente de uma Assembleia Municipal de má memória. Calcorreámos corajosamente ruas, praças e mercados de Lisboa pedindo votos, mesmo quando, creio que por pudor, não o fazíamos explicitamente. Como já ficou dito, ganhámos, mas quem ganhou realmente foi a cidade de Lisboa que pôde rever-se com orgulho no seu máximo representante na Câmara. Tivemo-lo depois como presidente da República durante dois mandatos em que deixou a marca de uma personalidade nascida para o diálogo civilizado, para a procura livre de consensos, sem nunca esquecer que a política, ou é serviço da comunidade, serviço leal e coerente, ou acaba por tornar-se em mero instrumento de interesses pessoais e partidários nem sempre limpos. Ficámos de ver-nos com tempo e vagar, promessa mútua que espero ver cabalmente cumprida no futuro, apesar da intensa actividade no projecto da Aliança de Civilizações, de que é Alto Representante. Com Jorge Sampaio não há palavras falsas, podemos fiar-nos no que diz porque é o retrato do que pensa.

A caminho de Peniche (Agosto de 1919)

Continuação da narrativa da visita de Raul Brandão às Berlengas em Agosto de 1919:

Vou primeiro ao Baleal, que é a mais linda praia da terra portuguesa. Não passa duma grande rocha desligada da costa e fundeada a trezentos metros - mas esta rocha é uma ossada, e talvez o último vestígio da Atlântida, saindo do mar azul a escorrer azul, e presa à terra por um fio de areia que nas marés mais vivas chega a desaparecer. Deste ancoradouro, com uma baía ao sul formado pelo Carvoeiro, e com outro côncavo ao norte entre a rocha e a costa, vê-se o esplêndido panorama da terra, do mar e do céu. Vive-se extasiado e embebido em azul, no meio do mar azul, no meio do mar verde, no meio do mar dramático. Voga-se em toda a luz do céu e em toda a cor do mar. Dum lado, o areal em circo e aquele grande morro estendido pelo mar dentro; do outro, e até onde a vista alcança, todos os tons da costa, desde as labaredas das terras sulfurosas e as chapadas negras dos rochedos, com riscos de vermelho, até ao biombo que vai passando e desmaiando, primeiro roxo com aldeias ao sol e fundos verdes de pinheiros, depois transparente até atingir o indistinto e o diáfano numa última palpitação de claridade nebulosa. E tudo isto muda de cor e se transforma segundo as horas que passam. Há momentos em que é dourado, de manhã ou à hora do poente. Há outros em que me sinto abismado em azul e atascado em azul. O movimento das ondas esmorece e acalma. À volta só luz e cor. A costa some-se. Uma apoteose de ouro e verde lá no fundo. Do horizonte à praia corre cintila a esplêndida estrada do sol. E agora - reparem! Reparem! - o mar é verde e o céu perdeu a cor...
A acção das águas é incessante nestas velhas pedras carcomidas, onde meia dúzia de casas de pescadores se agarraram como lapas. A ressaca infiltra-se nos buracos, gasta-as e desgasta-as, até as reduzir a cárie, a penedos com baba, a ossadas pulverulentas, à petrificação da própria vaga quase a  desabar. Há-as cor-de-giz, cortadas em fatias, dispostas umas sobre as outras, há-as amareladas como caveiras e formando praiazinhas enconchadas, de areia muito fina, onde até o mar se esquece e espraia adormecido.
Não vi árvores. Nasceu aqui uma figueira por acaso, que não podendo crescer, alargou a roda e tem um metro de altura. A única vegetação é a das ervas, a quem um pouco de terra basta para viver. São inúteis. São vidas humildes que a tudo se sujeitam e chegam a cumprir o seu destino à custa de sofrimento. Do meio da ilhota sai uma fraga mais saliente com a capelinha de Santo Estêvão no alto e a praia de batéis no fundo. Lá para diante outra rocha destacada, a ilha das Pombas, todo o dia salpicada de espuma.
Tudo isto perdido no azul ou assaltado pelas ondas coléricas. Os vagalhões avançam e despedaçam-se de encontro às pedras, que vomitam espuma e ficam a babar-se pelos buracos puídos. E outra - lá vem outra - incessantemente para o assalto! Algumas enormes varrem o extremo norte do Baleal numa cólera tremenda. As noites são profundas, admiráveis e cintilantes de pedraria - grandes como Deus.
Pesca quase não há. A pesca mudou-se para Peniche. O último batel chamava-se Santo Estêvão, tinha duas velas e levava redes de pescada e redes de lagosta. De cada rede era distribuído um quinhão para o homem, outro para o patrão e um quarto para a companha. Mas vêm aqui pescadores de fora. Um dia encontrei com alvoroço uma saveira encalhada no areal.
- Vocês donde são?
- Somos da Amurtosa.
Estes homens morenos e ágeis, da Murtosa, da Torreira e da Afurada, tenho-os encontrado com as suas saveiras em toda a costa norte até Lisboa. Encontrei-os em Peniche, na Caparica e em Sesimbra, onde lhes chamam ilhos, nos esbeltos barcos escuros, pescando a lagosta com os roscos; encontrei-os na Foz do Douro apanhando o mexoalho; ao arrasto do sável nos rios, e fisgando a solha ou a lampreia, que se apanha à noite com um candeio e um garfo atado num pau. A sua casa é o barco. Metem-se em todas as anfractuosidades da costa. Quando pressentem o temporal vão acolher-se a Peniche ou à Figueira. Andam sempre em famílias de três e quatro barcos. Acampam na areia, e com o mastro atravessado, uma panela e a lenha apanhada no mar e que desfazem em cavacos com a machadinha, traste indispensável em cada barco, acendem a fogueira como ciganos. Mas se o mar está manso e a noite é de luar, não vêm à terra. Largam a fateixa ou a poita e acendem o lume a bordo para a saborosa caldeirada. Sempre que via brilhar os fogaréus invejava profundamente aquela vida simples diante de Deus e do mar. Ao fim da pesca, que dura meses, e quando se anuncia o Inverno, recolhem à pressa as suas terras como aves emigradoras. Se o vento é de feição, em doze horas põem-se em Aveiro. Se é contrário, quando a vaga cresce e as gaivotas se metem grasnando pela terra dentro, arribam aqui e ali e levam dias a chegar a casa, onde passam com a mulheres e os filhos a época das rudes invernias.

Raúl Brandão, Os Pescadores. Cit. p. 123-125.

sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Origens do património fundiário termal

O extenso património associado ao Hospital Termal caldense tem duas origens fundamentais: o legado da Rainha D. Leonor e os legados e anexações ocorridos na primeira metade do século XIX.
Com o objectivo de assegurar a independência económica da instituição - sem fins lucrativos -, a fundadora dotou-a não só de um conjunto de propriedades urbanas e rurais localizadas nas imediações do Hospital, como também do direito de receber as rendas de imóveis de que a Rainha, enquanto tal, podia dispor. E assim, ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, as despesas do Hospital Termal eram suportadas pelas receitas obtidas com a gestão dos bens próprios e com as rendas que lhe estavam consignadas desde o tempo da Rainha.
A revolução liberal mudou radicalmente este regime de financiamento. Em 1820, os foros sofreram uma redução para metade, por decisão das Cortes, o que implicou uma diminuição do produto das rendas. Em 1834, foi abolida a Casa das Rainhas e em geral os bens senhoriais, pelo que o Hospital perdeu o direito de receber rendas. O seu orçamento passou a integrar o Orçamento Geral do Estado.
Conservou porém os bens imóveis de que era proprietário directo e viu até aumentado esse património. Em primeiro lugar, graças ao legado que lhe foi atribuído por testamento de Isidoro Inácio de Carvalho e Aguiar, que deixou ao Hospital das Caldas o rendimento de marinhas em Alhos Vedros. A administração dessa herança permitiu ao Hospital, por exemplo, a aquisição do Pinhal do Fiel Amigo onde foi edificado, em 1893, o Hospital de Santo Isidoro (onde hoje está instalada a Escola Superior de Artes e Design).
A legislação liberal também extinguiu os bens das confrarias, instituições que no Antigo regime eram detentoras, por exemplo, de Igrejas e Capelas e de um conjunto de rendas afectas à manutenção de actividades de culto. Nos primeiros anos da década de 50 do século XIX, a Junta Distrital de Leiria determinou que os bens das extintas confrarias caldenses fossem integrados no legado de Isidoro Inácio de Aguiar e, consequentemente, colocados sob a alçada do Hospital Termal. É por isso que, a partir de 1856, o Hospital das Caldas se torna proprietário, além da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, das Capelas do Espírito Santo e de S. Sebastião.
Foi este vasto conjunto de bens fundiários que os administradores da segunda metade do século XIX se propuseram urbanizar. Criaram uma zona arborizada de protecção dos aquíferos, a Mata, com o seu Passeio. Traçaram o Passeio da Copa, em frente à porta principal das Termas, o qual daria origem ao actual Parque. Ergueram o já referido Hospital de Santo Isidoro, em substituição das edificações que se encontravam no lado norte do Largo da Copa. Construiram o Paço da Rainha (hoje Museu), as Lavandarias, a residência do Administrador (hoje edifício administrativo do Centro Hospitalar), os Pavilhões do Parque, o Clube de Recreio. Finalmente, procederam a intervenções em espaços públicos, arruamentos (como a rua da Volta dos Sinos, que foi alargada) ou praças (como a praça ou largo da Copa).

O desprezo pelo património

A falta de cultura histórica é um traço dominante da relação dos portugueses com o seu património. Foi José Mattoso quem, com mais veemência, chamou a atenção para esse facto, lembrando que, por exemplo, textos fundamentais da história da língua e literatura nacionais só estão disponíveis porque outros países os preservaram.
Cuidamos mal do nosso património. Somos capazes de manifestar entusiasmo perante um centro histórico cuidado, sobretudo se o descobrirmos fora de portas, mas convivemos bem no dia a dia com o descuido e a agressão impune ao da cidade que habitamos. Temos sempre desculpa para ignorar as exigências do legado patrimonial que recebemos: ou, em nome da modernidade, argumentamos que é tempo de fazer o novo (como se novo e antigo fossem incompatíveis), ou invocamos o lado supostamente mais dispendioso da recuperação face à obra nova (sem que tenhamos efectivamente equacionado todos os prós e contras), ou nos desculpamos com a falta de conhecimento técnico ou de materiais adequados à reabilitação (sem cuidarmos sequer de procurar ajuda em tal matéria).
Perdemos o sentido e o gosto da reutilização. Julgamos que é mais económico abandonar o velho e usado e procurar nova localização para o equipamento moderno. Para trás deixamos edifícios e equipamentos construídos com esforço e saber, testemunhos dignos de uma sociedade que não se compadecia com o desperdício. O deslumbramento do novo faz tábua rasa da continuidade cultural e reduz a história a um depósito de antiguidades.

sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Futuro para a Bordalo Pinheiro

Quero acreditar em boas notícias para a Bordalo Pinheiro. Não ignoro que a situação da empresa é crítica do ponto de vista financeiro e certamente frágil do ponto de vista económico. Que uma nova aposta pode implicar mudanças no modelo de gestão e até nas apostas estratégicas, na qualificação do produto, no sistema de distribuição e na racionalização da produção.
Mas se se confirmarem as boas notícias, só posso exprimir o meu regozijo. E a minha confiança na competência e visão do Grupo empresarial que se propõe tomar conta dos destinos da Bordalo Pinheiro. Conheço-o bem, como conheço o seu líder e os seus principais responsáveis. Se as negociações em curso tiverem um bom desfecho, uma nova oportunidade se abre para este produto - a faiança decorativa de inspiração "palissy" - que singularizou as Caldas e a cerâmica portuguesa.

O factor humano

Da cerimónia de ontem, na Câmara Municipal de Lisboa, emotiva como poucas, pela significado do acto e sobretudo pela qualidade humana das pessoas nele implicadas, aqui fica um breve testemunho.
A atribuição da medalha de Honra da Cidade a Jorge Sampaio foi decidida em 2007, por proposta do então Presidente, Prof. Eng.º Carmona Rodrigues. Não tendo sido possível efectuar a entrega do galardão no mandato deste Presidente da Câmara, veio a transitar para o mandato seguinte, do Presidente António Costa.
Como ele próprio recordou, há no percurso político e profissional de António Costa nexos importantes com Jorge Sampaio. Foi no escritório deste que fez o seu estágio de advocacia. Fez parte da direcção política do Partido Socialista, em 1989, quando o seu patrono dele foi Secretário-Geral. Recordo-me que António Costa foi o director de campanha de Sampaio nas primeiras eleições presidenciais a que concorreu, em 1995.
Na entrega da medalha quis participar José Saramago, que fez a campanha autárquica lisboeta de 1989, lado a lado com Jorge Sampaio, como candidato à presidência da Assembleia Municipal. Eram os rostos da coligação de esquerda, pela primeira vez formada na democracia portuguesa, e que conquistaria a maioria da Câmara Lisboa. Saramago viria a dar o lugar a José Amaral, outra figura cimeira da política portuguesa das últimas décadas.
Na sua intervenção de ontem, o escritor, conhecido pelas suas frequentes intervenções críticas, por vezes até ácidas, quis homenagear a personalidade humanista de Sampaio, a quem classificou como um homem bom (e não um "bom homem"), uma  qualidade singular, sobretudo em pessoas que ascendem a altos cargos na política. "Há quem aponte o carisma como facto distintivo dos políticos, disse Saramago. Eu não gosto do carisma. Eu prefiro o factor humano. É o factor humano que fez e faz de Jorge Sampaio, da Câmara de Lisboa à Presidência da República e ao actual Alto Comissariado para a Aliança das Civilizações, um político raro".
Registe-se que foi durante o mandato presidencial de Jorge Sampaio que a Academia Sueca atribuiu a José Saramago o Prémio Nobel da Literatura, em cerimónia a que o Presidente assistiu. Em que, em consequência deste facto, Sampaio impôs ao seu antigo companheiro de funções autárquicas, a mais alta condecoração portuguesa, normalmente reservada a Chefes de Estado.
Vi na Salão Nobre dos Paços do Concelho não só antigos colaboradores e companheiros de Jorge Sampaio, como muitos antigos quadros da Câmara Municipal de Lisboa, a quem aliás o homenageado dedicou também a medalha que recebeu. Como se pode ver na pequena exposição organizada na Câmara que lembra a viragem dos anos da primeira metade da década de 90, esse foi um tempo de lançamento de novos projectos em áreas cruciais para a modernização da cidade: desde o planeamento à regeneração urbana, desde a habitação à recuperação da relação com o rio e o porto, desde a animação cultural à participação cívica. Os serviços municipais foram então chamados a novos desafios e a novas responsabilidades. Havia em muitos dos seus actores ontem presentes um orgulho justificado na obra realizada.

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Governar as cidades

António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, na cerimónia realizada esta manhã, de atribuição da Medalha de Honra da Cidade a Jorge Sampaio, que há 20 anos foi eleito Presidente da Câmara de Lisboa:


Como Presidente da Câmara de Lisboa, [Jorge Sampaio] pensou e deu estímulo a que se pensasse a cidade com visão estratégica e invulgar sentido prospectivo. Compreendeu, desde o primeiro dia, que “fazer cidade” é “fazer futuro”. E percebeu que as cidades de hoje não se governam com improvisações casuísticas, medidas avulsas, impulsos propagandísticos, simplificações grosseiras, voluntarismos inconsequentes. Compreendeu que uma grande cidade é um grande desafio, feito de perguntas que se sucedem e de respostas que se renovam. Percebeu que uma cidade exige um pensamento sobre ela e uma estratégia para o pôr em prática. Compreendeu que governar uma cidade é ter dela uma concepção contemporânea, humanista, criativa, solidária e cosmopolita, aliando memória e audácia. E soube que precisamos de cultivar um “patriotismo de cidade”, inscrevendo Lisboa no mapa das grandes urbes e tornando-a um lugar onde as pessoas tenham orgulho em viver e conviver.

Tudo isso compreendeu e praticou Jorge Sampaio. Por isso, os anos em que presidiu aos destinos desta Câmara permanecem como uma referência e constituem um exemplo ético de seriedade intelectual e política. 

Sabemos que Jorge Sampaio mostra muito orgulho em ter sido autarca e guarda, confessadamente, do tempo em que o foi gratas recordações. Costuma dizer que este é o poder mais próximo das pessoas e dos seus problemas, expectativas e anseios. Aquele em que estamos mais confrontados com o concreto e o urgente. Aquele em que mais criativamente temos de saber conciliar o planeamento com a intervenção, o imediato com o médio e o longo prazo, o projecto com a execução. Aquele em que um conceito vivo e responsável de cidadania mais directa e inovadoramente se pode cumprir e desenvolver.


A intervenção de António Costa pode ser lida na íntegra aqui.

quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Audiência do Presidente


Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República entrega ao Presidente Programa comemorativo.

Nota: passaram, desde a posse, 7 meses que para mim foram 7 anos. Só a gravata permanece.

Homenagem a Ferreira da Silva

Em todos os rostos dos que quiseram e puderam participar na homenagem a Ferreira da Silva no passado dia 1 de Fevereiro o que vi reflectido foi contentamento e orgulho. Atrevo-me a interpretar: contentamento pela celebração de 80 anos de uma vida de criação que decorreu sob os nossos olhos (sejam eles de que geração forem); orgulho pelo reconhecimento que é votado a uma obra que honra o património artístico contemporâneo.
Correspondendo à iniciativa daquela cerimónia, que se pretendeu fosse muito sóbria, as pessoas que encheram literalmente o Auditório do CCC trouxeram o seu testemunho: o trabalho de Ferreira da Silva deixou marcas na nossa história, na nossa cidade, no nosso quotidiano. Não seríamos os mesmos sem a extraordinária capacidade de Ferreira da Silva nos interpelar, nos surpreender, nos convidar a sonhar.
O filme de Jorge Silva Melo sobre A Gravura permitiu-nos, creio, perceber onde é que estão as origens do autor. Foi possível acompanhar as condições em que uma geração de artistas plásticos confluiu para a gravura e a cerâmica, na segunda metade dos anos 50. Vimos e escutámos os outros protagonistas, identificamos os seus projectos e, sobretudo, apercebemo-nos do que foi essa mutua aprendizagem em que Ferreira da Silva esteve envolvido, deu e recebeu. Foi certamente um pouco desse ambiente onde se cruzaram e interligaram saberes com distintos pontos de partida e uma mesma vontade de ir mais longe que Ferreira da Silva também encontrou no Bombarral, no círculo de Jorge de Almeida Monteiro, e ajudou a construir na Secla de Hansi Stael, Pinto Ribeiro e Ponte e Sousa.
A presença de Eduardo Nery e de Querubim Lapa, dois nomes maiores da cerâmica artística portuguesa, sublinhou, espero, o lugar que a Ferreira da Silva cabe, no mesmo patamar daqueles seus antigos companheiros da Gravura.
Mas porque uma cerimónia de homenagem efectuada na presença do homenageado, sendo ocasião de ajuste de contas com a história e de festa não deve passar ao lado duma intenção de valorizar legados, há que registar dois outros contributos deste acto. O primeiro: os compromissos anunciados pela Câmara para com o património museológico cerâmico das Caldas e nas Caldas. O segundo: a peça (uma peça de síntese) de Ferreira da Silva que a partir de agora o CCC exibe no seu foyer.

terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Homenagem a Ferreira da Silva (mais fotos)

Ferreira da Silva e Querubim Lapa
Peça de Ferreira da Silva inaugurada no foyer do Centro Cultural
Participantes da homenagem
[Fotografias de Margarida Araújo]





segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Homenagem a Ferreira da Silva (fotos)

Ferreira da Silva
Querubim Lapa
Eduardo Nery
JS-E. Nery-F. da Silva
E. Nery-F. da Silva, Pres. Câmara Fernando Costa
[Fotografias de Margarida Araújo]






domingo, 1 de Fevereiro de 2009

A 1 de Novembro de 1908

Nas eleições municipais efectuadas a 1 de Novembro de 1908, o Partido Republicano elegeu pela primeira vez vereadores e em alguns concelhos obteve a vitória. Esteve nesse caso o Montijo que nessa época dava pelo nome de Aldeia Galega do Ribatejo. O concelho tinha então 1742 eleitores inscritos, dos quais 24 votaram monárquico e 760 republicano.
Cem anos depois, a Câmara Municipal, presidida pela Dr.ª Amélia Antunes, comemorou o centenário republicano com uma exposição no Museu Municipal e uma cerimónia de entrega de medalhas comemorativas aos descendentes da primeira vereação republicana. A exposição, de que se encarregou o Departamento Socio-Cultural dirigido pela Dr.ª Rosa Bela Azevedo esteve aberta ao público desde finais de Outubro até 31 de Janeiro, dia em que se realizou a cerimónia de homenagem. Participei nesta última, a convite da Câmara, e em nome da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República.
Visitei a exposição que apresenta algumas peças originais reunidas localmente. Acompanha-a um cuidado catálogo, no qual participaram com estudos a minha colega do Instituto de História Contemporânea Dr.ª Maria Alice Samara e o Dr. Joaquim Baldrico da Câmara do Montijo.
A cerimónia de ontem foi uma bela jornada cívica por onde perpassou, à mistura com alguma emoção, a preocupação em honrar a memória das gerações anteriores e em construir um espaço público mais sólido e mais vivo e projectado para o futuro.